terça-feira, 10 de julho de 2018

Empiristas dos séculos XVII e XVIII



(P.181) Cap. 09: Gelo quente e fogo frio.
(P.182) “Em geral, os erros em religião são perigosos; enquanto que os erros em filosofia são apenas ridículos” David Hume.
(P.183) O Gênio escapou.
Apesar de suas diferenças, Descartes, Spinoza e Leibniz eram racionalistas. Acreditavam que a razão fosse o alicerce de todo conhecimento possível. E que a mente humana era capaz de comprovar a existência objetiva do mundo, desde que não fosse ludibriado pelos sentidos.
Nos séculos XVII e XVIII porém uma série de filósofos questionaram esse entusiasmo racionalista e traçaram limites para o conhecimento humano com doses variadas de ceticismo.
(P.184) John Locke (1632-1704): diferente de Descartes e sua doutrina platônica de ideias inatas, para Locke todas as informações que dispomos chegam até nós de forma empírica[1], através de nosso conhecimento de mundo. É assim que formamos o nosso conhecimento (arquivando de tudo o que sabemos do mundo) e nosso entendimento (forma como articulamos aquilo que conhecemos).
O filósofo inglês é o pai do empirismo, doutrina que defende que a base do conhecimento é a experiência e não a razão pura. “A cera pode derreter, mudar de forma e queimar nossos dedos, mas ela é tudo o que nós temos”. A experiência não nos revela sempre a plenitude da verdade, mas ela é tudo o que temos.
 (P.185) Além disso, Locke foi o primeiro pensador a formular o problema da identidade pessoal na filosofia moderna. Locke perguntava-se “o que faz com que uma pessoa siga sendo a mesma ao longo do tempo?” Aquela criança que fazia traquinagem é o mesmo adulto de hoje? Para responder a essa pergunta, Locke diferencia ser humano de pessoa. Ser humano é o animal humano e dura enquanto o corpo durar. Pessoa é um ser pensante e inteligente é o que garante que eu sou hoje o mesmo de três décadas atrás, por isso minhas memórias que me ligam ao passado é a memória que define a minha identidade.
(P.186) Thomas Reid (1710-1796): discorda dessa importância exagerada à memória na formação da identidade pessoal. Nos esquecemos de muitas coisas que passamos, assim as lembranças não podem ser critério de identidade.
Mas defendendo Locke, podemos entender que apesar de não nos lembrarmos efetivamente de muitas coisas, mas a personalidade pessoal talvez seja como uma corrente cujos elos são as memórias interligadas, onde vários elos mnemônicos ligam o que éramos ao que somos.
(P.187) A Árvore que só Deus vê.
O irlandês George Berkeley (1685-1753) acreditava que todo conhecimento vem dos sentidos (era um empirista). Locke e Descartes acreditavam no dualismo de que mente e matéria eram duas coisas separadas. Para Berkeley este tipo de divisão era algo supérfluo.
(P.188) Para ele tudo o que conhecemos é o que os nossos sentidos mostraram (cheiros, ruídos, cores, etc), mas nada em nossas percepções garante que haja substância física por trás dessas percepções. Assim, a existência de coisas materiais depende de nossas percepções, sabemos que existe uma ideia de mesa, por exemplo, e ideia não pode existir fora de nossa mente. Logo, podemos afirmar apenas a existência de duas coisas: nossa própria mente e as ideias que fazemos do mundo.
(P.189) Ou seja, até onde sabemos, as coisas externas só existem no momento em que alguém as vê, toca, sente e escuta. “Existir é ser percebido”.
Se é assim como é possível que as cosas tenham uma existência contínua? Se uma árvore só existe enquanto é percebida o que acontece quando ninguém está olhando? Berkeley responde o mundo externo só existe porque a mente de Deus o percebe continuamente. Para ele esse é o argumento definitivo para a existência de um ser divino, sem Deus o mundo existiria em saltos e intervalos aparecendo e desaparecendo quando observado. O Deus de Berkeley é um Deus onipotente.
Os gostos das maças.
David Hume (1711-1776) aplicou o mesmo raciocínio de Berkeley à consciência individual. Sua obra é o ápice do ceticismo. As ideias de Hume nos levam a um beco sem saída onde apenas escapamos se andarmos para trás (transcendendo o beco, como faz Kant).
(P.190) Segundo Berkeley, nada nos garante que haja um objeto real por trás das impressões dos sentidos; Hume afirma que tampouco podemos ter certeza de que exista uma mente realizando e unificando as percepções.
Nada em nossas experiências garante que o cogito, ergo sum de Descartes esteja certo. O máximo que podemos dizer, de forma totalmente empírica é “existem pensamentos” ou “algo pensa”. Concluir que esse seja eu seria um salto de fé.
Além da identidade pessoal, Hume questionou outros dois pilares do conhecimento humano: o raciocínio indutivo e a noções de causalidade
Indução: forma de raciocínio que vai do particular ao geral, pela observação de uma determinada regularidade nos acontecimentos do mundo. Ex: comi uma maçã na segunda, na terça, na quarta e na quinta e todas tinham um sabor entre o doce e o azedo. Na sexta estou com uma maçã na mão e mesmo sem mordê-la tenho quase certeza de que ela possuí o mesmo sabor. A maçã de hoje pode estar bichada, podre, mas tenho certeza de que ela nunca terá, por exemplo, sabor de carne, bacon, plástico, etc.
A causalidade: é o agente que liga dois processos, sendo um a causa e outro o efeito, em que o primeiro é entendido como sendo, ao menos em parte, responsável pela existência do segundo, de tal modo que o segundo é dependente do primeiro.
(P. 191) O mesmo tipo de raciocínio – indutivo – governa todas as nossas expectativas sobre o futuro. Para Hume a indução não é racional, pois todos os fatos no qual ela se baseia aconteceram no passado; e não temos garantia alguma de que o futuro será igual.
Fonte:
BOTELHO, José Francisco. Uma Breve História da Filosofia: São Paulo. Abril. 2015. P.181-191

