quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde.

Como seria um retrato de sua alma?
Sobre o Autor.
Oscar Fingall O'Flahertie Wills Wilde, ou simplesmente Oscar Wilde, nasceu em Dublin na Irlanda em 16 de outubro de 1854, filho de um médico, Sir William Wilde e de uma escritora, Jane Francesca Elgee. Desde o berço esteve cercado por intelectuais amigos da família.
Wilde é considerado uns dos grandes nomes da literatura de língua inglesa, sendo responsável por diversos poemas, peças teatrais, ensaios e um romance que é o foco deste escrito.
Sua vida pessoal é extremamente conturbada pelo fato de ser homossexual em plena era vitoriana (1837-1901), período fortemente conservador e de leis duríssimas sobre esta prática. Após atingir o auge de sua vida intelectual e produtiva, sendo reconhecido em toda Europa como um grande escritor, caiu em desgraça quando foi denunciado pelo Marquês de Queensberry, pai de seu suposto amante Lord Alfred Douglas (ou Bosie), pela prática de Sodomia. Condenado, cumpriu dois anos de prisão e trabalhos forçados.
Liberto em 1897, nunca mais recobrou o prestígio e a produtividade, entregou-se ao álcool, suas obras foram tiradas de cartaz, perdeu grande parte de seus bens e enfrentava a dureza da sífilis quando foi acometido por um violento ataque de meningite ao qual não resistiu e faleceu em Paris no dia 30 de novembro de 1900.
A Obra.
O Retrato de Dorian Gray teve originalmente sua primeira publicação em 1890 nas páginas de revista Lippincott’s, sendo publicada simultaneamente na Inglaterra e nos EUA. Este livro possui três edições, sendo as duas primeiras atenuadas para não chocar o publico e a terceira escondida por 120 anos até que foi publicada em 2011 com base nos datiloscritos de Wilde.
Como o próprio título do livro deixa evidente, a obra conta a história do jovem e belo Dorian Gray um tímido rapaz que acaba de ingressar na alta sociedade inglesa do século XIX. Sua afabilidade, humildade, ingenuidade, doçura e sobretudo sua beleza acabam por encantar o pintor Basil Hallward que o vê como o modelo perfeito a ser pintado.
Durante a produção do fatídico retrato, Gray conhece Lorde Henry Wotton, amigo de Basil, e tem início o diálogo que mudará os rumos da vida de todos. Lorde Wotton admira a beleza de Gray, mas adverte que em breve ela passará e com ela a felicidade da vida, Dorian lamenta que com o passar dos anos ele perderá a beleza ali retratada. Forma-se um pacto diabólico, o quadro é finalizado e sem explicações o retrato começa a envelhecer ao invés do próprio Gray. Mas a qual custo?
Análise da Obra.
Todos desejamos uma vida longa, mas poucos são os que aceitam docilmente o envelhecimento. As primeiras rugas, a calvície, a perda da jovialidade e da virilidade são traumáticas e pouco desejáveis. Este é o fio condutor que permeia a obra: você estaria disposto a vender a sua alma em troca da juventude eterna?
Diversos são os mitos, as lendas, os contos sobre a juventude eterna. Narciso, a fonte da juventude, Cocanha são exemplos do desejo humano de viver uma vida longa e jovial. Oscar Wilde traz este questionamento para a era vitoriana de forma primorosa. Dorian Gray é uma espécie de Narciso do século XIX.
A natureza humana é debatida em cada linha desta grande obra, o egoísmo a falta de empatia, a maldade, a ganancia são elementos centrais e motivacionais de uma série de crimes e suicídios em nome da vaidade.
Acredito que o grande trunfo de Wilde foi separar a estética da moral. Basta uma simples pesquisada em livros clássicos ou filmes de Hollywood para perceber que em geral a beleza sempre vem acompanhada da bondade. Os mocinhos são sempre belos e morais enquanto que os vilões trazem consigo além da maldade pela maldade a feiura em seus rostos e corpos. Neste caso não, Gray aos poucos transforma-se em um facínora egoísta deixando um rastro de desolação enquanto que sua face continua bela e encantadora. Assim, Wilde se desfaz da ideia de que a moralidade vem acompanhada de sendo estético.
Outro elemento importante deste livro são os personagens Basil e Lorde Wotton e a influência que ambos intentam sobre o jovem Gray que inicialmente assemelha-se a uma folha em branco. Ambos personagens são representativos da natureza humana, enquanto que o pintor Basil representa a parcimônia, a tolerância, a descrição e o cometimento, Lorde Wotton é um hedonista buscando prazeres imediatos e sem limites. Agora coloque-se no lugar de Gray, se você fosse rico, belo e jovem para toda a eternidade você seria cauteloso ou viveria os prazeres da vida até as últimas consequências? A vitória da influência de Wotton é simbolizada pelo assassinato de Basil pelo próprio Gray.

Engana-se quem acredita que este livro trata somente sobre um retrato de Dorian Gray, ele na verdade é um retrato da própria natureza humana, seu egoísmo, cinismo e sua falta de caráter. Quantas guerras não foram realizadas em nome da vaidade? Quantos assassinatos foram realizados em nome do belo? Quantas pessoas não foram excluídas e não puderam viver suas vidas plenamente por não se encaixarem em padrões? Este livro é para todas as épocas, em especial para a nossa onde o culto a aparência física e a juventude deixou os salões da realeza e transformou-se em fenômeno de massa.
Referências.
WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. 1 ed. São Paulo: Mediafashion, 2016.

