sexta-feira, 28 de maio de 2010

Análise do Documentário: Corações e Mentes.



Análise do Documentário: Corações e Mentes.
Corações e Mentes, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 1974.
Introdução:
Em seu melhor documentário segundo a crítica, Peter Davis mostra o cotidiano da Guerra Do Vietnã (1964 -1975) de uma forma que até então, nunca antes havia sido apresentada nos E.U.A e no mundo. Produzido ainda com a guerra em andamento, o filme mostra o conflito sob ângulos poucos conhecidos na época.
Corações e Mentes aborda a situação da guerra de uma maneira diferente, dos documentários tradicionais. Ele não apresenta um narrador, uma ordem cronológica, um ponto de partida e um ponto de chegada.
Peter Davis recolhe 200 horas filmadas entre os anos de 1972 e 1973 , o material coletado vai desde o conflito em si até festas da burguesia vietnamita passando por depoimentos de ambos os lados e imagens de execuções, finalizando em 112 minutos de filme que são lançados ao espectador para que este reflita sobre vários temas da sociedade americana, enquanto vai montando essa espécie de “quebra cabeça” já que não há apoio de uma ordem cronológica nem de um narrador.
O documentário apresenta duas grandes narrativas: a dos americanos (envolvidos diretamente na guerra ou não) e dos vietnamitas (envolvidos diretamente ou não) que se complementam e se negam a todo momento, mostrando particularidades de ambos os lados.
Depoimentos americanos:
Peter Davis recolheu além de relatos do front, imagens cotidianas da sociedade americana.
Uma cena que chama bastante a atenção é a lavagem cerebral feita na população em geral, mas especialmente nas crianças, como por exemplo, nas visitas do soldado que foi feito refém das forças Vietcongs e retorna como herói nacional, visitando escolas e igrejas pregando ideias de defesa da “liberdade” americana a todo custo, chamando os desertores de antipatrióticos e profetizando que as crianças irão para a guerra.
A alienação é generalizada em grande parte da sociedade americana e pasmem até mesmo nas frentes de combate os soldados não sabem o real motivo da guerra. Muitos apenas repetem clichês como, para salvar o mundo do comunismo, levar democracia ao Vietnã enquanto outros nem mesmo isso, respondem com um breve “não sei”.
A xenofobia e o preconceito estão presentes na maioria dos depoimentos americanos, como se isso desse alguma legitimidade a guerra. O total desconhecimento do povo vietnamita é mostrado várias vezes, como quando uma criança chora perante o tumulo de seu pai por quase cinco minutos (ou seja, em um filme de 112 minutos que teve de ser editado de 200 horas, é muito tempo) e logo em seguida em um depoimento um homem norte americano típico vomita tal frase: “o povo oriental devido a sua filosofia não tem apego a vida, muitos morrem e ninguém liga, eles não são como nós”.
O documentário deixa bem claro como a sociedade americana é uma sociedade voltada para a arte da guerra, seus jogos e esportes, todos tem esse parâmetro de luta, não contestação e sofrimento, seus filmes e programas de TV realçam essa ideia para que ela ganhe legitimidade
Ao final Peter Davis mostra toda a manipulação da memória coletiva através dos desfiles, paradas e festas cívicas anuais que sempre são enquadradas no contexto da época que se está vivendo, para que todo ato ganhe legitimação histórica. O documentário capta bem o que acontece com quem se opõem a essa máquina, pois em meio a uma dessas paradas anuais um grupo de veteranos iniciam um protesto, que tem como palavra de ordem “Veteranos querem emprego não desfiles” esse grupo é hostilizado pela população que assiste ao desfile e logo em seguida são atacados pela polícia local para que cessem o protesto. Com isso fica no ar, que tipo de democracia os Estados Unidos queriam levar ao Vietnã.
Depoimentos Vietnamitas:
Os vietnamitas principalmente a população mais pobre, apoiavam inteiramente a resistência, desde o fabricante de caixões até o camponês todos concordavam que era necessário resistir ao inimigo que invadiu o país. O filme mostrou uma espécie de nacionalismo vietnamita que estava apoiado em Ho Chi Minh, nos vietcongs e no comunismo.
Em uma entrevista, um cidadão declara “os EUA nos empurram para o comunismo, pois quem luta contra eles é comunista, então se lutamos por nossa liberdade contra os EUA nos tornamos comunistas”.
Alguns americanos não entendem como um povo usando chinelos de dedo, e passando fome conseguem resistir ferozmente à invasão. Já um vietnamita explica “enquanto houver arroz nós lutaremos e caso acabe nós plantaremos e continuaremos a lutar”.
Nem toda a população é contra a guerra, a burguesia existente no Vietnã é flagrada no filme em uma festa comendo e bebendo, esbanjando e rindo enquanto há batalhas e mortes a poucos quilômetros dali. Um empresário é entrevistado e diz não ser contra a guerra, pois os Estados Unidos vão trazer o desenvolvimento para o país.
Considerações finais:
Peter Davis Conseguiu nessa autocritica abrir os olhos dos EUA e do mundo para a questão do Vietnã. E com esse emaranhado de depoimentos, imagens e discursos americanos e vietnamitas o diretor consegue fazer um bem-sucedido manifesto anti-guerra, mostrando ao povo americano as consequências de sua política imperialista ao redor do mundo.
Ele registra a guerra sob sua ótica, que é a da negação da necessidade desta guerra. Pois, uma vez que um membro do governo norte americano, simpatizante da guerra, tivesse recebido a missão de registrar o conflito, o faria de forma a exaltar os feitos e façanhas de seus soldados e a necessidade urgente de levar democracia e liberdade para esse país de selvagens. O documentário de Peter Davis serve de luz para entender a uma era imperialista que ainda não acabou.
Obs: Todos os diálogos aqui apresentados, não são fiéis ao filme, pois, como só tive a oportunidade de assisti-lo uma vez não consegui aprofundar-me mais e reproduzi-los fielmente. Baseei-me apenas em anotações e na memória.



quarta-feira, 12 de maio de 2010

Introdução à História Contemporânea de Geoffrey Barraclough.



