quarta-feira, 27 de julho de 2011

Que coisa é a Política? João Ubaldo Ribeiro

O primeiro capítulo trata da definição sobre o termo política. Qual a melhor definição desta palavra? O segundo fala sobre como a politica afeta diretamente o nosso cotidiano e se existe político corrupto a culpa é em grande parte nossa!
Fichamento realizado por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
1.Que coisa é a Política.
(P. 13) O termo política refere-se ao exercício de alguma forma de poder e suas múltiplas conseqüências. Toda a maneira pela qual o poder é exercido se reveste de grande complexidade. Por exemplo, a criação de um imposto que desencadeia inter-relações entre a fonte de poder (a que criou o imposto) e os submetidos a esse poder (os que direta ou indiretamente são afetados). Basta pensar um pouco para perceber como todo ato de poder é complexo. E é este o terreno da política.(...)
(P. 14) Contudo, definir a Política apenas como algo relacionado ao poder não é satisfatório.  Pois existem inúmeras dificuldades para se definir o que é o poder. O que significa “ter poder”? Ter um cargo não significa ter poder, ter carisma, magnetismo ou dinheiro tampouco.
A tarefa de tentar entender o que realmente é o poder deve ser deixado ao cargo os filósofos e teóricos que examinam a realidade alem dos interesses imediatos das pessoas.
(P. 15) Entretanto, é inútil em termos práticos discutir sobre o que é o poder, pois este só se torna visível ao manifestar-se. Ou seja, é em ação que se analisa o poder. É no processo, na inter-relação, não na elaboração intelectual abstrata.
Os americanos dizem que “o poder é a capacidade de influenciar o comportamento das pessoas”. Então se a política tem a ver com o poder e se o poder visa alterar o comportamento das pessoas, é evidente que o ato político possui dois aspectos: a) um interesse; b) uma decisão.
a) se alguém deseja influenciar ou modificar o comportamento das pessoas, esse alguém tem um interesse que deseja ver corporificado pela modificação pretendida, seja ele ditado por conveniências pessoais, de grupo, religiosas, morais, etc.
(P. 16) b) o objetivo configurado pelo interesse só pode ser conseguido por uma decisão que efetivamente venha a alterar o comportamento das pessoas. Seja esta decisão imposta, consensual, de maioria, etc.
A política passa, neste caso, a ser entendida como um processo através do qual interesses são transformados em objetivos e os objetivos são conduzidos à formulação e tomada de decisões efetivas.
Pode-se afirmar que a política tem a ver com quem manda, por que manda, como manda. Afinal, mandar é decidir, é conseguir aquiescência[1], apoio ou até submissão. Não se tratando, portanto de um processo simples. Em toda sociedade, existem estruturas de mando. Alguém, de alguma forma, manda em outrem, normalmente uma minoria mandando na maioria. Este fato está no centro da coisa política.
(P. 17) A política fica então vista como o estudo e a prática da canalização de interesses com a finalidade de conseguir decisões. A política já foi chamada e com razão, de arte, ciência e filosofia.
Além de ser uma profissão, pois, afinal, é por meio dela que nos governamos, que ordenamos nossa vida coletiva. Nenhum homem pode assumir sua humanidade fora de uma estrutura social. E nenhuma estrutura social pode existir sem alguma forma de processo político. Assim a política tornou-se profissão, a profissão dos que se dedicam a influenciar a coletividade.
(P. 18) Enfim, a política nos rodeia e é impossível que fujamos dela. É possível sim, que desliguemos a televisão quando aparece um político dizendo algo que não estamos interessados em ouvir. Isto, porém não nos torna “apolíticos”, mas somente indiferentes, o que só beneficia o homem da televisão já que ao desligarmos a Tv não nos opomos a ele.
Vimos então que a política se preocupa com o encaminhamento de interesses para a formulação e tomada de decisões.
2. Como a Política interessa a todos e a cada um.
(P. 21) Em alguns momentos é fácil percebermos o poder agindo sobre nós. Como no caso dos brasileiros que são obrigados a se alistar no serviço militar aos 18 anos. Em outros casos é bem mais difícil visualizar a ação do poder. Como por exemplo, agimos ou pensamos de uma maneira que achamos natural e que na realidade não é, como no caso do preconceito. A existência do preconceito não é natural. O homem não nasce preconceituoso e fica claro a ação da influência sobre ele.
(P. 22) Queiramos ou não, estamos imersos num processo político que penetra todas as nossas atitudes, toda a nossa maneira de agir, até mesmo porque a educação, tanto a doméstica quanto a pública, é também uma formação política.
Quando saímos para trabalhar de ônibus, enquanto outro melhor situado vai de carro com motorista, não estamos pensando em política, mas tudo está rodeado de política. (P. 23) É o processo político que dita às condições para a acumulação de uma poupança por exemplo. Se o mesmo processo político não dá oportunidade de educação para uns, é evidente que estes são prejudicados o que paralelamente beneficia e privilegia outros.
Quando alguém diz: - Não ligo para a política! – Ele não está sendo apolítico, mas somente um político conservador, que não vê necessidade de mudanças.
(P. 24) A política, o jogo de poder está em toda parte, na conduta humana. Quando um casal vai gradualmente marcando os papéis dentro do lar (eu mando aqui, você manda ali), estamos diante de um mini-processo político decisório. Entretanto, não devemos levar ao exagero esta visão das coisas, que aqui está servindo apenas como exemplo.
Para o ato ser considerado realmente político como um todo, falta-lhe o elemento ligado a natureza publica da política. A própria palavra “Política” vem de polis, que significa, mais ou menos “cidade” em grego antigo. Ou seja, quando o casal discute para decidir que filme assistir, este não é rigorosamente um fato político, pois não interessa à polis, à sociedade como um todo.
(P. 25) Mas aqui apresentamos uma sutileza. A discussão entre homem e mulher sobre o filme pode não ser política. Mas se, nessa discussão o marido sempre acaba por impor a sua decisão e a mulher não tem direito a opinião e é forçada a fingir que gosta de um filme que detesta. Então este fato pode estar refletindo uma situação específica da mulher naquela sociedade.
(P. 26) Vê-se com isso que os fatos podem adquirir significado político, mesmo onde originalmente não o tenham. Se a mulher do exemplo dado reunir outras mulheres na mesma condição que ela e buscar modificar o comportamento daquela sociedade, então ela estará exercendo uma atividade política.
A política não se ocupa de todos os processos de formulação e tomada de decisões, mas somente daqueles que afetem, de alguma forma, a coletividade.
(P. 27) A política não é apenas uma coisa que envolve discursos, promessas, eleições e muita sujeira. Não é uma coisa distante de nós. É a condução de nossa própria existência coletiva, com reflexos imediatos sobre nossa existência individual, nossa prosperidade ou pobreza, nossa educação ou falta dela, nossa felicidade ou infelicidade.
É claro que uma pessoa pode não se preocupar com a política e os políticos. Trata-se de uma escolha pessoal. Mas, este individuo deve saber que quando age com essa postura de passividade, apenas favorece a quem já esta no poder e a ninguém mais.
É comum considerar a política como uma ocupação apenas exercida por gente de mau caráter. O que é uma grande injustiça, muitos grandes homens foram políticos.
(P. 28) Mas se achamos que a política esta entregue a gente ruim, grande parte da culpa é nossa, por não nos envolvermos. Se não gostamos do comportamento dos políticos e do funcionamento do sistema e não fazemos nada quanto a isso, estamos sendo políticos: estamos contribuindo para a perpetuação de um situação política indesejável ou inaceitável. (P. 29) Se queremos fazer alguma coisa para melhorar a situação, também estamos sendo políticos, pois a única via de ação possível, neste caso é a política.

