terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Análise do Livro Contato de Carl Sagan.

"Em Contato, o que está em jogo é mundo tal como conhecemos. Como quem faz uma aposta, Sagan nos convida a uma viagem assustadoramente fascinante pelo buraco negro que é a inteligência humana."
Por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
Escrito por Carl Sagan e Ann Druyan entre 1980 e 1981, publicado em 1985 e adaptado para o cinema em 1997, o livro Contato narra a história de Eleanor (Ellie) Arroway, desde sua infância até a maturidade quando se torna radio astrônoma...
Resumo da obra.
Em sua atividade de radio astrônoma, Ellie se empenha na busca de sinais de vida inteligente em outros planetas, o que é visto por outros astrônomos como um suicídio profissional, pois não existem garantias de êxito nessas buscas. Entretanto, enquanto trabalhava no Novo México, conseguiu captar ondas de rádio vindas de perto da estrela Vega, a mais brilhante da constelação de Lira e que fica a cerca de 26 anos luz da Terra.
Esta mensagem aos poucos é decodificada, revelando o seu conteúdo. Uma espécie de manual de instruções para a construção de uma máquina que até ser construída ninguém tinha idéia do que fazia. Muitos acreditavam que ela destruiria o mundo, ou servisse como uma espécie de cavalo de tróia alienígena, mas a hipótese mais aceita era de que ela seria uma nave espacial, pois continham cinco lugares[1].
Após diversos debates os acentos foram distribuídos entre algumas nações e a máquina posta para funcionar. Seus tripulantes, entre eles Ellie, são transportados para o centro do universo e entram em contato direto com os alienígenas que tomam a forma da pessoa que eles mais amam ou amarram na Terra. Para Ellie o alienígena se apresenta na forma de seu pai, Teodorre Arroway, falecido quando ela tinha nove anos.
Após esta magnífica experiência de cerca de 24 horas, eles regressam a Terra e são surpreendidos pela notícia de que eles ficaram dentro da nave por apenas 20 minutos e que ela, a máquina, não foi a lugar algum. Sem provas de sua viagem interestelar, eles são interrogados e acusados de ter ludibriado todo o planeta somente para manter seu projeto de pesquisa científico. É a partir desse momento que há uma inversão nos papeis e a cética Ellie se vê cercada de uma espécie de experiência espiritual idêntica a religiosa. Ela acredita fielmente ter passado por isso e não consegue provar.
Análise.
O grande trunfo desta obra é o de não ser uma ficção cientifica “barata”, cheia de homenzinhos verdes desembarcando de um disco voador, ou destruindo o mundo na véspera do dia de independência dos Estados Unidos. Sagan repleto com seu conhecimento cientifico nos dá uma aula de ciências e astronomia, fazenda de sua obra uma ficção sim, mas repleta de sobriedade.
O grande debate do livro ocorre no campo religião versus ciência. E como nosso mundo, tão atrasado em alguns aspectos, reagiria se realmente se descobrisse vida em outros planetas. Essa proposta fica clara através dos dois principais personagens do livro a cientista ateia Ellie e o Padre Palmer Joss, que vivem em constante atrito ideológico.
A obra apresenta a importância política que a religião tem em praticamente todo o mundo. Diversas decisões políticas somente são tomadas após a avaliação dela por religiosos influentes, para desespero de Ellie que vê na religião algo totalmente sem fundamento, inconsistente, sem provas, apenas uma histeria coletiva compartilhada por 95% da população do planeta.
Diversos embates filosóficos sobre a existência ou não de Deus, extremismo religioso e cientifico, se a religião merece todo esse poder, são travados durante o decorrer de todas as mais de quatrocentas páginas do livro.
Ao final do livro, quando Ellie e os outros tripulantes retornam de sua experiência intergaláctica sem nenhuma prova consistente de que realmente foram a algum lugar, o romance da uma reviravolta e a ciência que Ellie tanto acredita, não serve para explicar esse contato com seres de outro planeta. O ceticismo que a ciência tanto usa para analisar a religião e as suas chamadas experiências espirituais não pode ser usada por Ellie para explicar sua viagem rumo a Vega.
Sem as devidas provas, a única coisa que resta a Ellie é a fé de que ela realmente esteve 24 horas em outro planeta, enquanto na terra não se passaram vinte minutos. É a mesma convicção de um religioso, ele acredita fielmente em algo, acredita ser aquilo real e a sua única maneira de explicar é através da fé.
A meu ver, o final do livro sela um acordo de paz entre a ciência e a religião, representado pelos sentimentos de Ellie por Joss[2].

Bibliografia:
SAGAN; Carl: “Contato” São Paulo. Companhia das Letras. 2008. 434 páginas


[1] No filme de 1997,  apenas Ellie viaja.
[2] Algo que pessoalmente, como cético e admirador da ciência me deixou extremamente frustrado.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Cândido ou o Otimismo de Voltaire

Após ser expulso do castelo onde nasceu, Cândido inicia sua jornada em busca de sua amada Cunegundes e descobre que o mundo não é tão maravilhoso quanto ele pensou.

Cândido ou o Otimismo.
Voltaire (1694-1778).
François-Marie Arouet ou simplesmente Voltaire, é de longe o mais conhecido e celebrado homem de letras do século XVIII, ele foi à própria encarnação do iluminismo. Voltaire nasceu em 21 de novembro de 1694. Filho de um notário abastado recebeu uma ótima educação em um colégio jesuíta e pretendia dedicar-se ao magistério, mas patrocinado por Chauliu e pelo Marquês de La Fare, publicou seus primeiros versos...
Em 1717, acusado de ser o autor de um panfleto político, foi preso e encarcerado em Bastilha por quase seis meses. Foi nessa época que resolveu adotar o nome de Voltaire. Enquanto esteve na prisão escreveu Henriade e o esboço de Oedipe que em 1719 obteve grande êxito.
Em 1726, em conseqüência de um incidente com a nobreza, Voltaire foi novamente recolhido à Bastilha, de onde saiu sob a condição de deixar a França. Indo em exílio para a Inglaterra. Três anos depois regressou a França e publicou cinco livros em cinco anos. Nessa mesma época escreveu suas Lettres Philosophiques, que provocaram grande escândalo e obrigaram Voltaire a fugir para Lorena onde morou no Castelo de Madame Du Châtelet até 1749, quando volta a Paris já cheio de glória e conhecido em toda Europa.
Sem conseguir se fixar em parte alguma Voltaire vagou por diversas cidades da Europa, até que em 1758 adquiriu o domínio de Ferney, onde passou a viver em companhia de sua sobrinha Madame Denis. Durante vinte anos viveu ali, cheio de glória e amigos e é desse período que data o livro Cândido ou o Otimismo.
Em 1778, em sua viagem a Paris, foi entusiasticamente recebido. Morreu no dia 30 de março desse mesmo ano, aos 84 anos de idade.
A Obra.
Cândido ou o Otimismo é um conto filosófico de tom satírico, escrito por Voltaire no ano de 1759 em apenas três dias. Ao que tudo indica, foi escrito ainda sob a impressão do trágico terremoto de Lisboa. A obra é dividida em trinta curtos capítulos carregados de ironia.
De leitura rápida e fluente o leitor segue a vida de Cândido, um jovem que nasceu e cresceu em um formoso castelo. Ali seu mentor Dr Pangloss lhe ensina a filosofia do “melhor possível”. Para ele “nosso mundo era o melhor dos mundos possíveis”. “As coisas não podem ser de outro modo, pois tudo o que acontece tem uma finalidade, que inevitavelmente levará para o melhor possível”. Fica claro que filosofia seguida por Pangloss e ensina a Candido é a filosofia de Gottfried Leibniz.
Após um beijo correspondido por Cunegundes, o Barão de Thunder-tem tronckh, pai da donzela, expulsa Cândido de seu castelo onde este cresceu na mais pura inocência e não conhece as dificuldades da vida. A partir deste momento o enredo do livro é baseado em uma sucessão de desgraças, que vão por a prova a filosofia ensinada por Panglos.
O pano de fundo desta obra são os horrores e as crueldades do século XVIII, onde praticamente todos os personagens principais passam ou passaram por algum tipo de tormento físico ou psicológico.
E o principal objetivo de Cândido, que até mesmo o faz atravessar diversos continentes, e reencontrar a bela Cunegundes. Durante sua busca, ele encontra com diversos personagens falsos, ingratos, mesquinhos, mentirosos, etc. que servem como estereótipos dos mais variados grupos sociais como os religiosos, militares, escravos, governantes, nobres, teólogos, filósofos, etc.
Quando finalmente Cândido consegue encontrar em Istambul a bela Cunegundes, ela já está feia, amarga, não lembrava em nada a formosura de antes. Entretanto, este se caso com ela, pois havia prometido, e foram morar em uma casinha nos arredores, junto a Pangloss, Cacambo, Martinho e a Velha[1]. Lá cultivam uma pequena horta que dá o sustento da casa.
A grande lição do livro é dada ao final do texto pelo velho feirante turco, e faz Cândido pensar e negar a filosofia de Pangloss. O velho turco viveu a vida inteira em sua propriedade, não tem pretensões intelectuais e ensina a seus filhos que o trabalho afasta três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade.
Desgastado pelo cotidiano, Cândido ouve mais uma vez Pangloss repetir seu mantra de que “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis e que todos os acontecimentos até agora estavam encadeados da melhor forma possível no melhor dos mundos” e responde: “Tudo isso é muito bem dito, (...) mas vamos cultivar nosso jardim.”
Cândido desfrutou de um grande sucesso e escândalo. Imediatamente após ser lançado, o livro foi proibido por possuir as mais diversas formas de blasfêmia e hostilidade intelectual escondidos sob a ingenuidade de alguns personagens.
Voltaire era um especialista em escrever romances filosóficos com objetivos didáticos, e como fazia parte do movimento iluminista tinha o claro objetivo de lutar pela defesa da Razão contra as trevas, a ignorância e as superstições.
Esse é o objetivo principal do livro: em meio às trevas do mundo, tudo que podemos fazer é enfrentá-las com a força de nossa natureza racional, sem ilusões. Ensinar que, muitos ditos sábios como Pangloss, espalham idéias otimistas, tentando ludibriar cândidos com a esperança de mundos melhores.
  