Nesse capitulo BARRACLOUGH trata de como ascensão das massas influenciou os rumos da política Europeia no séc. XIX.
V: DO INDIVIDUALISMO À DEMOCRACIA DAS MASSAS.
Organização Política na Sociedade Tecnológica.
(P.119) Em 1930, o filósofo espanhol Ortega y Gasset proclamou que “o fato mais importante” da época contemporânea foi a ascensão das massas. Basta olharmos em redor para ver quão radicalmente o advento da sociedade das massas alterou não só o contexto de nossa vida individual como também o sistema político em que nossa sociedade está organizada.  (...)
Os anos entre 1870 e 1914, situam-se com divisor entre o final de um período histórico e o início de outro. Quando foram introduzidos novos processos industriais requerendo a concentração das populações nas cidades.
(P.120) Condições semelhantes já tinham existido, mas tinham sido casos excepcionais. Agora, o excepcional tornava-se normal, gerando imediatamente uma série de problemas fundamentais que a existente aparelhagem de governo era incapaz de enfrentar. As questões de sanidade e saúde pública tornaram-se subitamente urgentes. O resultado foi o nascimento de uma nova filosofia de intervenção do Estado.
1.
(P.121) O estado deixará de ser encarado como um vigia noturno, uma vez que lhe eram facultadas funções positivas e ativas, em lugar de simplesmente supervisoras e repressivas; uma vez que o âmbito político era ampliado até abranger, em princípio, pelo menos, toda a existência humana, era apenas uma questão de tempo para que o mecanismo por meio do qual os governos eram eleitos, controlados e investidos de poder, se adaptasse ás novas circunstâncias.
Até 1859, a representação baseara-se na “propriedade e inteligência”. Por volta da segunda reforma, o eleitorado não excedia muito mais de um terço do Reino Unido como um todo. Isso significava não só que cinco em cada seis adultos masculinos, a maior parte trabalhadora, estavam privados de voto, mas que também era fácil - particularmente antes da introdução do voto secreto, em 1872 – manipular as eleições pelo jogo de influências, suborno e intimidação.
(P.122) Segundo a lei eleitoral em vigor na França de 1831 e 1848, o eleitor limitava-se a perto de duzentos mil cidadãos, numa população de 30 milhões. A democracia liberal do século XIX se edificara na base de um direito de voto limitado ao detentor de propriedade; à semelhança da democracia ateniense, na qual “a classe dominante de cidadãos repartia os direitos e os cargos do controle político. A situação foi radicalmente alterada pela expansão do direito de voto.
(P.123) O efeito dessas mudanças, foi tornar impraticável o velho sistema de democracia parlamentar que se desenvolvera na Europa, a partir do fim da Idade Média e princípio dos tempos modernos, e inaugurar uma série de inovações estruturais que resultam no desalojamento do sistema representativo liberal e individualista, substituindo-o por uma nova forma de democracia: o estado dos partidos.
Certos números de fatores combinaram-se para ocultar a natureza revolucionária dessa transformação. O primeiro desses fatores foi terminológico. Na Inglaterra o termo partido remonta ao século XVII, em aparente continuidade, foi bastante para criar a ilusão de que nada mais ocorrera senão um processo de adaptação. Em segundo lugar, os correntes conflitos ideológicos obscureceram a questão. Nos Estados Unidos e na Europa ocidental, as pessoas estavam de tal modo preocupadas em demonstrar que a prática democrática era a única salvaguarda idônea para os direitos e liberdades individuais, em comparação com o sistema de partido único que prevalecia nos países fascistas e comunistas.
(P.124) A vulgar distinção popular entre democracia liberal e totalitária de modo algum é satisfatória, visto que não leva em conta o fato de que o comunismo, o fascismo e o moderado sistema multipartidário ocidental são todos respostas diferentes ao colapso da democracia liberal do século XIX, sob a pressão da sociedade das massas.
2.
(P.125) Os partidos políticos nasceram quando a massa da população começou a exercer um papel ativo na vida política. Não devemos permitir-nos sermos confundidos com nomenclaturas. É certo que encontramos a palavra partido antes dessa época. Mas na realidade, os partidos políticos, tal como os conhecemos, tem menos de um século de idade.
(P.126) Com efeito depois de terminar a Segunda Guerra Mundial é que os partidos políticos foram explicitamente admitidos no mecanismo constitucional. Essa legalização ou constitucionalização do sistema partidário foi o reconhecimento formal de uma situação que há muito já existia.
(P.127) Sabemos que o impacto dos partidos organizados transformou não somente a infraestrutura, mas também a substância do sistema parlamentar e que a função por eles desempenhada não é certamente menor do que a dos órgãos mais antigos do governo, como a monarquia ou o ministério.
Essa mudança resultou do aparecimento de uma massa eleitoral que não podia ser alcançada pelas antigas formas de organização política. Ocorreu essa mudança, muito naturalmente, em diferentes países, com um andamento variável, e seu progresso foi afetado, em cada país, pelas condições preexistentes. Os Estados Unidos, cujas condições eram mais fluídas e o progresso menos obstruído por privilégios e precedentes, seguiam a frente da Europa, o sufrágio universal para homens brancos já estava generalizado por volta de 1825.
(P.129) A transição do circunspecto liberalismo, com seu respeito pelo nascimento, propriedade e influência, para a democracia das massas, que era um fato consumado nos Estados Unidos, em 1850, constituía um processo muito mais hesitante na margem europeia do Atlântico. Aqui só o impacto da industrialização no período depois de 1870, foi bastante forte para vencer a resistência conservadora e consumar mudanças.
Na Alemanha, como no resto da Europa, foi a esquerda socialista que liderou a marcha no desenvolvimento de novas formas de organização política; com mais de um milhão de filiados e um orçamento superior a dois milhões de marcos por ano, o Partido Social-Democrático alemão constituía em 1914, algo não muito distante de um Estado dentro de outro Estado. Os partidos burgueses nada mais podiam fazer do que segui-lo.
(P.130) Como escreveu Maurice Deslandres num amplamente divulgado artigo de 1910. “trabalhada pelo novo fermento democrático, a massa da nação está-se erguendo e estabelecendo associações, ligas, uniões, federações, comitês, grupos de militantes, cujo propósito é ativar as instituições políticas e colocá-las, tanto quanto possível, sob sua tutela”.
(P.131) Ainda que a formação de eficientes organizações partidárias, capazes de disciplinarem os eleitores e controlarem os deputados, estivesse longe de completa, a mudança fora considerável.
3.
(P.132) Quais eram as mudanças necessárias para satisfazer às condições da democracia das massas e como concretiza-las? Na Europa continental, o processo de renovação foi levado a cabo muito menos energicamente do que na Inglaterra, mas também aí a necessidade de apoiar os partidos pela ampliação de suas bases populares não podia deixar de ser reconhecida. Na Alemanha, os conservadores, que até então haviam dispensado o apoio popular, visto poderem contar com a proteção do governo converteram-se, a partir de 1893, em órgão da Liga Agrária, procurando uma base entre os artesãos. Enquanto o Centro Católico se consolidava como partido das massas, através da habilidosa manipulação de uma variedade de associações católicas.
(P.133) Somente com a formação do SFIO é que na França algo foi criado com as características de um partido das massas. Contudo era um partido das massas sem as massas, em 1914 registrava apenas noventa mil filiados. O primeiro partido realmente das massas, na França, com uma filiação total orçada em um milhão de membros, foi o Partido Comunista, seu êxito fenomenal devia-se mais ao “admirável sistema” de organização do que aos atrativos da doutrina marxista.