Bibliografia:

RIBEIRO; João Ubaldo:“Política: quem manda, por que manda, como manda” - 1981.(Pág 13-29.) 

[1] Aquiescência: assentimento, consentimento.  

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Negros e Brancos em São Paulo por George R. Andrews

Neste capítulo Andrews trata da democracia racial em São Paulo, a organização e fundação de clubes negros.
Fichamento realizado por William Cirilo Teixeira Rodrigues

Negros e brancos em São Paulo (1888-1988).
(Pág. 197) Cap. 5: Vivendo em uma Democracia racial, 1900-1940.
Os dois capítulos anteriores concentram-se nas conseqüências mais visíveis do desenvolvimento econômico de São Paulo. No campo foi a transformação da força de trabalho escrava em livre e, nas cidades, a criação de um proletariado industrial. Mas ao mesmo tempo em que brasileiros e europeus estavam indo trabalhar nas fazendas e fábricas de São Paulo, muitos estavam lutando pela ascensão social para a nascente classe média. Chance proporcionada pelo crescimento econômico da época.(...)
 (Pág. 198) Essa pequena, porém crescente classe média da década de 1920 estava cada vez mais se afirmando na política da República. Em São Paulo a classe média era composta majoritariamente de indivíduos brancos. Durante o séc. XIX, pardos e negros compuseram uma proporção substancial de artesãos, operários especializados e proprietários de pequenos negócios. Alguns ascenderam até mesmo a burocracia governamental, empregos do colarinho branco e profissões liberais. Entretanto, tais oportunidades para os negros sempre foram mais restritas em São Paulo do que no Rio de Janeiro ou no Nordeste. 
Os afro-brasileiros estavam situados bem atrás da população branca em todas as áreas, não tinham acesso a educação e já eram marginalizados em empregos  braçais, com isso ficavam atrás na disputa pela ascensão social.
(Pág. 199) Proporcionalmente, os negros eram minoria em todos os setores ligados a classe média como profissões liberais e proprietários de empresas agrícolas, industriais, comerciais ou de serviços. O censo de 1940 sugere que a única área de emprego da classe média em que os afro-brasileiros se aproximavam com alguma paridade era o setor público. Mas esses empregos estavam longe de ter um status de classe média, pois incluíam varredores de rua, trabalhadores da construção e serviços de escritórios como mensageiros e serventes.
(Pág. 200) E as barreiras vistas no setor privado podiam ser vistas no setor público, como no caso relatado no jornal O Combate de 1915, onde um professor altamente qualificado foi impedido de assumir o cargo em uma escola publica de Itapetininga por causa de sua raça.
Apesar disso, quando comparado com as oportunidades de emprego no setor privado de São Paulo, o setor público constituía a rota mais propícia para os afro-brasileiros desejosos em escapar do trabalho braçal e ascender a cargos de colarinho branco.
(Pág. 201) Para se qualificar alguém como membro da classe média negra “não precisava ser doutor. Bastava ser funcionário público ou ter um emprego de caráter fixo”.
(Pág. 203) Democracia racial.
O conceito de democracia racial estabelece que o Brasil é uma terra livre de impedimentos legais e institucionais para a igualdade racial, isento de preconceito e descriminação. A nação oferece a todos os seus cidadãos, seja a cor, uma igualdade de oportunidades em todas as áreas da vida pública: educação, moradia, política, empregos. Então os afro-brasileiros desfrutam das mesmas oportunidades e liberdades, para competir com seus concidadãos na luta por bens públicos e privados.
No decorrer do séc. XIX, as restrições raciais datadas do domínio colonial português eram explicitamente declaradas ilegais ou simplesmente caíam em desuso, permitindo que uma proporção considerável de pretos e pardos experimentassem a mobilidade social. Os observadores estrangeiros ficavam impressionados com a aparente liberdade dos negros para ascendem até o ponto onde seus talentos os levassem.
(Pág. 204) Essas observações podem ter exagerado as oportunidades de progresso realmente disponíveis aos negros no Brasil do séc. XIX. Mas sugerem que, durante o Impérios, o Brasil era uma sociedade com mais igualdade racial do que os EUA.
Entretanto, nas décadas de 1870 e 1880, o Brasil era a única nação independente nas Américas que ainda mantinha a escravidão. Os senhores brasileiros se justificavam declarando que seus escravos eram muito bem tratados, e que a escravidão em seu país era relativamente branda e leve. (Pág. 205) Declarações rejeitadas por abolicionistas e observadores estrangeiros.
 Apesar da óbvia contradição da realidade, o mito da escravidão brasileira benevolente foi amplamente aceita na época, e mostrou-se bastante persistente nos anos subseqüentes. A questão é: porque ela persistiu após a escravidão ser abolida? Parte da razão era simples inércia ideológica: a tendência de um mito social estabelecido para permanecer vigente, e como não foi contestada após a abolição acabou se reforçando.
(Pág. 206) Os ex-senhores de escravos e os brancos brasileiros em geral, tinham de sustentar que os danos e as injustiças da escravidão embora objetáveis, não eram tão ruins quanto poderiam ter sido.
(Pág. 207) Era mais seguro se concentrar n futuro do que no passado das relações entre negros e brancos no Brasil; e se fosse para olhar para o passado era melhor se concentrar não na experiência da escravidão, mas sim na relativa abertura da sociedade do séc. XIX aos pardos e pretos livres. Os expoentes da democracia racial declaravam que, agora que os afro-brasileiros se libertaram da escravidão eles podem desfrutar de todo progresso do séc XX, assim como seus ancestrais libertos desfrutaram no séc. XIX.
Foi assim que o Brasil -o ultimo país cristão do mundo a abolir a escravidão- tornou-se o primeiro a se proclamar uma democracia racial: virtualmente acabando com todas as tensões raciais. Desde seu inicio a democracia racial esteve intimamente associada ao ideal da democracia política e supostamente fazia parte da ordem política liberal e progressista.
