quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Meu ponto de vista. O olhar de um professor recém formado e recém filiado, sobre a APEOESP.

Não tem conversa! Um sindicato deve ser combativo!

William C. T. Rodrigues
Durante os 4 anos que duraram meu curso de graduação, sempre entendi a APEOESP como uma instituição inimiga do professor em inicio de carreira. E essa não é apenas a minha opinião é também a opinião da maioria dos estudantes dos cursos de licenciatura do Estado de São Paulo. Quando disse a meus amigos que me filiei ao sindicato, quase fui linchado! 
Nunca vi motivos para me filiar a uma coisa, que acreditava, só me prejudicar. Não via luta, não via pressão, não via oposição ao governo. Um sindicato de verdade deve ser combativo e fiel, acima de tudo, a classe que representa!
Como não conhecia o interior do sindicato, acreditava que a APEOESP era formada por um grupo de pessoas “sagradas e intocáveis”, que não faziam nada a não ser gritar aos quatro ventos palavras de ordem e no interior do gabinete do secretário da educação “abanar o rabinho” e dizer amém. Mas conhecendo melhor cheguei à conclusão de que estava certo! É isso mesmo o que acontece! Nunca, em minha vida, vi tanta picaretagem quanto nas assembléias do sindicato.
Mas o ponto que quero chegar é: se a APEOESP continuar nesse ritmo, dentro de alguns anos o número de filiados vai cair a níveis críticos, pois a coisa que a nova geração de professores mais odeia é saber que está sendo manipulada e no caso do sindicato isso é explicito.
Somente me filiei, pelo fato de descobrir (pois, não sabia) que dentro da APEOESP existia oposição e que esta era realmente combativa, diferente da diretoria e seus acordinhos internos.
A oposição dentro da APEOESP é de extrema importância para a validade do sindicato, pois, “quando todos pensam igual, ninguém está pensando!” E quando a diretoria utiliza-se de artimanhas para neutralizar a atuação dos opositores, apresenta-se ai sua total incapacidade de representar os professores, pois, se as suas propostas fossem realmente boas para toda a categoria, não haveria necessidade de serem votadas apenas entre “amiguinhos”.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Jorge Ferreira & Lucilia de Almeida Neves Delgado: Espionagem, Polícia Política, Censura e Propaganda.


Espionagem, polícia política, censura e propaganda.
(P. 169) Introdução:
(P. 174) Neste breve ensaio tentarei demonstrar que a história do período também pode ser vista a partir da trajetória dos militares da “linha dura”, isto é, capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis, que com um discurso anticomunista e anticorrupção ansiavam por maiores prazos para completar os expurgos iniciados em 1964, a chamada “operação limpeza”.   (...)
A linha-dura iniciada com Costa e Silva foi um grupo de pressão que reclamava por meios e modos para a punição. Com o AI-2 e o AI-5 conseguiu tais instrumentos e deu início, transformando-se em comunidade ou sistema de segurança.
(P. 175) A comunidade se amparava nos pilares básicos de qualquer ditadura: A espionagem, a polícia política e a censura. E contavam com a propaganda política, que forneciam suporte ideológico para suas ações.
Espionagem.
Golbery do Couto e Silva criou três meses antes do golpe o SNI (Serviço Nacional de Inteligência), contando com consultoria norte-americana. Segundo ele mesmo disse: “havia criado um monstro”.
(P. 176) Na verdade, o monstro somente seria criado depois da vitória da linha dura, com a posse de Costa e Silva para a presidência e General Jayme Portella de Melo para ministro chefe da casa militar.
A partir de janeiro de 1968, o CSN (Conselho se Segurança Nacional) teve suas competências aumentadas e pode ampliar-se criando as DSI (Divisões de Segurança e Informações) que se tratava de uma vasta rede de espionagem, implantada em todo o país: ministérios civis, autarquias, fundações e diversos órgãos públicos. Se a repartição era importante deveria contar com a AESI (Assessoria Especial de Segurança e Informações).
Jayme Portella primeiramente providenciou a aprovação do Conceito Estratégico Nacional, espécie de manual no qual todos os aspectos da política de governo estão estabelecidas.
(P. 177) Com base nesse “conceito”, o SNI aprovou, em junho de 1970, o seu “Plano Nacional de Informações”.
O SNI tinha status de ministério e coordenava todas as ações em território nacional.
(P. 178) O que se fazia numa DSI diferia muitíssimo daquilo que se passava num DOI. O primeiro fazia escutas telefônicas, recortava jornais, redigia avaliações; o segundo submetia prisioneiros a choques elétricos ou o pau-de-arara. Entretanto as duas atividades não eram desconexas.
Em 1971 foi criada a Escola Nacional de Informações (EsNI) que pretendia formar espiões civis, para que o SNI se transformasse em uma CIA. As forças armadas, cada uma tinha seu próprio órgão de inteligência.
(P. 179) O SNI, as DSI’s e todos os demais órgãos de informação compunham a “comunidade de informações”. O destino dessas informações era o ministro da respectiva pasta.
O Sisni era basicamente um sistema de “inculpação” de pessoas, orientado pela suspeita universalizada do “movimento comunista internacional”.
(P. 180) Em resumo, elegia-se a priori o suspeito e providenciava-se a culpa depois. Quando não existiam indícios, eles eram fantasiados.
(P. 181) Durante a ditadura, além dos casos óbvios de perseguição, prisão, tortura de militantes e quadros organizados, praticados pela polícia política, milhares de pessoas foram espionadas, julgadas e prejudicadas pela comunidade de informações. Muitas nem sequer souberam disso.
Polícia Política.
Uma tese destaca o endurecimento do regime só após o AI-5, entretanto a ditadura desde o início foi extremamente rigorosa com seus inimigos.
(P. 182) Essa tese acompanha a ideia de que a luta armada, segundo os militares é que levou ao AI-5. E a esquerda afirma que foi o AI-5 que levou a opção pela luta armada.
Na verdade, ambos, já planejavam “endurecer” cada um a seu modo de longa data.
(P. 183) Uma das principais motivações para o AI-5 foi à insatisfação da linha dura com o desenvolvimento dos primeiros inquéritos policiais militares (IPM). Antes do AI-5 as tentativas de punição esbarravam na concessão de habeas corpus pela Justiça. (P. 184) Com isso os processos tardavam e as punições não eram obtidas. Assim a “Revolução” não alcançariam seus objetivos.
Uma das principais exigências dos militares eram: fim do habeas corpus e a criação de um foro especial para crimes políticos.
Tudo isso prova que o endurecimento do regime já havia sido planejado. Mas a estrutura repressiva que marcou o pós-68 foi criada através de diretrizes secretas.
Desde julho de 69 funcionava, em São Paulo, a “Operação Bandeirantes” (Oban) criada com ajuda dos EUA, que promovia uma ação conjugada e permanente de combate as guerrilhas urbanas. Com o apoio das forças armadas, polícia militar e civil, amparados pelo governo estadual e financiada por empresários.
(P. 185) A estrutura da Oban inspirou o sistema Codi-DOI. Os Codis eram órgãos de planejamento, dirigidos pelo chefe do Estado Maior do respectivo exército. Controlavam execuções das medidas repressivas e buscavam articular todas as instâncias envolvidas. Os DOI’s faziam o trabalho sujo: prisão, tortura e assassinato.
(P. 186) Com o auxílio da “comunidade de informações” o Codi-Doi, tentava justificar sua existência.
(P. 187) Com a posse de Ernesto Geisel a tortura deixou de ser generalizada, mas o Sissegin só seria extinto no final do governo Figueiredo.
A ação repressiva da ditadura militar mesclava espionagem e polícia política com “justiça” sumária.
Censura.
(P. 188) A censura sempre existiu no Brasil, os militares apenas as adequaram a nova realidade.
(P. 189) Além da imprensa todas as atividades artísticas, culturais e recreativas foram reguladas. Com o AI-5 a censura se tornou mais sistemática. Como não havia leis específicas para a atividade, a imprensa, passou a ser censurada com base nas definições propositalmente ambíguas da lei de Segurança Nacional. Algumas sofrendo com um censor na redação.
Essa ideia de que a imprensa lutou contra a ditadura e foi vítima da censura, aos poucos é desmascarada. Alguns sim lutaram contra, mas muitos no Brasil assumiram posturas de apoio ao regime e tem sido chamado por vezes de “autocensura”.
(P. 190) A censura ao contrário do que se dizia, era algo muito bem organizado. Havia dois tipos de censura a Imprensa: o 1º chamado de “censura prévia” poderia ser feito na própria redação do periódico. O 2º era a fiscalização sistemática e velada para impedir a divulgação de notícias ou comentários contrários ao regime e às instituições.
Os dois procedimentos baseavam-se numa classificação de temas censurados que a ditadura chamava de “proibições determinadas”.