Quatro fatores principais distinguiam as novas formas de organização política. O primeiro foi uma ampla base popular, ou uma filiação em massa. O segundo, sua permanência ou continuidade. O terceiro, a imposição da disciplina partidária. O quarto a organização de baixo para cima, em vez de cima para baixo, O controle da orientação política pelos membros do partido e seus delegados, em vez de um pequeno grupo influente no governo.
Todos os quatro pontos assinalaram uma ruptura radical com o passado. As organizações anteriores tinham sido quase todas intermitentes; existiram para propagar um determinado objetivo e sumiram logo que o mesmo foi alcançado; ou eram convocadas para lutar em determinada eleição, dispersando-se no dia seguinte à votação.
(P.134) Nenhuma dessas organizações extraconstitucionais alimentava desígnios de se constituir em corpo permanente. Com a ampliação e redistribuição do direito de voto, tudo isso mudou, e o principal instrumento de mudança foi o dispositivo conhecido pelo nome de caucos.
O caucos era um mecanismo partidário de caráter permanente, construído de células em cada bairro e cada rua, cujos delegados formavam o comitê executivo e geral para toda a cidade, ao passo que as organizações das várias cidades estavam ligadas entre si pela Federação Liberal Nacional. Assim, foi criada uma máquina que existindo e funcionando continuamente estava habilitada a exercer pressão e mesmo controlar membros do parlamento e por vezes, ditar até uma orientação política.
(P.135) Em princípio, o aparecimento do caucos marcou uma ruptura radical com o passado. Na prática não foi bem assim. A lentidão e relutância com que os partidos burgueses se adaptaram às condições da democracia das massas foram notáveis.
Embora a tendência para o desenvolvimento de partidos das massas fosse grande, em toda parte, só depois do aparecimento em cena dos partidos socialistas é que os últimos obstáculos foram superados. No fundo, só o temor de revolução e o progresso do comunismo convenceram as classes médias de que suas formas tradicionais de organização eram inadequadas.
(P.136) Em comparação com os partidos burgueses, a força dos partidos socialistas assentava em sua firme infraestrutura social. A indústria e urbanização em grande escala provocaram alterações profundas na sociedade capitalista, e o surto dos partidos socialistas assinalou a adaptação da política a esse fato.
Em primeiro lugar, o aparecimento da fábrica ou usina, com milhares de operários em suas folhas de pagamento, alterou a estrutura do próprio capitalismo; provocou a substituição do capitalismo industrial, pelo capitalismo financeiro. Em segundo lugar, significou que os trabalhadores, como classe tendiam cada vez mais a ficarem reduzidos à posição de “mão-de-obra” anônima, desconhecidos dos patrões a quem jamais viam. Isso passou a representar um elemento básico na sociedade. Ao invés dos partidos burgueses, que professavam ser partidos “nacionais”, representando todas as classes, os partidos socialistas não tinham hesitado em aceitar essa divisão básica; eram partidos de uma classe, representando um interesse homogêneo de classe.
(P.138) Os partidos socialistas eram organizações unitárias, constituídas segundo o princípio do “centralismo democrático” e ramificadas em “seções” que funcionavam como subdivisões do conjunto, esse tipo de organização propiciava maior coesão e maior dose de disciplina. Enquanto nos partidos burgueses era norma que o partido fosse dominado pelo grupo parlamentar, todos os partidos socialistas adotaram medidas de garantir a subordinação dos deputados ao partido.
4.
Devemos sublinhar que a revolução nas práticas políticas, é ainda em sua maior parte, uma revolução incompleta.
(P.139) Teoricamente, por exemplo, os partidos políticos socialistas são controlados por um congresso do partido, democraticamente eleito, assim constituído para impedir o domínio dos líderes parlamentares; mas é fato notório que, na pratica, o desenvolvimento de rígidas oligarquias partidárias reduziu o controle dos filiados comuns a proporções nominais. Neste aspecto as diferenças estruturais entre partidos proletários e burgueses são menores do que, à primeira vista, podem parecer.
Esses fatos, e outros semelhantes, tornaram fácil manter uma confortável doutrina de continuidade constitucional, apesar das aparências, as mudanças que ocorreram durante o século passado não afetaram e estrutura fundamental do governo.
(P.141) Se tentarmos resumir as mudanças, tal como hoje as vemos, sem referência ao fundo histórico os pontos históricos que prevalecerão serão os seguintes. Primeiro a posição do deputado foi alterada em muitos aspectos fundamentais. Embora se preste ainda a atenção meramente superficial à teoria de que o deputado é o representante da nação inteira.
Na realidade os membros do parlamento estão sujeitos a uma disciplina que os transforma em simples maquinas de votar, acionados pelos diretórios do partido. Não podem votar contra o partido a que pertencem, não podem absterem-se, não tem o direito de formular um juízo independente, em questões de substância, e sabem que, se não obedecerem às diretrizes do partido, não poderão esperar a reeleição. A única qualidade indispensável é a lealdade partidária.
(P.142) O resultado das mudanças operadas nos últimos cinquenta anos foi uma firme e, em alguns casos, desastrosa decadência no prestígio e reputação do parlamento. Com o desaparecimento do sólido núcleo de membros independentes – o papel do parlamento como um freio do executivo tornara-se mera ficção.
Se, anteriormente, as principais questões políticas dependiam do equilíbrio e o destino dos governos podia ser resolvido pelo resultado que para aquelas se obtivesse, atualmente os discursos parlamentares já não tem como finalidade abalar o critério dos membros, mas são dirigidos ao eleitor com o objetivo de impressioná-lo e corroborar sua fé no partido a que pertence.
(P.143) O resultado foi a transferência de ênfase do parlamento para os partidos e para o governo. Assim, as eleições parlamentares tendem a aproximar-se, cada vez mais, de atos plebicitários, os eleitores não votam a favor a favor ou contra um candidato, mas a favor ou contra um programa partidário e os líderes escolhidos pelo partido para executarem o mandato.
As eleições estão se convertendo em concursos de popularidade e só os muito ingênuos ficariam surpresos se as maquinas partidárias procurarem promover seus líderes escolhidos como “personalidades da TV”. Os partidos existem para conquistar o poder: seria uma imbecilidade esperar deles excessivos escrúpulos quanto aos meios de o conseguirem.
5.
(P.144) Tudo o que procurei fazer foi indicar a natureza das mudanças que ocorreram em consequência do impacto da democracia nas massas. O próprio fato de que foram mudanças generalizadas, não confinadas a qualquer país determinado, indica que faziam parte integrante de um processo histórico geral.
O governo partidário, como todos os outros sistemas políticos, está exposto a abusos. O remédio, porém, não consiste em denegrir o sistema e tentar retroceder, mas em melhorar seu funcionamento, sobretudo, por medidas que reforcem o controle democrático e neutralizem a tendência, inerente a todos os partidos para desenvolverem um rígido e pesado mecanismo oligárquico.
(P.145) Se, em todo o mundo contemporâneo encontramos partidos altamente organizados, ocupando um lugar central na estrutura política, é porque, nas condições de sociedade de massas que surgiram desde o fim do século XIX, o partido constituiu o único meio acessível de articular as imensas massas populares para fins políticos.
Fonte: 
BARRACLOUGH; G:“INTRODUÇÃO A HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA”. ed Zahar Editores, Rio de janeiro. Pág 119-145.