[1] Empírico é um fato que se apoia somente em experiências vividas, na observação de coisas, e não em teorias e métodos científicos. Empírico é aquele conhecimento adquirido durante toda a vida, no dia-a-dia, que não tem comprovação científica nenhuma.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

O Deus de Spinoza


(P.165) Cap. 08: Sob o olhar da eternidade.
(P.166) “Apenas Deus existe; e além de Deus, nada pode ser concebido” Spinoza.
(P.167) Todo mundo é um capítulo.
(P.168) Baruch Spinoza (1632-1677), descendente de judeus portugueses que chegaram aos Países Baixos no século XVII. Gentil, dócil e delicado, Spinoza desde criança apresentava habilidades intelectuais fora do comum. Em sua comunidade judaica todos acreditavam que seria o próximo líder espiritual. Lia dos clássicos, mas dedicava-se mesmo ao estudo de Descartes. Aos 23 anos foi excomungado do judaísmo por opiniões tidas como heréticas, sendo obrigado a se exilar. Despertou admiradores por toda Europa até que morreu em 1677.
(P.172) O Deus de Spinoza.
Spinoza sempre foi acusado de ser ateu, o que é uma ironia já que sua obra é dominada pela ideia de Deus.
No cerne de seu pensamento, está o intuito de adequar o mundo determinista de Descartes a um ideal de vida ético, reverente e piedoso.
(P.173) Spinoza tinha como objetivo traçar um plano filosófico para a máxima felicidade humana neste mundo; mas antes queria elaborar uma cartografia do universo, buscando a chave essencial para decifrar tudo o que existe.
Os pré-socráticos buscavam a physis[1] do universo. Spinoza também e para ele o elemento constitutivo do universo era Deus ou a Natureza.
(P.174) No monoteísmo Deus e o mundo existem de forma separada, onde Deus criou e Deus controla o mundo. Para o ateísmo o mundo existe sem um Deus. Para Spinoza Deus existe dentro do universo.
O Deus de Spinoza não é um monarca arbitrário que em algum lugar do cosmos dita todos os acontecimentos terrenos ao sabor de suas oscilações de humor. (P.175) Para ele os acontecimentos do universo são estritamente lógicos e racionais. Deus não poderia diferente do que é, e nem criar um universo diferente do que existe.
Segundo a bíblia, Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Para Spinoza, Deus não é uma pessoa, nem tem o sexo masculino. O ser humano tende a acreditar que universo existe em seu proveito. “Se um triângulo pudesse falar diria que Deus tem a forma de um triângulo”. Para Spinoza o universo apenas existe e pronto. (P.176) Spinoza diz que ao adorarmos um Deus antropomórfico, estamos adorando a nós mesmos, pois cada cultura cria um deus a sua imagem. O Deus de Spinoza não exige oração, não é bom nem mau. Ele é simplesmente tão grandioso que não faz diferença. Deus seria como a relação entre você e uma célula do seu corpo. Esse Deus impessoal e monstruosamente infinito causou furor entre seus contemporâneos.
O tempo e a eternidade.
Segundo filósofos cristãos como Santo Agostinho, a criação do mundo ocorreu em algum momento específico do passado. O que levantava uma série de perguntas: se nada existia, também não existia o tempo? Deus criou o tempo junto com o universo? O que Deus fazia antes de criar o universo?
(P.177) Para Spinoza a angustia humana decorre de sua limitada visão das coisas. Não percebemos a totalidade do universo e por isso somos dominados por emoções confusas que Spinoza chama de afetos e paixões – entre elas o medo, a esperança e o remorso. O antídoto contra essas mazelas é a compreensão racional do mundo. Sábio é aquele que percebe a ilusão do tempo e passa a contemplar o mundo com os olhos de Deus.
Descartes dizia que a matéria é pré-determinada, mas a mente é livre. Isso criava um paradoxo pois, com minha mente eu influencio a matéria. Ex: jogar uma xícara na parede.
(P.178) Spinoza conclui que nossa mente é tão pré-determinada quanto a matéria. Tentar driblar o determinismo é ilusão. Ex: se ao invés de jogar a xícara eu colocar ela no lugar, já estava tudo pré-determinado.
A ideia de um universo pré-determinado pode ser assustadora. Mas o objetivo de Spinoza não era multiplicar a angústia, mas curá-la. Se tudo é necessário, nosso sofrimento é apenas uma questão de perspectiva. Como um quadro que ao olharmos de perto percebemos apenas borrões, mas ao olhar de longe contemplamos sua beleza.
(P.179) Gottfried Leibnitz defendia o múltiplo. Para ele Deus não imaginou apenas um, mas infinitos universos possíveis – todos eles, de acordo com as leis da lógica. Dentre esses mundos, Deus escolhei o melhor, portanto viveríamos no melhor dos mundos possíveis. Apesar de todo mal existente, em geral a soma dos bens é superior a soma dos males. O deus de Leibnitz é um ser pessoal que criou o universo em algum momento do tempo.