(P. 191) A ideia de confusão na censura, não é de toda incorreta: Integrantes da comunidade de segurança conseguiram muitas vezes censurar temas sem a intermediação do Ministério da Justiça.
Defesa da moral e dos bons costumes sempre foi o objetivo dos órgãos de censura das chamadas “diversões públicas”, isto é, teatro, cinema, espetáculos musicais e até mesmo circo.
Propaganda.
Três dias depois da posse de Médici, definiram-se as diretrizes que norteariam a maior campanha de propaganda jamais vista no Brasil.
(P. 194) Otávio Costa foi convidado por Médici para chefiar a AERP (Assessoria Especial de Relações Públicas), e convidou Toledo Camargo para auxiliá-lo.
(P. 195) A AERP foi criada em janeiro de 68 durante o governo Costa e Silva e vinha de uma experiência desastrosa com seu primeiro chefe Hernani d’Aguiar. Com propagandas de cunho oficial que enalteciam o país de forma ufanista não convencia. Segundo pesquisas a imagem do governo era ruim.
Eles tentavam desviar as atenções para fatos notáveis onde o cidadão apenas precisava ser lembrado dos motivos que tinha para enaltecer o governo.
Otávio Costa logo percebeu que deveria romper com a estratégia de d’Aguiar e encontrar outros caminhos.
(P. 196) Adotou o nome de relações públicas ao invés de propaganda política. Em seguida definiram jargões que estabeleciam os objetivos das atividades de “comunicação social” do regime. Com frases que afirmavam exatamente o contrário do que se vivia.
Portanto, também na propaganda política, o regime agia envergonhadamente, desejando não ser reconhecido como uma ditadura, negando que houvesse propaganda política, como negava que houvesse tortura ou censura.
A propaganda amparando-se nas leituras sobre o Brasil, em especial Gilberto Freyre.
(P. 197) Otávio Costa acreditava no “poder moderador” dos militares que deviam ensinar ao Brasil a proteger-se dos privilégios políticos civis.
Ele sabia do grande senso de ridículo dos brasileiros, o que inviabilizava a propaganda política típica que enaltecesse a autoridade ou ostentasse os sinais típicos do poder.
Daí a opção por uma propaganda que falasse de solidariedade, amor e participação em plena ditadura.
Otávio Costa produzia “filmetes” que se dividiam em dois grupos: os de natureza educativa e os de caráter ético-moral.
(P. 198) Esse tipo de propaganda do regime era ridicularizado por pessoas de esquerda, mas teve grande repercussão entre a população.
O Regime militar delineou um sistema de propaganda que amparava ideologicamente a repressão e buscava encobri-la e isso de fato se deu.
A pretensão de Otávio Costa e de Toledo Camargo era educar o povo.
(P. 199) Mas a impressão que ficava era de tentativa de lavagem cerebral.
Conclusão.
O propósito deste ensaio foi o de mostrar as especificidades dos sistemas que compunham o aparato repressivo da ditadura militar.
Tais sistemas não foram “inventados” pelo regime, que em alguns casos, se amparou em experiências preexistentes, os da espionagem e da censura.
Porém, é certo que os reinventou, criando estruturas que seriam copiadas até mesmo fora do Brasil, como o sistema de segurança.
Bibliografia:
FERREIRA; Jorge & DELGADO; Lucilia de Almeida Neves: “O Brasil Republicano”. Livro 04. “Introdução” pág.169-203.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Nilson Borges:“A Doutrina de Segurança Nacional e os Governos Militares”.

O medo do comunismo abriu caminho para que os militares brasileiros instaurassem a Doutrina de Segurança Nacional, uma vez que eles acreditavam ser a política uma coisa importante demais para estar nas mãos de civis.


(P. 13). A Doutrina de Segurança Nacional e os Governos Militares.
(P. 15). Os Militares no Poder.
Os anos 70 ficaram marcados pelos golpes militares na América Latina, em 1979, dois terços da população latina, calculadas em 400 milhões de pessoas, viviam em Estados dotados de regimes militares.
No Brasil a intervenção militar na prática já ocorrera diversas vezes: 1889 na Proclamação da República, 1930 derrubada da República Oligárquica e posse de Vargas, 1945 deposição de Vargas, 1955 garantindo a posse de JK.   (...)
(P. 16) Ao contrário do que sempre acontecia, onde os militares intervinham e logo depois passavam o poder de volta aos civis, 1964 foi diferente.
Em 1964, sob a égide da Doutrina de Segurança Nacional, os militares assumem a condução do Estado, transformando os civis em coadjuvantes.
(P. 18) Como consequência das constantes intervenções das Forças Armadas, criou-se uma cultura militar no Brasil: a ideia do destino manifesto do militar, onde sua missão é a de salvar a pátria. Assim a intervenção aparece como legítima e necessária para a preservação da ordem institucional. Esse é o padrão moderador das Forças Armadas Brasileiras.
(P. 19) De 1889 até o golpe, as intervenções militares foram sempre justificadas em nome da missão constitucional do exército e do interesse nacional.
(P. 20) Em 1964 a justificação ideológica para a tomada do poder e a modificação de suas estruturas foi encontrada na Doutrina de Segurança Nacional.
O golpe de 1964 foi uma ruptura com os golpes anteriores.
(P. 21) O regime pós-64 tem duas características contraditórias: a durabilidade e a mutabilidade;
-Durabilidade: pelos 31 anos de permanência dos militares no poder.
-Mutabilidade: por sua forma, ora endurecendo, ora progredindo em direção à abertura política.
A mutabilidade viabilizava a manutenção do poder pelos militares.
(P. 22) O período pós-64 pode ser dividido em três fases: de 64 até o AI-5, do AI-5 até a Liberalização, da Liberalização (abertura) até a redemocratização.
(P. 23) Com o fim da AI-5, as Forças Armadas têm como projeto devolver a direção do Estado para os civis, desde que em bases confiáveis, o que significava a não-argentinização do regime.
O que mais se sobressaiu durante o regime militar foi o aparelho repressivo, organizado pelo SNI, com base na Doutrina de Segurança Nacional.
(P. 24) A Doutrina de Segurança Nacional é a manifestação de uma ideologia que repousa sobre uma concepção de guerra permanente e total entre o comunismo e os países ocidentais. (P. 25) Em função disso toda a nação deve mobilizar-se integralmente para combater o comunismo. Promovendo a submissão das atividades da nação à sua política de segurança.
(P. 26) A DSN trabalha com o campo da conjuntura internacional, mas dentro do quadro da geopolítica. Distinguem-se na geopolítica as seguintes características básicas: o espaço político, a posição física, a segurança interna e externa e as viagens positivas da terra.
A geopolítica se apresenta como uma teoria do Estado e para o Estado, mais precisamente para um Estado de perfil militar. É uma teoria a serviço de um conceito de Estado absoluto. (P. 27) É a aplicação na prática da teoria da ditadura soberana. A ditadura soberana se fundamenta na capacidade de a revolução se legitimar por ela mesma e de substituir toda a jurisdição existente.
Ao regime sob a égide da DSN se atribui uma vocação revolucionária destinada a modificar o status quo. A nova autoridade se considera auto-dotada, tendo em vista sua condição revolucionária, dona de um poder suficiente para eliminar os fatores adversos que perturbem a ordem, e para adotar medidas visando a assegurar e consolidar o movimento revolucionário e impor seus objetivos.
(P. 28) Toda a política nacional é reorientada em função da segurança, sendo as esferas militar e política tão ligadas que a política passa de arte civil para arte militar. A guerra interna ou eliminação do inimigo interno passa a ser uma estratégia imposta pelos imperativos da segurança nacional.
A DSN faz da luta política uma guerra interna, que não deixa espaço para negociações. A guerra interna é uma guerra total e permanente que atribui um forte papel aos aparelhos de segurança e informações que agem pela violência. As ações não são apenas militares, pois, a guerra interna se converte em guerra psicológica, trata-se de aniquilar moralmente o inimigo e separá-los dos demais cidadãos, com base numa tipologia que distingue os inimigos, os indecisos e os neutros dos engajados.
(P. 29) O terror é utilizado para intimidar o inimigo interno e dissuadir os indecisos. O mito da guerra e o inimigo interno permitem ao Estado instaurar sua política repressiva, acionando os aparelhos de segurança e informação para exercerem seu papel “moralizador”, desmobilizando, com isso, a população.
Para a DSN, o inimigo interno não é proveniente do povo, pois, o verdadeiro povo é aquele que tem uma noção correta dos objetivos nacionais. Daí porque, para a Doutrina, a legitimação do poder não emana e não depende de uma eleição popular.
(P.30) Os meios usados para impor a autoridade são a polícia e a censura política, que com ações repressivas preservam a ordem pública e impede ações subversivas.