segunda-feira, 10 de maio de 2010

Filosofia da História de Hegel. Cap 3.



(P.53) Capitulo 3: O Curso da História Universal.

   O principio do desenvolvimento.

As mudanças que ocorrem na história são caracterizadas como um progresso para o melhor, o mais perfeito. As transformações na natureza, mostram apenas um ciclo que sempre se repete, nada de novo é produzido acarretando certa monotonia. O novo surge apenas nas transformações que acontecem no campo espiritual. No caso do homem uma capacidade real de transformação e para melhor. Um impulso de perfectibilidade.
(...)
A perfectibilidade é quase tão indefinível quanto à transformação em geral. Ela não tem alcance nem objetivo, e não há medida para se avaliar a transformação. O principio da evolução envolve, uma determinação interior uma pressuposição efetiva que luta para se realizar. Essa determinação formal encontra a sua existência real no espírito, que tem a história universal como o seu palco, propriedade e campo de sua realização. A evolução aplica-se também aos objetos naturais orgânicos.
(P.54O indivíduo orgânico produz a si mesmo: Faz-se o que ele é em si, igualmente o espírito é somente o que ele se faz, e ele se faz o que é em si. No espírito, a passagem de sua determinação para sua realização faz-se mediante a consciência e a vontade, as quais são desde logo mergulhadas em sua vida natural imediata.
A evolução, calma produção da natureza, é para o espírito uma luta árdua e infinita contra ele próprio. O que o espírito quer é realizar o seu conceito, mas ele oculta de si mesmo, e nessa alienação de si próprio sente-se orgulhoso e satisfeito. A evolução não é uma mera eclosão inocente e sem conflitos, como na vida orgânica, mas trabalho duro e ingrato contra si mesmo, para a produção de um fim: que é o espírito e o conceito de liberdade. Ele é o principio diretor da evolução, o que lhe dá sentido e importância.
Na história universal, grandes períodos transcorrem sem que a evolução parece ter ocorrido. Nesses períodos, toda a imensa cultura acumulada foi destruída. Depois de tais períodos, infelizmente, tem sido preciso recomeçar do nada para tentar recuperar uma das regiões dessa cultura já há muito tempo conquistada.
(P.55A história universal representa , pois, a marcha gradual da evolução do principio cujo conteúdo é a consciência da liberdade.
           O primeiro estágio consiste na imersão do espírito no natural. O segundo é o seu avanço em direção à consciência de sua liberdade. Entretanto, essa primeira separação é imperfeita, já que provem imediatamente do estado natural. O terceiro estágio consiste na elevação dessa liberdade, á sua pura universalidade, à consciência de si ao sentimento de sai própria espiritualidade.
           Esses estágios são os princípios fundamentais do processo geral. Apesar de cada um deles apresentar interiormente um processo de formação e uma dialética de evolução. O espírito começa como embrião de sua possibilidade infinita (mas apenas possibilidades) que ele só alcança em sua concretização na realidade. Assim, na existência real, o progresso surge como um avanço do imperfeito para o mais perfeito. Da mesma forma, a possibilidade, aponta para aquilo que está destinado a se tornar real.
           O início da história.
(P.56Imagina-se que a natureza tenha assumido no início, perante os olhos humanos, o papel de um claro espelho da criação divina, revelando-lhes, de forma nítida e transparente, a verdade de Deus. O fato de que, nesse primeiro estado o homem já possuía em si um conhecimento indeterminado e extenso de verdades religiosas imediatamente reveladas por Deus chegou a ser aludido, mas foi deixado de certa forma obscuro.
Considera-se, sob o aspecto histórico, que todas as religiões surgiram desse estado, assim como acredita-se que essas religiões profanaram e ocultaram a primeira verdade como fruto do equívoco e da perversão.
(P.57Essa situação do conhecimento divino, como se tal situação se encontrasse na origem da história universal, ou as religiões dos povos tivessem partido da mesma situação e progredido na cultura por meio de aperfeiçoamentos e deterioração, tudo isso são pressupostos que nem possuem uma fundamentação histórica nem podem consegui-la.
É da alçada da meditação filosófica, tornar a história no ponto em que a racionalidade começa a entrar na existência mundial. A liberdade consiste somente no saber e querer objetos universais, substanciais, como o direito e a lei, produzindo uma realidade que lhes é conforme: o Estado.
Houve povos que persistiram sem Estado numa longa vida antes de terem atingido a própria determinação, e antes mesmo de terem realizado importante cultura em certas direções. Aliás, essa “pré-história”está fora do nosso propósito.
(P.58Ainda nos dias correntes, conhecemos populações que mal constituem uma sociedade, quanto mais um Estado. Em nossa língua, história une o lado objetivo e o subjetivo, significando tanto fato quanto narrativa. Recordações de família e tradições patriarcais encontram interesse apenas no seio da família e da tribo. O Estado produz um conteúdo que além de ser apropriado à prosa da história ainda contribui para reproduzi-la.
Uma sociedade que se fixa e se eleva à condição de Estado exige no lugar de ordens subjetivas, imperativos, leis e decisões abrangentes e universalmente válidas, produzindo tanto uma exposição quanto um interesse em compreender ações e acontecimentos em si determinados e duráveis em seus resultados. Com vistas ao fim perene de formar e constituir o Estado, é induzida a conferir o perdurar da recordação.
(P.59As épocas que transcorreram para os povos antes da história escrita, representadas em séculos e milênios, podem ter sido cheias de revoluções, migrações e transformações muito violentas, mas não tem história objetiva. Porque não apresentam narrativa histórica.
Não é que os documentos dessas épocas tenham desaparecido acidentalmente, mas nós não os temos porque eles não puderam existir. Apenas no Estado, com a consciência das leis, ocorreram as ações claras, e com elas a claridade de sua conscientização, conferindo a capacidade e mostrando a necessidade de registros duradouros.
(P.60A expansão dos povos, suas separações, misturas e migrações permanecem ocultas. Não são atos de uma vontade tomando consciência de si mesma, da liberdade assumindo outra exterioridade ou uma realidade própria. Não pertencendo a esse elemento verdadeiro, aqueles povos que não tiveram história, malgrado o seu desenvolvimento idiomático.
O tipo do curso da história e do desenvolvimento histórico.
  À forma do inicio da história universal e à pré-história que dela deve ser excluída, devemos abordar com mais atenção o caráter de seu curso. A história universal representa a evolução da consciência do espírito no tocante à sua liberdade e a realização efetiva de tal consciência.
Na história, tal princípio á a determinação do espírito, um espírito particular daquele povo. É nela eu se expressam concretamente todas as facetas da consciência e do querer, da realidade total desse povo. É na história que uma nação encontra o cunho comum de sua religião, de sua contribuição política, de sua moralidade objetiva, de seu sistema jurídico, de seus costumes e também de sua ciência, arte e habilidade técnica.
(P.61No processo de entendimento cientifico, é importante que o essencial seja preparado e destacado do denominado não-essencial. Porém, para tornar possível tal procedimento, é preciso saber o que é essencial, e isso equivale na história universal, a ter consciência da liberdade e das determinações dessa consciência em sua evolução.
(P.62Exemplos de bravura, coragem perseverante, traços de generosidade, de abnegação e de sacrifício, são encontradas tantos nas nações selvagens quantos nas mais pusilânimes[1], são tomadas como provas, a fim de mostrar que nas mesmas se encontra tanto ou mais moralidade objetiva e subjetiva do que nos estados cristãos mais civilizados.
           Nesse sentido, levantou-se a dúvida se a humanidade teria melhorado com o progresso da história e da cultura; se sua moralidade teria aumentado- moralidade considerada sob o ponto de vista subjetivo, de acordo com aquilo que o agente vê como certo ou errado, como o bem ou o mal, não repousando sobre aquilo que, em si e por si mesmo, ou em particular, é visto como a religião realmente válida, justa e boa ou com crime e o mal.
(P.63Podemos poupar-nos de estabelecer os verdadeiros princípios da moralidade em oposição à falsa moral, porque a história universal move-se em uma esfera superior àquelas em que a moralidade subjetiva tem sua sede própria.
(P.64É também obra do pensamento, reduzir um objeto de conteúdo concreto e rico a uma representação simples, designando-o com uma palavra, bem como decompô-lo, isolar na representação as determinações que ai estão contidas, dando-lhes nomes particulares. A cultura formal deve progredir prosperar e alcançar um alto nível de florescimento em cada fase das formações do espírito, porquanto essas fases desenvolvem-se para a forma de um Estado, chegando, sobre essa base de civilização, a uma reflexão intelectual e a formas gerais de pensamento.