Fonte: 
BOTELHO, José Francisco. Uma Breve História da Filosofia: São Paulo. Abril. 2015. P.165-179

[1] O elemento primordial constitutivo de todas as coisas.

domingo, 8 de julho de 2018

Introdução ao pensamento de Descartes


(P.151) Cap. 07: O demônio de Decartes
(P.152) “Penso, logo existo” Descartes.
(P.153) O cético preguiçoso.
René Descartes (1596-1650) viveu em um período de crescente ceticismo onde as certezas da tradição escolástica eram postas em xeque.
(P.154) Descartes percebeu que para cada povo, cada religião, cada escola filosófica, a verdade tinha uma cara distinta. O solo do pensamento humano parecia feito em areia movediça – assim, como avançar em um caminho tão instável?
(P.155) Encontrou a resposta durante um sonho em 1619. Sonhou com duas cidades, primeiro uma totalmente assimétrica, construída por múltiplas mãos ao longo de séculos, onde os escombros do passado impediam que os futuros edifícios se aprumassem direito. A segunda cidade, ao contrário, havia sido planejada por um único arquiteto. Era planejada, limpa, perfeita, sublime, racional.
Descartes convenceu-se de que o mesmo acontecia com a inteligência humana. Antes de erguer o edifício do conhecimento seria necessário limpar o terreno.
(P.156) A partir desse raciocínio surge o método cartesiano: que consiste em duvidar de tudo o que possa ser duvidado. Descartes queria usar a dúvida como uma espécie de filtro para limpar as impurezas do pensamento e assim chegar a verdade.
(P.157) A dúvida hiperbólica.
Descartes começa por identificar as crenças elementares que dão base à nossa visão de mundo – crenças que em nosso dia a dia tomamos como inquestionáveis. Chamadas de necessidades epistemológicas, essas ideias servem para fundamentar o nosso conhecimento de mundo.
O próximo passo é demonstrar que essas bases talvez sejam feitas de barro. Pois, quem garante que a realidade não é uma ilusão, uma vez que meus sentidos podem ser facilmente enganados?
(P.158) Argumento onírico: quando sonhamos tudo nos parece real e não percebemos que estamos sonhando. Portanto, quem me garante que o universo que me cerca não seja uma ilusão criada por um demônio com o objetivo de me ludibriar?
(P.159) O mundo cartesiano.
Descartes mergulha no abismo da dúvida porque desejava sair de lá com certezas sólidas e purificadas.
(P.160) Eis que Descartes resolve sua charada: por mais ardiloso que seja o demônio, ele não poderia me enganar se eu não existisse. Ao pensar que tudo é falso eu não posso negar que estou pensando, se penso, logo existo.
No momento em que duvido de minha própria existência, eu estou comprovando-a, pois se não existisse não poderia duvidar de coisa alguma.
A partir dessa verdade indubitável, Maquiavel parte em busca de outras verdades. Por exemplo, com o penso, logo existo sei de minha existência, mas como posso provar a existência do universo? Maquiavel recorre ao argumento ontológico de Santo Anselmo, onde sem Deus não poderíamos entender o conceito de perfeição, e como Deus é bom criou o universo e não no engana.
(P.161) Com base nestas certezas objetivas, conquistada por meio da dúvida sistemática, Descartes passa então a reconstruir o edifício do conhecimento pelas etapas graduais da razão.
Bom, sabemos que nosso corpo e o universo existem e que essa certeza não veio do mundo físico, mas do pensamento. A partir disso Descartes conclui que existe uma diferença fundamental entre o mundo da matéria e o mundo da mente.
Minha mente é parte essencial de mim mesmo, eu não posso imaginar minha existência sem meus pensamentos. Mas eu posso imaginar uma mente sem olhos, boca, pernas, braços, pele, etc. Sou necessariamente uma coisa que pensa, mas sou apenas acidentalmente um corpo. Assim, Descartes separa o pensamento da matéria. Para ele o mundo físico é determinista ou pré-determinado por eventos anteriores (não há liberdade), apenas há liberdade no mundo da mente.
(P.162) O conhecimento que vem da matéria, por meio dos sentidos, é confuso e inseguro, para ele, só podemos alcançar a essência das coisas por meio da reflexão pura.
Para conhecermos o universo, Descartes busca ideias inatas e intrínsecas da mente humana: o tempo, o movimento, a extensão. A partir disso nos apresenta em seu livro Meditações Metafísicas, o exemplo da cera de abelha que em temperatura ambiente se apresenta de uma forma aos nossos sentidos e em contato com o calor de outra. Assim, para não sermos enganados devemos abstrair todas as conclusões secundárias e analisar a cera a partir de nossas ideias inatas. A cera é uma coisa extensa, flexível e móvel. Dessa maneira, abstraímos as confusões criadas pelos sentidos e compreendemos a cera por meio da razão.
Assim como Platão, Descartes nos conduz por meio da dúvida sistemática às ideias eternas. Com o enigma cético resolvido é possível conhecermos objetivamente o universo, assim como a nós mesmos.
 Fonte:
BOTELHO, José Francisco. Uma Breve História da Filosofia: São Paulo. Abril. 2015. P.151-164