(Pág. 208) Quando o liberalismo foi importado para o Brasil, ele foi apropriado pelas elites rurais - o análogo brasileiro à nobreza européia- que utilizaram suas denuncias de privilégio e monopólio para justificar a remoção do controle colonial português sobre a política em economia brasileira. (Pág. 209) Os aspectos libertários civis do liberalismo não despertaram interesse na elite que considerava a grande maioria da população brasileira incapaz de se expressar dentro do Estado recém-independente. Incapazes de se livrar dos componentes libertários do liberalismo, as elites buscaram formulas ideológicas que permitissem a exclusão da população na política e na economia ao mesmo tempo em que formalmente conservassem os princípios da cidadania e da justiça.
Esta tentativa de acomodação do liberalismo no Brasil produziu um legado de equívocos, em que a hierarquia e o privilégio eram defendidos em nome da democracia e da igualdade. O conceito de democracia racial é parte integral desses equívocos.
(Pág. 210) Estava claro para todos que os negros continuavam a ocupar uma posição rebaixada e subordinada na sociedade brasileira. A doutrina da democracia racial isentava a política do Estado ou o racismo informal de qualquer responsabilidade pela situação da população negra, até mesmo responsabilizando-os diretamente por sua condição. Se os negros fracassassem em sua ascensão social a culpa era totalmente deles. A pobreza e a marginalização dos negros era a confirmação, não do fracasso da democracia racial, mas sim a preguiça, ignorância e incapacidade dos negros.
Durante essa época esse fenômeno era explicado por diversas teorias como o darwinismo social e o racismo científico. Assim, qualquer afro-brasileiro que questionasse a noção de democracia racial, corria o risco de ser confrontado com análises de sua deficiência intelectual embasada no grupo racial ao qual pertence.
(Pág. 211) Se os afro-brasileiros aceitavam o Brasil como uma terra de igualdade, então o seu fracasso nessa terra devia ser atribuído apenas às suas próprias deficiências. E embora essas deficiências fossem prontamente explicáveis pela escravidão, sempre haveria a suspeita de que o fracasso é mais genético do que histórico. 
(Pág. 212) A única saída para os negros afligidos por esse medo era abraçar a tese do branqueamento. Os racistas científicos doutrinários consideravam a mistura racial como um processo regressivo, em que o ancestral racial europeu era enfraquecido. Alguns intelectuais criticavam a miscigenação por esse motivo, outros a apoiavam por acreditar que o sangue branco era mais forte e que com o tempo eliminaria as características africanas, produzindo um branqueamento final no Brasil.
(Pág. 213) Aspirando se unir à sociedade brasileira e considerando o branqueamento a melhor maneira de se atingir esse objetivo, alguns membros da classe média afro-descendente endossaram a tese do branqueamento e substituição da herança racial africana pela européia.
Entretanto, nem todos os observadores negros estavam convencidos de que o branqueamento e a democracia racial brasileira era dispositivos vantajosos para as pessoas de cor.
(Pág. 214) A brutalidade nas relações raciais nos EUA, gerou a necessidade dos afro-americanos se defenderem das perseguições dos norte-americanos brancos gerando um tipo de consciência afro-americana invejada pelos afro-brasileiros. Que chegaram até a especular que o “preconceito descarado seja um estímulo para o preparo do negro”.
(Pág. 217) Na década de 1920, um número crescente de afro-brasileiros não estava disposto a aceitar a patente discrepância entre a imagem e o fato. Os direitos civis e a legalidade eram rotineiramente violados. Em 1918, surgiu O Alfinete, primeiro jornal negro a dizer que a democracia racial não passa de ficção. Durante a década seguinte a maioria dos jornais negros abraçou essa opinião.
Para a elite negra a democracia racial estava morta. (Pág. 218) Ou melhor, o mito da democracia racial estava morto. O desejo da democracia racial estava muito vivo: a esperança de que, através da ação política, o Brasil pudesse ser realmente um país igual para todos. No decorrer da década de 1920, os afro-brasileiros começaram a trabalhar para transformar esse sonho em realidade.
Conseguindo se organizar.
A história da vida associativa dos negros no Brasil é extremamente rica e remonta ao período colonial. Mesmo quando escravos, os africanos e os afro-brasileiros encontraram maneiras de se reunir em associações. Todas tinham como objetivo satisfazer as necessidades culturais, religiosas, econômicas e humanas de um povo que vivia e trabalhava sob condições de exploração extrema. A abolição não resolveu nenhuma dessas necessidades e criou novas.
(Pág. 219) Estas organizações variavam em seu caráter e organização, dependendo da origem de classe e das aspirações sociais de seus membros. Algumas eram agregações informais de negros pobres da classe operária que se reuniam regularmente para tocar música, dançar e conversar. Desses encontros originaram-se os grupos de carnaval.
(Pág. 220) Os afro-brasileiros que aspiravam a classe média achavam que não seriam bem vistos se pertencessem a essas organizações populares. E os afro-brasileiros que desejavam se manter à parte do povo negro criaram seus próprios clubes sociais. Como o Kosmos, o Elite Club, o Smart Club etc. Os próprios nomes de suas organizações indicam como eles se enxergavam, ou desejavam se enxergar. Mas ao mesmo tempo era um grupo excluído da sociedade, rejeitando seus inferiores sociais e sendo rejeitados por seus pares brancos.
(Pág. 222) Os clubes atléticos dos brancos excluíam os pretos e os pardos. E estes por sua vez responderam criando seus próprios clubes, vários conseguiram considerável renome pela qualidade de seu futebol.
Com exceção das irmandades religiosas, todas as organizações foram criadas no intuito de trazer lazer e diversão. Embora tenham surgido como uma reação a segregação racial eles não tinham propósito de combater essa discriminação.
(Pág. 223) Em todo o Brasil, a década de 1920 testemunhou uma profunda sensação de alienação pública da República. À medida que as classes média e operária urbanas cresceram e se expandiram no sul e no sudeste, o descontentamento com a República também cresceu.
