domingo, 1 de abril de 2018

Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior. 17º capítulo



Cap. 17: Vida Social e Política.
(P.341) Observaremos agora os diferentes aspectos desse aglomerado heterogêneo de raças que a colonização reuniu aqui com o único objetivo de realizar uma vasta empresa comercial.
Três raças díspares, duas semibárbaras arrebatadas à força e incorporadas através da violência. E como era de se esperar, estas raças mal se unem, não formam um todo coeso, mas justapõe-se uns aos outros constituindo uma unidade de grupos incoerentes e que apenas coexistem.
(P.342) Existem dois setores da vida colonial, o que representa o trabalho escravo e o trabalho livre. O núcleo central é a escravidão, o trabalho livre é secundário, disperso e incoerente.
A escravidão desempenha duas funções: a do trabalho e a sexual. Ambas meramente esforços físicos, animais, sem nenhuma tentativa de elevar o espírito do escravo.
(P.344) Em sema, a escravidão e as relações que dela derivam serão o único setor organizado da sociedade colonial.
No trabalho livre reina a desorganização, pessoas que vivem à margem do sistema escravista, entregues a vadiagem a violência e a caboclização.
(P.345) Esta estrutura social não é coesa e manteve-se graças a inércia de seu povo.
(P.346) A uniformidade da língua, do culto e da cultura serviu posteriormente para a formação do Brasil como nação e lhe proporcionou a unidade nacional já realizada na geografia e na tradição, mas só foi utilizada posteriormente em oposição a metrópole, não sendo importante no período colonial.
Toda sociedade, segundo Caio Prado fundamenta-se em dois instintos primários do homem: o econômico e o sexual.
(P.347) O econômico do Brasil é, como já vimos, fundamentado no trabalho forçado, sendo o homem livre em geral voltado para o ócio, não gostando de trabalhar. O autor atribui isso ao sangue indígena e a falta de perspectiva de crescimento do indivíduo na colônia. Em geral o que caracteriza a colônia é a inércia. Produzia-se o necessário apenas para não se morrer de fome.
(P.350) Já o impulso sexual é marcado pelo desregramento. Isso se dá pelo fato do povoamento da colônia ser majoritariamente masculina. Tudo aqui parece se constituir para inibir a formação de família em bases sólidas e estáveis. A Casa Grande figurava aparentemente como um bastião da família patriarcal tradicional assentada em bases sólidas, contudo o ambiente de escravidão e submissão das mulheres propiciavam as relações sexuais irregradas e descaradas.
(P.352) Havia em toda colônia um ambiente de indisciplina sexual. E fora as classes superiores, o casamento era algo excepcional. Estrangeiros que vinham ao Brasil espantavam-se com a libertinagem, a elasticidade dos costumes e o desgarramento do povo para com a religião.
(P.356) Sintetizando o panorama da sociedade colonial: incoerência e instabilidade de povoamento, pobreza e miséria econômica, dissolução nos costumes, inércia e corrupção dos dirigentes leigos e eclesiásticos.
A colonização produziu seus frutos quando reuniu nesse território imenso e quase deserto, em 300 anos de esforço, uma população catada em três continentes, e com ela formou, bem ou mal, um conjunto social inconfundível.
(P.360) Durante esses 300 anos o sistema colonial cumpriu seu papel de produzir para exportar. Enquanto a sociedade possuía apenas duas classes (senhores e escravos) tudo a bem, mas logo surgiu uma nova classe que não era nem escravo e nem senhor. Esta nova classe cresceu exponencialmente e o sistema escravista começa ai sua longa jornada rumo ao fim.
(P.362) O Brasil nunca foi um empreendimento de nação, mas um projeto do rei, foi o monarca e sua administração quem organizou a colonização e a exploração das colônias, assim os lucros não beneficiavam todo o reino, mas apenas o monarca e sua corte. O Brasil nada mais era que um negócio do rei.
Sendo assim, mesmo com a crise do Sistema Colonial tornando-se tão aparente, o reino português nada fez para conte a ruptura que se aproximava. E que incendiou-se com a Independência dos EUA.
(P.365) Aos poucos o sistema colonial, graças as suas contradições, vai entrando em crise. Da sociedade brotam conflitos que levam a necessidade de um novo sistema para a substituição do anterior. Entre as contradições podemos destacar: o conflito entre proprietários de terras e os comerciantes, a luta entre raças e o preconceito contra a pele escura (uma vez que estes representavam a maioria da população), a condição do escravo e sua resistência marcada por fugas e formações de quilombos.
(P.368) A estas situações gerais somam-se assuntos mais específico como o fisco, os processos empregados nos recrutamentos, a mesquinha política econômica da metrópole, o despotismo dos capitães gerais, etc. Estes parecem ser os reais fatores da crise, mas em geral serviam apenas de pretexto para atitudes extremadas e revolucionárias dos colonos.
(P.370) O grande acontecimento que marca o fim desse sistema é a chegada da família real em 1808. Neste fato histórico vemos que as contradições que já eram latentes põem em xeque toda a estrutura colonial.
(P.371) Neste momento confuso e incoerente de nossa história, há a única instituição coerente que é a maçonaria. Organização de muita influência na história do Brasil. Podemos dizer que existem dois níveis políticos no Brasil. Um superficial que observamos e outro subterrâneo onde estes grupos se encontram e decidem o futuro do país, agindo como uma filial de um grupo de ramificações internacionais.
(P.372) Os principais políticos deste período são maçons e até o próprio imperador é maçom, ao que tudo indica há um grupo de indivíduos controlando a política brasileira por detrás dos bastidores.
(P.373) Este interesse maçônico na América Latina se dá em um momento de luta contra as monarquias europeias. Os maçons instalam-se nas colônias para enfraquece a Coroa portuguesa e espanhola. Mas em geral os maçons brasileiros não agiam como maçons, mas como brasileiros, vendo nesta seita uma forma de organização.
(P.374) Além das organizações secretas há a intromissão dos franceses e ingleses secretamente no Brasil, cada qual tentando defender seus interesses.
(P.375) Outro setor que liga a política brasileira ao movimento internacional é a ideologia que se adota. Como não conseguimos forjá-la nós mesmos, fomos em buscar no pensamento francês do século XVIII nossa ideologia.
Fonte: PRADO JÚNIOR, Caio: Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo. Ed Brasiliense. 7ª reimpressão, da 23ª edição de 1994. Pág 341-375.

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