A DSN trabalha com quatro conceitos principais:
-Os objetivos nacionais: que se dividem em permanentes e atuais.
-O poder nacional: instrumento de que a política se utiliza para alcançar os objetivos nacionais.
(P. 31) -A estratégia nacional: é a forma de preparar e aplicar o poder nacional para alcançar ou manter os objetivos fixados pela política nacional.
-Segurança nacional: Capacidade que o Estado dá a nação para impor seus objetivos a todos os movimentos, segmentos ou grupos oponentes.
O conceito principal são os objetivos nacionais, pois, são a cristalização dos interesses, das aspirações, dos valores e das regras de uma nação deseja por todos os meios que tem ao seu dispor.

A Doutrina de Segurança Nacional no Brasil.
A DSN serviu como base ideológica do regime militar (1964) e contribuiu para a formação do aparato de informações (SNI) da nossa ordem institucional.
(P.32) Para os militares, 1964 é visto como contragolpe ao golpe de esquerda que seria desfechado por Jango.
Doutrina vem a ser, realmente, uma ideologia ou apenas uma mentalidade? Para Juan Linz, os regimes autoritários (não democráticos e não totalitários) se ressentem de uma ideologia orientadora.
(P. 33) Já para Bolívar Lamounier, a permanência do regime militar supõe a existência de uma ideologia que ultrapassa as peculiaridades nacionais e mantém a estrutura e a coerência de cada país.
Eliézer Rizzo de Oliveira considera a DSN como uma ideologia e a Escola Superior de Guerra como reprodutora dessa ideologia.
A DSN aboliu dois pontos principais no regime democrático liberal: a subordinação dos militares ao poder civil e a não intervenção no processo político. (P. 34) Para os militares a política se tornou muito séria para ser deixada nas mãos dos civis.
(P. 35) A DSN não teve, ao longo do tempo, um comportamento linear na sua aplicação. Ela se moldou aos ditames dos mandantes do momento.
(P. 36) A DSN nasceu nos EUA na época da guerra fria. E é com a criação da Escola Superior de Guerra (1949) que a DSN se inscreve na vida política brasileira.
Vinculando segurança externa e interna, os formuladores da Doutrina no Brasil criaram no imaginário dos alunos da Escola, a concepção de que o inimigo interno está infiltrado em toda a sociedade brasileira, (P. 37) agindo organizadamente para tomar o poder e, assim, transformar o Brasil numa república totalitária. Assim justifica-se o uso da repressão para o controle da população e o uso da violência contra os opositores do regime.
(P. 38) Assim, a base ideológica do regime perpassa por quase toda a sociedade civil, com exceção das camadas populares, onde a primeira medida foi excluí-la da participação e decisão política.
(P. 39) A publicação do AI-5 tomou de surpresa as lideranças civis que haviam conspirado contra o governo Goulart, pois as Forças Armadas não só tomaram a direção do Estado como, também, contavam com um projeto de governo.
*DSN=Doutrina de Segurança Nacional
Bibliografia:
BORGES; Nilson: “A Doutrina de Segurança Nacional e os Governos Militares”. In. “O Brasil Republicano”. Ed Civilização Brasileira RJ 2007. 2ª edição. pág 13-42

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Christian Laville: “A Guerra das Narrativas: debates e ilusões em torno do ensino de história”.

A história é certamente a única disciplina escolar que recebe intervenções diretas do Estado

Christian Laville: “A Guerra das Narrativas: debates e ilusões em torno do ensino de história”.
(P. 126) Antes da segunda guerra mundial, o principal motivo da matéria história nas escolas era o da educação cívica. Seu principal objetivo era a confirmação da nação e do governo no poder naquele momento. Com o uso de uma narrativa que exaltava os grandes heróis da nação, os grandes feitos da nação, etc.   (...)
Essa maneira de se ensinar história foi se tornando menos necessária quando as nações perceberam que estavam bem assentadas e cessaram de temer por sua própria existência. No ocidente o fim da II Guerra foi o marco desse momento.
Com a vitória da democracia era necessária a participação dos cidadãos tirando-se a ideia do “cidadão súdito”. O ensino de história viu sua função de educação para a cidadania substituir sua função de instrução nacional.
(P. 127) Para constatar essa mudança basta examinar os programas propostos e o discurso com o qual é apresentado atualmente o ensino de história.
Entretanto, sempre que é evocado o motivo para a matéria história existir, constata-se que há um retorno a ideia de formação da nação.
Exemplo (1): Para Manter a Ordem Estabelecida.
Para esse exemplo Laville usa três países ocidentais, cristãos, ricos e democráticos: EUA, Inglaterra e França.
O que está em jogo nos debates políticos a respeito dos conteúdos do ensino da história é a manutenção de uma determinada tradição.
(P. 128) Nos EUA quando surgiu um projeto federal de história que abrangia outras culturas e minorias sociais, houve um tremendo rebuliço, a direita se enfureceu, pois, a abertura ao conhecimento de outras culturas poderia levar a civilização branca, cristã ocidental ao fim, e ao abrir à história a outros grupos sociais como as mulheres, os negros, os imigrantes sobraria muito pouco tempo para os heróis nacionais.
(P. 129) Na Inglaterra os professores gozavam de grande liberdade, pois, não havia um programa nacional para essa disciplina. O governo Margaret Thatcher procurou acabar com essa prática, já que segundo ela ensinava-se pouco sobre a Inglaterra e seu passado glorioso. Dever-se-ia ensinar uma memória comum britânica.
Na França entre a década de 1970 e 80 implantou-se um programa que rompia com a forma de se ensinar história que estava em vigência desde a III República. Houve indignação generalizada entre os políticos e a reforma não resistiu.
(P. 130) É interessante notar quanto interesse, quanta vigilância e quantas intervenções o ensino de história suscita nos mais altos níveis. A história é certamente a única disciplina escolar que recebe intervenções diretas dos altos dirigentes e a consideração ativa dos parlamentares. Isso mostra quão importante ela é para o poder.
Exemplo (2): Quando os Estados se Reconstituem.
Entre as decisões tomadas pelos vencedores ao fim da II Guerra, houve a de proibir o ensino de história ministrada nos países vencidos, a fim de neutralizar seus conteúdos factuais antes de substituí-los por outros.
Os ex-países do leste europeu oferecem inúmeros exemplos disso. Com a queda da URSS, mal a transição começou, o ensino de história já era submetido à revisão: revisão dos programas e dos manuais. Essa revisão consiste em reescrever; apagando aquilo que se quer esquecer do antigo regime e introduzindo ou reintroduzindo o que parece necessário para a construção ou consolidação da memória coletiva que se quer agora.
(P. 132) Nessas histórias, encontram-se frequentemente os antigos defeitos das historiografias nacionalistas.
Exemplo (3): Para Lutar Contra o Estado.
(P. 133) As vezes são grupos dissidentes que atacam as narrativas históricas impostas ao ensino pelo Estado.
No Japão há várias décadas historiadores e professores combatem a censura que o ministério da educação exerce sobre o conteúdo dos manuais. Tudo o que, aos olhos do ministério, poderia diminuir a imagem positiva do Japão na história é proibido. Para contar os fatos, é preciso utilizar um vocabulário padronizado.
(P. 134) A narrativa histórica pode também ser vista como uma tomada de poder por grupos sem poder. Um exemplo disso é o Brasil, onde, os professores de história haviam lutado, durante a ditadura, para conseguir um programa cujo conteúdo fosse definido de acordo com seu ponto de vista de militantes.
Exemplo (4): Definir uma Identidade Supranacional.
Todos os exemplos anteriores de fixação em relação à narrativa histórica e à sua manipulação ocorriam no âmbito da nação. Mas pode ocorrer que se queira oferecer uma narrativa situada além desse contexto.
(P. 135) É o caso do projeto ISESCO que propôs aos alunos dos países muçulmanos um programa islâmico único de ensino de história. Trata-se de ensinar, aos alunos dos diferentes países, que, apesar de suas identidades nacionais, eles pertencem antes de tudo à grande comunidade dos muçulmanos. Com matérias feitas sob medida para dar uma roupagem única para a identidade almejada.
Finalizando.
O primeiro paradoxo: Enquanto na maioria dos países se diz que o objetivo do ensino da história é desenvolver nos alunos as capacidades de que o cidadão precisa para ser crítico e participativo, entretanto o ensino de história , ainda é, reduzido a uma narrativa fechada, destinada a moldar as consciências e a ditar as obrigações e os comportamentos para a nação.
(P. 136) Daí parte o segundo paradoxo: O de acreditar que o ensino de história possa desempenhar esse tipo de papel. (P. 137) Nesse fim de século, com tantos meios de comunicação, é possível que a narrativa histórica não tenha mais tanto poder. 