(Pág. 224) Os primeiros anos das República testemunharam vários levantes violentos por parte dos brasileiros pobres e membros da classe operária que se opunham às políticas do Estado dominado por fazendeiros.
(Pág. 225) Aos poucos a insatisfação chegou às classes médias e altas, que criaram em 1926 o Partido Democrático, primeira oposição eleitoral ao PRP (Partido Republicano Paulista) desde que este chegou ao poder em 1890.
Os negros faziam parte desta agitação política, afinal a República os havia tratado muito mal.
(Pág. 226) Quando a resistência à República ganhou força em 1920, correntes similares também começaram a se movimentar na comunidade negra. Mas foi aplicado o mesmo padrão dos clubes. Os homens negros eram proibidos de ingressar no corpo de oficiais, e por isso não puderam participar do tenentismo. O movimento operário de São Paulo permaneceu dominado por líderes imigrantes, e s membros da classe média da elite de ambos os partidos - Republicano e Democrático- não tinham nenhum interesse em ver os afro-brasileiros participando ativamente nos partidos políticos.
(Pág. 227) Em vista disso, quando os negros procuraram maneiras de se associar à crescente oposição à República, começaram a pensar em termos de formar sua própria organização política afro-brasileira.
Fundada em São Paulo, espalhou-se por diversos Estados.
(Pág. 228) A frente negra brasileira.
A república foi derrubada; o domínio dos fazendeiros estava terminado. Mas o que iria substituí-lo? Uma agitação de interesses políticos e econômicos conflitantes lutou acirradamente para definir a nova ordem política, recorrendo em mais de uma ocasião à violência armada. No decorrer da década, estas lutas tornaram-se suficientemente intensas para que em 1937, o presidente Vargas os usasse como justificativa para fechar o processo político, abolindo os partidos políticos e impondo a ditadura do Estado Novo de inspiração fascista.
(Pág. 229) Mas em 1930 tudo isso ainda estava por acontecer, e aqueles que estavam sendo mal servidos pela Republica e por sua falsa democracia nada tinham a fazer senão aplaudir a “revolução”. Muitos afro-brasileiros achavam ter uma razão particular para apoiá-la. Vargas não desapontou seus partidários negros, ao criar o Ministério do Trabalho restringiu o trabalho estrangeiro o que soou como musica aos ouvidos da população negra de São Paulo.
(Pág. 230) Um dos mais ativos destaques da vida cívica negra em São Paulo durante a década de 1920, foi Arlindo Veiga dos Santos, migrante da Bahia que trabalhava meio período como secretário na Faculdade de Direito e jornalista em tempo parcial. Em setembro de 1931, Santos convocou uma série de encontros para discutir a criação de uma organização negra. E em 12 de outubro a Frente Negra Brasileira foi oficialmente inaugurada.
(Pág. 231) A reação do publico ao estabelecimento da Frente superou qualquer expectativa de seus organizadores. A organização se expandiu rapidamente por todo o Estado, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e no Rio Grande do Sul.
(Pág. 232) A frente subvencionou cursos de alfabetização e vocacionais para adultos, e montou uma escolar elementar. Criou uma clínica médica e odontológica de baixo custo, além de oferecer advogados. Faziam empréstimos para comprar casa e tirar os negros dos porões da cidade.
(Pág. 233) Estes programas atraíram uma quantidade substancial de membros, mas fosse qual fosse o seu número, os membros da frente eram muito poucos para exercer algum impacto sobre a política eleitoral do Estado. Não elegendo nenhum candidato em seus sete anos de existência.
(Pág. 234) Apesar de suas derrotas eleitorais a Frente obteve algum sucesso na pressão em questões envolvendo a discriminação racial.
 (Pág. 235) Aos poucos a classe média percebeu nos imigrantes uma ameaça. Uma orientação xenofóbica, anti-imigrantes com práticas emprestadas do fascismo.
(Pág. 236) Se as elites e a classe média branca sucumbiram aos sentimentos anti-imigrantes, não surpreende nada encontrar afro-brasileiros fazendo o mesmo. Mais que qualquer outro grupo em São Paulo, foram eles que suportaram a violência da imigração e que foram repudiados enquanto o Estado era “europeizado”.
(Pág. 238) Devido a essa raiva cada vez maior contra os imigrantes, a Frente Negra que em seu estatuto previa ser uma organização rigorosamente brasileira, apoiou o fechamento do Brasil a qualquer interferência externa.
Os paralelos entre a orientação anti-imigrante da Frente e as do movimento integralista são impressionantes: ambos menosprezavam a democracia liberal e a filosofia estrangeira, além de admirar o fascismo europeu. Em um editorial de 1933 Arlindo Veiga Santos parabeniza Adolf Hitler por ter livrado a Alemanha dos judeus.
(Pág. 239) A Frente chegou a adotar como o lema integralista “pela família, pelo país e por Deus” modificando um pouco e acrescentando pela “raça”.
No decorrer da década de 1930 a Frente progressivamente retirou o apoio aos moderados e à esquerda da comunidade Negra, o que levou a criação de um grupo de dissidentes na capital a criar o rival Club Negro de Cultura Social e uma pequena Frente Negra Socialista. Santos chamou esses dissidentes de Judas da raça e mandou sua milícia destruir o escritório deles.
(Pág. 240) Em dezembro de 1937, Getulio Vargas deu à Frente o seu golpe de misericórdia, proibindo todos os partidos políticos. A Frente ainda tentou barganhar oferecendo apoio a ditadura. As organizações pequenas demais para ameaçar o governo tinham permissão para morrer de morte natural e foi o que aconteceu com a Frente Negra Brasileira em maio de 1938.
É fácil culpar a Frente por sua derrota: seu autoritarismo, seu chauvinismo de extrema-direita, seu fracasso em organizar seus adeptos e se tornar uma força política real.
(Pág. 241) Mas o fato é de que a frente foi vitima dos mesmos conflitos que conturbaram o sistema político mais amplo. Os negros e brancos da classe média de São Paulo mostraram-se igualmente vulneráveis à sedução do nacionalismo e do autoritarismo político. 
Bibliografia:
ANDREWS; George: “Negros e brancos em São Paulo”. Tradução Magda Lope, Bauru, SP: EDUSC, 1998. Pág 197-241.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Padrões de Manipulação na Grande Imprensa por Perseu Abramo