            Na vida dentro do Estado, reside a necessidade de uma estrutura formal, e com isso do surgimento das ciências, poesia, arte e também da filosofia. Se, no desenvolvimento do Estado, são necessários períodos que forcem o espírito das naturezas superiores a buscar refugio do presente em regiões ideais, para nelas encontrar a reconciliação consigo mesmo que ele não pode mais desfrutar na desequilibrada realidade, o pensamento é compelido a se tornar razão pensante e tentar, com seus próprios elementos, fazer a restauração dos seus princípios a partir das ruínas às quais haviam sido reduzidos.
(P.65Certamente todos os povos da história universal tem uma arte poética, artes plásticas, ciência e também uma filosofia. Entre eles não apenas o estilo e as tendências que diferem, mas, principalmente, o conteúdo.
           Mesmo que as epopéias hindus possam ser comparadas as homéricas, resta mesmo assim, a infinita diferença de conteúdo; uma diferença de importância substancial, envolvendo o interesse da razão, que se ocupa diretamente da consciência do conceito de liberdade e de sua expressão nos indivíduos. Não existe uma forma clássica, mas também um conteúdo clássico. Forma e conteúdo estão tão intimamente ligados em uma obra artística que a primeira só pode ser clássica quando a ultima também for.
           Existem esferas que continuam sendo as mesmas em meio a toda a diversidade do conteúdo substancial de uma cultura. A diversidade (já mencionada) diz respeito à razão pensante e à liberdade, que é a autoconsciência da anterior e tem a mesma e única raiz do pensamento.
           Como animal não pensa, só o homem e apenas este possui a liberdade, e unicamente por ser pensante. A consciência da liberdade implica que o individuo se compreende como pessoa em sua individualidade e, ao mesmo tempo, como universal , capaz de abstrair-se de todas as particularidades, compreendendo-se como infinito em si. As esferas de pensamento que se encontram foras dos limites dessa consciência partilham a mesma diversidade substancial .
(P.66A moral chinesa obteve, desde que os europeus tomaram ciência dela e dos escritos de Confúcio, o maior louvor e reconhecimento de sua excelência, por parte daqueles que conhecem a fundo a moral cristã. O mesmo tipo de reconhecimento deu-se em relação ao modo sublime pelo qual a religião e a poesia hindus e, especialmente, sua filosofia que exprimem e exigem o afastamento e o sacrifício do sensível. Ainda assim, é preciso que se diga que essas duas nações carecem totalmente da consciência essencial do conceito de liberdade.
           Para os chineses, suas leis morais são como leis naturais, mandamentos exteriores, positivos, direitos e deveres impostos pela força, obrigações ou regras de cortesia recíproca. Falta-lhe a liberdade pela qual as determinações essenciais da razão realmente se tornam uma atitude moral. A moral é a para eles, um assunto de Estado, e é administrada pelos funcionários do governo e pelos tribunais. Também na doutrina hindu da a abdicação dos sentidos, dos desejos e interesses terrenos, o objetivo não é uma liberdade afirmativa e moral, e sim a aniquilação da consciência, anulação da existência espiritual e até mesmo física.
           É o espírito concreto de um povo que se manifesta em todas as ações e tendências de tal povo, ocupado em efetuar a sua própria realização, em satisfazer o seu ideal e em se tornar alto-consciente, porque o objetivo do espírito é a produção de si mesmo. Assim como a sua maior realização é o autoconhecimento, alcançando não somente a intuição, mas também o pensamento, o claro conceito de si próprio. Mas tal cumprimento é, ao mesmo tempo, a sua dissolução e surgimento de outro espírito, de outro povo histórico-mundial e de outra espoca na história universal.
(P.67Podemos dizer que a história universal é a exteriorização do espírito no tempo, enquanto a natureza é o desenvolvimento da idéia no espaço. Se lançarmos um olhar na história universal, vemos um imenso quadro de mudanças e de ações, de formações infinitamente variadas de povos, de Estados e indivíduos, numa sucessão ininterrupta.
           A idéia geral, a categoria que imediatamente surge nessa mudança inquieta de indivíduos e povos, que existem durante um tempo e depois desaparecem, é a transformação em geral. A visão das ruínas de uma magnificência anterior leva-nos a aprender essa idéia de mudança pelo seu aspecto negativo. Ora, a conseqüência mais imediata da mudança é que ela, ao mesmo tempo em que implica dissolução, traz também consigo o surgimento de uma vida nova, e que se a morte sai da vida, também a vida sai da morte.
(P.68A essência do espírito é a atividade; por intermédio dela, ele concretiza a suas potencialidades, tornam-se o seu próprios efeito, o seu próprio trabalho e, consequentemente, o próprio objeto. Assim o espírito de um povo é um espírito determinado, que se ergue em meio a um mundo objetivo. Ele existe e persiste na forma do culto religioso, nos costumes, em sua constituição e em suas leis políticas.
           Um povo é moral, virtuoso e forte quando esta empenhado na realização de seus grandes objetivos e quando protege a sua obra da violência externa durante o trabalho de dar existência objetiva a seus propósitos.
(P.69A nação vive com o individuo que passa da maturidade para a velhice, rejubilando-se por ser exatamente aquilo que queria e foi capaz de alcançar. Este hábito é o que provoca a morte natural. O habito é um agir sem opção, ao qual só resta uma duração formal, e no qual a plenitude e o fervor que originalmente caracterizam as metas de vida do povo já não existem é uma existência meramente exterior e sensível, que não mais se lança entusiasticamente em direção a seu objetivo. Assim perecem indivíduos, assim parecem povos de morte natural.
           E, embora estes últimos possam ainda sobreviver, é uma existência sem inteligência ou vitalidade, sem necessidade de suas instituições, exatamente porque essas necessidade já foi satisfeita. Para que um interesse universal verdadeiro  pudesse surgir, o espírito de um povo teria que almejar algo novo, um outro principio um novo espírito nacional. Esse novo principio penetra no espírito de um povo que chegou a seu pleno desenvolvimento e realização.
(P.70O ponto mais alto do desenvolvimento de um povo é alcançar conceitos de sua vida e condição, dar as suas leis ao se direito e a sua moralidade objetiva a forma de ciência, pois nessa unidade reside a mais intrínseca unidade a qual o espírito pode chegar por si e com si.
(P.71O tempo é, no sensível, a negação. O pensamento é também a negação, mas a forma mais intima e infinita dela na qual todo ser se desfaz. O resultado desse processo é que o espírito, ao se tornar objetivo e fazer dessa sua existência um objeto do pensamento por um lado, destrói a forma determinada de sua existência, por outro, compreende o elemento universal que essa existência envolve, dando assim uma nova forma ao seu principio inerente.
           Na apreensão e compreensão da história é primordial conhecer e refletir sobre essa transição. Um individuo atravessa como uma unidade, diversos níveis culturais e permanece o mesmo individuo. O mesmo acontece com o povo. Nesse ponto é que se encontra a fundamental necessidade de transição.
           Essa é a alma, a consideração essencial da compreensão filosófica da história. O espírito é, essencialmente, resultado de uma atividade: Atividade de transcender a existência imediata, simples e refletida. Podemos compara-lo as sementes, de onde surge a planta, mas que não são, também, resultados de toda a vida da planta.
(P.72Assim também acontece na vida dos indivíduos e dos povos. A vida de um povo amadurece um certo fruto. Porém, esse fruto não retorna ao seio do povo que o produziu e cultivou, pelo contrário ele se tornará para eles uma bebida venenosa. O povo não consegue parar de consumir essa bebida, pois é infinitamente sedento dela. Só que saborear tal bebida é a sua própria aniquilação, embora seja, ao mesmo tempo, o surgir de um novo principio.
           Quando lidamos com a idéia do espírito e consideramos tudo na história universal como a sua manifestação, ao percorrer do passado só lidamos com o presente. A filosofia, ao ocupar-se do verdadeiro, só tem a ver com o eternamente presente. Para a filosofia, tudo que pertence ao passado é resgatado, pois a idéia é sempre presente e o espírito é imortal; para ela não há passado nem futuro, apenas um agora essencial. Isso dá a entender, necessariamente que a forma presente do espírito abrange em si todos os estágios anteriores. Os estágios que o espírito parece ter já ultrapassado, ele ainda possui em sua profundidade atual.