Bibliografia:
LAVILLE; Christian: “A Guerra das Narrativas: debates e ilusões em torno do ensino de história”. Rev. Brasileira de História, SP, vol.19, nº38, 1999. pág 125-138.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Pequena História dos Historiadores de Philippe Tétart.

Capitulo 10: Entre a Ciência e Pedagogia Cívica.

(P. 97) Em meados do séc. XIX o mundo dos historiadores é submergido por uma febre documental, que pesa na evolução da profissão.
(P. 98) Para manter esse patrimônio o Estado passa contratar funcionários: arquivistas, inspetores dos monumentos históricos, conservadores de museus e bibliotecas e professores.   (...)
Para os professores as mudanças são primordiais, favorecendo a mudança da mentalidade e da condição do historiador. E é nesse momento que o lugar dos historiadores no mundo é legitimado, pois, tendo-se tornado uma disciplina curricular a história afirma seu estatuto cientifico.
(P. 99) Uma Ciência e seu Método.
Sob a influência positivista, as regras da história se tornam precisas.
O Reinado do Documento: O Rigor Seco da História Metódica.
Baseada nas opiniões de Monod (1844-1912) a história nova é estritamente metódica.
Em nome de um racionalismo total prega unicamente o estudo das fontes escritas: coleta dos documentos (heurística), critica externa (data, autor, origem), crítica interna (hermenêutica), resumo crítico, síntese e colocação em perspectiva dos dados.
(P. 100) O Historiador entrincheirado atrás do documento.
O método de Monod é rigoroso e perverso. Considerando somente a historicidade do escrito, o historiador positivista encerra-se numa torre de marfim, evita confrontar-se com a análise, recusa o poder da intuição, dos dados orais, etc. Em suma, evita confrontar-se com as indeterminações da história.
E por detrás do “fetichismo do documento” esconde-se o ideal de uma história perfeita.
(P.101) A história como “ciência social”: Lavisse um historiador cidadão.
Ernest Lavisse (1842-1922) compõe uma história clara, clássica, exigente e inteligível para o grande público.
Lavisse considerava a história como parte integrante da disciplina cívica e patriótica.
(P. 102) Ele promove o sentimento de pertença e de unidade nacional, o respeito mútuo na cidadania. Lavisse prega lição moral laica, patriótica e republicana, tingida às vezes por acentos revanchistas.
A história como pedagogia social.
Formar bons cidadãos, bons eleitores e bons soldados que “amam seu fuzil”, é a divisa do trabalho emblemático de Lavisse. Fazer história em 1900 não é portanto um ato neutro.
(P.103) O historiador cientifico, profissional e republicano acredita ser o aguilhão da consciência social e política do cidadão, e desempenha assim um papel na vida cívica. 
Bibliografia:
TÉTART; Philippe: “Pequena História dos Historiadores”. Ed Edusc, pág.97-103.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Dinâmica do Capitalismo De Fernand Braudel.

Em seu livro "A dinâmica do capitalismo" Braudel analisa o desenvolvimento do capitalismo entre os séculos XV e XVIII 

1º Capitulo: Reconsiderando a vida material e a vida econômica.
(P. 12) A chamada história econômica, ainda em construção, defronta-se com alguns preconceitos. Ela não é uma história nobre.
Apesar disso toda a história do homem está nela, vista segundo uma determinada perspectiva.
(P. 13) É simultaneamente a história dos grandes homens, dos grandes acontecimentos, das conjunturas e das crises, e por último a história maciça que evolui lentamente no decurso da longa duração.   (...)
Resida ai a dificuldade, pois trata-se de 4 séculos do mundo inteiro, então como organizar toda essa quantidade de fatos e interpretações? Braudel escolheu tratar dos equilíbrios e dos desequilíbrios profundos do longo prazo.
Por um lado, camponeses nas aldeias vivendo de maneira quase autônoma, por outro uma economia de mercado e um capitalismo em expansão. Temos assim dois universos (no mínimo) dois tipos de vida alheios um ao outro e cujas massas explicam-se mutuamente.
(P. 14) Parti do cotidiano, daquilo que nos condiciona a vida, sem que sequer saibamos: o hábito, a rotina, gestos que se florescem, se completam fora da nossa plena consciência.
(P. 15) Acredito que mais da metade da vida da humanidade está mergulhada no cotidiano. Inúmeros gestos herdados, confusamente acumulados, infinitamente repetidos para chegarem até nós, ajudam-nos, aprisionam-nos, decidem por nós, ao longo de toda a nossa existência. Tentei dar conta de tudo isso chamando-lhe de vida material.
(P. 16) A vida material para Braudel, é tudo o que a humanidade ao longo da história passada, foi incorporando na sua vida profunda e nas próprias entranhas dos homens, para quem tais experiências ou intoxicações antigas se tornaram necessidades do cotidiano, banalidades. E ninguém lhes dedica nenhuma atenção.
II.
Apresentado o fio condutor, aponto também o seu objetivo: é uma exploração.
1º capítulo: “O número de Homens”. A força biológica por excelência, que leva o homem, tal como todos os outros seres vivos, a reproduzirem-se.
(P. 17) Essa matéria humana que está em perpétuo movimento comanda, sem que os indivíduos se apercebam, uma boa parte dos destinos dos homens, destinos de conjunto.
O jogo demográfico tende para o equilíbrio, raramente atingindo. Fluxos e refluxos sucessivos revelam as tendenciais, de longa duração que se mantem válidas até o séc. XVIII. Somente no séc. XVIII o número de homens não parou de aumentar, onde nunca mais se inverteu o movimento.
Até o séc. XVIII, o sistema de vida encontrava-se encerrado num círculo quase intangível. Sempre que a circunferência é atingida, acontece imediatamente um momento de retração, de recuo.
(P. 18) Para estabelecer o equilíbrio existem: As fomes, as carências, as duras condições de vida, as guerras e sobretudo as doenças.
(P. 19) Nos capítulos seguintes o autor levanta as seguintes questões: O que é que os homens comem? O que bebem? Como se vestem? Quais são suas condições de vida?
Perguntas inconvenientes que exigem quase uma viagem de descobrimento, pois nos livros de história o homem não come e nem bebe.
Os cereais são muito importantes, já que os vegetais são dominantes na alimentação antiga. O trigo, o arroz e o milho são resultados de opções muito antigas e de inumeráveis e sucessivas experiências.
O trigo, que devora a terra, que exige que esta repouse em tempos regulares, permite a criação de gado.
(P. 20) O arroz que nasce de uma espécie de jardinagem, por cultura intensiva, em que não são necessários animais
  O milho, mais cômodo e mais fácil de obter, proporcionava os tempos livre que originaram as corveias camponesas e os monumentos ameríndios. Uma força de trabalho desocupada foi monopolizada pela sociedade.
 Poderíamos falar também acerca das rações e calorias que cada alimento contém. Além das drogas antigas o álcool e principalmente o tabaco que deu a volta ao mundo.
(P. 21) Outro ponto importante diz respeito às técnicas: o trabalho dos homens e os lentíssimos progressos na luta cotidiana contra o meio exterior e contra si próprio. Tudo é técnica, não só o esforço violento, mas também o esforço paciente e monótono dos homens, ao modelarem uma pedra, um pedaço de madeira ou ferro para criar um utensílio ou uma arma.
Todas as técnicas, todos os elementos das ciências se trocam e viajam através do mundo, desde sempre. Há um incessante movimento de difusão.
(P. 22) Os dois últimos capítulos são referentes a moeda e as cidades: As duas mergulham simultaneamente no cotidiano. A moeda é uma invenção muito antiga (se entendermos por moeda todo o meio que contribui para aceleração da troca) e sem troca não há sociedade. Quanto às cidades, existem desde a pré-história.
Poderíamos dizer que as cidades e a moeda fabricaram a modernidade, mas também que a modernidade, a massa em movimento da dos homens, impulsionou a expansão da moeda, construiu a tirania crescentes das cidades.
Cidades e moedas constituem, motores e indicadores, provocam e assinalam a mudança. E são uma consequência da mudança.
III.
(P. 23) Não é fácil abarcar esse imenso reino do habitual, do rotineiro, (O grande ausente da história). Na realidade, o habitual invade totalmente a vida dos homens e por ela se difunde.
(P. 24) De 1400 a 1800, encontramos uma economia de troca ainda muito imperfeita. Não consegue abranger toda a produção, nem todo o consumo, já que uma enorme parte da produção se perde no autoconsumo da família ou da aldeia e não chega a entrar no circuito do mercado.
A economia de mercado se encontra em fase de progresso e põe em contato um número suficiente de burgos e de cidades, para iniciar a organização da produção e orientar e comandar o consumo.
Esses mercados demarcam uma fronteira, o limite inferior da economia. Tudo o que se situa fora do mercado apenas tem valor de uso; tudo o que cruza o seu estreito limiar adquire valor de troca.