terça-feira, 1 de maio de 2018

Introdução a Filosofia Medieval: Fé X Razão

(P.135) Cap. 06: O Labirinto de Deus.
(P.136) “Senhor, dai-me a castidade – mas não agora” Santo Agostinho.
(P.137) O nascimento de Deus.
Na história da filosofia antiga, há um subenredo oculto, como podemos perceber, os filósofos gregos sempre buscaram o elemento formador do universo. Estavam quase desenvolvendo um monoteísmo filosófico. Aristóteles que em sua metafísica apresenta o ser supremo é um bom exemplo.
Com a ascensão do cristianismo entre os anos 1 e 3 d.C o Deus dos filósofos foi fundido com a divindade das tribos de Israel. O triunfo do cristianismo acarretou novos desafios intelectuais a filosofia: unir Razão e Fé. É essa linha de pensamento que vai atravessar toda Idade Média.
Nos primeiros anos do cristianismo, os chamados pais da Igreja (filosofia patrística) utilizaram-se do pensamento platônico, mas ele não respondia tudo.
 (P.138) Um dos principais problemas dos filósofos cristãos era o problema do mal – típico do monoteísmo.
Os deuses gregos possuíam todos os defeitos e qualidades dos humanos. Além disso, segundo a mitologia, eles não haviam criado o universo, mas surgidos do caos de forma misteriosa. Já as divindades monoteístas são infinitamente boas, criaram todo o universo e possuem poderes ilimitados. Daí surge um problema: se o Criador do mundo é onipotente, onisciente, onipresente e benéfico por que existe o mal?
Lactâncio (250-325 d.C): teólogo de uma província romana do norte da África, acreditava que Deus permite que o demônio atormente o homem para testar seu livre arbítrio, caso contrário a criação seria um tédio. O problema desta teoria é que ela se aproximava do maniqueísmo – religião persa que acreditava ser o universo um terreno de combate entre duas entidades igualmente poderosas (uma boa e outra má). Para o cristianismo isso era inaceitável, segundo a teoria de Lactâncio o diabo seria quase tão poderoso quanto Deus.
(P.139) Santo Agostinho (354-430): nascido em uma província romana do norte da África (Numídia). Após uma vida de muita bebedeira, mulheres e boêmia, conheceu o neoplatonismo (um platonismo místico próximo do cristianismo).
(P.140) Grande conhecedor do pensamento clássico, ao longo de sua vida, esforçou-se por justificar ou explicar racionalmente as verdades reveladas pela fé.
Sua principal obra “Cidade de Deus”, descreve um drama onde os capítulos são séculos e os personagens gerações, além de haver uma separação entre a cidade mundana e a cidade de Deus. O livro trabalha com a ascensão do cristianismo.
Para explicar o problema da existência do mal, usemos um silogismo: Deus criou todas as coisas, o mal é uma coisa; logo Deus criou o mal”. Para negar essa ideia Santo Agostinho usa de uma jogada lógica – “nega que o mal seja uma coisa”.
(P.141) Assim, tudo o que Deus criou é essencialmente bom, mas as criaturas não podem ser tão boas quanto o seu criador. Dessa forma, o mal é apenas a ausência do bem, como um buraco na parede o mal é um espaço vazio na bondade.
A consolação da filosofia.
Santo Agostinho, e outros pais da igreja anexaram e absorveram rapidamente as ideias de Platão. Já o caminho de Aristóteles foi mais acidentado. Na Europa ocidental a maioria dos textos de Aristóteles se perdeu no fim da Antiguidade.
Boécio (480-524): foi um dos grandes heróis do pensamento ao traduzir toda obra de Aristóteles do grego para o Latim.
Após terminar o Organon, por motivos obscuros foi jogado numa cela de prisão e condenado a morte. Preso escreveu A Consolação da Filosofia. Neste livro ele conta que enquanto estava preso recebeu a visita de uma bela mulher (filosofia) que vem repreender as lamúrias de Boécio. É insensatez reclamar da sorte e depositar a felicidade em coisas instáveis. A verdadeira felicidade está na mente. O sábio consegue ser feliz mesmo à espera da morte.
(P.144) Deus não é uma ilha.
O esforço em adequar Fé e Razão deu origem a um dos principais exercícios intelectuais da Idade Média: a elaboração de demonstrações lógicas da existência divina.
Santo Anselmo (1033-1099): afirmava que a existência de Deus no pensamento humano é a prova de que ele existe na realidade. É o chamado pensamento ontológico.
(P.146) Deus não é um número.
São Tomás de Aquino (1225-1274) foi um dos maiores intelectuais da Idade Média, que em seu livro Suma Teológica elabora cinco provas alternativas para a existência de Deus.
O principal argumento define Deus como um “ser necessário”, para que seres contingentes[1].
(P.147) Os nomes das coisas.
A tentativa de justificar os dogmas por meio da razão esgotou-se no século XIV.
Guilherme de Ockham (1300-1349) rejeitou todos os argumentos clássicos sobre a existência de Deus e afirmou que apenas a fé pode garantir a veracidade da religião. Ockham elaborou um princípio de economia de pensamento, a famosa navalha de Ockham.
(P.148) Platão afirmou que as ideias existem separadas das coisas. Aristóteles sustentava que as ideias existem nas próprias coisas. Ou seja, ambos acreditavam que a realidade objetiva estava além da mente humana. Eram realistas.
Ockham negou tudo isso. As ideias de pedra, árvore e estrela são apenas formulações da minha mente, convenções necessárias para que eu pense sobre o mundo, nada além de nomes. Seu pensamento ficou conhecido como nominalismo.
O debate entre realistas e nominalistas foi uma das grandes polêmicas da escolástica, durando até o Renascimento.
Fonte:
BOTELHO, José Francisco. Uma Breve História da Filosofia: São Paulo. Abril. 2015. P.135-150