Sites:

Bibliografia:
VOLTAIRE:“Cândido ou o Otimsimo”. 1º ed. São Paulo: Folha de São Paulo, 2010 coleção livros que mudaram o mundo. Vol 17. 107 páginas.         


Leia também aqui no blog:Leibniz o otimista


[1]  Cacambo é o criado de Cândido, Martinho companheiro de viagem de Cândido, A Velha é a criada de Cunegundes.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Trabalho Alienado/Estranhado

Análise de um pequeno trecho do livro de Karl Marx "Manuscritos Econômico-Filosóficos” , que trata sobre o trabalho alienado e seus males sobre o homem.

Por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
O Trabalho Alienado/Estranhado.
Para se entender este capítulo da obra Manuscritos Econômico-Filosóficos do filósofo alemão Karl Marx é necessário que se tenha em mente a seguinte linha de pensamento: a alienação do trabalhador ocorre em quatro etapas. Primeiro a alienação do trabalhador pelo produto. Segundo a alienação do trabalhador durante a produção do produto. Terceiro a transformação do homem em animal por não se identificar com seu trabalho. E quarto, o homem se contrapõe ao próprio homem...
Enquanto todos os economistas contemporâneos a Marx exaltavam o progresso da economia política, deslumbrados pelo progresso e pelo enorme desenvolvimento industrial, Marx nos apresenta o outro lado da moeda, a exploração e alienação do trabalhador. Buscando entender a conexão fundamental entre todo sistema de alienação e o sistema do dinheiro.
A alienação do trabalhador pelo produto: quanto mais o trabalhador cria/produz, mais ele torna-se miserável, transformando-se aos poucos em mercadoria. Em contra partida, a mercadoria que ele criou aos poucos se humaniza. O homem transforma-se em mercadoria e a mercadoria em homem. Isso acontece pelo fato do trabalhador se relacionar com o produto como um objeto estranho a ele. O trabalhador torna-se um escravo do objeto, primeiro ele é trabalhador depois sujeito físico.
A alienação do trabalhador durante a produção do produto: durante o processo de produção o trabalhador também é alienado. Primeiro que o trabalho é exterior ao homem, e este não se realiza enquanto trabalha, por isso o trabalhador só se sente em si fora do trabalho e quando um trabalho se realiza desta forma ele pode ser considerado como trabalho forçado.
A transformação do homem em animal por não se identificar com seu trabalho: o trabalhador então, só se sente realizado durante a realização de suas funções animais (comer, beber, procriar, etc) enquanto durante as suas funções humanas, este se vê reduzido a um animal.
Existem animais, como a formiga, o castor ou a abelha, que trabalham, mas este trabalho é uma atividade vital. O ser humano por sua vez possui uma atividade vital lúcida! Mas graças ao trabalho alienado, esta situação é invertida, e o homem trabalha como um animal, ou seja, para a sua subsistência.
O homem se contrapõe ao próprio homem: quando o homem se contrapõe a si mesmo, entra em oposição aos outros homens. Pois se o produto e o trabalho, que são estranhos a ele, não são do trabalhador, de quem serão? Simples, de outro homem. O trabalho e o produto do trabalho pertencem a outro homem distinto do trabalhador. Se a atividade é um martírio para o trabalhador é fonte de prazer do burguês. O trabalhador não passa de um escravo do próprio salário.
Embora a propriedade privada pareça à causa do trabalho alienado, ela é na verdade a conseqüência. De um lado ela é o produto do trabalho alienado e do outro o meio com o qual esse trabalho alienado se realiza.

Resultado da reunião do grupo de estudos ARENA MARX realizado em Assis no dia 28/11/2011

MARX; Karl: “Manuscritos Econômico-Filosóficos” ed. Martin Claret, 2006 pág:110-122

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Minha Legenda no Estadão


  Essa é uma ideia muito legal do Jornal O Estado de São Paulo. O jornal solta uma imagem do dia  no facebook e seus seguidores tem a "missão" de escrever uma legenda que ilustre a foto. Não há nenhuma recompensa, mas o mais importante aqui é a interatividade mídia/povo.
 O único defeito, acredito, seja o fato das imagens muitas vezes virem sem seu contexto, o que abre brecha para falsas interpretações.

 Para ver minha legenda clique AQUI.  