(P. 25) O indivíduo, (o agente), conforme se situe de um lado ou do outro do mercado elementar, está ou não incluído na troca, naquilo a que chamei vida econômica, em oposição à vida material.
(P. 29) Fizemos a distinção entre dois registros na economia de mercado: o registro inferior (mercados, loja, vendedores ambulantes) e o registro superior (feiras e bolsas).
Surgem duas questões: 1º como podem estes instrumentos de troca auxiliar-nos a explicar, as vicissitudes[1] da economia européia do Antigo Regime?
2º de que forma poderão esses mecanismos contribuir para iluminar os mecanismos da economia não européia?
IV.
(P. 30) Consideremos a evolução do ocidente ao longo destes 4 séculos: XV, XVI, XVII e XVIII.
O séc. XV vai assistir, sobretudo após 1450, a um relançamento geral da economia em benefício das cidades favorecidas pela subida dos preços industriais. Por outro lado, os preços agrícolas estagnam ou baixam. Nesse momento o papel de motor da economia cabe as lojas de artesãos, situado nos mercados urbanos. Ditando as suas leis.
(P. 31) No séc. XVI acontece a expansão para o Atlântico, a dinâmica motriz situa-se ano nível das grandes feiras internacionais. O séc. XVI foi a época do apogeu das feiras.
(P. 32) No séc. XVII liberta-se dos sortilégios do mediterrâneo para desenvolver-se através do vasto oceano atlântico. Esse século tem sido descrito como uma época de recessão ou estagnação econômica. A feira cede lugar às bolsas e as praças de comércio. As lojas multiplicam-se através da Europa, criando apertadas redes de redistribuição.
(P. 33) No séc. XVIII ocorre uma generalizada aceleração econômica, todos os instrumentos da troca encontram-se presentes. As bolsas multiplicam-se. Num contexto assim é natural que as feiras tendam a desaparecer. Existindo apenas em regiões marginais da economia europeia.
(P. 35) O que acabamos de descrever, limita-se a Europa. Mas se os mecanismos de troca existirem fora da Europa (e existem na China, Índia, em todo o islã e no Japão) podemos utilizá-los para uma tentativa de análise comparativa?
E ver se a distância entre a Europa e o resto do mundo já era tão grande antes do séc. XIX, se nessa época a Europa já estava, ou não mais avançada que o resto do mundo.
Primeira constatação: por todos os lados encontramos mercados, até nas sociedades incipientes da África e das civilizações ameríndias. Com um pequeno esforço, estes mercados aparecem-nos diante dos olhos, ainda vivos ou de fácil reconstituição.
(P. 36) Nos países islâmicos, as cidades foram gradualmente despojando as aldeias dos seus mercados (como na Europa). Os grandes mercados dispõem-se diante das portas das cidades, onde homens citadinos encontram-se com o camponês em terreno neutro.
Na Índia não há uma aldeia que não tenha seu mercado, que serve para arrecadar dinheiro para os senhores ou o Grão-Mongol do lugar.
(P. 37) A China apresenta uma surpreendente organização em seus mercados. Imaginemos um burgo e marquemos um ponto numa folha em branco. Em redor desse ponto agrupam-se entre seis e dez aldeias, a uma distância que permite ao camponês ir e voltar no mesmo dia.
(P. 40) Se compararmos as economias do resto do mundo com a economia europeia, esta parece dever o seu grau avançado de desenvolvimento à superioridade dos seus instrumentos e das suas instituições: As bolsas e as diversas formas de crédito.
(P. 41) A economia de mercado estendeu os seus fios e manteve ativa as suas diversas redes acima da enorme massa da vida material cotidiana: e foi sobre a economia de mercado que o capitalismo prosperou.
(P. 43) 2º Capitulo: Os jogos da troca.
(P. 45) O séc. XV ao XVIII é caracterizado por um enorme setor de autoconsumo, que se mantém totalmente alheio à economia de troca. Toda a Europa está amarrada a isso até o séc.XVIII.
 Braudel aborda aquilo que ele chama de economia da mercado e capitalismo. Que para ele são coisas distintas.
Ambos são minoritários, até o séc. XVIII. E as massas de homens permanecem submersas no domínio da vida material.
(P. 46) Essa economia de mercado ainda está em desenvolvimento, mas já cobre vastas superfícies. Já o Antigo Regime que Braudel chama de capitalismo é sofisticado, mas pouco desenvolvido, e com tendências para se generalizar. Esse capitalismo chama-se geralmente de mercantil. O papel nacional, internacional e mundial, do capitalismo já é evidente.
I.
(P. 47) A economia de mercado tem sua própria natureza o papel de ligação entre a produção e o consumo. Antes do séc. XIX, ela é um simples estrato que situa-se entre a vida cotidiana sustentando os processos do capitalismo que, em metade dos casos, a manobram desde cima.
(P. 48) Entre o séc.XV e o séc. XVIII, a região abrangida por essa vida veloz, que é a economia de mercado, aumenta incessantemente.
(P. 49) Em suma, há uma certa economia de mercado, que liga entre si os diferentes mercados do mundo, uma mercadoria que arrasta consigo apenas raras mercadorias e metais preciosos, que já nesta época dão a volta ao mundo.
(P. 50) As trocas têm, em si um papel decisivo, restaurador de equilíbrios, que nivelam, por efeito da concorrência, todos os desníveis, ajustam a oferta e a procura, e que o mercado é um deus oculto e benevolente, “a mão-invisível”, de Adam Smith.
O mercado é uma ligação imperfeita entre a produção e o consumo.
II.
(P. 51) Braudel lança o termo capitalismo em uma época em que nem se reconheceu o direito de cidade. Fez isso pois tinha necessidade de encontrar um termo diferente de economia de mercado para designar atividades bem diversas.
(P. 52) Braudel tem conhecimento de que a designação é ambígua e carregada de anacronismo.
Vejamos, antes de mais nada, que entre os séc.XV e XVIII, há determinados processos que exigem uma designação especial. Se os incluíssemos, pura e simplesmente na economia de mercado, seria quase um absurdo. A palavra que logo nos ocorre é capitalismo.
A melhor razão para utilizarmos a palavra capitalismo, é a de não termos encontrado outra que a substitua.
O maior inconveniente está no fato que essa palavra está carregada de significações que a vida de hoje lhe atribui.
(P. 53) Capitalismo é um termo que data do início do séc. XX, sua verdadeira irrupção dar-se com o aparecimento, em 1902, do conhecido livro de Werner Sombart. Marx praticamente ignorou essa palavra.
Isso nos ameaça com o pior dos pecados, o anacronismo.
Não há capitalismo antes da Revolução Industrial: capital sim, capitalismo não!
Contudo entre o passado e o presente nunca há ruptura total. As experiências do passado prolongam-se incessantemente na vida presente. Com isso muitos historiadores começaram a perceber que a Revolução Industrial se anuncia muito antes do séc. XVIII.
III.
(P. 54) Definir o termo capital e capitalista:
O capital, realidade papável, uma massa de meios facilmente identificáveis e sempre em atividade.
O capitalista, o homem que preside ou tenta presidir aos destinos da inserção do capital, no incessante processo de produção a qual todas as sociedades estão condenadas.
O capitalismo é a forma de conduzir, para fins geralmente pouco altruístas, esse constante jogo de inserções.
A palavra-chave é o capital. Nos estudos dos economistas, esta palavra adquiriu o sentido de bem de capital. Não designa só as acumulações de dinheiro, mas também os resultados utilizáveis e utilizados no trabalho previamente realizado: Uma casa é um capital, o trigo armazenado é um capital.
Mas um bem de capital só merece essa designação quando participa no processo ininterrupto da produção: O tesouro não utilizado, a floresta não explorada, etc, não são capitais neste sentido.
(P. 55) No séc. XV, qualquer modesta aldeia do ocidente possui os seus caminhos, os seus campos limpos de pedras, as suas terras cultivadas, as suas florestas tratadas, os seus pomares, os seus moinhos, as suas reservas de cereais... As economias do Antigo Regime dão-nos uma relação de 1 para 3, ou para 4, entre o produto bruto de um ano de trabalho e o conjunto dos bens de capital. (que designamos, na França por patrimônio).
Cada cidade teria, pois, atrás de si, o equivalente a três ou quatro anos de trabalho acumulado, em reservas, que lhe serviria para fazer progredir a sua produção.
Como poderemos distinguir corretamente capitalismo e economia de mercado?
(P. 56) É possível aceitar duas formas de economia de mercado (A e B).
Na categoria A, encontram-se as trocas cotidianas do mercado, as correntes de tráfico locais ou de pequenas distancias: o trigo e a madeira, encaminhados para a cidade mais próxima, e até os ramos de comércio de mais longo raio de ação, previsíveis, rotineiros e aberto tanto para os pequenos como para os grandes comerciantes.