domingo, 19 de novembro de 2017

Resumo Joaquim Nabuco: Minha Formação

Joaquim Nabuco (1849 – 1910).
Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu em Recife no dia 19 de agosto. Era filho do senador e conselheiro liberal Nabuco de Araújo, maior influência de sua vida.
Foi batizada na capela do engenho de Massangana, que era propriedade dos padrinhos que o criaram até os 8 anos.
Com a morte de sua madrinha, Joaquim vai viver no Rio de Janeiro com seus pais, onde estudou no colégio Pedro II e mais tarde – com 16 anos – ingressou no curso de direito de São Paulo (1868) e transferiu-se para a faculdade de direito do Recife (1870).
Na faculdade foi contemporâneo de grandes nomes da política e da literatura brasileira como Rui Barbosa, Rodrigues Alves, Castro Alves e Afonso Pena. Ainda estudante defendeu no júri um escravo acusado de matar seu senhor que o maltratava e um guarda que tentou conter sua fuga.
Abolicionista e contrário a pena de morte, atraiu para si a antipatia de poderosos fazendeiros, o que lhe fechou as portas à carreira pública. Teve assim, com a ajuda de seu pai, que ingressar na carreira diplomática. Foi adido de legação diplomática em Londres e em Washington.
Com a volta dos liberais ao poder, Nabuco ingressou na política brasileira como deputado (1878). Defendendo: eleições diretas, presença de não-católicos no Parlamento e a imediata abolição da escravatura sem indenização aos senhores de engenho. Em 1880 fundou a sociedade brasileira contra a escravidão e em 1882 perdeu as eleições ao parlamento, exilando-se voluntariamente em Londres.
Escreveu nesta época o livro O Abolicionismo (1884), em que expôs pela primeira vez as ideias de liberdade dos escravos junto com Reforma Agrária – defendendo a ideia de que a abolição só faria sentido se viesse acompanhada com a democratização da terra.
De volta ao Brasil, elegeu-se deputado por Pernambuco (1885) e empenhou-se na campanha de adoção de uma monarquia federativa sob e regência da princesa Isabel.
Em 188 foi recebido pelo papa Leão XIII, a quem pediu um encíclica em favor da libertação dos escravos. A promessa dessa encíclica teve grande repercussão no Brasil.
Extinta a escravidão em 1888, Joaquim Nabuco continuou fiel a monarquia brasileira e com a queda do regime imperial afastou-se da política e dedicou-se somente a escrita. Ingressando na Academia Brasileira de Letras.
Em 1900, após dez anos de luto pela monarquia, a convite do presidente Campos Sales, assumiu o cargo de ministro plenipotenciário em Londres lutando pelo litígio territorial entre Brasil e Guiana Inglesa.
Em 1905 foi nomeado o primeiro embaixador brasileiro em Washington, tornando-se amigo pessoal de várias personalidades americanas da época, como o próprio presidente Theodore Roosevelt. Morreu nesta mesma cidade em 1910.
Minha Formação (1900).
Não há dúvidas de que o livro Minha Formação de Joaquim Nabuco é a melhor autobiografia brasileira de seu tempo. Esta obra dividida em 26 capítulos escritos entre 1893 e 1899, relatam detalhadamente a formação intelectual, moral, educacional e ideológica deste grande brasileiro.
Minha Formação figura como uma importante obra de memórias, onde se percebe o paradoxo de quem foi educado por uma família escravocrata, mas optou pela luta em favor dos escravos.
Inicialmente devemos entender que Joaquim Nabuco era antes de tudo um monarquista inexorável, fiel a família real e defensor de um parlamentarismo como o inglês. Politicamente liberal e progressista acreditava que a transição para a democracia no Brasil só poderia ser feita mediante atuação da família real, o que lhe garantiu a alcunha de reformista, uma vez que via com maus olhos as transformações abruptas defendidas por uma revolução.
Lutou por reformas (como a agrária), pelo abolicionismo, pelo parlamentarismo, pela família real e antes de tudo lutou pelos interesses do Brasil no exterior, graças a sua grande carreira diplomática. Foi um grande brasileiro.
Resumo: Minha Formação.
Cap. 01: Colégio e Academia.
A base de seu liberalismo é apoiada em dois alicerces, seu colégio e seu pai. Estudou no colégio D. Pedro II na mesma época em que seu pai havia trocado o Partido Conservador pelo Liberal (1864-1865). A história política brasileira é marcada desde a Regência pela passagem de jovens liberais, para velhos conservadores. O velho Nabuco iniciou o movimento contrário.
Em S. Paulo na Faculdade de Direito entrou em contato com os grandes autores de sua época. Leu de tudo, em especial os franceses. Afastou-se do catolicismo. E continuou liberal, mas suas ideias flutuavam entre a monarquia e a república. Acabou decidindo pela monarquia após ler o livro Constituição Inglesa de Walter Bagehot em 1869.
Cap. 02: Bagehot.
Nabuco percebia a existência de dois modelos de governos progressistas em sua época: a república norte-americana e a monarquia parlamentarista inglesa. Segundo ele o modelo estadunidense lhe parecia mais livre e popular, mas a monarquia constitucional democratizada seria para o Brasil um modelo melhor de governo, uma vez que aqui já havia uma família real.
As ideias que Nabuco herda de Bagehot são poucas, mas centrais em sua ideologia política.
Bagehot descontrói o modo clássico de explicar a Constituição Inglesa, que tradicionalmente acreditava que: 1º o sistema inglês consistia na separação entre os três poderes. 2º que esses poderem são equilibrados.
Para o autor, na Inglaterra os poderes Executivo e Legislativo estão unidos pelo laço do gabinete, sendo assim só há um poder a “câmara dos comuns”. Ou seja, o sistema inglês baseia-se na fusão desses dois poderes. No rival deste sistema – o presidencialismo – os poderes legislativo e executivo estão separados. Isso possibilita que:
Em tempos de paz:
1.      O legislativo cria os impostos utilizados pelo executivo. Quando há rivalidade entre esses dois poderes o legislativo pode asfixiar o executivo, o que pode gerar crises. No parlamentarismo quando isso ocorre a câmara pode ser dissolvida. Na república a dissolução do poder é dramática uma vez que todas as legislaturas possuem um prazo pré-determinado.
2.      A monarquia parlamentarista tem uma grande participação popular, já que o povo sabe que o que ocorre no parlamento tem influência direta em suas vidas. Ou seja, o povo se politiza, ou contrário do que ocorre na República em que a participação popular termina na hora do voto.
3.      O antagonismo entre esses poderes enfraquecem tanto o legislativo quanto o judiciário.
Tempos difíceis:
1.      Executivo e Legislativos cooperam.
2.      Republicanismo tem o congresso dividido em facções rivais e todos os mandatos são pré determinados, o que engessa a tomada de decisões, já que o governo republicano foi eleito e estruturado em um momento e a situação nacional pode se transformar durante este período.
Antes de ler Bagehot, Nabuco tinha preconceitos em relação a hereditariedade da monarquia e da influência da aristocracia. Mas percebeu que isso são as partes imponentes da Constituição Inglesa e servem para conservar o respeito da população. A família real gera calma nacional, mesmo em tempos de crise. Mesmo que hajam eleições periódicas, as classes pobres e ignorantes imaginam ser governadas por soberanos hereditários que governam pela graça de Deus, mesmo que na verdade eles sejam governados por pessoas que eles próprios elegeram. Além de que, a pompa da realeza aguça a imaginação e o sentimento dos súditos. “Enquanto a espécie humana tiver muito coração e pouca razão, a realeza será um governo forte, porque se harmoniza com os sentimentos espalhados por toda parte, e a república, um governo fraco, por que se dirige a razão”.
O que Nabuco herdeu de Bagehot foi esse entendimento da superioridade prática do governo de gabinete inglês sobre o sistema presidencial americano. Mostrando como uma monarquia secular de origens feudais, cercadas de traduções e formas aristocráticas, podia ser um governo mais popular do que a República.
Cap. 03: 1871-1873: A Reforma.
Nabuco saiu da academia monarquista e favorável a hereditariedade real. Segundo ele, a grande vantagem deste sistema era a não interrupção de um projeto de longo prazo, já que não há interrupções periódicas como na república. Se não fosse Bagehot, Nabuco seria republicano, pois era a moda da época.
Contudo, ele não saiu da academia totalmente monarquista e um exemplo disso foi um artigo seu escrito em 1871 no Jornal Reforma, onde critica a série de viagens de D. Pedro II a Europa, dizendo em tom de sarcasmo que o mesmo deveria mesmo é conhecer a América (republicana). Foi só aos poucos que esse monarquismo prevaleceu.
No mesmo período em que Rio Branco (conservador) deu início a uma série de Reformas Liberais, gerando muito confusão entre os liberais, que migraram para o Republicanismo, Joaquim Nabuco fez o caminho contrário saindo do Republicanismo e migrando para o Monarquismo.
Cap. 04: Atração do Mundo.
Nabuco nunca se viu como um político (que atua dentro de um país), mas sempre admirou a política por seu viés histórico. Nunca gostou da política partidária e das disputas internas, preferindo analisar a política contemporânea global. É mais um espectador do século do que de seu país. Lógico que a abolição da escravatura e a expulsão de D. Pedro II do Brasil o abalou, mas são casos mais humanos do que políticos. Sua ambição política foi puramente intelectual, considerando-se cosmopolita de mais para se ater somente as coisas nacionais.
Cap. 05: Primeira Viagem à Europa (1873).
 Viagem que mudou sua vida, transformando-o profundamente, colocando-o em contato com grandes nomes da música, literatura, política, filosofia, entre outros, de seu tempo. Este viagem foi o cimento em sua ideologia monarquista.
Cap. 06: A França de 1873 – 1874.
Esteve na França durante a instauração da Terceira República Francesa (1870-1940), primeiro regime duradouro desde a Revolução Francesa de 1789. Esta assembleia levou nove anos para escrever a Constituição (1870-1879), em geral a dúvida era se os franceses adotariam a monarquia ou a República. Nabuco acompanhou os debates.
Cap. 07: Ernest Renan
Desde a faculdade, a literatura e a política alternavam-se nas ocupações de Nabuco. Inicialmente a política, mas após sua viagem à Europa a literatura o dominou (1873-1879), e ao final deste período de volta a política como deputado da Câmara de deputados.
Ernest Renan foi um escritor francês que Nabuco admirava e conhecia pessoalmente de sua estadia na Europa. O auge de sua fase literária veio quando Renan leu e elogiou diversos versos que Nabuco escreveu em francês.
Cap. 08: A crise poética.
Nabuco percebe que não nasceu artista e que seus versos não possuíam nada de especial. Mas este período em que esteve na Europa e que se dedicou exclusivamente as artes lhe tocou de uma espessa camada europeia totalmente impermeável a políticas locais, ideias preconceituosas, paixões partidárias e etc. Isolando-se de tudo o que na política não possuísse estética (republicanismo).
Cap. 09: Adido de Legação.
Entre 1873 e 1878 a política é algo secundário para Nabuco, mas este também é o período de consolidação de seu espírito monarquista. Entrou para a Diplomacia em 1876, ao perceber que os cargos públicos devem ser confiados a quem melhor pode desempenhá-lo.