domingo, 20 de novembro de 2011

Análise do Livro O Anticristo de Friedrich Nietzsche

A Ideia central de Nietzsche ao escrever O Anticristo,  é a transmutação dos valores. Trocar os valores cristãos platônicos que negam a vida e o ato de viver, prometendo recompensas pós-mortem e inserir novos valores que valorizem a vida e a tornem plena.
Por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
Introdução por Mauro Araújo Souza.
Apesar de suas inúmeras interpretações, o objetivo central de Nietzsche ao escrever O Anticristo era a critica aos valores estabelecidos em dois mil anos de cristianismo e propor a inversão e criação de novos valores...
O titulo desta obra, tão polêmico, se deve ao fato de Nietzsche combater o idealismo metafísico platônico que transformou este mundo em algo inferior e ilusório em nome da “verdade” de um mundo ideal. Platão era adepto a teoria de que tudo o que existe aqui no mundo real, em nosso mundo, não passa de uma projeção materializada do mundo das idéias que está bem alem da nossa percepção sensitiva. Nietzsche chamava o cristianismo de um platonismo para o povo e isto por si explica o titulo.
Sua obra luta contra a metafísica, contra o dualismo proporcionado entre corpo e alma, terra e céu e assim por diante. É necessário se esclarecer que há uma grande diferença para o filosofo entre Cristo e o cristianismo. Seu livro se posiciona contra o cristianismo e suas interpretações da vida de Cristo, que para ela não passou de um romântico que pretendia mudar o mundo com seu bom coração.
Para Nietzsche não existe o fato, para ele o que existem são interpretações forjadas pelas forças expressas em vontade de potência[1]. Por isso ele proclama que o cristianismo não é a única interpretação do mundo, há outras. Para se entender alguma coisa há necessidade de não se fechar em apenas uma perspectiva, como a cristã, que vem dominando o Ocidente por milênios.
O filósofo propõe o surgimento de um novo tipo humano, o “além-homem”, capaz e conviver com suas limitações e superações. E Nietzsche vem indicar esses valores novos através do Anticristo, diante de um mundo sem necessidade de Deus para criá-lo, guiá-lo ou destruí-lo.
O que o autor mais nega no cristianismo é o seu favorecimento da vida além-túmulo, em detrimento desta própria. Nietzsche prega que a vida deve ser entendida a partir da própria vida, sem o sentimento de culpa da moral cristã. O pecado não existe e se não há pecado não existe a necessidade de salvação. O ser humano sentiu a necessidade da criação de um Deus para preencher o seu próprio vazio existencial e o criou negando sua própria vida terrena.
Auguste Comte que com seu positivismo criticou a religião e todo o atraso da humanidade decorrente desta, acabou por transformar sua visão cientificista em um outra religião, o “ratiocentrismo” (a razão como centro). Nietzsche não opta nem pela metafísica-religiosa nem pela ciência como religião. Nem fé, nem razão: sem dualismos. Tudo é apenas um fluxo de forças e a razão é apenas um acaso, como acaso são todas as outras coisas.
Isso soa como absurdo para os cristão, para eles o mundo não é somente esse absurdo monstro de forças que nos leva ao acaso. Precisa haver um Deus, há de ter um Bem, um julgamento e uma vida eterna sem sofrimentos. Para Nietzsche não há nem céu nem inferno, há somente a existência.
O Anticristo prega que, já é hora de a vida na Terra ser valorizada. Já que as matrizes socráticas e as fundamentações platônicas tornaram o mundo concreto um fardo muito pesado. O mundo foi substituído por uma fábula e a vida tornou-se algo que cansa os homens.
Entretanto, a crítica maior do livro não é feita a Sócrates, Platão ou Santo Agostinho que cristianizou o segundo, mas ao apóstolo Paulo que já trazia idéias platônicas em sua formulação do cristianismo.
O cristianismo ordenou, direta ou indiretamente, todas as mentes no Ocidente, então somente um anticristo para descristianizar o mesmo Ocidente. É assim que Nietzsche se vê. Ele não se contenta somente com a inversão dos valores, ele parte também para a criação de novos valores.
O que é o cristianismo? É uma religião que nega o ato de viver, corrompe os instintos humanos, impede a felicidade. E o papel do anticristo é denunciar essa corrosão da alma como contrária a natureza. O que é Deus para Nietzsche? É a própria contradição da vida, negando-a.
Toda a tensão do autor é voltada contra a Igreja cristã e não contra Jesus Cristo. Cristo, como já foi dito antes, foi um romântico que para Nietzsche foi o único cristão que já existiu, todo o resto depois dele é montagem. Tanto que o filósofo cita “o evangelho morreu na cruz”.
Quem o filosofo combate e denomina como fundador da Igreja Cristã é Paulo, o apóstolo. Foi ele quem unindo a tradição judaica com a helênica, transformou o cristianismo no “platonismo para o povo”. Cristo não tinha a intenção de criar uma igreja institucional, tanto que morreu por isso, mas Paulo tinha e a institucionalizou. Paulo também foi o responsável por criar essa visão de Deus que conhecemos, que é totalmente diferente da pregada por Jesus. Paulo, para Nietzsche foi o manipulador da herança de Cristo
Paulo também foi o inventor do além no cristianismo, antes o Reino de Deus era considerado um estado de espírito, agora passara a ser algo pós-morte, outra realidade. Paulo usava da lógica dos Fariseus, que era tudo o que Cristo combatia e por isso foi crucificado. O sacerdote tornou-se tirânico, tendo ao mesmo tempo o poder de um rabino e de um soldado romano. Enfim, o cristianismo se institucionalizou, com dogmas e uma casta sacerdotal.
Como golpe de misericórdia, Paulo criou o juízo final implantando o medo à vida terrena. O dualismo platônico estava efetivado. Transformou Jesus no Salvador da humanidade e culpou a vida odiando-a. Todo cristão tornou-se um ressentido, auto-classificados como “os eleitos”, os “justos”, etc.
Nietzsche entende o cristianismo como uma automutilação e somente alguém muito carente de amor poderia ter criado um Deus de puro amor.
Por um período, Nietzsche chegou a imaginar que o cristianismo estaria perto de uma derrota: durante o Renascimento e a Reforma religiosa, Mas decepcionou-se a ver que Lutero somente fortaleceu o cristianismo.
Nietzsche é contra todas as formas e cristianismo, seja ela católica ou protestante, por isso sua obra é tão atual. Pois a moral do ressentimento e da culpa estão presentes no mundo cristão. E são muitos que seguem como “rebanhos” a seu pastor, a seu sacerdote, que falam em nome de Cristo, que Nietzsche lembra, levou com sigo o verdadeiro Evangelho.
Toda luta do autor é contra a metafísica platônica e sua popularização através do cristianismo. Nessa luta sua única arma é seu projeto de uma transvalorização dos valores.

Sites:
http://forum.consciencia.org/index.php?topic=520.0     acesso realizado em 19/11/2011

Bibliografia:
NIETZSCHE; Friedrich: “O Anticristo”. São Paulo-SP, ed Martin Claret, 2006

Veja também:
Fichamento completo desta obra.



[1]A vontade de potência, é a vontade de expandir-se, tornar-se mais, crescer, desenvolver-se, ser mais: “a própria vida é vontade de potência. 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Resenha descritiva completa da Obra A Utopia de Thomas More