O mercado de um burgo proporciona-nos um bom exemplo dessas trocas sem surpresas, “transparentes”, com pressupostos e consequências antecipadamente conhecidas por todos e de cujo os lucros, sempre modestos, se pode fazer um cálculo aproximado.
(P. 57) De igual modo o comércio regular, que dá vida aos grandes comboios do trigo Báltico é um comércio transparente. Mas basta interromper a fome no Mediterrâneo, como aconteceu por volta de 1590, para podermos ver mercadorias internacionais, representando grandes clientes, desviar da sua rota habitual barcos inteiros, cuja carga é posta em Livorno ou em Gênova com o preço triplicado. Neste caso a economia A cedeu o passo a economia B.
(P. 58) Esse segundo tipo de economia predomina e traça perante os nossos olhos uma “esfera de circulação” obviamente diferenciada.
Mercados itinerantes, recolhedores, coletores de mercadorias vão procurar os produtores as suas casas. Compram diretamente dos camponeses a lã, o cânhamo, gado vivo, as peles, cevada, trigo, etc, ou compram–lhes esses produtos antecipadamente, a lã antes da tosquia, o trigo quando ainda está na seara.
Depois, encaminham os produtos comprados, por meio de carros, de animais de carga ou por barco, para as grandes cidades e para o cais de exportação.
(P. 59) Este tipo de trocas vem substituir as condições normais do mercado coletivo por transações individuais, cujos termos variam arbitrariamente, de acordo com a situação respectiva dos interessados.
É evidente que se trata de trocas desiguais, em que a concorrência (que é uma lei essencial da chamada economia de mercado) tem um reduzido lugar, e em que o comerciante desfruta de uma dupla vantagem: 1º rompeu as relações entre o produtor e o destinatário último da mercadoria (assim, só ele conhece as condições do mercado nas duas extremidades, e o lucro provável). 2º Dispõe de dinheiro sonante, deste modo, longas cadeias de comércio ligam a produção ao consumo. Quanto mais essas cadeias se estendem, mais escapam às regras e a fiscalização habitual e mais claramente desponta o processo capitalista.
(P. 60) Fernhandel é um domínio da livre iniciativa, opera em distâncias que o mantém ao abrigo dos sistemas normais de controle ou lhe permite contorná-los. Com tão vasta zona de operação é lhe possível escolher, tudo o que permitir maximizar os seus lucros.
Desses grandes lucros provêm acumulações consideráveis de capital, sobretudo porque o comércio a longa distância se concentra num pequeno número de mãos.
(P. 61) Não basta querer para se introduzir nele. O comércio local, pelo contrário, fragmenta-se em múltiplas partes interessadas.
(P. 62) Desde tempos antigos, desde sempre, os capitalistas têm ultrapassado os limites nacionais.
(P. 63) Graças à massa dos seus capitais que os capitalistas conseguem preservar os seus privilégios e reservar para si os grandes negócios internacionais de cada época. Num tempo de transportes muito lentos, o grande comércio impõe grandes prazos à rotação dos capitais: São necessários muitos meses, por vezes anos, para que as somas investidas regressem avolumadas por seus lucros.
(P. 64) O mundo da mercadoria ou da troca encontram-se rigorosamente hierarquizados, desde os ofícios mais humildes, aos caixas, lojistas, corretores, usuários e os negociantes.
À primeira vista surge um fato surpreendente: A especialização, a divisão do trabalho, que se acentua com grande rapidez, paralela aos progressos da economia de mercado, afeta toda a sociedade mercantil, excetuando a sua cúpula, os negociantes capitalistas.
O processo de divisão de função manifestou-se assim, primeiramente e apenas na base. São os ofícios, os lojistas e mesmo os vendedores ambulantes que se especializaram, não o alto da pirâmide, por que até o séc. XIX, o comerciante de grande envergadura nunca se limita, a uma única atividade.
(P. 65) É negociante, mas nunca num só ramo: se perder na cochonilha, ganha nas especiarias; se for malsucedido em uma transação comercial, ganhará jogando com os câmbios ou emprestando dinheiro a um camponês para estabelecer uma renda.
O comerciante não se especializa, porque nenhum ramo de comércio ao seu alcance é suficientemente importante para absorver inteiramente a sua atividade.
(P. 66) Supõe-se que o capitalismo de ontem estava pouco desenvolvido, por falta de capitais, e que lhe foi necessário acumular longamente para depois expandir.
Contudo, o epistolário comercial e as memórias das câmaras de comércio mostram-nos, repetidamente, que há capitais que procuram, em vão, oportunidades de investimento.
Mas é significativo que o capitalismo não se interesse pelo sistema de produção e se contente com controlar, através do sistema de trabalho domiciliário, do putting out, a produção artesanal, para melhor se apoderar da sua comercialização. As manufaturas representarão até o séc.XIX, apenas uma pequena parte da produção.
Se o grande comerciante muda tantas vezes de atividade, é porque o grande lucro muda constantemente de setor. O capitalismo é essencialmente conjuntural. Ainda hoje, uma das suas grandes forças é a facilidade de adaptação e de reconversão.
(P. 67) O capitalismo financeiro só triunfará no séc. XIX, depois de um período que vai de 1830 a 1860, época em que a banca lançará mão a tudo, à indústria e à mercadoria, e em que a economia em geral terá finalmente adquirido vigor para sustentar essa construção.
Ou seja: dois tipos de troca, uma troca terra-a-terra, concorrencial, pela transparência, outra superior, sofisticada, dominante. Não são os mesmos mecanismos, nem os mesmos agentes, que regem estes dois tipos de atividade. Sendo o segundo que constitui a esfera do capitalismo.
(P. 68) Gerschenkron pensa que o verdadeiro capitalismo surgiu da relação de forças que está na base do capitalismo. Que encontra-se em todos os estratos da vida social. Mas é na cúpula da sociedade que o 1º capitalismo se manifesta, que afirma a sua força e se revela aos nossos olhos.
Não se estabelece, normalmente, distinção entre capitalismo e economia de mercado, porque ambos progrediram a par, desde a Idade Média até nossos dias, e porque o capitalismo tem sido frequentemente apresentado como motor do progresso econômico. Na realidade tudo assenta sobre o enorme dorso da vida material.
(P. 69) Acredito que é o movimento de conjunto que é determinante e que toda e qualquer forma de capitalismo existe em função das economias que lhes são subjacentes.
IV.
O capitalismo, privilégio de um pequeno número, é impensável sem uma cumplicidade ativa da sociedade.
É uma realidade de ordem social e até política, ou mesmo uma realidade civilizacional. É lhe necessário, que de certa forma, a sociedade inteira aceite, mais ou menos conscientemente, os seus valores. Mas nem sempre isso acontece.
As sociedades densas decompõem-se em conjuntos de vários tipos: O econômico, o político, o cultural e o social de um ponto de vista hierárquico. O econômico só pode ser compreendido em ligação com os outros conjuntos.
(P. 70) O Estado moderno não fez o capitalismo, mas é seu herdeiro, ora o favorece, ora o desfavorece; ora o deixa expandir-se, ora lhe trava ímpetos. O capitalismo só triunfa quando se identifica com o Estado.
Assim, o Estado é favorável ou é hostil ao mundo do dinheiro, conforme o seu próprio equilíbrio e sua capacidade de resistência.
O mesmo acontece em relação à cultura e à religião. Em princípio, a religião, a força tradicional, diz não as novidades do mercado, do dinheiro, da especulação, da usura. Mas há sempre possibilidade de conciliação com a Igreja.
(P. 71) Chegou-se a sustentar que tais escrúpulos só foram vencidos pela Reforma, sendo essa a razão profunda da ascensão capitalista dos países do Norte da Europa.
Para Max Weber, o capitalismo teria sido uma criação do protestantismo, ou melhor, do puritanismo. E, no entanto, para Braudel essa ideia é falsa.
Os países do norte limitaram-se a tomar o lugar dos velhos centros capitalistas do Mediterrâneo. Não inventaram nada, nem na técnica, nem na condução dos negócios.
Amsterdã copia Veneza, Londres copiará Amsterdã, Nova York copia Londres. O que está em jogo é a deslocação do centro de gravidade da economia mundial.
(P. 72) Este deslocamento, é o triunfo de um país novo sobre um envelhecido.
Enfim, para Braudel o erro de Weber decorre essencialmente do exagero do papel desempenhado pelo capitalismo como artífice do mundo moderno.
O futuro do capitalismo decidiu-se verdadeiramente no campo das hierarquias sociais.
 Toda a sociedade evoluída consente várias hierarquias, várias escadas, digamos, que permitem a saída do rés-do-chão, onde vegeta uma massa de povo básica.