Ótima análise de Abramo sobre a manipulação constante e atuante da mídia brasileira. 
 Fichamento realizado por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
(Texto escrito em 1988).
(Pag.23) Significado político da manipulação na grande imprensa.
A manipulação.
Uma das principais características do jornalismo brasileiro é a manipulação da informação.
Os órgãos de informação não refletem a realidade, somente fazem uma referência indireta a realidade, distorcendo-a. (Pag.24) É uma realidade artificial, criada e desenvolvida pela imprensa e apresentada no lugar da realidade real.(...)
Assim, o público é cotidianamente bombardeado por uma realidade artificial que muitas vezes se sobrepõe a realidade que ele vive e conhece. Ele só percebe a contradição quando se trata de uma parcela da qual ele é protagonista, testemunha ou agente direto.
Daí, cada leitor/espectador tem diante de si um realidade que não é real, movendo-se em um mundo que não existe, artificialmente criado.
A manipulação das informações se transforma, assim, em manipulação da realidade.
Os padrões de manipulação.
(Pag.25) Não é todo material que toda a imprensa manipula sempre. Se fosse assim esse fenômeno seria autodesmistificador e se autodestruiria. Também não é um fenômeno que ocorre raramente, pois se fosse assim seus efeitos seriam insignificantes.
A gravidade do fenômeno decorre do fato dele ser a essência da produção cotidiana da imprensa.
Essa é uma característica geral dos padrões de manipulação da produção jornalística.
É possível distinguir quatro padrões de manipulação para a imprensa e mais um especifico para o telejornalismo.
1° Padrão de ocultação: Se refere à ausência e à presença do fatos na produção. É a escolha do que vai ou não ser publicado. (Pag.26) É um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade.
A ocultação do real está ligado ao chamado fato jornalístico. A concepção é a de que existem fatos jornalísticos e fatos não-jornalísticos.
 Ora, o mundo real não se divide assim. Pelo fato de que as características jornalísticas não residem no objeto da observação, e sim no sujeito observador e na relação do segundo com o primeiro. O jornalístico é a relação que o jornalista, ou o órgão de jornalismo, decide estabelecer com a realidade. Nesse sentido, todos os fatos, toda a realidade pode ser jornalística, mas um fato somente se torna jornalístico quando é interessante para a visão de mundo de um órgão da imprensa.
(Pag.27) Tomada à decisão de que um fato “não é jornalístico”, não há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência por meio da imprensa. O fato real foi eliminado da realidade, ele não existe. O fato real ausente deixa de ser real para se transformar em imaginário.
2° Padrão de fragmentação: Eliminados os fatos definidos como não jornalísticos, o “resto” da realidade é apresentada pela imprensa todo fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, desligados de seus antecedentes e de seus consequentes ou reconectados de forma arbitrária.
O padrão de fragmentação implica duas operações básicas: a seleção de aspectos do fato e a descontextualização.
(Pag.28) Seleção de aspectos do fato: após o fato ter sido escolhido para entrar na pauta ele é dividido em particularidades (aspectos), e a imprensa seleciona o que apresentará ou não ao público.
Descontextualização: como o próprio nome já diz, é tirar o fato de seu contexto real. Isolado, fora do ambiente em que foi gerado, o fato perde todo o significado original e real.
3° Padrão da inversão: fragmentado o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados, intervém o padrão da inversão, que opera reordenando as partes. Destruindo a realidade original e criando a artificial. Isso ocorre geralmente na edição.
(Pag.29) Existem várias formas de inversão: muitas delas usadas a mesma matéria.
3.1. Inversão da relevância dos aspectos: o secundário é apresentado como principal e vice-versa. O extraordinário como cotidiano, etc.
3.2. Inversão da forma pelo conteúdo: O texto passa a ser mais importante que o fato que ele reproduz. A palavra, a frase, no lugar da informação, o ficcional espetaculoso sobre realidade;.
3.3. Inversão da versão pelo fato: não é o fato em si que importa, mas a versão da imprensa seja ela criada pela imprensa ou adotada por alguém. O órgão da imprensa renuncia a expor os fatos e em seu lugar apresenta declarações suas ou alheias. Muitas vezes, prefere apresentar explicações opiniáticas complicadas a render-se as evidências dos fatos. Parecendo que a imprensa tem por máxima a frase: “se algo não corresponde à minha versão, deve haver algo errado com o fato”.
(Pag.30) 3.3.1. Um dos extremos desse padrão de inversão é o frasismo, o abuso da utilização das frases ou de pedaços de frases sobre a realidade para substituir a própria realidade. Uma frase é apresentada como realidade original.
3.3.2. O outro extremo da inversão do fato pela versão é o oficialismo, que tem como base a fonte “oficial” ou “mais oficial”. No lugar dos fatos temos uma versão oficial onde a melhor fonte oficial é a da autoridade e a melhor autoridade é a própria imprensa.
(Pag.31) 3.4. Inversão da opinião pela informação: a utilização sistemática e abusiva desses padrões de manipulação leva quase inevitavelmente a outro padrão: o de substituir, inteira ou parcialmente, a informação pela opinião. E com o agravante de fazer passar a opinião pela informação. O juízo de valor é utilizado como se fosse um juízo de realidade.
(Pag.32) (Resumindo) O fato é apresentado ao leitor arbitrariamente escolhido dentro da realidade, fragmentado no seu interior, com seus aspectos correspondentes selecionados e descontextualizados, reordenados invertidamente quanto a sua relevância, seu papel e seu significado e, ainda mais, tendo suas partes reais substituídas por versões opiniáticas dessa mesma realidade. O jornalismo, assim, não reflete nem a realidade nem a opinião pública. Ao leitor/espectador não é dada qualquer oportunidade que não a de consumir como critério de ação a opinião que lhe é imposta, sem que lhe sejam igualmente dados os meios de distinguir ou verificar a distinção entre informação e opinião. A informação, quando existe, serve apenas de mera ilustração exemplificadora da opinião.
(Pag.33) 4º.Padrão de indução: o que torna a manipulação um fato característico da imprensa brasileira hoje é a hábil combinação dos casos, dos momentos, das formas e dos graus de distorção da realidade em seu conjunto, a população à condição de excluída da possiblidade de ver e compreender a realidade real e a induza a consumir outra realidade, artificialmente inventada.
Submetido constantemente aos padrões de manipulação, o leitor é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim com querem que ele o veja.
(Pag.34) A indução a enxergar a outra realidade é fruto da manipulação do conjunto dos meios de comunicação. A indução se manifesta pelo reordenamento ou pela recontextualização dos fragmentos da realidade, pelo subtexto (aquilo que é dito sem ser falado).
(Pag.35) Depois de distorcida, retorcida e recriada ficcionalmente, a realidade é ainda assim dividida pela imprensa entre o bem e o mal.
5º. Padrão global ou o padrão específico do jornalismo de televisão e rádio: O jornalismo de radiodifusão (Tv e rádio) passa por todos os quatro tipos gerais de manipulação, mas ainda apresenta um específico.
O padrão global se divide em três momentos básicos, com se fossem três atos.