Obra máxima de Thomas More, A Utopia conta como é a vida na república perfeita.
Por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
O autor.
Thomas Morus é a forma latinizada de se referir ao nome do escritor inglês Thomas More. Nascido em Londres entre os anos 1477 e 1478 (não há data precisa) de pais também londrinos pertencentes à nova classe urbana em ascensão. Recebeu boa educação e formou-se em direito. Casou-se com Jane Colt e teve quatro filhos, após o falecimento desta Morus casou-se novamente, desta vez com Alice Middleton...
Participou de várias missões diplomáticas e comerciais e em 1518 durante sua primeira estada em Flandres escreveu sua mais célebre obra, A Utopia. Ironicamente More a escreveu em Latim, pois alegava que isso limitaria o número de leitores àqueles que pudessem efetivamente compreender a complexidade de suas idéias.
Em 1521 foi feito cavaleiro. Em 1532 começou a cair em desgraça; opondo-se não ao rei Henrique VIII, mas ao seu rompimento com o papa. More recusou-se a assistir a coroação de Ana Bolena e a assinar a Lei de Sucessão. Acusado de traição, foi preso e decapitado em 6 de julho de 1535. Antes de morrer, mostrou-se extremamente religioso e fiel aos dogmas da Igreja. Tanto que foi canonizado como santo da Igreja Católica em 9 de maio de 1935. Sendo o dia 22 de julho o dia de São Thomas More, patrono dos políticos e dos governantes.
A Obra.
Essa é uma obra de Ficção, dividida em duas partes, sendo a segunda dividida em oito capítulos. Na primeira parte More faz uma devastadora crítica à situação política e social da Inglaterra. Na segunda ele nos transporta para a Utopia, onde reina uma sociedade ideal, que aboliu o dinheiro e abomina a Guerra.
Em A Utopia, More utiliza-se de fatos reais e os mistura com a fantasia com tanta maestria que para o leitor é difícil separar onde começa uma e termina a outra.
Simbolicamente, a ilha de Utopia é a antítese da ilha da Inglaterra. Trata-se de uma fábula na qual estão inseridos os princípios da sociedade humana, perfeita. Sociedade fundamentalmente racional que se auto-regula contra os males a as injustiças. Muitos pensadores, cada qual a sua maneira, já se debruçaram e analisaram essa obra-prima mundial entre eles Hegel e Marx.
O inegável é que essa obra atravessou o tempo e graças a este livro, a palavra Utopia entrou em nosso dicionário. Ganhamos assim um dispositivo crítico, o chamado pensamento utópico que consiste em sempre submeter as sociedades concretas ao julgamento promovido por nossos ideais de felicidade.
A Utopia.
Livro Primeiro: Da comunicação de Rafael Hitlodeu. (pág 09-36)
More é um dos personagens do livro e inicia explicando a todos que estava em Flandres, acompanhado por Cuthbert Tunstall, a mando do rei Henrique VIII, para resolver divergências entre ele e o príncipe Carlos de Castela. Como as negociações não andavam e os representantes da Espanha foram a Bruxelas, Morus resolveu ir para a Antuérpia e lá conheceu Pedro Gil um antuerpiense de grandes qualidades.
Um dia após sair da missa, More encontrou-se com Pedro Gil que prontamente lhe apresentou um amigo chamado Rafael Hitlodeu. Muito animado Pedro Gil disse a More que este conhecia diversos povos e países diferentes.
More se surpreende pelo fato de existirem sociedades organizadas fora da Europa e Rafael continua afirmando que existem instituições tão ruins quanto às européias, mas existem instituições e leis tão boas que podem ajudar a regenerar as nações do velho continente.
Após Hitlodeu dizer que nunca trabalharia junto a rei nenhum a conversa partiu para a questão das penas aplicadas aos ladrões da Inglaterra. Todas que eram pegos furtando ou roubando eram condenados a forca, entretanto essa pena é bastante cruel para punir e bastante fraca para impedir que o roubo aconteça, pois mesmo com tão dura pena, a Inglaterra continuava cheia de bandidos. Ao invés de simplesmente matar os que roubam, não seria melhor garantir a subsistência de todos a fim de que ninguém seja obrigado a roubar para se alimentar. A culpa é da nobreza que cria uma enorme massa de vassalos ociosos esperando usá-los em uma guerra.
O outro motivo para o grande numero de ladrões na Inglaterra são os inumeráveis rebanhos de carneiros. A disputa pelas terras entre pequenos camponeses e grandes criadores leva sempre a derrota do primeiro. Os camponeses que trabalham na agricultura e tem imensas famílias (para se tratar da lavoura é necessário muita mão-de-obra) perdem as suas terras que são transformadas em pastagens. As pastagens não absorvem toda essa mão-de-obra, e eles então são obrigados e se mudar para a cidade, onde para não morrer de fome roubam e são enforcados. Sendo injusto matar um homem por ter tirado o dinheiro de outrem, pois a sociedade não é organizada de forma a garantir a cada um uma igual porção de bens. A execução é ainda mais temerosa para a sociedade, pois o bandido percebe que não há menos a temer furtando do que assassinado e aterrorizado com a expectativa da forca torna-se um assassino.
O melhor sistema penitenciário é o dos polileritas[1], nação dependente da Pérsia. Não possuem nem exército nem nobreza, vivem na paz e na abundância. Quando alguém é apanhado furtando é obrigado primeiramente a restituir o furto ao prejudicado e depois a trabalhos públicos. Quando necessário aplicam-se castigos físicos aos preguiçosos. Os que cumprem bem o seu dever não sofrem qualquer meu trato e ao fim do dia são conduzidos a cadeia onde passam a noite. Há lugares onde os condenados são alugados e recebem salário.
Os condenados vestem a mesma roupa e tem metade da orelha decepada para o reconhecimento. Não poderem receber dinheiro, se reunir e muito menos tocar em armas, sendo estes crimes punidos com a morte. A fuga torna-se impraticável e a única maneira de um dia se recobrar a liberdade é pelo bom comportamento.
Ainda resistindo à idéia de trabalhar junto a algum rei, Hitlodeu expõem seus motivos. Segundo ele, mesmo que trabalhasse em algum reino jamais seria ouvido, pois a ganância real e a paixão pela guerra é algo gigantesco e para ilustrar essa idéia ele usa o exemplo dos acorianos[2] nação vizinha a Utopia.
O rei dos acorianos fez guerra a um reino vizinho que logo foi subjugado, mas o rei então percebeu que a conservação seria mais onerosa e difícil do que a própria conquista. Revoltas de todos os tipos eram reprimidas pelo exército que deveria estar sempre em prontidão. As diversas desordens ocorreram porque o príncipe era obrigado a dividir suas atenções entre dois reinos, não conseguindo administrar bem nem um nem outro. O povo de seu reino revoltou-se e o obrigou a escolher. Este por sua vez continuou em seu reino e cedeu o conquistado a um amigo que foi expulso rapidamente.
E Hitlodeu continua sua análise de como um bom governante deve ser. Um bom rei deve honrar seu povo e pensar mais na felicidade deles do que em sua própria. Os homens criaram os chefes para que pudessem viver comodamente ao abrigo da violência e é dever de um príncipe zelar por seu povo. A riqueza do povo não compromete o poder real, pelo contrário é preferível reinar sobre um povo rico a um povo pobre, pois os últimos não têm nada a perder. Sendo a quantia guardada nos cofres públicos suficientes somente para os momentos de crise e não para o desfruto do rei. E finaliza observando que nenhum rei da Europa jamais o ouviria, pois a filosofia não tem acesso na corte dos príncipes.
Onde a propriedade é privada e as coisas são medidas pelo dinheiro não há organização nem justiça. Em Utopia há poucas leis porque toda a riqueza nacional é igualmente repartida. Na Europa existem centenas de leis e mesmo assim não bastam para que um individuo posso adquirir, defender e distinguir sua propriedade da do vizinho. Sendo que, a única forma viável de trazer felicidade e igualdade ao homem é abolindo a propriedade. Todas as outras formas são paliativas.
Utopia é uma civilização muito antiga, tem aproximadamente 1.200 anos e nunca havia entrado em contato com o Velho Mundo, a não ser quando um navio que transportava egípcios e romanos afundou em sua costa e seus sobreviventes lhes ensinaram tudo o que conheciam sobre as ciências e as artes.
Nesse ponto Rafael Hitlodeu decide fazer um relato minucioso de toda a ilha de Utopia.
Livro Segundo: Da comunicação de Rafael Hitlodeu. (pág 37-103)