Cap.10: Londres.
Na Inglaterra sua defesa da monarquia solidificou-se, tornando-se mais forte e duradoura. Este capitulo é dedicado a elogiar a capital britânica.
Cap. 11 Grosvenor Gardens.
Relata como conviveu com a aristocracia londrina neste endereço.
Cap. 12: A Influência Inglesa.
Nabuco acredita que o Republicanismo tem por base o ressentimento das ações contrárias durante seu processo revolucionário. É um regime político que nasce do ódio.
Muitos especialistas do tempo de Nabuco acreditavam que o liberalismo econômico caminhava inevitavelmente para o Republicanismo, mas a Inglaterra prova que isso não é verdade. A Inglaterra é o maior país do mundo, graças aos seus juízes, tão poderosos quanto o maior nobre ou a família real. O sentido de igualdade de direitos é profundo entre a sociedade inglesa. O governo inglês e a liberdade inglesa são monárquicos, o governo mais livre do mundo é uma monarquia!
Como este é um país livre Nabuco encontrou republicanos na Inglaterra, mas estes serviam em última análise para melhorar a própria monarquia, não deixando que ela se corrompesse.
Cap. 13: O espírito Inglês.
 O espírito inglês é a norma de conduta ao qual todo inglês deve obedecer, é o centro de inspiração moral que governa todos os seus movimentos.
As reformas inglesas são comandadas por algumas regras elementares:
1.      Conservar tudo o que não seja um obstáculo ao melhoramento;
2.      Que o melhoramento justifique o sacrifício da tradição;
3.      Respeitar o inútil que tenha cunho de época, só demolir o prejudicial;
4.      Substituir de forma provisória para que o tempo diga se consagramos ou rejeitamos a mudança;
5.      A reforma deve respeitar o que os outros construíram antes, respeitando o que as outras épocas construíram.
6.      A reforma é feita pedra por pedra.
Outro fator que dirige o espirito do progresso é o espirito de realidade ou utilitarismo, rejeitando a teoria e buscando a necessidade prática. As reformas devem ter vantagens econômicas.
Política e religião estão intimamente ligados na Inglaterra e Nabuco vê isso como algo bom, já que as duas tem o mesmo objetivo: elevar a condição moral do homem.
Cap. 14: Nova York (1876-1877).
O que Nabuco viu nos EUA não mudou, mas aprofundou seu pensamento monárquico, pois o espirito político americano é uma variação do espírito político inglês, ao qual o autor chama de espírito anglo-saxônico.
Nubuco esteve nos EUA republicano justamente durante a conturbada eleição do democrata Tilden, onde durante as eleições as urnas do Sul foram fraudadas pelos republicanos e ambos candidatos reclamaram a vitória. A câmara era Democrata, o Senado Republicano e até o mês de março os EUA tiveram dois presidentes levando o país à beira de uma guerra Civil. O espirito Anglo-Saxão interveio e as casas resolveram entregar a questão a uma comissão especial. A solução foi inglesa, diferente da guerra civil dos latinos.
Cap. 15: Meu diário 1877.
Conta sobre a política mundial e os grandes acontecimentos ocorridos neste ano, em especial na França e nos EUA.
Cap. 16: Traços Americanos.
Aqui ele apresenta por que considera a democracia dos EUA a melhor ideia de democracia na América.
Politicamente, umas das coisas que mais chamaram a atenção de Nabuco nos EUA foram as campanhas eleitorais. O candidato tem sua vida vasculhada pelo rival, de tal forma que se alguma coisa estiver fora de ordem será utilizada na campanha contrária. O efeito colateral disso é a moralização da vida privada daqueles que desejam entrar para a política.
Uma vez que os dois partidos participam de esquemas de corrupção eventos da vida pública não geram efeitos, agora deslizes na vida privada são fulminantes para a derrota do rival.
Não há nada no sistema político americano que é melhor do que o inglês. Diferente da monarquia parlamentarista inglesa, a república presidencialista atrai a pior classe de homem, uma vez o debate não é no campo das ideias, mas das relações pessoais, afastando da política homens de honra que zelem por sua reputação.
Cap. 17: Influência dos EUA.
Os dois anos que passou nos Estados Unidos influenciaram muito o pensamento de Nabuco. Ele vê neste país uma moral anglo-saxônica muito forte, que se transformou pelo distanciamento de tempo e espaço com a Inglaterra, gerando um povo muito diferente. As instituições políticas inglesas são mais atuantes e presentes na Inglaterra, enquanto que nos EUA quase não são sentidas.
O principal efeito do republicanismo americano em Nabuco foi o de apenas corrigir o que houvesse de supersticioso sobre o seu monarquismo: direito divino e consagração super-humana do monarca.
Cap. 18: Meu pai.
Joaquim foi profundamente influenciado por seu pai José Tomás Nabuco de Araújo Filho. Essa influência não tem nada de doutrinação ou dominação, mas algo mais parecido com fascínio.
Seu pai fez parte do “grupo de moços” do Gabinete Paraná – Caxias (1853-1857) o mais longo e brilhante do Império até aquele momento. Gabinete conhecido como Ministério da Conciliação, pois o imperador decidiu formá-lo após a última guerra civil do Império, abrindo a política aos elementos liberais, sem tirar da direção os conservadores.
Mas foi apenas após sua morte, estudando sua vida e pesquisando o vasto acervo deixado por ele, que Joaquim Nabuco pode entender a personalidade política do pai.
Cap. 19: Eleição de deputado.
Até 1878 foi o período de formação política, entre 1879 e 1889 era o momento da ação política. Como bandeira política decidiu lutar pela abolição, interesse que trazia consigo desde a adolescência. Nabuco assumiu o cargo de deputado após a morte do pai em 1878.