(Pag.36) 1º Ato. Exposição do fato: Submetido a todos os padrões de manipulação, o fato é apresentado sempre de forma sensacionalista. As imagens e os sons mostram o incêndio, a tempestade, a enchente, a greve, o assalto, o crime, etc. apenas para amparar os textos lidos.
2º Ato. A sociedade fala: As imagens e os sons mostram detalhes do envolvidos. Eles apresentam seus testemunhos, dores, alegrias, criticas, etc.
3º Ato. A autoridade resolve: Quando se trata de um fato natural (enchente, tempestade, incêndio), a autoridade (do papa ao presidente) anuncia as providências. Quando se trata de um fato social (greve, passeatas, homicídios, assaltos) a autoridade reprime o mal e enaltece o bem, além de anunciar as soluções já tomadas. Nos dois casos a autoridade tranqüiliza o povo, desestimulando qualquer ação popular, mantém a autoridade e a ordem submetendo o povo sob sua autoridade.
E freqüentemente , ao fim do terceiro ato segue o epílogo, em que a própria emissora, através de seu apresentador ou comentarista reforça, contesta ou substitui a mensagem da autoridade.
(Pag.37) A transformação está completa. A realidade real foi substituída por outra realidade, articicial e irreal.
Objetividade e subjetividade.
A manipulação é marca característica de todo jornalismo? É possível fazer jornalismo não manipulador?
  A resposta a essa questão passa pela discussão do tema da objetividade e da subjetividade no jornalismo.
Em primeiro lugar, é necessário distinguir o conceito de objetividade do de neutralidade, imparcialidade, isenção e honestidade.
(Pag.38) Há diferenças fundamentais entre objetividade e os demais conceitos, pois estes dizem respeito aos critérios do fazer, do agir, do ser, ou seja são comportamentos morais. Os próprios conceitos tem caráter moralista e quando conjugados seus antônimos, formam pares do tipo bom/mau, certo/errado, etc.
Com exceção do par honestidade/desonestidade, os demais requerem uma postura mais crítica quando se trata de jornalismo.
Vejamos: é desejável, para um jornalista, para um órgão de imprensa, uma postura de neutralidade, imparcialidade ou isenção, no lugar de seu contrário, isto é, a tomada de posição?
O que significa realmente ser neutro, imparcial ou isento? “Neutro” a favor de quem?
Ao contrário do que se acredita o jornalismo deveria ser não-neutro, não-imparcial e não isento diante dos fatos da realidade. E em que momento o jornalismo deve tomar posição? Na orientação para a ação. O órgão de comunicação deve orientar seus leitores/espectadores na formação da opinião e na ação concreta como cidadãos.
(Pag.39) O conceito de objetividade, porém, situa-se em outro campo, que não o da ação: o campo do conhecimento. A objetividade tem a ver com a relação que se estabelece entre o sujeito observador e o objeto observável, do diálogo entre eles.
(Pag.41) Voltando a questão inicial: é possível sim fazer jornalismo com o máximo de objetividade .
O reino da objetividade é a informação, a notícia, a reportagem, assim como o reino da tomada de posição era a opinião, o comentário, o editorial. É fundamental separar e distinguir informação de opinião.
O significado político da manipulação.
(Pag.42) Se é possível fazer jornalismo com objetividade, por que o jornalismo manipula a informação e distorce a realidade? A distorção da realidade é deliberada, tem um significado e um propósito.
A imensa maioria dos órgãos de comunicação brasileiros são propriedades privadas e seus proprietários –não sozinhos- são os responsáveis pela manipulação. Mas por que esses empresários manipulam?
Existem duas explicações economicistas para o fenômeno : a primeira coloca a responsabilidade no anunciante, onde este por imposição direta ou indireta obriga a imprensa a distorcer a manipular. (Pag.43) A segunda diz que a ambição pelo lucro do próprio empresário da comunicação é a responsável pela manipulação.
Essas duas explicações não são suficientes para explicar todo o fenômeno. O peso de cada anunciante é muito ponderável na pequena imprensa. Mas onde a manipulação impera é na grande e nessa o peso do anunciante é praticamente nulo.
E a ambição do lucro não explica a manipulação, primeiro porque o empresário teria mais chances de obter lucros investindo em outras coisas, segundo porque o outro tipo de jornalismo (não manipulador) também poderia dar grande audiência.
É evidente que os órgãos de comunicação, e a indústria cultural estão submetidos à lógica econômica do capitalismo. Mas o capitalismo opera também com outra lógica – a lógica da política, a lógica do poder- e é ai, provavelmente, que vamos encontrar a explicação da manipulação jornalística.
(Pag.44) Os órgãos de comunicação se transformaram em órgãos e poder, em órgãos políticos partidários, e é por isso que eles precisam recriar a realidade onde exercem esse poder, e para recriar a realidade precisam manipular as informações. A manipulação tornou-se uma necessidade, mas como a empresa não foi criada nem organizada para exercer diretamente o poder, ela procurou transformar-se em partido político.
(Pag.46) Se os órgãos não são partidos políticos na acepção rigorosa do termo, são pelo menos, agentes partidários. Deixam de ser instituições da sociedade civil para se tornar instituições da sociedade política. Procuram representar segmentos da sociedade e tentam fazer a intermediação entre a sociedade civil e o Estado. (Pag.47) Além de disputar o poder sobre a sociedade em benefício dos seus próprios interesses e valores políticos.
Recriando a realidade à sua maneira e de acordo com os seus interesses político-partidários, os órgãos de comunicação aprisionam os seus leitores nesse círculo de ferro da realidade irreal.
O jornal Nacional faz plim-plim e milhões de brasileiros salivam no ato. A Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo, o Jornal Brasil, a Veja dizem alguma coisa e centenas de milhares de brasileiros abanam o rabo em sinal de assentimento e obediência.
Circunstância ou tendência?
(Pag.48) Até que ponto as características atuais da imprensa brasileira constituem apenas uma situação transitória? Em até que ponto representam uma excessiva reação à época da ditadura e da censura? Até que ponto representam o estado confuso e ambíguo da conjuntura política brasileira?
(Pag.49) Como é a burguesia que controla os meios de comunicações, caberá as classes dominadas o papel de transformar jornalismo. E isso ocorrerá em três planos:
1º. As classes dominadas tenderão, cada vez mais a desmistificar o jornalismo. Não acreditarão ou confiarão na imprensa e passarão a ter uma postura mais crítica sobre ela.
2º. As classes dominadas passarão ao contra-ataque, tratando a imprensa como elas se apresentam, isto é como entes político-partidários que não estão acima do bem e do mal.
(Pag.50) 3º. As classes dominadas lutarão pela transformação dos meios de comunicação.
Já que os órgãos de comunicação passaram de instituições da sociedade civil para instituições da sociedade política, se deixaram de ser órgãos de comunicação para se transformar em entes político-partidários, não haverá mais razão para aceitá-los como institutos de direito privado e deverão se transformar em institutos de direito público.
Em outras palavras, a parte dominada da sociedade passará a questionar o regime de propriedade privada dos órgãos de comunicação.
A comunicação e a informação poderá passar para o controle irrestrito do Estado o que é tão indesejável quanto a sua propriedade privada. As classes dominadas, portanto deverão lutar pela transformação dos atuais órgãos privados e estatais em órgãos públicos.
(Pag.51) E só assim o jornalismo poderá se libertar do seu pior inimigo: a imprensa tal como ela é hoje.