A ilha tem um formato de semicírculo de quinhentas milhas de arco, apresentando forma crescente, formando duas penínsulas afastadas por onze mil passos. Essa barreira quebra a força dos ventos transformando o mar em uma espécie de lagoa tranqüila, ótimo para a utilização do único porto da ilha. A entrada do golfo é perigosa por seus muitos bancos de areias e rochedos, sendo praticamente intransponível por navios inimigos, para sua transposição é necessário a utilização de um guia utopiano e dos faróis costeiros.
Utopus foi primeiro a se apoderar desse território, que ganhou seu nome. A ilha antes era ligada ao continente e ele então decidiu separá-la, cortando-a com a ajuda dos índios e de seu exército.
A ilha tem 54 cidades. Todos os anos três velhos sábios são escolhidos deputados em cada cidade e vão à capital Amaurota, a fim de tratar dos negócios do país.
Há um mínimo de terra estipulado para a agricultura. E seus habitantes se olham como rendeiros e não como proprietários do solo. A família agrícola é formada por quarenta pessoas, sendo dois escravos. Trinta famílias são dirigidas por um Filarca. E todos os anos vinte cultivadores de cada família regressam a cidade depois de cumprir seus dois anos de serviço agrícola, sendo substituídos por outros vinte.
Os utopianos criam diversos animais de trabalho e de abate, transformam cereais em pão e frutas em bebida e o excedente é comercializado com os países vizinhos. Quando falta algum utensílio é só pedir para algum magistrado na cidade que este é entregue de graça e sem nenhum atraso. Em época de colheita os moradores da cidade ajudam e esta é feita em apenas um dia.
Das cidades da Utopia e Particularmente de Amaurota.
Todas as cidades são praticamente iguais, então aqui será descrita somente a capital. Amaurota fica as margens do rio Anidra e de outro pequeno rio que abastece a cidade através de uma rede de canos de barro e cisternas. A cidade é cercada por muralha e fossos. As ruas e praças são largas e espaçosas, as casas são de posse comum e seus habitantes se mudam a cada dez anos.
Dos Magistrados.
Trinta famílias elegem todo ano um filarca. Dez filarcas obedecem a um protofilarca. Mil e duzentos filarcas escolhem um príncipe entre os quatro propostos pelo povo. O principado é vitalício, mas o príncipe pode ser deposto a qualquer momento que se suspeite de tirania.
 A cada três dias os protofilarcas se reúnem com o príncipe para deliberar sobre negócios do país. Assistido de perto por dois filarcas, trocados a cada sessão. Reunir-se fora das assembléias é crime punido com a morte, isto se faz com o intuito de impedir a conspiração.
Quando uma proposta é feita é proibida sua discussão no mesmo dia, transferindo-a para a sessão seguinte. Isso evita decisões precipitadas.
Das artes e dos Ofícios.
Todos os Utopianos aprender a arte da Agricultura desde crianças na escola. E também aprendem um oficio[3] especial. As roupas tem forma única e são confeccionadas pelas próprias famílias. Em geral um filho aprende a profissão do pai, mas caso tenha aptidão por outra pode aprendê-la, sendo permitido, também, a alguém que já possua uma profissão aprender outra.
O filarca é encarregado de não permitir que ninguém se entregue ao ócio. E a jornada de trabalho diária dos utopianos é de apenas seis horas, três antes e três depois do almoço. Todas as manhãs os cursos públicos são abertos e somente os destinados as letras são obrigados a fazê-lo, mas todos têm o direito de assisti-lo. À noite antes de dormir os utopianos se divertem com musica, conversa ou jogos de raciocínio.
Às seis horas de trabalham são extremamente suficientes para as necessidades do consumo público e ainda supera em muito o exigido, produzindo um excedente. Isso acontece porque em Utopia todos trabalham, diferente da Europa. Além de que em Utopia tudo o que se produz segue a idéia da utilidade. Em toda Utopia existem apenas um numero ínfimo de pessoas, com boas condições físicas, que não trabalham: os filarcas e os estudantes. É entre esses estudantes (letrados) que se escolhem os embaixadores, os padres o príncipe, etc.
Outro fato que explica como pouco trabalho rende tanto é a conservação. Casas, roupas, tecidos, etc. duram muito tempo e não é raro a produção ser suspensa por alguns dias para se evitar trabalho inútil.
Das relações Mútuas entre os cidadãos.
A cidade se compõe por famílias. A uma moça em idade apropriada é-lhe um marido e ambos vão morar com a família do homem. A família é comandada pelo mais velho. Cada cidade é formada por seis mil famílias, quando uma família cresce demais, o excedente é realocado em outra família. Quando uma cidade tem muita gente, deslocasse para as menos povoadas. Se a ilha se tornasse super populosa decretar-se-ia a imigração geral. Incorporando ou expulsando os povos que ali viviam. E caso alguma peste diminuísse a população de Utopia, os colonos voltariam a terra mãe.
A autoridade familiar é exercida baseada no sexo e na idade. A cidade é dividida em quatro quarteirões iguais e no centro de cada quarteirão existe um mercado com o necessário. O pai de família vai até o mercado e retira tudo o que precisa sem pagar um centavo. Em Utopia não existe a ganância e ninguém pega mais do que o necessário.
Em cada rua estão dispostos enormes palácios onde moram os filarcas. Suas trinta famílias são vizinhas e é no palácio que fazem as refeições.
Em torno da cidade existem quatro hospitais com ótimo atendimento, isolamento e estoque de remédios.
Os escravos são encarregados dos trabalhos mais penosos, como o abate de animais, e o trabalho sujo da cozinha. As refeições nos palácios dos filarcas são fartas e cheias de regras morais, sociais e de respeito.
Das viagens dos Utopianos.
Quando um cidadão deseja viajar por qualquer motivo, ele deve informar as autoridades e caso não haja nenhum impedimento tudo lhe é provisionado. Muitos dispensam as provisões e andam sem nada, pois onde estiverem poderão se alimentar e dormir com segurança. Se o viajante passar mais que um dia em uma localidade terá que trabalhar em seu ofício. Aquele que sem autorização deixar sua cidade será tratado como criminoso.
Em Utopia não existem tabernas, prostituição, seitas secretas, mendigos e miséria.
Os deputados reunidos em Amaurota, levantam as estatísticas econômicas da ilha, procurando regiões em dificuldade. Localizadas, há uma regulação estabelecendo o equilíbrio econômico entre as cidades.
Toda a produção é guardada de forma a abastecer dois anos. Para o caso de más colheitas. O restante é exportado a baixos preços, possibilitando a ilha ter dinheiro para comprar produtos que não existam nela, como o ferro, o ouro e a prata. Acumulam esses metais para o caso de uma eventual guerra, pagando mercenários para morrer no lugar dos utopianos.
Como não existe dinheiro em Utopia os utopianos acham o ouro e a prata um metal de pouca serventia. Eles sabem o valor que esse metais tem para outros povos, por isso não o descartam, mas fazem com ele vasos, cadeias e correntes para os escravos.
Nas ciências e na filosofia estão no mesmo patamar dos Europeus. Tendo como fio condutor de sua filosofia a busca pela felicidade. A filosofia e a religião dos utopianos pregam a felicidade boa e honesta acima de tudo. Viver como manda a natureza e esta prega que se leve uma vida honesta e agradável.
Os utopianos odeiam maníacos por nobreza, pessoas que se acham melhores que as outras por possuírem mais bens. Eles são classificados junto aos amadores de pedrarias e os avarentos como maníacos. Os utopianos não praticam nem a caça nem os jogos de azar eles preferem os prazeres verdadeiros do corpo e da alma: os prazeres da alma estão no desenvolvimento da inteligência e na contemplação da verdade, os prazeres do corpo se dividem em dois, a busca pela satisfação das necessidades corporais e a busca pela saúde.
Acredita-se que os utopianos são gregos de origem, apesar de seu idioma se aproximar do persa, sua escrita tem traços da língua grega. Rafael Hitlodeu ficou espantado com o interesse dos letrados utopianos pela filosofia grega e levou-lhes inúmeras obras de filosofia, poesia, história, dicionários, medicina etc. Hitlodeu ensinou-lhes a fabricar e imprimir papel e hoje, apesar de só possuírem os livros deixados por ele, já os multiplicaram aos milhares.