E o Grundvolk de Weber Sombart: temos a hierarquia religiosa, hierarquia política, militar e as diversas hierarquias do dinheiro. Entre umas e outras, conforme as épocas e os locais há oposições, compromissos e alianças e por vezes entre elas confusões.
(P. 73) Ex: No séc.XIII, em Roma, a hierarquia política e a religiosa confundiam-se, enquanto, em redor da cidade, a terra e os rebanhos geram uma classe ameaçadora de novos senhores.
Tanto as sociedades quantos os caminhos para a ambição dos indivíduos e quantos tipos de sucessos.
(P. 74) No ocidente, embora os casos de sucesso de indivíduos isolados não sejam raros, a história repete-nos interminavelmente a mesma lição, que é possível inscrever os triunfos individuais no ativo de famílias, apostadas em fazer aumentar pouco a pouco a sua fortuna e influência.
Podemos utilizar um termo que se impôs tardiamente, a história da burguesia, portadora do processo capitalista, criadora ou usufruidora de uma hierarquia sólida que vai ser a espinha dorsal do capitalismo.
Se prestarmos atenção a essas longas cadeias familiares, à lenta acumulação de patrimônio e de honrarias, a passagem, na Europa, do regime feudal para o regime capitalista torna-se quase compreensível.
Existindo para benefício de famílias senhoriais, o regime feudal é uma forma duradoura de partilha da riqueza imobiliária, riqueza de uma base (uma ordem estável).
(P. 75) Ao longo dos séculos a burguesia terá sugado, parasitamente, essa classe privilegiada, vivendo junto dela, contra ela, aproveitando-se dos seus erros, do seu luxo, da sua ociosidade, da sua imprevidência, para se apoderar dos seus bens, infiltrando-se nas suas fileiras, e assim acabando por dissolver-se nela.
Mas logo outros burgueses estão prontos para voltarem ao assalto, para recomeçar a luta. Em suma parasitismo a longo prazo.
A burguesia não cessa de destruir a classe dominante, para dela se alimentar. E a sua ascensão foi lenta e paciente, com as ambições permanentemente transferidas para os filhos e netos, sucessivamente.
Uma sociedade deste tipo, que deriva de uma sociedade feudal é então, semifeudal, uma sociedade em que o propriedade e os privilégios sociais encontram-se relativamente protegidos, em que as famílias podem desfrutar deles com relativa tranqüilidade, visto que a propriedade é tida como sagrada, e é uma sociedade em que cada qual se mantém mais ou menos em seu lugar.
São necessárias águas sociais como estas, para que a acumulação se dê, para que despontem e se mantenham as linguagens, para que, com o auxílio da economia monetária, o capitalismo acabe finalmente por emergir.
  Nessa emergência, o capitalismo derruba alguns bastiões da alta sociedade, mas reconstrói para si outros, também sólidos e duradouros.
(P. 76) Esses longos processos de gestação de fortunas de família, que conduzem, um belo dia, a triunfos espetaculares se trata efetivamente de uma característica essencial das sociedades do ocidente. Sendo a única região fora do continente que assemelha-se a esses critérios o Japão.
A sociedade ocidental e a sociedade japonesa são os únicos exemplos de sociedades que passaram, quase que por si sós, da ordem feudal para a ordem monetária.
Noutras sociedades, as posições relativas do Estado, dos privilégios do dinheiro são muito diversas.
(P. 77) Vejamos como exemplo a China e o Islã:
(P. 78) O Estado chinês, apesar das cumplicidades locais, que se estabelece entre comerciantes e mandarins corruptos, foi sempre hostil a expansão do capitalismo. Cada vez que este se manifesta é metido na ordem por um Estado de certo modo totalitário.
Nos vastos países do Islã, sobretudo antes do séc. XVIII, a propriedade da terra é provisória, pois pertence ao príncipe. As terras são distribuídas pelo Estado e ficam disponíveis cada vez que seu beneficiário morre. O senhorio e todos os bens regressam a posse do Sultão.
Esses grandes senhores, enquanto exercem a autoridade, podem mudar de sociedade dominante, de elite, como quem muda de camisa e não hesitam em fazer.
(P. 79) A cúpula da sociedade renova-se, pois, com frequência, as famílias não têm possibilidade de nela instalar-se em definitivo. Grandes comerciantes não conseguem manter a sua posição, para além de uma única geração.
A tese de Braudel: há condições de natureza social para a manifestação e para o triunfo do capitalismo. O capitalismo exige que haja uma certa tranquilidade na ordem social, uma neutralidade, ou complacência por parte do Estado. No próprio ocidente, essa complacência tem vários graus.
O capitalismo necessita de uma hierarquia. Mas o que é hierarquia para um historiador que tem visto desfilar à sua frente centenas de sociedades, todas possuindo as suas hierarquias respectivas?
(P. 80) Todas habitadas no topo por um punhado de privilegiados e de responsáveis.
Nesta extensa perspectiva da história, o capitalismo é um visitante de última hora; só chega quando tudo está preparado.
(P. 81) 3º Capitulo: O Tempo do Mundo.
(P. 83) O tempo do mundo sugere, por si, a minha pretensão: vincular o capitalismo, a sua evolução e os seus meios, a uma história geral do mundo.
Este mundo afirma-se sob o signo da desigualdade. Países abastados por um lado e países subdesenvolvidos por outro.
(P. 84) Os países abastados e os países pobres não tem sido imutavelmente os mesmos. O mundo é uma espécie de sociedade, tão hierarquizada como qualquer outra sociedade.
I.
(P. 85) Vamos utilizar duas expressões: economia mundial e economia-mundo.
Por economia mundial entende-se a economia do mundo globalmente considerado.
Por economia-mundo (termo forjado por Braudel), entendo a economia de uma porção do nosso planeta, desde que forme um todo econômico. O mediterrâneo no séc. XVI era por si só uma economia-mundo. “Um mundo em si e para si”.
Uma economia mundo pode definir-se por:
1º ocupa determinado especo geográfico; tem, portanto, limites, que a explicam, e que variam, embora bastante devagar. De tempos a tempos, com longos intervalos, há mesmo inevitáveis rupturas.
(P. 86) 2º uma economia-mundo submete-se a um pólo, a um centro, representado por uma cidade dominante, outrora uma cidade-estado, hoje uma grande capital econômica. Podem coexistir, e até de forma prolongada, dois centros em uma mesma economia-mundo. Mas uma sempre acaba triunfando.
3º Todas as economias–mundo se dividem em zonas sucessivas. Há o coração, isto é a zona que se estende em torno do centro. Depois as zonas intermediarias à volta do eixo central e finalmente, surgem-nos as margens vastíssimas que, na divisão do trabalho que caracteriza uma economia-mundo, mas do que participantes são subordinados e dependentes. Nestas zonas periféricas, a vida doa homens faz lembra o purgatório ou o inferno.
(P. 87) Para Immanuel Wallerstein não existe outra economia-mundo, senão as da Europa, estabelecidas somente a partir do séc. XVI.
Para Fernand Braudel, o mundo tinha se dividido, muito antes de ser totalmente conhecido pelos Europeus, desde a Idade Média até a Antiguidade. Em várias economias-mundo coexistentes.
(P. 88) Estas economias, que coexistem, não tendo entre si senão trocas extremamente limitadas, partilham o espaço habitado do planeta, de um e de outro lado, de regiões limítrofes bastante vastas, que o comércio tem geralmente pouca vantagem em atravessar, salvo raras exceções.
(P. 89) Essas economias, que tão lentamente mudam de forma, revelam uma história profunda do mundo.
Como é que sucessivas economias-mundo, elaboradas na Europa a partir da expansão europeia, explicam, ou não, os jogos do capitalismo e a sua própria expansão. Essas economias-mundo típicas foram matrizes do capitalismo europeu e posteriormente do capitalismo mundial.
II.
(P. 90) Todas as vezes que ocorre um descentramento, dá se inversamente um recentramento, como se uma economia-mundo não pudesse viver sem um centro de gravidade, sem um pólo.
(P. 91) Crises econômicas fortes, abatem o centro antigo, já antes ameaçado, e confirma a emergência do novo centro.
Centramento, descentramento e recentramento parecem estar ligados, em regra, a crises prolongadas da economia geral.
(P. 94) O esplendor, a riqueza, a felicidade de viver, concentram-se no centro da economia-mundo, no seu coração. Ai se evidenciam os preços e os salários elevados, a banca, as mercadorias, as indústrias lucrativas, as agriculturas capitalistas.
(P. 95) Este nível de existência desce um traço, na escala, quando chegamos aos países intermediários, vizinhos do centro. Nestes, há poucos, camponeses livres, poucos homens livres, trocas imperfeitas, organizações bancárias e financeiras incompletas, muitas vezes mantidas do exterior, indústrias relativamente tradicionais.
Quando nos debruçamos sobre as regiões marginais à situação fica inda pior.