Bibliografia:
ABRAMO;Perseu: “Padrões de Manipulação na Grande Imprensa”ed.Perseu Abramo. 1988. Pág23-51.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Voltaire: Cartas Inglesas. Décima carta

Voltaire defende o comércio, usando a Inglaterra como exemplo máximo de crescimento econômico através dessa atividade.
Décima carta. Sobre o comércio
Enriquecendo os cidadãos ingleses, o comércio contribuiu para torná-los mais livres, e, por sua vez, a liberdade ampliou o comércio. A grandeza do Estado veio como conseqüência. O comércio estabeleceu pouco a pouco as forças navais, tornando os ingleses senhores dos mares. Atualmente possuem duzentos navios de guerra. A posteridade saberá, talvez com surpresa, que uma ilhota, dotada apenas de um pouco de cobre, de estanho, de lã grosseira e de argila para desengordurar os tecidos a serem curtidos, tornou-se, graças ao comércio, tão potente que pôde, em 1723, enviar simultaneamente três frotas às três extremidades do mundo – uma a Gibraltar, conquistada e conservada por suas armas; outra a Porto Belo, arrancando do rei da Espanha o usufruto dos tesouros das Índias; e a terceira ao mar Báltico, para impedir a guerra entre as potências do norte.(...)

Quando Luís XIV fazia a Itália tremer, suas armas já senhoras da Sabóia e do Piemonte e prontas para tomar Turim, foi preciso que o Príncipe Eugênio marchasse dos confins da Alemanha em socorro do duque de Sabóia, desprovido de dinheiro, sem o qual uma cidade não pode ser defendida. Recorreu, então, aos comerciantes ingleses. Em meia hora foram emprestados cinqüenta milhões com os quais libertou Turim, derrotou os franceses e escreveu aos que lhe emprestaram tal soma: “Senhores, recebi vosso dinheiro e gabo-me de tê-lo usado para vossa satisfação”.

Isto enche de orgulho um comerciante inglês, levando-o a comparar-se, ousadamente, mas não sem alguma razão, com um cidadão romano. O caçula de um par do reino não desdenha o negócio. Milorde Townshend, ministro de Estado, tem um irmão que se satisfaz como negociante no centro da cidade. Na época em que Milorde Oxford governava a Inglaterra, seu caçula era fabricante em Alep, donde não quis sair e onde morreu. Esse costume, que, entretanto, começa a expandir-se bastante, parece monstruoso aos alemães, obstinados com suas árvores genealógicas. Não poderiam conceber que o filho de um par da Inglaterra fosse um mero burguês rico e potente, uma vez que na Alemanha tudo é príncipe e já se viram trinta altezas do mesmo nome cujos bens consistiam exclusivamente em armaduras e orgulho.

Na França é marquês quem quer e qualquer um que chegue a Paris vindo dos confins de uma província, com muito dinheiro para gastar e um nome em “ac” ou em “ille”, pode dizer “um homem como eu” ou “um homem da minha qualidade”, e desprezar soberanamente um negociante. Este, de tanto ouvir falar com desprezo de sua profissão, acaba sendo bastante tolo para enrubescer-se. Contudo, não sei o que é mais útil a um Estado: um senhor empoado que sabe a que horas o rei se levanta e se deita, com ares de grandeza fazendo papel de escravo na antecâmara de um ministro, ou um negociante que enriquece seu país, dá ordens a Surata e ao Cairo sem sair de seu gabinete, e contribui para a felicidade do mundo (p. 22).

Bibliografia:
VOLTAIRE. Cartas Inglesas. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, volume XXXIII.

Voltaire: Cartas Inglesas. Nona Carta


Nona Carta. Sobre o governo.
Nem sempre subsistiu essa feliz mistura no governo da Inglaterra, esse acordo entre a Câmara dos Comuns, a dos Lordes e o rei. Durante muito tempo a Inglaterra foi escrava: romanos, saxões, dinamarqueses, franceses a escravizaram. Guilherme, o Conquistador, governou-a com cetro de ferro, dispondo dos bens e da vida de seus novos súditos como um monarca do Oriente. Proibiu, sob pena de morte, que algum inglês ousasse ter um fogo ou uma luz em casa depois das oito horas da noite. Tentava impedir assim suas assembléias noturnas? Ou quis, com uma proibição esquisita, experimentar até onde vai o poder de um homem sobre os outros?(...)

É verdade que antes de Guilherme, o Conquistador, os ingleses tiveram parlamentos. Vangloriam-se disso, como se essas assembléias, chamadas então parlamento, compostas de tiranos eclesiásticos e de saqueadores chamados barões, tivessem sido guardiãs da liberdade e da felicidade públicas.