Neste período as audiências são marcadas por grandes discursos – ser um bom político era ser bom discursista – e Nabuco considera este período como o de seus melhores e mais importantes discursos, o de maio de 1881 e o de Recife pronunciado no teatro Santa Isabel entre 1884 e 1885.
Cap. 20: Massangana.
Até os oito anos viveu em um engenho na zona rural de Pernambuco, uma típica fazenda escravista, fechada em si mesma, sem interferências externas, com a casa grande no centro e as senzalas ao redor.
Foi criado por sua madrinha e teve na infância como melhores amigos os filhos dos escravos.
Sua impressão mais forte sobre a escravidão remonta a sua infância, quando um escravo fugido da vizinhança foi até o engenho de Massagana e atirou-se aos seus pés, implorando que sua madrinha – que tinha fama de tratar bem os escravos – o comprasse.
Com a morte de sua madrinha o engenho se desfez entre os herdeiros e o jovem Nabuco foi enviado para o pai. Segundo ele não havia nada mais traumático para os escravos do que a mudança de um senhor de engenho para outro. Além do orgulho do Senhor de Engenho, havia uma espécie de orgulho íntimo do escravo, uma dedicação parecida com a de um animal doméstico. Isso, claro referente a fazenda Massagana, onde a escravidão era muito antiga e vinha de gerações, onde a hereditariedade e as relações fixas entre o senhor e os escravos, juntamente com o isolamento com a restante do mundo, transformava o engenho em uma espécie de tribo. Isso era impossível em fazendas gigantes do sul (onde o escravo não conhecia seu senhor). Um exemplo é que a morte da Madrinha de Nabuco ele percebeu que os escravos a abençoavam como se eles fossem os devedores.
Cap. 21: Abolição.
Quando a campanha da abolição se iniciou em 1879, ainda existiam no Brasil cerca de 2 milhões de escravos, e seus filhos ainda viviam até os 21 anos em uma espécie de cativeiro. Em menos de dez anos após o início da campanha a escravidão chegou ao fim, isso segundo Nabuco aconteceu porque já não cabia a existência de um sistema escravista no mundo. Não havendo no Brasil nenhum grupo da sociedade brasileira que ainda apoiasse a escravidão.
Para Nabuco a escravidão durou tanto no Brasil graças a doçura nacional. Enquanto que nos EUA há uma guerra entre raças, aqui houve uma fusão e uma escravidão branda.
Este capitulo ainda mostra o processo de luta pela abolição e a ação principal de dois grupos que trabalham juntos, misturavam-se, mas buscavam coisas diferentes: um a ação política e outro a ação revolucionária.
A luta abolicionista no Brasil pode ser dividida em duas fases:
1.      1879-1884: em que os abolicionistas lutavam sozinhos e com recursos próprios.
2.      1884-1888: em que a causa foi adotada pelos dois grandes partidos do Brasil.
Seu maior amigo desta época foi André Rebouças que não era um bom orador, mas um intelectual de primeira ordem e trabalhava nos bastidores. Rebouças sempre pressentiu que o fim da escravidão causaria uma grande desgraça a dinastia.
Nabuco ainda dedica este capitulo aos grandes nomes do abolicionismo brasileiro, em especial a José do Patrocínio, que ele considera como a figura símbolo deste período, ele era a própria revolução.
Cap. 22: Caráter do movimento – a parte da dinastia.
A abolição teria sido outra se fosse feita através da educação religiosa, passando a ideia de geração a geração. Infelizmente, o espírito revolucionário teve de executar em poucos anos a tarefa que havia sido desprezada por um século. A política escolhe as sementes, a religião prepara o terreno. O movimento contra a escravidão no Brasil foi antes um movimento de caráter humanitário e social do que religioso, por isso o movimento não teve uma profundidade moral. Assim, a corrente abolicionista parou no mesmo dia da abolição e no dia seguinte refluía.
Segundo Nabuco, se a raça negra soubesse que a abolição levaria à Proclamação da República, teriam desistido do 13 de maio.
Essa curta dinastia teve somente três nomes: o fundador (D. Pedro I) que liderou a independência, seu filho (D. Pedro II) que com 15 anos assumiu um império enfraquecido e a beira da fragmentação, salvando a unidade nacional, e princesa Isabel que libertou os escravos. O primeiro do Estado, o segundo da Nação e a Terceira do povo. O fim da monarquia não foi uma queda foi uma assunção.
Cap. 23: Passagem pela política.
Narra os personagens que o apoiaram na vida política e alguns casos que ocorreram durante sua campanha eleitoral e sua vida política.
Cap. 24: No vaticano.
Nabuco sempre se ressentiu com a indiferença do clero perante a escravidão. Então, eis que no jubileu sacerdotal do papa Leão XIII, as pastorais convidaram as dioceses a enviar cartas de liberdade ao Santo Padre. Nabuco que acabara de se eleger deputado em Pernambuco viu ai uma oportunidade. Foi a Roma e encontrou-se com o Papa no Vaticano (um encontro curto de uns 15 minutos).
Nabuco pensou que não haveria católico no Brasil que poderia ir contra uma súmula do papa. O fato é que esta súmula só saiu após a abolição no Brasil – O papa e o ministério brasileiro (conservador) atrasaram o quanto puderam tal declaração. Leão XIII tornou-se um símbolo antiescravagista e Nabuco Humildemente disse que serviu-lhe apenas de porta voz.
Cap. 25: O barão Tautphoes.
Mestre intelectual de Nabuco. Capitulo dedicado a rasgar elogios ao grego radicado no Brasil e sua sabedoria única.
Cap. 26: Os últimos dez anos (1889-1899).
A queda do império pós fim a carreira de Nabuco.
De 1889 a 1890 ele ainda está impactado com o 15 de novembro.
1891: morte do imperador.
1892 – 1893: retorno a religião.
1893 – 1895: abalado pela morte de Saldanha.