[1] Na filosofia chamam-se de contingentes os acontecimentos que ocorrem de maneira inesperada, ou seja, contingentemente – de modo casual. 

sábado, 14 de abril de 2018

Uma Breve História da Filosofia Cap. 05


(P.119) Cap. 05: O Outono da Filosofia Antiga.
(P.120) “Mais vale dormir tranquilo sobre um lito de palha do que ficar insone e atormentado sobre um trono de ouro” Epicuro.
(P.121) Cínico, cético, epicuristas, estoicos.
Estamos no período helenístico entre a morte de Alexandre e a anexação da península grega por Roma. O corpo da Grécia estava quebrado e moído, em nada mais lembrava os áureos tempos, mas a cultura grega se espalhou por boa parte do mundo. A Grécia havia cativado Roma.
(P.122) Era época de angústia e desilusões e os filósofos desta época preocuparam-se mais em encontrar paliativos para as feridas humanas.
O cão.
Diógenes (400 – 325 a.C) apesar de contemporâneo de Platão e Aristóteles não partilhava do otimismo destes em relação ao mundo e ao conhecimento.
(P.123) Diógenes afirmava que todas as convenções humanas são tolices sem sentido e esforçou-se por contrariá-las. Seu principal passatempo era insultar e contrariar outros filósofos. Por seu computador recebeu o apelido de o Cão ou Cínico do grego Kynikos (canino).
(P.124) Sus filosofia era simples: o universo humano é essencialmente mau – o sábio deve, portanto, proclamar sua independência em relação ao mundo que o cerca. As posses são coisas sem importância. O acaso decide quem será rico e quem será pobre. O único valor estável da vida humana é a virtude individual. O cinismo era uma doutrina de autossuficiência: o ser humano deve contentar-se consigo mesmo e não exigir nada do universo.
O ceticismo clássico.
Pirro (365-275 a.C) foi um dos filósofos que acompanhou Alexandre em suas conquistas pelo oriente. Lá conheceu a doutrina dos gimnosofistas (ascetas indianos) que demonstravam total indiferença pelo mundo.
(P.125) De volta à Grécia, Pirro passou a defender a ideia de que o universo é, em sua essência, incompreensível, já que estamos fadados a ignorância, devemos nos resignar à dúvida eterna e assim extinguir a angustia do conhecimento absoluto.
Esse era o caminho para a ataraxia (imperturbável tranquilidade do espírito), o maior bem que o ser humano pode alcançar sobre a Terra. Esta corrente ficou conhecida como ceticismo, seus maiores expoentes eram Tímon (discípulo de Pirro) e Sexto Empírico.
De acordo com o ceticismo clássico, o mundo divide-se entre Realidade e Aparências. E o ser humano, por limitações naturais, só tem acesso às aparências.
Os fenômenos – ou seja, as formas como todas as coisas aparecem à percepção humana – são tudo o que podemos conhecer. Devemos, portanto nos resignar à superfície das coisas – pois, além delas, nada poder ser verificado nem afirmado com certeza.
Qualquer afirmação que tente ir além do mundo dos fenômenos é um dogma – ou seja, uma crença sem evidências. Contudo, os céticos também criticavam a negação absoluta.
A posição do ceticismo clássico fica clara quando aplicada a uma questão que continua atual: a existência de Deus. À primeira vista existem duas respostas a esta inquietação.
Deus Existe – Deus não existe.
(P.126) Para o cético pirrônico ambos os dogmas são igualmente plausíveis e igualmente inverificáveis.
Para os céticos o ateísmo é uma afirmação absoluta sobre um tema que vai além das aparências – logo é tão dogmático quanto a religião. A resposta de um cético seria: não sei se Deus existe, e as respostas 1 e 2 se equivalem.
O ceticismo clássico afirma que devemos viver da melhor maneira possível neste mundo de aparências, aceitando toda superficialidade deste mundo.
(P.127) Contudo, os céticos diferentes dos cínicos – que desprezavam o mundo – acreditavam na necessidade de entender e investigar esse mundo de aparências, pois ele nos fornece uma boa quantidade de material para reflexão; é bem verdade que a investigação cética é, por definição interminável, pois jamais levará a uma conclusão absoluta.