Os bárbaros, que, partindo das margens do mar Báltico, se estabeleciam no resto da Europa, trouxeram consigo o costume desses estados ou parlamentos, a cujo respeito tem sido muito estardalhaço e que são tão pouco conhecidos. Nessa época, os reis não eram déspotas, é verdade, mas os povos gemiam ainda mais numa servidão miserável. Os chefes desses selvagens, devastadores da França, da Itália, da Espanha e da Inglaterra, fizeram-se monarcas. Seus capitães partilharam entre si as terras dos vencidos, dando origem aos margraves, aos lordes, aos barões, subtiranos que freqüentemente disputam com seu rei os despojos dos povos. Eram aves de rapina, combatendo contra uma águia para sugar o sangue das pombas. Cada povo tinha cem tiranos no lugar de um senhor. Logo os padres entraram no jogo. Em todos os tempos, a sina dos gauleses, dos germanos, dos insulares da Inglaterra submeteu-os ao governo dos druidas diziam-se mediadores entre a divindade e os homens; faziam leis, excomungavam e condenavam à morte. Os bispos os sucederam pouco a pouco na autoridade temporal do governo gótico e vândalo. Os papas os encabeçaram e com encíclicas, bulas e monges fizeram os reis tremer, depondo-os, assassinando-os e roubando todo o dinheiro da Europa. o imbecil Inis, um dos tiranos da heptarquia da Inglaterra, numa peregrinação a Roma, foi o primeiro a submeter-se ao pagamento da “esmola de São Pedro” (mais ou menos equivalente a um escudo da moeda francesa) por cada casa de seu território. Logo toda a ilha seguiu esse exemplo. Pouco a pouco a Inglaterra tornou-se uma província do papa. O santo padre enviava periodicamente legados que recolhiam impostos exorbitantes. João sem Terra acabou fazendo uma cessão de seu reino à Sua Santidade, que o excomungara. Os barões, que nada receberam, expulsaram o miserável rei, colocando em seu lugar Luís VIII, pai de São Luís, rei da França. Mas desgostaram-se logo com o recém-chegado, fazendo-o cruzar novamente o mar.

Enquanto barões, bispos e papas dilaceravam a Inglaterra, todos querendo dirigir o povo, uma parte dos homens, mais numerosa, mais virtuosa e, consequentemente, mais respeitável, composta de homens estudiosos das ciências e das leis, de negociantes e artesãos, enfim, todos os que não eram tiranos, em suma, o povo, era encarada pelos primeiros como animais superiores ao homem. foi preciso, portanto que os Comuns também tomassem parte do governo. Eram vilões, cujo trabalho e cujo sangue pertenciam aos seus senhores, chamados nobres. A maioria dos homens era na Europa aquilo que muitos ainda são em certos lugares do norte: servos de um senhor, espécie de gado que se compra e se vende com a terra. Foram precisos muitos séculos para praticar-se justiça pela humanidade, para sentir-se como era horrível que a maioria semeasse e a minoria colhesse. Não é uma felicidade para o gênero humano que a autoridade desses bandidos tenha sido extinta na França pela potência legítima do rei, e na Inglaterra, pela do rei e do povo?

Felizmente, as sacudidas que as querelas entre os reis e os grandes davam nos impérios afrouxaram os ferros das nações. Na Inglaterra, a liberdade nasceu das querelas entre os tiranos. Os barões forçaram João sem Terra e Henrique III a promulgar essa famosa carta, cujo fim principal era, na verdade, colocar os reis sob a dependência dos lordes, mas que favorecia boa parte da nação a fim de que esta se pusesse ao lado de seus pretensos protetores. Essa Magna Carta, vista como origem sagrada das liberdades inglesas, mostra bem quão pouco a liberdade era conhecida. Só o título já prova que o rei acreditava-se absoluto de direito, e que os barões e o clero só o forçaram a afrouxar esse direito porque eram mais fortes do que ele.

Eis o início da Magna Carta: “Por nossa livre vontade atribuímos os seguintes privilégios aos arcebispos, bispos, abades, priores e barões de nosso reino, etc.”

Nos artigos da Carta não há uma palavra referente à Câmara dos Comuns, prova de que ainda não existia, ou de que existia sem poder. São especificados os homens livres da Inglaterra: triste demonstração de que havia aqueles que não o eram. Vê-se pelo artigo 32 que esses supostos homens livres deviam serviços aos seus senhores. A liberdade conservava muito da escravidão.

Pelo artigo 21, o rei ordena que seus oficiais que não poderão daí em diante tomar à força cavalos e carroças dos homens livres, a menos que paguem. Para o povo, esse regulamento pareceu uma verdadeira liberdade porque afastava uma tirania maior.

Henrique VII, usurpador feliz e grande político, que fingia apreciar os barões, mas que os odiava e temia, lembrou-se de promover a alienação de suas terras. Com isto, os vilões, que em seguida adquiriram bens com seu trabalho, compraram os castelos dos ilustres pares, arruinados por suas loucuras. Pouco a pouco todas as terras mudaram de dono.

A Câmara dos Comuns foi-se tornando cada vez mais forte. As famílias dos antigos pares extinguiram-se com o tempo, e como na Inglaterra só os pares são nobres, segundo o rigor da lei, não haveria mais nobreza no país se os reis tivessem criado novos barões de vez em quando, e conservando a ordem dos pares, muito temidos antes, para opô-los à dos comuns, muito temíveis agora.

Todos os novos pares compõem a Câmara Alta, recebem seu título do rei, e mais nada. Quase nenhum possui a terra cujo nome carrega. Um é duque de Dorset, mas não tem um palmo de terra em Dorsetshire; outro é conde de uma aldeia que mal sabe onde está situada. Têm poder no Parlamento e não alhures.

Aqui não ouvireis falar em alta, média e baixa justiça, nem do direito de caçar nas terras de um cidadão, que não pode dar um tiro sequer em seu próprio campo.

Porque nobre ou padre, um homem não está isento de pagar certas taxas. Todos os impostos são regulamentados pela Câmara dos Comuns, segunda por seu grau, mas primeira por seu critério.

Os senhores e os bispos podem rejeitar o projeto de lei dos Comuns no tocante às taxas, mas não podem alterá-lo em nada – devem aprová-lo ou rejeitá-lo sem restrição. Quando o projeto de lei é confirmado pelos lordes e aprovado pelo rei, então todo mundo paga. Cada um dá, não segundo sua qualidade (o que seria absurdo), mas segundo sua renda. Não há tarifa ou imposto per capita, mas uma taxa real sobre as terras. Foram todas “avaliadas” sob Guilherme III e postas abaixo de seu preço.

A taxa permanece sempre a mesma, embora as rendas fundiárias tenham aumentado; desse modo ninguém é pisoteado nem se queixa. O camponês não tem os pés feridos pelos tamancos, come pão branco, veste-se bem, não teme aumentar sua criação nem cobrir seu teto com telhas com medo que lhe aumentem os impostos um ano depois. Há aqui muitos camponeses com dois mil francos em bens e que não desdenham continuar cultivando a terra que os enriqueceu e onde vivem livres (p. 20-21).


Bibliografia:VOLTAIRE. Cartas Inglesas. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, volume XXXIII.