segunda-feira, 9 de julho de 2018

O Deus de Spinoza


(P.165) Cap. 08: Sob o olhar da eternidade.
(P.166) “Apenas Deus existe; e além de Deus, nada pode ser concebido” Spinoza.
(P.167) Todo mundo é um capítulo.
(P.168) Baruch Spinoza (1632-1677), descendente de judeus portugueses que chegaram aos Países Baixos no século XVII. Gentil, dócil e delicado, Spinoza desde criança apresentava habilidades intelectuais fora do comum. Em sua comunidade judaica todos acreditavam que seria o próximo líder espiritual. Lia dos clássicos, mas dedicava-se mesmo ao estudo de Descartes. Aos 23 anos foi excomungado do judaísmo por opiniões tidas como heréticas, sendo obrigado a se exilar. Despertou admiradores por toda Europa até que morreu em 1677.
(P.172) O Deus de Spinoza.
Spinoza sempre foi acusado de ser ateu, o que é uma ironia já que sua obra é dominada pela ideia de Deus.
No cerne de seu pensamento, está o intuito de adequar o mundo determinista de Descartes a um ideal de vida ético, reverente e piedoso.
(P.173) Spinoza tinha como objetivo traçar um plano filosófico para a máxima felicidade humana neste mundo; mas antes queria elaborar uma cartografia do universo, buscando a chave essencial para decifrar tudo o que existe.
Os pré-socráticos buscavam a physis[1] do universo. Spinoza também e para ele o elemento constitutivo do universo era Deus ou a Natureza.
(P.174) No monoteísmo Deus e o mundo existem de forma separada, onde Deus criou e Deus controla o mundo. Para o ateísmo o mundo existe sem um Deus. Para Spinoza Deus existe dentro do universo.
O Deus de Spinoza não é um monarca arbitrário que em algum lugar do cosmos dita todos os acontecimentos terrenos ao sabor de suas oscilações de humor. (P.175) Para ele os acontecimentos do universo são estritamente lógicos e racionais. Deus não poderia diferente do que é, e nem criar um universo diferente do que existe.
Segundo a bíblia, Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Para Spinoza, Deus não é uma pessoa, nem tem o sexo masculino. O ser humano tende a acreditar que universo existe em seu proveito. “Se um triângulo pudesse falar diria que Deus tem a forma de um triângulo”. Para Spinoza o universo apenas existe e pronto. (P.176) Spinoza diz que ao adorarmos um Deus antropomórfico, estamos adorando a nós mesmos, pois cada cultura cria um deus a sua imagem. O Deus de Spinoza não exige oração, não é bom nem mau. Ele é simplesmente tão grandioso que não faz diferença. Deus seria como a relação entre você e uma célula do seu corpo. Esse Deus impessoal e monstruosamente infinito causou furor entre seus contemporâneos.
O tempo e a eternidade.
Segundo filósofos cristãos como Santo Agostinho, a criação do mundo ocorreu em algum momento específico do passado. O que levantava uma série de perguntas: se nada existia, também não existia o tempo? Deus criou o tempo junto com o universo? O que Deus fazia antes de criar o universo?
(P.177) Para Spinoza a angustia humana decorre de sua limitada visão das coisas. Não percebemos a totalidade do universo e por isso somos dominados por emoções confusas que Spinoza chama de afetos e paixões – entre elas o medo, a esperança e o remorso. O antídoto contra essas mazelas é a compreensão racional do mundo. Sábio é aquele que percebe a ilusão do tempo e passa a contemplar o mundo com os olhos de Deus.
Descartes dizia que a matéria é pré-determinada, mas a mente é livre. Isso criava um paradoxo pois, com minha mente eu influencio a matéria. Ex: jogar uma xícara na parede.
(P.178) Spinoza conclui que nossa mente é tão pré-determinada quanto a matéria. Tentar driblar o determinismo é ilusão. Ex: se ao invés de jogar a xícara eu colocar ela no lugar, já estava tudo pré-determinado.
A ideia de um universo pré-determinado pode ser assustadora. Mas o objetivo de Spinoza não era multiplicar a angústia, mas curá-la. Se tudo é necessário, nosso sofrimento é apenas uma questão de perspectiva. Como um quadro que ao olharmos de perto percebemos apenas borrões, mas ao olhar de longe contemplamos sua beleza.
(P.179) Gottfried Leibnitz defendia o múltiplo. Para ele Deus não imaginou apenas um, mas infinitos universos possíveis – todos eles, de acordo com as leis da lógica. Dentre esses mundos, Deus escolhei o melhor, portanto viveríamos no melhor dos mundos possíveis. Apesar de todo mal existente, em geral a soma dos bens é superior a soma dos males. O deus de Leibnitz é um ser pessoal que criou o universo em algum momento do tempo.

Fonte: 
BOTELHO, José Francisco. Uma Breve História da Filosofia: São Paulo. Abril. 2015. P.165-179

[1] O elemento primordial constitutivo de todas as coisas.

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