Epicuristas e estoicos.
A busca por serenidade também norteou as reflexões de Epicuro (341-270 a.C). Nascido em Samos, foi morar em Atenas onde comprou uma casa e começou a ensinar filosofia.
Admitia mulheres, recebia escravos e prostitutas e toda essa liberdade gerou boatos super bem-sucedidos criados por escolas rivais.
(P.128) Epicuro afirmava que o prazer é a fonte de todo o bem, mas que a busca pelo prazer excessivo geralmente levava ao sofrimento. Sua doutrina pregava a autonomia humana e a apreciação máxima das pequenas alegrias da vida.
Epicuro era seguidor de Leucipo e Demócrito, filósofos atomistas que acreditavam que tudo era formado por átomos e que nada existe no cosmos além da matéria. Portanto, Epicuro era materialista.
Na teoria epicurista o materialismo era visto como um antídoto contra a angústia humana. Se a alma se extingue com o corpo, por que deveríamos temer a morte? “A morte não é nada para nó, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte não existimos mais”.
(P.129) Apesar de materialista, Epicuro não rejeitava a existência dos deuses. Contudo, ele acreditava que eles eram seres materiais, dotados de poderes e virtudes perfeitas que habitavam regiões isoladas do cosmos. Esses deuses não interferiam em nossas vidas, pois nem saberiam de nossa existência, sendo assim, venera-los seria tolice.
Na doutrina epicurista, a busca do prazer deve guiar a conduta humana – mas o mais prazer é a ausência de sofrimento ou aponia. O sábio deve renunciar aos prazeres exagerados, que muitas vezes se transformam em fontes de aflição.
O porre de hoje é a ressaca de amanhã. O amor se transforma em angustia na falta do amante – Epicuro receita a amizade.
Além disso, a busca pelo prazer não deve se transformar em um medo exagerado do sofrimento: lamentar nosso destino equivale a multiplicá-lo. Há dores que são invitáveis e o sábio deve aceitá-las
(P.130) Zenão de Cício (324-264 a.C), chegou a Atenas onde divulgava suas teorias em praça pública. Sua filosofia ficou conhecida como estoicismo.
Como Epicuro, os estoicos acreditavam em um universo plenamente corpóreo; o espírito humano seria tão material quanto os braços e as unhas. Havia, contudo, uma diferença crucial entre o estoicismo e o epicurismo. (P.131) O universo de Epicuro pressupõe a existência do acaso: os átomos se movem e se comportam segundo leis universais, mas de tempos em tempos, ocorre um desvio imprevisível que segundo o Epicurismo ocorre totalmente ao acaso. Para os estoicistas o desvio estava previsto nas leis naturais e eram inevitáveis. No universo estoico não há lugar para a arbitrariedade ou desordem; o corpo cósmico seria governado por um sopro vital, uma espécie de alma, que a tudo determina e comanda – a Razão Universal.
Assim como os pré-socráticos, os estoicos tinham uma versão específica para a biografia do universo. Para eles a história do cosmos se desenrola em uma série de ciclos idênticos e sucessivos: o que acontece hoje já aconteceu antes e voltará a acontecer infinitas vezes no futuro.
No início de cada ciclo há o fogo (pureza), depois surgem os outros elementos (ar, água, terra), e por fim animais, árvores e humanos, ao final o fogo consome tudo e o mundo renasce. Idêntico até os últimos detalhes. Tudo sempre foi do mesmo jeito. Existe o destino e ele é imutável.
(P.132) O ser humano dotado de virtudes “escolhe” aceitas o curso da natureza, enquanto o indivíduo irresponsável é arrastado à força pelos eventos, tentando inutilmente alterá-los.
(P.133) A filosofia grega é surpreendida quando em 59 d.C um forasteiro chega a Atenas para falar da existência de um Deus único, este homem era Paulo de Tarso e sua religião seria em breve adorada por todo império Romano.
BOTELHO, José Francisco. Uma Breve História da Filosofia: São Paulo. Abril. 2015. P.119-134.