 Os estrangeiros são bem recebidos em Utopia graças à curiosidade dos utopianos sobre o exterior. O comércio para a ilha é atrai pouca gente porque a única coisa que falta é ferro. Já a exportação é feita pelos próprios habitantes da ilha.
Dos escravos.
Somente se tornar escravos prisioneiros de guerra capturados com armas na mão, criminosos e condenados a morte no estrangeiro. Seus filhos nascem livres e os escravos estrangeiros tornam-se livre em Utopia. Todos os escravos são submetidos a trabalhos contínuos, sendo os indígenas submetidos aos piores trabalhos e tratados com maior rigor.
Existem ainda os escravos voluntários. Trabalhadores pobres das regiões vizinhas que se oferecem voluntariamente para o trabalho. São homens livres e podem ir embora quando quiserem.
Todos os homens têm assistência médica garantida, entretanto, quando a cura é impossível os padres lhe dão a benção e o enfermo decide se comete suicídio ou não. O homem que se mata sem motivo é julgado indigno de uma sepultura sendo então atirado no pântano.
As mulheres só podem se casar depois dos 18 anos e os homens depois dos 22. O sexo antes do casamento é censurado e caso isto aconteça à família fica desonrada. Os utopianos não se casam completamente às cegas. Um pretendente se apresenta ao outro completamente nu, para que ambos se analisem, buscando ver alguma deformidade física.
O casamento em Utopia quase nunca é desfeito, a não ser pela morte de um dos conjugues. Em caso de adultério, o traído tem direito a se casar novamente e o adultero pena o resto da vida na infâmia, na escravidão e no celibato. Quando há uma incompatibilidade muito grande de gênios entre o casal, estes vão ao senado pedir o divórcio e este por sua vez decide se autoriza ou não. A reincidência do adultério é punida com a morte.
A escravidão é a pena ordinária para a maioria dos crimes, pois se acredita que esta seja melhor que a execução. Quando os condenados escravos se revoltam são rapidamente sacrificados. Os escravos de bom comportamento podem a qualquer momento receber a liberdade.
Os utopianos, como já foi dito, vivem em família e os magistrados não são nem orgulhosos nem terríveis, até mesmo o próprio príncipe se distingue da massa apenas por um feixe de trigo que traz à mão.
As leis são em muito pequeno número e bastam para as instituições. Consideram como injustiça suprema enlear os homens com uma infinidade de leis. Não existem advogados em Utopia, os utopianos expõem suas diferenças diretamente ao juiz que usa do bom senso e da boa fé para dar a sentença. Como as leis são poucas todos as conhecem e elas funcionam somente para advertir sobre seus direitos e deveres.
Os povos vizinhos, atraídos pela sabedoria das instituições de Utopia, pedem magistrados para passarem cinco anos em seu país a fim de lhes servirem de consultor.
Os utopianos não assinam nenhum tratado, pois acreditam que o homem está unido ao homem de uma maneira mais intima e mais forte pelo coração e pela caridade do que pelas palavras e protocolos.
Da guerra.
Os utopianos abominam a guerra, mas estão prontamente preparados para ela. Todos os cidadãos se exercitam a espera do momento de combater. Utopia só entra em guerra por motivos muito graves como proteger suas fronteiras, a de seus aliados e para libertar um povo de seu tirano.
Após todas as negociações falharem e a guerra é declarada, utopianos secretamente pregam cartazes no país inimigo oferecendo gorda recompensa a quem matar o príncipe inimigo e seus ministros. Induzindo muitas vezes a traição gerando um sentimento de insegurança dentro da corte. Isso garante que uma guerra acabe sem mesmo ter começado.
Se isto não funcionar os utopianos semeiam a discórdia prometendo a algum poderoso do país inimigo todo o reino. Isto faz as facções internas entrarem em conflito.
Mas caso a guerra seja realmente necessária, a república de Utopia alicia mercenários entre os zapoletas, povo vizinho nascido para a guerra. Além destes, os utopianos utilizam-se dos exércitos dos Estados que defendem e só em ultimo caso utilizam seu próprio exército. Nenhum cidadão é obrigado a se alistar, só em caso de extrema necessidade como em uma invasão em solo utopiano. Neste momento famílias inteiras, homens e mulheres vão para as frentes de batalha. Isto estimula a luta e a proteção mutua. Uma vez vitoriosos, os utopianos transformam os vencidos em escravos.
Os utopianos respeitam muito as tréguas com o inimigo mesmo que este os provoquem. Não destroem as plantações dos inimigos, não matam homens desarmados, nem pilham suas cidades, apenas prendem o líder e o condena a escravidão. Só em medida extrema fazem guerra em sua ilha e não há necessidade no mundo que force os utopianos a deixar entrar na ilha socorro de tropas estrangeiras.
Das religiões da Utopia.
Existem várias religiões em Utopia, algumas idolatram o sol, outros a lua, um antepassado, mas a maior parte dos habitantes acredita em um Deus único a quem o chamam de pai. Apesar de suas diferenças todos os utopianos concordam que existe um ser supremo, criador de tudo e de todos. Estas superstições tendem, dia a dia, a desaparecer e a se converter em uma única religião.
Quando Hitlodeu lhes ensinou sobre Cristo e seus apóstolos os utopianos ficaram muito curiosos e admirados. Alguns prontamente se converteram ao cristianismo, mas com a falta de um padre não puderam ser batizados. Há uma grande tolerância religiosa na ilha, uma das leis mais antigas proíbe prejudicar alguém por sua religião. Sendo severamente penalizado apenas o ateu que pensa que a alma morre com o corpo e o mundo marcha ao léu.
Em oposição ao materialismo ateu, existe um sistema inteiramente diferente e como não é perigoso pode ser professado livremente. Eles acreditam que todos os seres vivos têm alma e elas são imortais como a do homem.
A maioria dos utopianos acredita na vida após a morte. E por isso não temem morrer e chora-se pelos doentes e nunca pelos mortos. Venerando e louvando aquele que sabe morrer com dignidade.
Acreditam em milagres e na proteção e vigilância dos antepassados. Crêem alguns no poder da oração e outros nas boas ações. São divididos em duas classes uns se abstém de todos os prazeres da carne esperando a vida após a morte, outros se apegam a todos os prazeres em vida, os utopianos consideram os últimos mais sábios e os primeiros mais santos.
Esses religiosos são designados pelo nome de butrescos, e existem em pequeno numero. Os padres, assim como os magistrados são eleitos pelo povo da cidade. São os vigilantes da ordem e dos bons costumes. A excomunhão é o maior suplicio de todos e caso o excomungado não se arrependa pode ser preso e penalizado.
A educação inicial das crianças está nas mãos dos religiosos que ensinam a moral e a virtude. Os padres são extremamente venerados, respeitados e protegidos, seu pequeno numero se explica pelo fato de ser mais fácil protegê-los, além da dificuldade de se achar jovens de tão completa perfeição.
Os padres de Utopia são respeitados até mesmo em outros países devido a sua santidade e não é raro que em momentos de dificuldades eles sejam mais eficazes do que o exército.
Apesar das diferentes crenças, todas são praticadas no mesmo templo. Sempre buscando a harmonia entre todas as religiões. Nesse momento Hitlodeu expõe como ocorre um desses cultos.
Para finalizar Hitlodeu afirma que está é a única verdadeira republica do mundo, onde os interesses coletivos estão à frente dos interesses pessoais. Em Utopia tudo pertence a todos e não falta nada a ninguém, a fortuna do Estado é dividida igualmente entre todos e os inválidos de hoje que trabalharam ontem tem todos os seus direitos assegurados pelo Estado.
Não existem repúblicas como Utopia, as de hoje são apenas uma conspiração de ricos que buscam gerir melhor seus negócios sob o título de república. Os ricos diminuem cada dia alguma coisa no salário dos pobres, não só por meio de manobras fraudulentas, mas ainda decretando leis para tal fim. Como isso ocorre se o objetivo principal de república é a de apoiar os mais necessitados.
Hitlodeu deseja do fundo de seu coração que outros países venham a criam uma república como a da Utopia e alegrasse pelo fato de pelo menos ela existir.
Rafael Hitlodeu termina então, exausto, sua longa narrativa, More se põe a pensar e apesar de não concordar com muitas coisas em Utopia, admira como uma civilização se desenvolveu nestas bases e aspira ver muitas coisas estabelecidas nas cidades da Europa, ele mais aspira do que espera.