Nesse meio tempo (1893) e nos próximos 6 anos se dedica a elaboração da biografia do pai.
Fonte:
NABUCO, Joaquim. Minha Formação. 3ª reimpressão. São Paulo: Martin Claret. 2011.

domingo, 8 de outubro de 2017

Esaú e Jacó: republicanos e monarquistas disputam o amor de Flora.

Esaú e Jacó.
Publicado em 1904, Esaú e Jacó é mais um romance Realista de Machado de Assis e o penúltimo publicado pelo autor.
Esta obra foi publicada alguns meses antes da morte de sua esposa e o tom amargo da obra pode se dar pela triste fase pela qual passava o casal.
O autor que sempre ambientou seus romances na era imperial do Brasil, pela primeira vez trabalha questões ligadas a passagem do Segundo Reinado pera a República.
O título da obra mostra o profundo conhecimento de Machado de Assis sobre a Bíblia. Segundo o livro sagrado dos hebreus, Esaú e Jacó eram filhos de Isaac e Rebeca, que lutavam desde o ventre da mãe. Rebeca ao se aconselhar com Deus fica sabendo que seus filhos brigam por representar dois povos inimigos. No Romance, Natividade dá a luz a dois gêmeos – Pedro e Paulo – que assim como o conto bíblico, brigam desde o ventre da mãe.
A narrativa está a cargo do Conselheiro Aires, ex-diplomata e homem astuto nos assuntos de mediação. Acredito que a escolha de Machado de Assis por um diplomata para narrar o romance, acontece para que a narrativa dos embates entre republicanos e monarquistas se dê da maneira mais imparcial possível.
O caso do confeiteiro.
Um dos casos mais emblemáticos e simbólicos do livro é o caso do Sr. Custódio, dono da Confeitaria Império. Esta tradicional confeitaria carioca existia desde 1860 com este nome. Contudo, a mudança de regime enlouqueceu o dono do estabelecimento que havia acabado de mandar pintar um caro letreiro novo com o nome da confeitaria relacionada ao antigo regime. Custódio e Aires debatem sobre qual seria o melhor novo nome para a Confeitaria.
O episódio possui um grande simbolismo no sentido de que não se propõe a mudança do estabelecimento, mas simplesmente a mudança do nome. Não há uma mudança estrutural, mas apenas uma mudança de substantivo. Seria uma crítica a República?
Resumo da obra.
 O presente livro foi escrito por Conselheiro Aires, sendo encontrado após sua morte junto com seis memoriais (diários) que ele escrevia. Tinha na capa o nome Último, mas o editor resolveu nomeá-lo de Esaú e Jacó.
Natividade junto com sua irmã Perpetua sobem o morro do Castelo em busca de uma consulta com a conhecida vidente Bárbara. A aflita mãe queria saber como seria o futuro de seus filhos, que naquele momento contavam com apenas 1 ano de idade. Lá a mãe fica sabendo que os filhos teriam um futuro glorioso e que brigavam desde o útero
Natividade e Perpétua, felizes com a predição descem o morro e regalam a um pedinte a quantia de 2 mil réis.
A mãe dos gêmeos era de origem pobre e casou-se com um rico banqueiro do Rio de Janeiro, de nome Santos, que apesar de rico também era de origem pobre.
No dia 07 de abril de 1870, veio a luz um par de varões gêmeos. O nome veio posteriormente por sugestão de Perpétua. Uma homenagem aos apóstolos Pedro e Paulo.
Os meninos cresceram, estudaram no Colégio Pedro II e foram pouco a pouco tornando-se rivais em tudo.
Na política Paulo era Republicano e Pedro Monarquista. A diferença ideológica fica evidente na alegoria da compra dos retratos. Paulo compra um retrato de Robespierre e Pedro um de Luís XVI. Em casa cada um pendura seu quadro na cabeceira de sua cama (ambos dividiam o quarto). Há uma briga e um acaba rasgando o quadro do outro.
Seu pai, que havia se tornado Barão, encontrou-se para uma reunião política com a família Batista. Surge pela primeira vez a figura de Flora, uma doce menina que será alvo da disputa e da paixão de ambos.
Paulo vai para São Paulo (um reduto historicamente republicano) estudar direito e Pedro fica no Rio de Janeiro (sede da monarquia) estudando medicina.
Quando há a Abolição de escravatura (1888), Paulo profere um discurso anunciando o início de uma Revolução. Já Pedro nada mais via do que um ato de justiça.
O livro tem por base as investidas de Paulo e as de Pedro, seguida pela indecisão de Flora que amava os dois e os vias como complementares.
Neste meio tempo, para a felicidade de Paulo a república é proclamada no dia 15 de novembro de 1889.
O tempo passa, o triângulo amoroso se intensifica, a disputa entre os irmãos preocupa e Aires tem a ideia de enviar Flora para morar com sua irmã, Dona Rita. A separação é triste e mediada pelo Conselheiro que propôs que acordo entre os irmãos. Caso um dos dois fosse escolhido por Flora o outro deveria se submeter ao seu destino.
Não houve tempo, Flora adoeceu e morreu um dia após a Segundo Revolta da Armada em 13 de setembro de 1894. Os gêmeos juram a reconciliação “ela nos separou, agora, que desapareceu, que nos una”. Esse acordo não dura muito e eles começam a disputar as visitas ao túmulo.
Meses depois, Pedro abriu um consultório e Paulo uma banca de advogados. Foram aos poucos mudando de opinião quanto ao regime. Pedro aceitou a República e Paulo pôs-se a fazer oposição, pois esta não era a República de seus sonhos. Aires entende que Pedro é conservador e Paulo Inquieto. Um se contenta e o outro quer mais, não importando o sistema que governe.
Pedro e Paulo são eleitos deputados, por partidos rivais. Natividade adoece e faz os gêmeos juraram diante de seu leito de morte que serem amigo pela eternidade.
Ao regressarem a câmara pareciam grandes amigos. Andavam juntos, votavam juntos, defendiam um ao outro, etc. Para desespero de seus partidos, que achavam isso uma traição. Os irmãos então decidem ser rivais apenas na política e amigos no particular.

Contudo, o tempo passou e o acordo de amizade foi mingando. Os dois foram tornando-se ferrenhos rivais ao ponto dos outros políticos se surpreenderem com tamanha transformação. Aires dizia que eles não haviam se transformado em nada, eram apenas eles mesmos.
Fonte:
ASSIS, Machado. Esaú e Jacó. São Paulo: Martin Claret, 2012.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Brás Cubas: o homem das não realizações.