(P. 96) Por exemplo: A economia-mundo europeia, em 1650, é a justaposição, a coexistência de sociedades, que vão de uma sociedade já capitalista como a holandesa, até sociedades onde a imprensa a servidão e a escravatura, no fundo da escala.
Esta simultaneidade, este sincronismo, levanta-nos, de novo e ao mesmo tempo, todos os problemas: o capitalismo vive deste escalonamento regular: As zonas exteriores alimentam as zonas médias e sobretudo, as zonas centrais. E o que é o centro, senão a ponte dominante, a superestrutura capitalista de toda a construção?
Como há uma reciprocidade de perspectiva, se o centro depende dos abastecimentos da periferia, esta depende das necessidades do centro, que lhe dita a sua lei.
(P. 97) Daí o peso da afirmação de Immanuel Wallerstein: o capitalismo é uma criação da desigualdade no mundo, para se desenvolver, precisa da conivência da economia internacional. É filho da organização autoritária de um espaço sem dúvida desmedido. Não teria surgido tão vicejantemente[2] num espaço econômico restrito. Talvez nem sequer tivesse surgido sem o recurso ao trabalho servil dos outros.
 Esta tese apresenta uma interpretação bem diversa do habitual modelo em sequência: escravidão, servidão, capitalismo.
Põe em destaque uma simultaneidade, um sincronismo demasiado singular para não ter um vasto alcance. Mas não explica, nem pode explicar tudo.
Pelos menos em relação a um determinado ponto, que penso ser essencial para as origens do capitalismo moderno, isto é, tudo o que passa para além das fronteiras da economia-mundo europeia.
III.
 (P. 98) Note-se que, até por volta de 1750, esses centros dominadores foram sempre cidades. Cidades-estados.
(P. 99) Podemos dizer que Amsterdã, que em meados dos séc.XVIII domina o mundo da economia, foi a última “polis” da história.
Surge Londres, nova soberana, não é uma cidade-estado, é a capital das Ilhas Britânicas, o que lhe dá força de um mercado nacional.
Temos, portanto, duas fases: A das criações e dos domínios urbanos. E a das criações e dos domínios nacionais.
Até 1750, a Europa terá girado sucessivamente em torno de cidades essenciais, que pelo seu papel, se transformam em monstros sagrados: Veneza, Antuérpia, Gênova, Amsterdã.
(P. 103) Uma economia nacional é um espaço político que foi transformado pelo Estado, devido às necessidades e às inovações da vida material, em um espaço econômico coerente, unificado, cujas atividades podem ser desenvolvidas em conjunto numa mesma direção. Só a Inglaterra terá podido realizar tal façanha precocemente.
Nesse país, é costume falar-se em revoluções: revolução agrícola, política, financeira, industrial. Será necessário acrescentar a esta lista a revolução que criou o mercado nacional inglês.
(P. 104) Otto Hintze foi um dos primeiros a subliminar a importância dessa transformação, que se deve à relativa abundância dos meios de transporte, num território bastante pequeno.
As províncias inglesas trocam os seus produtos e exportam-nos por intermédio de Londres, tanto mais que o espaço inglês se libertou muito cedo de alfândegas e de portagens internas. E por último, a Inglaterra efetuou a sua união com a Escócia em 1701, e em 1801, com a Irlanda.
(P. 105) Londres, centro econômico e político desde o séc. XVI. Formou-se rapidamente, modelou o mercado inglês, de acordo com suas conveniências, ou seja, conveniência dos grandes comerciantes da cidade.
(P. 106) A insularidade da Inglaterra ajudou-a a separar-se dos outros, a libertar-se das ingerências do capitalismo estrangeiro.
(P. 107) Com a ascensão de Londres, vira-se mais uma página da história econômica da Europa e do mundo, pois a afirmação da preponderância econômica da Inglaterra, preponderância que abrange a liderança política, marca o fim de uma era multissecular, a das economias dirigidas por cidades e a das economias-mundo.
Pela primeira vez, a economia mundial europeia, atropelando as outras economias, vai pretender dominar a economia mundial e identificar-se com ela.
IV.
(P. 108) A revolução industrial inglesa, foi para a continuação da preponderância da ilha, como um banho de rejuvenescimento, um contrato renovado com o poder.
Pretendo assinalar em que medida a industrialização inglesa segue os esquemas e os modelos que tracei e em que medida ela se integra na história geral do capitalismo, tão rica já em golpes de teatro.
Convém tornar claro que o termo revolução é aqui utilizado em sentido inverso. Revolução é um movimento de uma roda, de um astro que gira, um movimento rápido: desde o movimento em que se inicia, sabemos que vai terminar, bastante depressa.
Ora, a Revolução Industrial foi um movimento lento por excelência e difícil de detectar, no início. O próprio Adam Smith viveu no meio dos primeiros indícios, sem se dar conta.
(P. 111) Por que a Inglaterra?
Existem várias versões inglesas sobre o fato. Mas a tendência é para considerar, cada vez mais, a Revolução Industrial um fenômeno lento e de conjunto, vinculado por causas longínquas e profundas.
O que nos parecerá mais surpreendente é o fato de o boom da Revolução das Maquinas inglesa, da 1º produção em massa, ter podido desenvolver-se, no final do séc. XVIII e para além do séc. XIX, num fantástico crescimento nacional.
(P. 112) Os campos esvaziaram-se da população masculina, na Inglaterra, mantendo, simultaneamente, a sua capacidade de produção. Os novos industriais encontraram a mão-de-obra, qualificada ou não, de que necessitavam. O marcado interno continuou a desenvolver-se, não obstante a alta de preços. A técnica cumpriu o seu papel, prestando regularmente os serviços necessários. Os mercados externos abriram-se, em cadeia, um após o outro. E mesmo os lucros descendentes (como o algodão) não provocaram qualquer crise, pois os capitais acumulados transferiram-se para os caminhos de ferro.
Em suma, todos os setores da economia inglesa corresponderam às exigências dessa súbita aceleração na produção, nada a bloqueou.
(P. 113) A Revolução inglesa não teria certamente sido o que foi se não se verificassem circunstâncias que fizeram, da Inglaterra praticamente a senhora incontestável do mundo inteiro.
A Revolução Francesa e as guerras napoleônicas contribuíram para isso.
E se o boom do algodão se instalou extensa e duradouramente, foi porque a abertura de novos mercados (América, império Turco, as Índias...) permitiu sempre pôr o motor de novo em movimento.
O mundo foi, eficaz e involuntariamente, cúmplice da Revolução Inglesa.
Para essa tese existem: os que aceitam apenas uma explicação interna do capitalismo e da Revolução Industrial pela transformação (local) das estruturas socioeconômicas. E os que aceitam apenas a explicação externa (a exploração imperialista do mundo na verdade).
(P. 114) Não explora o mundo quem quer. É necessário para isso possuir de antemão um poder lentamente amadurecido. Que embora resulte de uma lenta ação sobre si, reforça-se pela exploração dos outros. No decurso desse duplo processo, a distância entre esse poder e os outros aumenta.
As duas explicações (interna e externa) estão inextricavelmente ligadas.
Braudel termina fazendo uma análise: o que penso acerca do mundo e do capitalismo de hoje vistos à luz do mundo e do capitalismo de ontem é: é certo que o capitalismo atual mudou extraordinariamente de envergadura e proporções. Ajustou-se às dimensões das trocas de base e dos meios ampliados. Porém a natureza do capitalismo não mudou radicalmente.
Para provar Braudel apresenta três argumentos:
(P. 115) 1º o capitalismo assenta, ainda, sobre uma exploração dos recursos e das possibilidades internacionais. Existe à escala mundial, ou pelo menos aspira o mundo inteiro. Atualmente, o seu maior problema é refazer esse universalismo.
2º apoia-se ainda e sempre, em monopólios de direito ou de fato, apensar de todas as violências que por essa razão se tem desencadeado contra si. A organização continua a conseguir contornar o mercado. E não é justo considerar esse fato como algo absolutamente novo.
3º apesar do que geralmente se diz, o capitalismo não abarca toda a economia, toda a sociedade em atividade. Não consegue encerrar nem uma, nem outra, num sistema, o seu, que seria perfeito.
(P. 116) Tudo isso confirma a opinião de Braudel:
O capitalismo decorre das atividades orgânicas de cúpula, ou que tendem para a cúpula. E este capitalismo de grande fôlego paira sobre uma dupla camada subjacente, constituída pela vida material e pela economia corrente de mercado e representa uma faixa de lucro elevado.
Bibliografia:
BRAUDEL; Fernand: “A Dinâmica da Capitalismo”. Ed. Teorema, Lisboa 1985, (pág 12-116).

[1] Mudança ou diversidade de coisas que se sucedem; instabilidade das coisas.
[2] Vicejantemente: Exuberantemente