Bibliografia:
MORE; Thomas: “A Utopia”. 1º ed. São Paulo: Folha de São Paulo, 2010 coleção livros que mudaram o mundo. Vol 07. pág 07-103.  

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[1] Acredito que seja um povo ficcional.
[2] Acredito que seja um povo ficcional.
[3] Profissão: Oleiros, pedreiros, sapateiros, etc

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Reverso da Fortuna. Por que os ricos são ricos?

A questão pode parecer tola:  Ora os ricos são ricos, porque tem dinheiro! Mas ser financeiramente privilegiado vai muito além disso..
Estudos tentam entendem o que faz um rico ser rico
Carlos Haag
Em um de seus contos de juventude, The rich boy, o escritor americano F. Scott Fitzgerald escreveu que “os ricos são diferentes de mim e de você”. “São mesmo”, alfinetou numa carta seu amigo, o também romancista Ernest Hemingway, “eles têm mais dinheiro”. Esses dois “predicados” dão a eles um terceiro privilégio: os ricos “se escondem” e são muito pouco pesquisados...
Há uma extensa literatura sobre a pobreza no Brasil, mas existem poucos estudos sobre os ricos. Estudá-los é relevante porque eles detêm poder e suas ações afetam uma grande massa de pessoas, inclusive os pobres; por outro lado, eles possuem a maior parte da riqueza do país e uma das formas de melhorar as condições de vida da população mais pobre é a redistribuição das riquezas da sociedade na sociedade”, explica Marcelo Medeiros, coordenador de pesquisa aplicada do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no Internacional Poverty Centre da ONU e autor da tese de doutorado O que faz os Ricos ricos: um estudo sobre os fatores que determinam a pobreza. A pesquisa será publicada em outubro (2005) pela editora UNB. Para o autor, se conhecermos o grupo que deve receber recursos, pouco sabemos dos que vão cedê-los.
Não faltam, no entanto, estatísticas para mostrar que, como diz Medeiros, a pobreza de muitos está diretamente conectada à riqueza de poucos. Basta ler o estudo Atlas da exclusão social no Brasil: os ricos, feito por professores da USP, Unicamp e PUC-SP, que revela que a renda dos 10% mais ricos corresponde a 45% do PIB nacional. A situação piora se incluirmos nesse cálculo dados sobre o patrimônio: nesse caso o porcentual chega a 75,4% da riqueza total brasileira. Em outros parâmetros, 5 mil famílias (ou seja, 0,001% do total) detem 3% da renda nacional. Entre os anos 1980 e 1990, o Brasil registrou um aumento no número de ricos, embora tenha havido uma redução no crescimento do país: de 1,8% da população eles saltaram para 2,4%. Mas quem são os ricos? Em seu estudo, Medeiros criou uma linha de riqueza, definida a partir da pobreza e da desigualdade, que estaria em torno de R$3,5 mil per capita. Uma família típica de quatro pessoas teria uma renda total de R$14 mil. Leve-se em consideração que esses não são os “muito ricos”, mas compõem o grupo de 1% da população que detém 11% da renda. Detalhe terrível: o pobre gasta 32,79 da sua renda com comida e o rico apenas 10,26% o que mostra que ele paga mais tributos proporcionalmente do que os ricos que vivem com conforto.
Milagre- Os dados assuntam qualquer corrente econômica. “A péssima distribuição de renda parece ser uma praga perpétua no Brasil. Ela resistiu a surtos econômicos de crescimento do ‘milagre brasileiro’ e aos efeitos positivos da queda drástica da inflação desde o Plano Real”, observou o ex-ministro e professor da USP Delfim Netto em artigo recente. Os juros altos castigam ainda mais os pobres: Toda vez que a taxa se eleva em 1% a renda do trabalhador cai 1,9%, enquanto os ricos perdem 0,72% de seus rendimentos. “A política de juros altos tem um efeito devastador sobre a distribuição de renda, mas é menos visível do que os provocados pela inflação”,analisa Márcio Pochmann, economista da Unicamp. Além disso, ela avisa que o pagamento de juros elevados da dívida pública compromete os investimentos na economia real, gerando desemprego e afetando ainda mais os pobres. O dinheiro, então, mais uma vez migra para os ricos. “É importante lembrar que há uma clara interseção entre as elites econômicas e as elites de poder: dessa forma, além de orientar os destinos da economia, eles também influenciam as decisões de Estado e a formação da opinião pública”, nota Medeiros.
Delfim, foi preciso: essa é uma “praga” perene. “Mudanças de regime político, fases de euforia e depressão da economia, modernização de valores e costumes, nada disso foi capaz de alterar expressivamente essa segmentação entre uma massa grande de pobres e uma pequena, porém rica, elite”, avalia Medeiros. Em seu trabalho, o pesquisador do Ipea, baseado em dados do IBGE, põe abaixo antigas e arraigadas explicações para a desigualdade social. Algumas dentre elas, inclusive, são aventadas como hipóteses para se acabar com a pobreza. Como o controle da população, a idéia de que só são pobres porque têm mais filhos do que os ricos. “Apenas 3% das famílias brasileiras têm mais do que três filhos com menos de 10 anos. As taxas de fecundidade estão em patamares baixos. Dizer que o controle da população é solução da pobreza é jogar para os menos privilegiados a culpa por sua situação”.
Medeiros observou em suas simulações o que ocorreria se os ricos tivessem mais filhos e os pobres menos. “O fato se uma família ser metade da família do outro não explica o fato de os ricos terem uma renda 27 vezes maior do que a dos pobres”, alerta. “Não existe nenhuma razão para crer que o tamanho das famílias é o que faz as pessoas serem ricas. A riqueza não é resultado de um maior controle do numero de filhos dos ricos. Justificar a desigualdade nesses termos é dizer que pobre é irresponsável, rico é disciplinado e isso explica toda a diferença entre eles”. Outro mito recorrente, segundo Medeiros, seria o ideal de crescimento econômico puro (ou seja, aquele que aumenta o nível do produto da economia sem mudar sua distribuição) como panacéia para a desigualdade. “Mesmo que o país fosse capaz de manter, por duas décadas taxas estáveis de crescimento de 4% ao ano, isto é, crescer em mais do que o dobro da velocidade das duas ultimas décadas e duplicando o PIB atual, a pobreza ainda incidiria sobre 12% da população”. Assim, para o pesquisador, o crescimento pode ser bom, mas é insuficiente para reduzir a desigualdade entre ricos e pobres.
O que os diferencia então? “A forma desigual como os trabalhadores de cada grupo são remunerados. A média da remuneração por hora trabalhada dos ricos é 9,2 vezes maior que a dos não-ricos. Isso indica que, mesmo que os não-ricos tivessem a mesma composição e organização familiar dos ricos, as desigualdades entre os estratos persistiriam”, diz Medeiros. “Também carece de fundamento a idéia de que muito da riqueza pode ser explicada por jornadas de trabalho mais extensas. Mesmo que os trabalhadores não-ricos aumentassem suas jornadas de trabalho para o nível médio dos ricos, pouquíssimos se tornariam ricos”. Outro mito a ser derrubado é o da educação como forma de abrir as oportunidades de ser rico para todos por meio do trabalho. “As simulações mostram que um nível elevado de educação dos trabalhadores, um alto investimento e de longo prazo, é a condição necessária, mas não suficiente para que uma família seja rica”, diz. “Mesmo supondo um aumento significativo do nível educacional dos trabalhadores, não é de esperar grande mobilidade ascendente para o estrato rico.