Fonte: HEGEL; G.W.F: “Filosofia da História” editora UNB, 2ª edição, Brasília 1999. pág 53-72

[1] Fraqueza de animo , Medíocre, Covarde


sábado, 8 de maio de 2010

Sobre as cotas e porque sou a favor.

Não sei se foi porque estudei a vida inteira em escola pública mas meu pensamento é: Universidade Pública para Alunos da Escola Pública.

Primeiramente o que são cotas? As cotas são uma porcentagem de vagas, no ensino superior seja ele público ou privado, destinadas a grupos sociais menos favorecidos da sociedade, como pobres, negros, indígenas e deficientes físicos. Essa é uma medida polêmica e induz a diversos debates sobre sua constitucionalidade, uma vez que no Art. 5º da Constituição está escrito: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...”  (...)

Entretanto acredito que essas ações afirmativas ajudam a criar um país mais justo para grupos sociais historicamente excluídos. Ao pesquisar na internet sobre as discussões que ocorrem sobre esse assunto encontrei uma fotografia que me chamou muito a atenção, uma jovem protestando em Brasília contra as cotas, leva um cartaz onde está escrito “Quer uma vaga? Passe no vestibular!”. Os jovens atendidos por esse sistema não entram na universidade por favor de alguém, ele entram porque também passaram no vestibular, eles não caem de pára-quedas dentro das salas de aulas, eles estudaram também e diferentemente de qualquer burguesinho que pode pagar um cursinho por muito tempo essa será possivelmente a única chance de muitos. Acredito no poder que as cotas têm, principalmente para os mais pobres.

Dizem que as cotas servem apenas para “tampar o sol com a peneira”, e isso é verdade. Feliz o dia em que as cotas não sejam mais necessárias, que a educação pública seja de uma qualidade excepcional e o aluno sinta-se mal em tentar entrar na universidade pelo sistema de cotas, pois ele saberá que não é menos preparado que ninguém.

Mas enquanto isso não acontece o que faremos? Deixaremos como está, onde quem tem dinheiro e pagou os cursinhos mais caros faz universidade pública e quem é pobre e estudou em escola pública a vida inteira tem que pagar todo mês a mensalidade de uma universidade particular? Isso a meu ver é muito pior do que o ingresso de uma pequena percentagem de alunos de escolas públicas, negros, índios e deficientes no ensino superior.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Por que somos favoráveis à regulamentação da profissão de historiador?

Publicação do a-mail recibido pelo site: ANPUH - Associação Nacional de História
http://www.anpuh.org/
Apesar da profissão históriador ser tão antiga que tem até musa (Clio), no Brasil essa profissão ainda não é regulamentada.

No último dia 10 de março foi aprovado em caráter terminativo na Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal o projeto de lei n. 368/2009 de autoria do Senador Paulo Paim que regulamenta a profissão de historiador. O projeto segue agora para a Câmara Federal onde deverá ser analisado.  (...)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

MAYER; J. Arno:“A FORÇA DA TRADIÇÃO” a persistência do antigo regime (1848-1914)”. ed Companhia das letras. Pág 13-25.


Segundo Arno J. Mayer a Primeira e a Segunda nada mais são do que apenas um único conflito. A Guerra dos Trinta anos.
 Sendo uns dos principais motivos dessa guerra,a resistência que o antigo regime empreendeu para perpetuar-se no pensamento coletivo europeu.