domingo, 1 de abril de 2018

Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior. 17º capítulo



Cap. 17: Vida Social e Política.
(P.341) Observaremos agora os diferentes aspectos desse aglomerado heterogêneo de raças que a colonização reuniu aqui com o único objetivo de realizar uma vasta empresa comercial.
Três raças díspares, duas semibárbaras arrebatadas à força e incorporadas através da violência. E como era de se esperar, estas raças mal se unem, não formam um todo coeso, mas justapõe-se uns aos outros constituindo uma unidade de grupos incoerentes e que apenas coexistem.
(P.342) Existem dois setores da vida colonial, o que representa o trabalho escravo e o trabalho livre. O núcleo central é a escravidão, o trabalho livre é secundário, disperso e incoerente.
A escravidão desempenha duas funções: a do trabalho e a sexual. Ambas meramente esforços físicos, animais, sem nenhuma tentativa de elevar o espírito do escravo.
(P.344) Em sema, a escravidão e as relações que dela derivam serão o único setor organizado da sociedade colonial.
No trabalho livre reina a desorganização, pessoas que vivem à margem do sistema escravista, entregues a vadiagem a violência e a caboclização.
(P.345) Esta estrutura social não é coesa e manteve-se graças a inércia de seu povo.
(P.346) A uniformidade da língua, do culto e da cultura serviu posteriormente para a formação do Brasil como nação e lhe proporcionou a unidade nacional já realizada na geografia e na tradição, mas só foi utilizada posteriormente em oposição a metrópole, não sendo importante no período colonial.
Toda sociedade, segundo Caio Prado fundamenta-se em dois instintos primários do homem: o econômico e o sexual.
(P.347) O econômico do Brasil é, como já vimos, fundamentado no trabalho forçado, sendo o homem livre em geral voltado para o ócio, não gostando de trabalhar. O autor atribui isso ao sangue indígena e a falta de perspectiva de crescimento do indivíduo na colônia. Em geral o que caracteriza a colônia é a inércia. Produzia-se o necessário apenas para não se morrer de fome.
(P.350) Já o impulso sexual é marcado pelo desregramento. Isso se dá pelo fato do povoamento da colônia ser majoritariamente masculina. Tudo aqui parece se constituir para inibir a formação de família em bases sólidas e estáveis. A Casa Grande figurava aparentemente como um bastião da família patriarcal tradicional assentada em bases sólidas, contudo o ambiente de escravidão e submissão das mulheres propiciavam as relações sexuais irregradas e descaradas.
(P.352) Havia em toda colônia um ambiente de indisciplina sexual. E fora as classes superiores, o casamento era algo excepcional. Estrangeiros que vinham ao Brasil espantavam-se com a libertinagem, a elasticidade dos costumes e o desgarramento do povo para com a religião.
(P.356) Sintetizando o panorama da sociedade colonial: incoerência e instabilidade de povoamento, pobreza e miséria econômica, dissolução nos costumes, inércia e corrupção dos dirigentes leigos e eclesiásticos.
A colonização produziu seus frutos quando reuniu nesse território imenso e quase deserto, em 300 anos de esforço, uma população catada em três continentes, e com ela formou, bem ou mal, um conjunto social inconfundível.
(P.360) Durante esses 300 anos o sistema colonial cumpriu seu papel de produzir para exportar. Enquanto a sociedade possuía apenas duas classes (senhores e escravos) tudo a bem, mas logo surgiu uma nova classe que não era nem escravo e nem senhor. Esta nova classe cresceu exponencialmente e o sistema escravista começa ai sua longa jornada rumo ao fim.
(P.362) O Brasil nunca foi um empreendimento de nação, mas um projeto do rei, foi o monarca e sua administração quem organizou a colonização e a exploração das colônias, assim os lucros não beneficiavam todo o reino, mas apenas o monarca e sua corte. O Brasil nada mais era que um negócio do rei.
Sendo assim, mesmo com a crise do Sistema Colonial tornando-se tão aparente, o reino português nada fez para conte a ruptura que se aproximava. E que incendiou-se com a Independência dos EUA.
(P.365) Aos poucos o sistema colonial, graças as suas contradições, vai entrando em crise. Da sociedade brotam conflitos que levam a necessidade de um novo sistema para a substituição do anterior. Entre as contradições podemos destacar: o conflito entre proprietários de terras e os comerciantes, a luta entre raças e o preconceito contra a pele escura (uma vez que estes representavam a maioria da população), a condição do escravo e sua resistência marcada por fugas e formações de quilombos.
(P.368) A estas situações gerais somam-se assuntos mais específico como o fisco, os processos empregados nos recrutamentos, a mesquinha política econômica da metrópole, o despotismo dos capitães gerais, etc. Estes parecem ser os reais fatores da crise, mas em geral serviam apenas de pretexto para atitudes extremadas e revolucionárias dos colonos.
(P.370) O grande acontecimento que marca o fim desse sistema é a chegada da família real em 1808. Neste fato histórico vemos que as contradições que já eram latentes põem em xeque toda a estrutura colonial.
(P.371) Neste momento confuso e incoerente de nossa história, há a única instituição coerente que é a maçonaria. Organização de muita influência na história do Brasil. Podemos dizer que existem dois níveis políticos no Brasil. Um superficial que observamos e outro subterrâneo onde estes grupos se encontram e decidem o futuro do país, agindo como uma filial de um grupo de ramificações internacionais.
(P.372) Os principais políticos deste período são maçons e até o próprio imperador é maçom, ao que tudo indica há um grupo de indivíduos controlando a política brasileira por detrás dos bastidores.
(P.373) Este interesse maçônico na América Latina se dá em um momento de luta contra as monarquias europeias. Os maçons instalam-se nas colônias para enfraquece a Coroa portuguesa e espanhola. Mas em geral os maçons brasileiros não agiam como maçons, mas como brasileiros, vendo nesta seita uma forma de organização.
(P.374) Além das organizações secretas há a intromissão dos franceses e ingleses secretamente no Brasil, cada qual tentando defender seus interesses.
(P.375) Outro setor que liga a política brasileira ao movimento internacional é a ideologia que se adota. Como não conseguimos forjá-la nós mesmos, fomos em buscar no pensamento francês do século XVIII nossa ideologia.
Fonte: PRADO JÚNIOR, Caio: Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo. Ed Brasiliense. 7ª reimpressão, da 23ª edição de 1994. Pág 341-375.

Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior - Capítulo 16.