Machado de Assis (1839 – 1908).
Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu pobre e epilético no morro do Livramento – RJ. Este mulato, neto de escravos tornou-se o maior nome de literatura brasileira de todos os tempos, sua história e sua obra confundem-se com o a história do nosso país.
Aos 16 anos ingressou como aprendiz em uma topografia, tomou gosto pelas letras, e logo publicou seus primeiros versos no jornal “A Marmota”, ganhando certa notoriedade.
Foi convidado por Quintino Bocaiúva a escrever no “Diário do Rio de Janeiro”, época marcada por poemas e comédias.
Casou em 1869, sua esposa Carolina Xavier de Novais fui fundamental para o amadurecimento do escritor, pois foi ela quem lhe apresentou aos clássicos portugueses.
Podemos dividir a obra machadiana em duas fases:
1.      Literatura Romântica (década de 1870): marcada pelas obras Ressureições, A mão e a luva, Helena, entre outros.
2.      Realismo (década de 1880 – até sua morte): iniciada pelo clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1889), Quincas Borba (1891), Esaú e Jacó (1904), Memória de Aires (1908 – obra que fecha o ciclo Realista do autor) entre outros.
Machado inaugura o Realismo brasileiro, marcado por um espírito crítico, grande ironia, pessimismo e uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira de sua época.
Em 1897 fundou a academia brasileira de letras, ocupando a cadeira de número 23. Ocupou diversos cargos públicos durante a sua vida até o ano de 1904, quando sua esposa veio a falecer. Triste e isolado, morreu em sua casa localizada na rua Cosme Velho em 1908.
O Realismo.        
Este movimento artístico e cultural que surgiu na Europa na segunda metade do século XIX é caracterizado pela abordagem de temas sociais, tratando de forma objetiva a realidade do ser humano. Possuía um forte caráter ideológico e uma linguagem politizada denunciando as mazelas sociais de sua época sejam elas sociais como a miséria, a exploração e a corrupção, ou psicológicas como as fraquezas e o caráter humano.
Diferente do Romantismo de linguagem rebuscada e subjetivista o realismo é direto e claro. Uma martelada. Uma das correntes do realismo é o naturalismo, que também possuí uma linguagem objetiva, mas sem o caráter ideológico.
Introdução as Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Livro destinado a expor de maneira irônica os privilégios e as superficialidades da elite social brasileira do século XIX, passando-se entre 1805 ano de nascimento de Brás Cubas e 1869 ano de sua morte.
O maior diferencial deste livro, escrito em primeira pessoa, é o fato dele ser escrito pelo morto, sendo assim um defunto-autor que após a morte resolveu contar suas memórias. Mas atenção, o próprio Cubas adverte, ele é um defunto-autor e não um autor-defunto, pois ele só começou a escrever depois de morrer.
A obra possuí dois tempos, o tempo psicológico do autor além-túmulo que vai narrando os acontecimentos conforme lhe vem à cabeça, e o tempo cronológico destinado a narrar sua vida desde a infância até o falecimento. Esta não-linearidade espantou os leitores de sua época, acostumados a linearidade do Romantismo.
Se uma expressão pudesse resumir este livro seria: Não-realizações. Neste romance não há grandes acontecimentos, não há grandes realizações. Brás Cubas é um homem medíocre, que não realiza nada que projeta, vivendo de fracasso em fracasso até sua morte. Os leitores do livro ficam à espera de um desenlace que não vem.
Contudo, devemos nos lembrar que Cubas era um sujeito da elite carioca do século XIX e esses caprichos que ele não consegue realizar só o frustra pelo fato dele fazer parte desta classe social. Certos personagens secundários de classes menos favorecidas não podiam se dar ao luxo desses caprichos de Cubas.
Personagens.
- Brás Cubas: narrador e protagonista, é o “defunto autor” de sua própria biografia, na qual avalia com ceticismo a existência humana.
- Virgília: esposa do político Lobo Neves e amante de Brás Cubas, sustenta o caso adúltero para manter as aparências do casamento.
- Quincas Borba: amigo de Brás, formula a filosofia do humanitismo.
- Eugênia: jovem manca de quem Brás rouba um beijo, abandonando-a em seguida.
- Marcela: prostituta de luxo com quem o narrador se envolve na juventude.
- Cotrim: cunhado de Brás pelo casamento com a irmã deste, Sabina, trata-se de um homem de hábitos rudes no trato com escravos.
- Nhã Loló: parenta de Cotrim, é a noiva arranjada por Sabina para o irmão; o casamento não se realiza em função da morte da pretendente.
- Dona Plácida: ex-empregada de Virgília, acoberta os encontros amorosos entre Brás e sua antiga ama.
- Prudêncio: ex-escravo de Brás; depois de alforriado, torna-se dono de um escravo, no qual se vinga das violências recebidas na infância.