Relações- Em sua tese, Medeiros ressalta a importância de se levar em consideração fatores externos como a inserção em redes de relações sociais, a pose de capital cultural e a propriedade de recursos produtivos, todos elementos que elevam a remuneração de seu trabalho. Medeiros lembra que, para pobres ou ricos, a renda provém mesmo do trabalho, embora “trabalho” signifique coisas diversas para os dois grupos. Dessa forma, afirma, os ricos têm características que os fazem ser ricos por terem nascidos ricos e, com boa chance, continuarem ricos. Eles são mesmo diferentes. “Ainda assim , não devemos ser pessimistas em relação ao futuro, mas enfrentar o fato de que a erradicação da pobreza e a redução da desigualdade só ocorrerão com a redistribuição da renda, ou seja, da transferência de recursos dos mais ricos aos mais pobres”, afirma o pesquisador. “Muitas das pessoas que vão ler esta reportagem fazem parte da elite dos 1%, mesmo que não gostem de admitir a idéia. Quase todos os leitores vão fazer parte dos 10% mais ricos. Isso não é julgamento de valor, mas um fato da nossa distribuição de renda”, avalia.
“Medeiros argumenta com razão que para entender a pobreza é indispensável analisar a ponta da pirâmide, os ricos, uma vez que a pobreza no país é resultado da péssima distribuição de renda”, observa Celi Scalon, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), em comentário ao trabalho do pesquisador. “Rejeitando alternativas mais ‘fáceis’ e ‘digestivas’, como controle populacional e crescimento econômico, o autor escolhe um caminho árduo e pouco simpático à elite, que detém não só o poder econômico como o político e o simbólico. “Rafael Guerreiro Osório, do Centro Internacional de Pobreza do Programa da ONU para o Desenvolvimento, concorda. “As soluções viáveis para a redução da pobreza terão que envolver alguma forma de deixar os ricos menos ricos”, nota em análise às hipóteses de Medeiros. Flavio Comim, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade de Cambridge, outro analista da tese do pesquisador, ressalta a idéia de que o “envolvimento dos ricos é engrenagem fundamental para a harmonização de interesses sociais e provisão de um Estado de bem-estar social mínimo. Dependemos tanto do Estado quanto do ‘sentimento moral’ dos ricos para progredir na direção de uma sociedade menos injusta e moralmente mais aceitável”.
Ameaça- No mesmo conto em que mostra como os ricos são diversos, Scott Fitzgerald revela o reverso da fortuna: “Eles acreditam, no fundo de seus corações, que são melhores do que os outros, justamente porque as compensações e refúgios da vida foram coisas que nós descobrimos por nós mesmos. Mesmo quando chegam a penetrar em nosso mundo, continuam a pensar que são melhores que o resto do mundo”. Assim, a tarefa proposta por Medeiros não é fácil de ser alcançada. “As elites acreditam que os problemas sociais são as maiores ameaças à democracia brasileira”, observou Elisa Reis em sua pesquisa Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade. Fruto de várias entrevistas, o survey de Elisa, feito para o Iuperj, revelou que a educação é apontada pelos ricos como o caminho mais adequado para dotar os desprivilegiados de recursos. Com melhor educação, os pobres teriam chances de competir por um lugar melhor na estrutura social, sem que houvesse necessidade de custos para os não-pobres. O trabalho de Medeiros já mostrou a falácia dessa idéia.
Seja como for, para os ricos, a culpa da miséria é do Estado. Segundo o estudo de Elisa, as elites “acreditam que as coisas poderiam mudar se houvesse vontade política e se o Estado cumprisse o seu papel”. A pesquisadora ressalta que os resultados poderiam fazer crer numa consciência social elevada dos ricos, já que os problemas sociais estariam no topo de suas preocupações. O que poderia, segundo ela, levar a uma avaliação errônea de que nossa elite desejaria repetir aqui o que os ricos dos países desenvolvidos fizeram na forma de solução coletivas públicas (reforma agrária, educacional etc.) para a resolução da pobreza na Europa e a consolidação do Welfare State. “No entanto, isso não procede. Falta uma noção de responsabilidade social entre os ricos. Aparentemente, eles não se vêem como parte de um todo e nem percebem o Estado como parte da sociedade, pois, ao responsabilizá-lo pela pobreza, as elites se eximem da responsabilidade coletiva”, avalia. “É quase um consenso entre os ricos que o Estado é e deve ser o responsável pelo combate a pobreza. Essa percepção é tão difundida nesses grupos quanto a idéia de que a liberação do comércio, a privatização das empresas estatais e o encolhimento do Estado são transformações extremamente positivas”, conclui o estudo de Elisa.
Os pobres brasileiros, por sua vez, reforçam a “boa vida” dos ricos e a consideram justa, como nota o estudo de Celi Scalon sobre o “jeitinho brasileiro” de conviver com as desigualdades de renda. “Os brasileiros tem um grande apreço pelas credenciais e atribuem um peso importante às qualificações profissionais como recurso para a aquisição de status”, analisa a professora. “Nesse sentido, altos salários são justificáveis quando vinculados ao mérito individual (esforço, qualificação, inteligência, educação) e, portanto, a desigualdade de renda é moralmente ou eticamente legitimada”, observa Celi. Na mesma pesquisa, a autora descobriu que os brasileiros justificam as desigualdades de renda quando as reconhecem como necessárias para a prosperidade do país. “Esse tipo de legitimação das desigualdades faz lembrar a lógica que imperou no Brasil no período da ditadura militar, quando se afirmava que era necessário primeiro fazer ‘o bolo’ crescer para depois dividi-lo. Tudo indica que essa crença permanece ainda nos dias atuais”. Os mitos descritos por Medeiros ainda sobrevivem.
Declínio– Nem todos, porém concordam com o pesquisador. Cláudio Dedeca, economista do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) e professor livre-docente do instituto de Economia da Unicamp, em comentário ao estudo dos ricos, argumenta que nos últimos 25 anos a economia nacional vem sofrendo um declínio de produto per capita gerado pelos trabalhadores brasileiros economicamente ativos, ou seja, há uma queda na produtividade média. “Portanto, distribuir renda nas condições atuais da economia brasileira permitirá no máximo, reduzir o grau de pobreza e diminuir a defasagem em termos de bem-estar da população brasileira, mas não permitirá o seu ingresso no padrão de bem-estar que a população de menor renda de outros países alcançou, como, por exemplo, na Coréia, Cingapura, Taiwan ou Tailândia”, afirma. Para Dedecca, é preciso reconhecer que o Brasil de hoje é um país pobre e que se houve um tempo em que podíamos falar em distribuição de renda essa discussão ficou nos anos 1970, quando a economia brasileira vivia um momento de crescimento econômico e de elevação da produtividade. “Mesmo considerando a relevância das políticas distributivas por ele mencionadas, elas tenderiam à inviabilidade em um contexto de queda da produtividade média social como do Brasil de hoje”, nota o economista.
Mas há ressalvas, mesmo para quem também preconiza a importância do “aumento do bolo”. Para Luiz Gonzaga Belluzo, titular do Departamento de Economia da Unicamp e vencedor do Prêmio Juca Pato deste ano, é preciso tomar cuidado com o tipo de crescimento por que vai se optar. “Em toda a sua história, o Brasil cresceu com aumento de desigualdade social. Isso não é tolerável hoje. Se o país vai crescer, há a exigência de que esse padrão não se repita”, alerta. Levando-se ou não em conta o crescimento, a distribuição de renda, para além dos mecanismos tributários, precisa de mudanças não apenas entre as elites, mas principalmente, entre a massa trabalhadora. “Mudanças ocorrem como fruto de pressão. Trata-se também de pensar como estimular a organização política da população mais pobre para que ela exija as alterações que julgar necessárias”, avisa Medeiros. “Um governo que se interessa por ações distributivas é um governo pressionado para isso, um governo que sabe que, sem isso, não existirá um próximo mandato”.

Reprodução integral da matéria Reverso da Fortuna da revista Pesquisa Fapesp 115 de setembro de 2005. Pág 78-83