Cap. 16: Administração.
(P.298) Caio Prado Jr. inicia o capitulo apontando a dureza desta empreitada, uma vez que a administração legislativa e jurídica portuguesa era em muitos casos incongruentes, confusas e desarmônicas.
(P.301) A administração portuguesa estendeu sua forma de organização ao Brasil, não criando aqui nada de novo.
(P.303) Para a administração colonial o Brasil não configurava uma unidade. O que haviam eram colônias, províncias ou até mesmo países como eram chamadas as capitanias. Elas se unem aos estabelecimentos da África, do Oriente e de Algarves para formar o império português.
(P.304) Para a administração geral das capitanias (América, África e Ásia) havia o conselho ultramarino. Todos os negócios da colônia passavam por ele, menos as questões da fé que eram de competência da “Mesa de Consciência e Ordens”.
(P.305) O Conselho tratava da direção geral, mas também dos assuntos da colônia por menores que fossem. Todas as decisões deveriam vir da Metrópole. Lisboa queria saber tudo, mas na prática essa centralização das decisões impossibilitava sua resolução, o trabalho se acumulava, a decisão demorava anos ou acabavam em alguma gaveta de um arquivo.
(P.306) As capitanias eram divididas em: principais e subalternas. Onde as menores se sujeitavam as maiores.
A capitania era a maior unidade administrativa da colônia, que era subdividida em comarcas, que eram subdivididas em temos com sede nas vilas. Os termos eram divididos em circunscrições eclesiásticas ou freguesias. As freguesias por sua vez, divididas em bairros.
Nas capitanias o chefe supremo era o governador (vice-rei, capitão general, capitão-mor, etc) e sua função era estritamente militar, mas em alguns casos encabeçava toda a administração geral. Líder do exército de sua capitania e das subalternas.
(P.308) Contudo, existem órgão sobre os quais o governador não possuí poder (pelo menos legal), na Intendência do ouro e dos diamantes e nas Mesas de Inspeção.
Além disso, o governador não é absoluto. Ele faz parte de uma espécie de colegiado onde ele é o presidente e ao mesmo tempo simples participante, limitando assim seu poder.
(P.309) Esta estrutura de poder nasce de uma desconfiança generalizada do império português para com seus agentes.
Outra circunstância que limita o poder do governador é o espírito de indisciplina que reina em todos os setores. Fruto de condições geográficas e da forma como se constitui o país: imensidão dos territórios, dispersão da população, constituição caótica e heterogênea, falta de sedimentação social, de educação e de regime policiado. Apesar de tudo, era o governador geral a autoridade máxima da colônia.
(P.310) Os outros órgãos da administração colonial podem ser agrupados em: militar, geral e fazendário.
O militar era dividido em: tropa de linha, milícias e corpos de ordenança.
·        Tropa de linha: exército regular e profissional, quase sempre composto por regimentos portugueses. Inicialmente só poderiam participar brancos, o que era algo impossível para o Brasil, sendo os tons mais claros de mestiços tolerados. O alistamento era feito por voluntários (minoria), obrigação dos vadios de sentar praça, ou recrutamento forçado (algo muito traumático).
·        Milícias: tropas auxiliares recrutadas para serviço obrigatório e não remunerado entre a população da colônia.
·        Ordenanças: formada pelo resto da população masculina entre 18 e 60 anos, não alistadas nas tropas de linha, milícias e não dispensadas do serviço militar.
(P.313) Administração geral e civil: tanto administravam como exerciam a justiça, não havendo linha clara entre estes dois poderes.
O elemento mais baixo na ordem administrativa eram os senadores da câmara (uma espécie de câmara dos vereadores na época). Possuíam poderes legislativos, executivos e judiciários (para pequenos delitos).
(P.320) Fazenda: depois temos o Real Erário, órgão especializado em arrecadações. Não eram subordinadas nem ao governador. Seu principal objetivo era a cobrança de impostos – à força se preciso fosse. O imposto era chamado dízimo, seus cobradores dizimeiros causavam mais temos do que os recrutamentos forçados. Segundo Saint- Hilaire, eles foram os responsáveis por grupos humanos inteiros fixarem-se em recantos isolados do Brasil, para fugirem do pagamento de impostos.
(P.323) Além dos quadros regulares, a administração colonial contava ainda com o funcionamento do corpo de ordenança. Militarmente a ordenança tem pouco valor, mas foram eles que tornaram possível a ordem legal e administrativa neste imenso território de população dispersa e funcionários públicos escassos.
(P.327) O que facilitou foi a nomeação de líderes locais em nome da administração, estes já possuíam poder, agora estavam do lado da lei e por ela agiam. Punha-se assim a serviço da coroa uma força que não podia contrabalançar, penetrando a fundo na massa da população a direção da coroa.
(P.328) Outra fundação que desempenha papel importante no sistema colonial é a Igreja Católica. Há um conjunto onipresente de crenças e práticas que já dominavam o indivíduo do seu nascimento à sua morte. Decorre daí a necessidade de colocar no mesmo plano a vida civil e a religiosa.
(P.329) Ela era um setor vital e pujante da vida social na colônia. Tinha relações estritas com o Estado e fazia a assistência social de sua época.
(P.331) A igreja possuí assim uma enorme importância na administração pública. Emparelha-se à administração civil e em muitos casos ocorrem atritos, mas o normal é a colaboração.
(P.332) Contudo, a igreja nunca foi livre, independente e autônoma no Brasil, já que graças ao “padroado” os negócios eclesiásticos estavam inteiramente nas mãos do rei. Lembrando que a Igreja de Roma tinha grande influência sobre o rei de Portugal até as reformas de Pombal, quando a igreja tornou-se um simples departamento da administração portuguesa.
(P.334) Em suma, a administração portuguesa e todas as suas repartições visavam apenas o lucro mesquinho que poderiam tirar de sua colônia. Lucro que não deveria ser fonte de investimento, mas apenas de recolhimento.
Fonte: PRADO JÚNIOR, Caio: Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo. Ed Brasiliense. 7ª reimpressão, da 23ª edição de 1994. Pág 298-340.