 INTRODUÇÃO.
(P.13)  Este livro parte da premissa de que a Guerra Mundial de 1938-1945 estava umbilicalmente ligada a Grande Guerra de 1914-1918, e que esses dois conflitos constituíram nada menos que a Guerra dos Trinta Anos da crise geral do século XX.    (...)
(P.14) A segunda premissa é a de que a Grande Guerra de 1914, foi uma consequência da remobilização contemporânea dos anciens regimes (antigo regime) da Europa. Embora perdendo terreno para as forças do capitalismo industrial, as forças da antiga ordem ainda estavam suficientemente dispostas e poderosas para resistir e retardar o curso da história, se necessário recorrendo à violência. A Grande Guerra foi antes a expressão da decadência e queda da antiga ordem, lutando para prolongar sua vida, do explosivo crescimento do capitalismo industrial, resolvido a impor sua primazia.
A terceira e principal premissa deste livro é a de que a antiga ordem europeia foi totalmente pré-industrial e pré-burguesa. Durante muito tempo, os historiadores estiveram muito mais preocupados com essas forças inovadoras e a formação da nova sociedade do que com as forças de inércia e resistência que retardaram o declínio da antiga ordem.
Houve uma tendência marcante a negligenciar, subestimar e desvalorizar a resistência de velhas forças e ideias e o seu astucioso talento para assimilar, retardar, neutralizar e subjugar a modernização capitalista, incluindo a industrialização.
Para obter uma perspectiva mais equilibrada, os historiadores terão de considerar o grande drama da transformação progressiva, a implacável tragédia da permanência histórica e a interação dialética entre ambas.
(P.15)  Mas este livro se concentrará sobre a persistência da antiga ordem. O critério convencional ainda é o de que a Europa irrompeu de seu ancien regime e aproximou-se ou cruzou o limiar da modernidade muito antes de 1914.
            Para reconstruir a matriz histórica de onde se originaram a crise geral e a Guerra dos Trinta Anos do séc. XX, talvez seja necessário reconsiderar esse retrato de um mundo moderno com domínio pleno sobre uma antiga ordem recessiva e em esfacelamento. De qualquer forma, a tese deste livro é a de que os elementos “pré-modernos” não eram os remanescentes frágeis e decadentes de um passado quase desaparecido, mas a própria essência das sociedades civis e políticas situadas na Europa.
Significa sustentar que até 1914 as forças de inércia e resistência contiveram e refrearam essa nova sociedade dinâmica e expansiva no interior do antigo regime que dominavam o cenário histórico europeu.
(P.16)  Os velhos regimes da Europa eram sociedades civis e políticas com poderes, tradições, costumes e convenções diferentes. Precisamente por constituírem sistemas sociais, econômicos e culturais coerentes e integrais, dispunham de excepcional elasticidade. Mesmo na França, onde o antigo regime foi declarado legalmente morto entre 1789 e 1793, ele continuou a ressurgir de forma violenta e a sobreviver sob várias formas por mais de um século.
A sociedade civil da ordem antiga consistia, sobretudo, em uma economia camponesa e uma sociedade rural dominadas por nobrezas hereditárias e privilegiadas. Por toda a Europa, as nobrezas fundiárias ocupavam o primeiro plano em termos econômicos, sociais, culturais e políticos.
A sociedade política era o sustentáculo dessa sociedade agrária de ordens. Em todas as partes, ela assumiu a forma de sistemas absolutistas de autoridade com grau diversos de esclarecimento, encabeçados por monarcas hereditários.
(P.17)  A igreja era outro componente e pilar do antigo regime. Intimamente ligada tanto à coroa como à nobreza, estava, como elas, arraigada à terra, que constituía sua principal fonte de renda.
Todo regime estava impregnado pela herança do feudalismo que, se pressupunha, havia expirado com a Idade Média e fora afinal declarado “totalmente abolido” na França em agosto de 1789.
(P.18)  O duradouro sistema senhorial deixou uma profunda marca no antigo regime, ao perpetuar os nobres privilegiados que exaltavam e se arrogavam o espírito da lealdade pessoal, a prática das virtudes marciais e o dever do serviço público.
Como não se viram privados de sua posição quanto à propriedade da terra até 1914, os nobres mantiveram sua riqueza e status, embora os monarcas absolutos despojassem os nobres e senhores de sua autoridade política e militar soberana, assimilavam-nos em seu aparelho de Estado. A nobreza também se beneficiou de íntimas ligações com a igreja, cujos membros mais elevados provinham de altas estirpes, e cuja riqueza, como a dos nobres, continuava a ser esmagadoramente fundiária.
Assim, o feudalismo nitidamente dotou a antiga ordem europeia com muito mais que um mero revestimento de tradições, costumes e mentalidades de classe superior. Ele penetrou nos anciens régimens através de nobiliarquias posicionadas de modo a monopolizar postos econômicos, militares, burocráticos e culturais estratégicos.
(P.19)  Apesar desse crescimento do capitalismo no campo, a nobreza continuou a impregnar as altas esferas da sociedade, da cultura e da política com seu espírito feudal. A terra continuou a ser a principal forma de riqueza e renda das classes dirigentes e governantes até 1914.
Esse capitalismo empresarial gerou uma burguesia que, no máximo, era protonacional. Como classe, essa burguesia partilhava interesses econômicos, mas contava apenas com uma restrita coesão social e política.
(P.20)  Embora a economia inglesa fosse dominada pelo capitalismo manufatureiro e mercantil, a aristocracia continuava a ter supremacia. Isso porque a terra continuava a ser a principal fonte de riqueza e renda. A Inglaterra nunca se converteu numa “ordem burguesa” dirigida por uma burguesia “conquistadora” ou “triunfante”. Não houve nenhum movimento para remover a coroa, a corte real, a Câmara dos Lordes e a nobreza do serviço público.
Nas grandes potências continentais (com exceção da França) as elites agrárias estavam intactas, a agricultura se mantinha como uma atividade social fundamental, e as fronteiras inseguras justificavam a presunção militar de reis e nobres.
Apenas a França entre as grandes potências se converteu numa república em 1875. Mas manteve-se em sintonia com o restante do continente, com sua economia dominada pela agricultura e pela manufatura tradicional. Ironicamente, um excesso de democracia agrária e política impediu a industrialização francesa depois do início da segunda Revolução Industrial no final do século XIX.
(P.21)  Nem a Inglaterra nem a França haviam se tornado sociedades civis e políticas industrial-capitalista e burguesas em 1914. Todas eram igualmente anciens régimens fundados na predominância duradoura das elites agrárias, da agricultura, ou de ambas.
Como Joseph Schumpeter viu, os reis continuavam a ser por ordem divina, as “peças centrais” dos sistemas de autoridade da Europa. “O material humano da sociedade feudal” continuava a ocupar os cargos do Estado, comandar o exército e elaborar as políticas. O elemento feudal se mantinha como uma classe dirigente que se conduzia segundo moldes pré-capitalistas.
Ao controlar o que Schumpeter chamou de a “estrutura de aço” ou a “máquina política” do ancien régime, os elementos feudais ficaram em posição de estabelecer os termos para a implantação do capitalismo manufatureiro e industrial forçando a indústria a se ajustar dentro de estruturas sociais, classistas e ideológicas preexistentes. O capitalismo industrial distorceu e pressionou essas estruturas ao longo do processo, mas não ao ponto de ruptura ou desfiguração total. 
(P.22)  A velha classe governante tinha o apoio das nobrezas e dos interesses agrários, e consideravam a estrutura de aço do ancien régime como a armadura que protegeria suas posições privilegiadas, mas expostas. Além disso, os condutores do Estado obtiveram a lealdade da burguesia ao favorecer ou salvaguardar seus interesses econômicos.
Se os elementos feudais nas sociedades civil e política perpetuaram seu predomínio de modo tão eficiente, isso se deveu em grande parte ao fato de saberem como adaptar e renovar a si mesmos. Os recém-chegados ao serviço público tinham de passar por escolas de elite, ingerir o espírito corporativo e demonstrar fidelidade à antiga ordem como pré-requisitos para seu avanço.
Os magnatas fundiários não foram menos eficientes ao seu ajustarem aos tempos em transformação, absorveram e puseram em prática os princípios do capitalismo e da política de interesses sem, contudo, abdicar de sua concepção de mundo, postura e relações aristocrática.
Essa adaptação é tida como evidencia do desenobrecimento e desaristocratização da antiga ordem, ou aburguesamento inevitável, ainda que gradual, das classes dirigentes e governantes da Europa.
(P.23)  Mas há outro modo de encarar essa adaptação. As velhas elites primaram por ingerir, adaptar e assimilar, de maneira seletiva, novas ideias e práticas, sem ameaçar seriamente seu status, temperamento e perspectivas tradicionais. Qualquer que tenha sido a diluição e depreciação da nobreza, ela foi gradual e benigna.
Essa adaptação prudente e circunscrita foi facilitada pela avidez da burguesia em relação à cooptação e ao enobrecimento. Enquanto a nobreza era hábil na adaptação, a burguesia primava pela emulação. Ao longo do século XIX e início do XX, os grands bourgeois negaram a si mesmos, ao imitarem e se apropriarem dos modos da nobreza, esperança de ascender a ela. Se esforçavam para penetrar nos círculos aristocráticos e se casar dentro da nobreza titulada, solicitavam condecorações e cartas de patentes de nobreza. Os burgueses visavam à ascensão social por razões de proveito material, status social e gratificação psíquica.
Como parte de seu empenho em escalar a pirâmide social e demonstrar sua lealdade política, os burgueses abraçaram a alta cultura historicista e patrocinaram as instituições hegemônicas que eram dominadas pelas antigas elites.
O resultado foi o fortalecimento das linguagens, convenções e símbolos clássicos e acadêmicos nas artes e letras, em vez de estímulo aos impulsos modernistas. Os burgueses se permitiram ser envolvidos por um sistema cultural e educacional que defendia e reproduzia o ancien régime. Nesse processo minaram seu próprio potencial.
(P.24)  As mentalidades das elites europeias se transformaram muito lentamente e foi talvez o mais revelador de seu enraizamento contínuo a aliança com o antigo regime. Sua concepção de mundo era consoante com uma sociedade autoritária e hierárquica em vez de liberal e democrática.
Nos anos 1780, uma reação aristocrática em defesa de privilégios fiscais e burocráticos se tornara uma importante causa subjacente da Revolução Francesa.
(P.25)  De forma semelhante, entre 1905 e 1914 as antigas elites passaram a reafirmar e reforçar sua influência política, a  fim de defender seu predomínio material, social e cultural. Nesse processo, intensificaram as tensões nacionais e internacionais que produziram a Grande Guerra.
Ato final da dissolução do antigo regime na Europa.



quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Max Weber

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Max Weber
Segundo Max Weber a religião protestante teve influência determinante nos rumos do capitalismo.
O livro A ética protestante e o espírito do capitalismo foi escrito por Max Weber entre os anos de 1904 e 1905 no formato de dois extensos artigos.
O livro tem como principal linha de pesquisa, a análise de em até que ponto as emergentes religiões protestantes influenciaram o surgimento deste espírito capitalista. Qual o grau de envolvimento entre a religião e trabalho racional.   (...)
Max Weber inicia seu livro, analisando a Europa com bases estatísticas chega a seguinte conclusão: Ética Protestante - O que existe no estilo de vida daqueles que professam o protestantismo que favorece o espírito do capitalismo? Espírito do Capitalismo- Por que homens de negócios, grandes capitalistas, operários qualificados de alto nível e pessoal especializado tem em comum o fato de serem majoritariamente protestantes?
O autor traça detalhadamente o tipo de conduta religiosa que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento qualitativo do capitalismo. Segundo ele trata-se do ascetismo intramundano vivenciado pelos seguintes segmentos protestantes: Calvinismo, Pietismo, Metodismo e Seitas Batistas.
Não seria possível que outro ascetismo, como o catolicismo tivesse influenciado o capitalismo, pois a piedade popular católica, espera a recompensa na vida após a morte. As religiões do oriente, devido ao Karma, mantém um ascetismo extramundano. O luteranismo como dogma Paulino da justificação pela fé, dispensa a ação dos homens como componente de processo de salvação.
Weber analisa o vocabulário protestante onde encontra as palavras Calling e Beruf  que significam em português algo como vocação, dom, chamado divino, palavras que nunca antes haviam existido neste sentido sagrado. Também segundo o autor essas palavras surgiram pela 1ºvez na tradução de Lutero, da mentalidade do tradutor e não do texto original. Esta palavra com este sentido foi rapidamente absorvida pelos povos protestantes.
Esta vocação enviada por Deus, valorizava o trabalho, o cumprimento do dever dentro das profissões seculares, deu o impulso inicial a este sentido, que teve como consequência a atribuição de um significado religioso ao trabalho cotidiano.
Foi nesse conceito de vocação que manifestou-se o dogma central de todos os ramos do protestantismo, onde segundo a qual a única maneira de viver aceitável estava no cumprimento das tarefas, impostas ao indivíduo por Deus. Ele deveria trabalhar o seu dom adquirido divinamente para se aproximar da Salvação. Nisto esta sua vocação.
Esta concepção foi desenvolvida por Lutero na primeira década de sua atividade Reformadora. A Reforma aumentou a ênfase moral e o prêmio religioso para o trabalho secular e profissional. Desse ponto em diante dividiram-se várias Igrejas reformadoras, todas com esse ponto em comum.
Ainda para Lutero surgiu a ideia de que o indivíduo é inserido em determinada “casta” da sociedade por vontade divina. Chegando a caminhar para o tradicionalismo, onde o indivíduo deveria permanecer na profissão e na posição em que Deus originariamente o colocou, mantendo suas aspirações dentro desses limites. A vocação para ele era algo aceito como uma ordem divina, a qual cada um devia adaptar-se. E o trabalho vocacional é a melhor (maior) tarefa ordenada por Deus.
Segundo Weber a Reforma seria impensável sem o desenvolvimento religioso inteiramente pessoal que foi dado por Lutero e sua obra não teria êxito permanente sem o Calvinismo.
Foi no Calvinismo que o espírito do capitalismo desenvolveu-se em maior grau. Apesar de ser uma variante protestante diferencia-se muito da matriz inspiradora luterana. Para Calvino a salvação da alma era obtida pela manifestação da fé. Entretanto, diferentemente de Lutero, acreditava que cabia a Deus escolher os que tinham fé e consequentemente, alcançariam a salvação após a morte. É a ideia da predestinação absoluta, pois, o destino da pessoa estava definido por Deus, ou ela seria salva ou seria condena, e nada do que fizesse poderia mudar os planos que Deus tinha para eles.
Então como o indivíduo poderia saber se seria salvo ou seria condenado por Deus?
Por meio de sinais materiais. Os burgueses adotaram as ideias de Calvino, para quem o enriquecimento obtido pela prática da usura e pelo esforço do trabalho individual era sinal da bondade de Deus. O comportamento dos fieis era amplamente influenciado pela religião. Dedicavam-se quase que exclusivamente ao trabalho, buscando enriquecer e glorificar a Deus. Ir a festas, divertir-se em jogos, ter a vaidade de usar joias e roupas luxuosas eram considerados pecados graves, porque afastavam as pessoas de Deus e das obrigações.
Desta forma, coube aos puritanos, que se consideravam eleitos, viver a santificação da vida cotidiana. Essa consciência de ser a minoria escolhida por Deus, fazia de cada membro dessa comunidade não mero adepto do rebanho, mas um vocacionado que se dedicava simultaneamente ao aprimoramento ético, intelectual e profissional.
Weber nega a ideia da qual, o espírito do capitalismo teria surgido somente como consequência da reforma e que o capitalismo teria surgido como sistema econômico como influência direta da reforma. Só o fato de algumas formas econômicas do sistema comercial capitalista serem anteriores a reforma, já anulariam essa argumentação.

Contudo as emergentes religiões protestante tiveram influência determinante no florescimento do capitalismo racional. Em suma, o ascetismo intramundano praticado pelos puritanos (com seu elevado grau de racionalização) produziu segundo Weber, empresários e trabalhadores ideais para a consolidação de uma nova ordem social, que integrou, como nenhuma outra, um número excepcional de pessoas sintonizadas entre si, para canalizar esforços produtivos na economia conforme a orientação política preestabelecida.