Resumo da Obra.
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”.
Brás Cubas nasceu em 20 de outubro de 1805 e morreu na tarde de agosto de 1869, em sua chácara. Segundo ele, havia morrido de ideia fixa, pois queria criar um emplasto[1] revolucionário que o garantiria sua fama eterna, após semanas trabalhando no projeto sentiu calor, abriu a janela recebeu um “golpe de ar” adoeceu e morreu.
O livro inicia-se pelo velório, passando pelo adoecimento, pelas alucinações antes da morte e ... seu nascimento. Não há linearidade.
O defunto-autor nasceu no seio da elite carioca do século XIX, foi menino birrento, malcriado e mimado pelo pai, Bento Cubas. Ganhou o apelido de menino diabo por suas traquinagens.
Na escola conheceu Quincas Borba, por quem nutriu grande simpatia.
Aos 17 se apaixonou por uma espanhola de nome Marcela, uma prostituta de luxo. Com ela deu seu primeiro beijo. Segundo Cubas, “Marcela amou-me por 15 meses e 11 contos de réis”. Uma típica interesseira que viu no garoto inexperiente uma forma de ganhar joias e mimos.
Assim que seu pai descobriu o romance o rombo bancário tratou de enviar Brás para estudar Direito em Coimbra. Tentou levar Marcela, mas seu plano foi por água a baixo e seu pai o colocou à força dentro de um navio rumo a Portugal.
Formou-se sem entender a matéria, sentia que seu diploma era uma carta de alforria e saiu pela Europa em viagem e romances. Passou 9 anos no Velho Continente e voltou ao Rio de Janeiro após receber que sua mãe estava à beira de morte.
Após a morte da mãe foi morar na Tijuca na companhia de Prudência, escravo que na infância Brás fazia de cavalo e lhe açoitava.
Recebeu a visita de seu pai que lhe deu um ultimato: precisava se casar e entrar para a política. Após uma longa conversa ele aceitou casar se com Virgília (seu pai estava ajeitando) e disputar uma vaga na câmara dos deputados.
Brás soube que perto de sua casa morava dona Eusébia, antiga amiga da família. Lá conheceu Eugênia uma jovem linda e coxa (manca) com quem flertou e depois a deixou por ser manca.
Como prometido, seu pai lhe apresenta Virgília filha do influente Conselheiro Dutra. Romance e política em uma só tacada. Contudo, eis que aparece um homem chamado Lobo Neves e em pouquíssimo tempo lhe arrebata Virgília e a candidatura de Brás. Seu pai não aguente e morre de desgosto quatro meses depois dizendo: - Um Cubas!
Por destino entrou um uma loja a procura de um vidro para seu relógio e encontra com Marcela. Estava feia, carrancuda, decrepita e carcomida pelo tempo. Brás fica horrorizado.
Nesse meio tempo briga com sua irmã Sabina e com seu cunhado Cotrim pela herança de seu pai.
Os anos se passam e eis que Virgília que havia mudado para São Paulo, regressa para o Rio. Ao vê-la novamente Brás se apaixona e este amor é correspondido. Beijam-se em frente a casa dela e dão início a um caso de adultério.
Perdidamente apaixonado Brás Cubas propõe a fuga, imediata rejeitada por Virgília. Cubas então aluga uma casa e coloca Dona Plácida (amiga da família de Virgília) como governanta. Estava montado o local dos encontros carnais e extraconjugais dos dois.
Neste meio tempo Cubas é abordado enquanto caminha por um mendigo. Qual não é sua surpresa quando percebe que este mendigo é na verdade Quincas Borba, seu amigo de colégio. Cubas lhe doa 5 mil réis e tem seu relógio roubado por ele.
Lobos Neves recebe é convidado ao cargo de presidente de uma província do norte. Cubas e Virgília se desesperam, Neves convida Cubas para ser seu secretário (O corno não sabia de nada).
Brás Cubas se reconcilia com a irmã. Seu cunhado Cotrim lhe alertou que o convite feito por Neves era perigoso, todos -menos ele – desconfiavam da traição.
O defunto-autor acostumou-se com a ideia de ser secretário de Neves e espalhou a notícia por todo canto. Eis que sai a nomeação e Lobo Neves misteriosamente desiste do cargo. Cubas fica sabendo por Virgília que seu marido desistiu pelo fato da nomeação ser de número 13, número que para ele era de mau agouro.
Virgília descobre estar grávida e Cubas recebe uma carta de Quincas Borba devolvendo-lhe o relógio e pedindo um encontro para lhe expor sua nova filosofia o HUMANITISMO.
Alguns meses depois Virgília perde o bebê e neste mesmo dia Neves recebe um bilhete anônimo lhe alertando da traição.
Eis que em um encontro do casal adúltero na casa de Dona Plácida há uma briga séria que leva ao rompimento, para piorar chega Lobo Neves de surpresa na casa, Cubas se esconde em um quarto e Vírgilia e Dona Plácida conseguem contornar a situação. Cubas recebe um bilhete de Virgília pedindo cautela.
Nesse meio tempo Brás Cubas recebe a visita de Quincas Borba. Era um novo homem, bem vestido e elegante. Havia recebido uma herança de um tio de Barbacena. Seu objetivo nesse encontro era iniciar Cubas em sua filosofia.
Lobo Neves é nomeado presidente de província e vai com sua esposa para o norte. Desta vez o decreto foi publicado no dia 31 e não no 13.
Sabina arranja um casamento para seu irmão com Nhã-loló. Ele aceitou pois já estava com mais de 40 anos e não queria mais ser um solteirão sem filhos. Quando tudo parecia arranjado Loló morre aos 19 anos vítima de febre amarela.
O tempo passou e Cubas tornou-se deputado na mesma câmara que legislava Lobo Neves que havia voltado depois de alguns anos. Após um belo discurso, incentivado por Quincas Borba, sobre a farda da guarda nacional foi ignorado e perdeu o cargo.
Apesar do regresso, os encontros amor entre Virgília e Cubas – então com 50 anos – não ocorreram mais.
Brás revoltado com a perda do cargo decidiu fundar um jornal, onde divulgaria as ideias do Humanitismo e fazer oposição ao governo. Seu jornal fracassa e não dura seis meses.
Lobo Neves morre um pouco antes de se tornar ministro. Cubas sente uma pontada de prazer. No enterro Virgília desconsolada derrama lágrimas verdadeiras pelo defunto. “Visrgília traiu o marido com sinceridade, e agora chorava-o com sinceridade”.
Cubas ingressa na Ordem Terceira (uma sociedade filantrópica) a convite de Cotrim. Segundo o defunto-autor, foi a fase mais brilhante de sua vida. No hospital da ordem viu morrer Marcela e durante a distribuição de esmolas em um cortiço encontrou Eugênia...tão coxa e tão triste.
Borba vai a Minas Gerais e volta completamente demente. Queimou seus manuscritos e queria transformar sua filosofia em uma religião. Possuía até mesmo uma dança sacra. Morreu alguns meses depois na casa de Cubas.
Cubas morreu pouco depois, tentando criar seu emplasto.
A vida de Brás Cubas foi uma vida de negativas:
Ruins.
  • ·        Não tornou-se celebridade com seu emplasto.
  • ·        Não foi ministro.
  • ·        Não conheceu o casamento.

Boas.
  • ·        Não teve que comprar o pão com o suor de seu rosto.
  • ·        Não padeceu da morte solitária de Dona Plácida.
  • ·        Não ficou demente como Quincas.

Para Cubas ele havia saído quites com a vida, ou melhor com saldo positivo pois: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
 Fonte:
ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1 ed. São Paulo: Media fashion, 2016.

[1] Remédio caseiro.