quinta-feira, 24 de abril de 2014

Fichamento: Povo Enfermo ou Raça de Bronze? de Pablo Stefanoni.


(P.97) Pueblo Enfermo o Raza de Bronce? Etinicidad e imaginación nacional en Bolivia (1900-2010).
Os trabalhos sobre “indianidade” na Bolívia derivam de duas imagens opostas: a raça de bronze e o povo enfermo, ambas designações derivam do livro do pensador político boliviano Alcides Arguedas. Esta oposição pode parecer antagônica em aparência, mas são complementares na prática.
Durante grande parte do século XX a raça heroica e milenar foi considerada ao mesmo tempo construtora da civilização tiwanakota e inca e uma raça vencida e degenerada que não agrega nada ao progresso nacional. Isso gerava uma imaginação étnica nacional: a reivindicação de um índio ideal frente ao desapreço do índio real. Ou Incas sim, índios não.
A diferença do atual processo de (re)indianização boliviano, dos anteriores indigenismos românticos do Estado (que buscavam integrar o índio a nação) é que este primeiro vem de baixo pra cima e é feito por índios de carne e osso (camponeses, comerciantes, operários), que questionam a sua real integração em seu próprio país, onde ainda são tratados como cidadãos de segunda classe.
(P.98) A Bolívia conviveu, ao longo de seus dois séculos de história republicana, com sérias duvidas sua própria viabilidade. A inviabilidade de um verdadeiro Estado nacional, a exclusão étnico-social, sua desafortunada tentativa de inserção no Ocidente e sua dificuldade de desenvolvimento. Desde o século XIX, existe a inseguridade geográfica (temor do separatismo de Santa Cruz) e a leitura pessimista da história nacional (o país que perdeu todas as guerras e grande parte de seus território para seus vizinhos) o que foi gerando a ideia de que a Bolívia, não era nada mais do que um enclave mineiro carente de instituições. Somado a isso, está a figura do índio, que as elites nacionais se referiam com amargura, pois a diferenciavam de seus vizinhos mais branqueados como Chile e Argentina.
José Luis Gómes-Martinéz, dizia que durante o século XIX e início do XX os términos nação boliviana ou patriotismo eram palavras vazias para a maioria dos bolivianos. As elites liberais seguiam pensando em términos de civilização ou barbárie. Conservadores e liberais se perguntavam se a Bolívia estava em risco de desaparecer por ação das leis naturais. Para os liberais a educação seria o melhor instrumento de regeneração de um povo degenerado, eles acreditavam que a modernização do país devia se fazer com o índio, seriam eles um fator de progresso.
(P.99) Então em 1905, foram criadas – sem grandes resultados – as escolas indígenas que ensinavam o alfabeto, as quatro operações matemáticas e um pouco da doutrina cristã.
(P.100) Da mesma maneira que outros Estados pós-coloniais – como os africanos ou asiáticos do século XX -, a sociedade civil boliviana vai parecer, durante mais de um século de vida republicana independente, uma associação fechada de grupos da elite moderna, presos em enclaves e separada da vida popular das comunidades. O Estado nem sequer chegava a todo território nacional.
Contudo, esse fracasso das promessas liberal-positivistas de modernização e desenvolvimento do país foi extremamente produtivo em términos intelectuais. A necessidade de que a Bolívia analisasse a si mesma gerou ampla atividade intelectual no país. A pergunta era: como conciliar ambas caras de uma realidade nacional, que se apresentava hispânica e índia.
(P.101) Franz Tamayo em seu livro Creación de la pedagogía nacional (1910), sustenta que o índio é a fonte de energia nacional. Já Alcides Arguedas em seu livro Pueblo enfermo (1909) apresenta previsões pessimistas. As continuas reedições de ambos os livros mostram que há na Bolívia, não um simples interesse histórico, mas uma permanente irresolução dos problemas ali planteados; não é por acaso que ele é um dos países mais vezes refundados do mundo.
Civilisation vs. Kultur.
O povo enfermo, segundo Arguedas, são os indígenas, em especial os aymaras, que assim como a terra da Bolívia é estéril e bruto. Arguedas ainda se lamenta do fato das correntes migratórias de europeus para a América, não terem chegado com força a Bolívia, assim como chegou a Argentina, Chile e Uruguai.
(P.102) Mais tarde Arguedas escreveu Raça de Bronze, contudo dando uma tonalidade diferente da dada por Medinacelli que a incluía como percursora do indigenismo. Para Arguedas, pior que o índio “puro”, era o mestiço que agregava a pior parte dos aymaras dos uéchuas e dos espanhóis. A história arguediana contribuiu para a desvalorização da autoestima nacional, e como assinalaram alguns de seus críticos, mais que Pueblo enfermo, a obra deveria se chamar Povo explorado, o que sem duvida teria dado um tom potencialmente mais emancipatório ao livro.
Tamayo em seu livro Criação da pedagogia nacional, chama todos a construir o caráter nacional e critica todos os que difamam a “raça boliviana” (índios) vendo eles somente como elementos negativos da sociedade. Segundo o autor a raça está deprimida e estupefata, mas dali não deve emergir o pessimismo, mas a certeza de que a função de uma nova pedagogia é se esforçar para criar “a consciência nacional, que equivale a despertar as energias da raça”, e para Tamayo, é o índio quem concentra 90% dessa energia nacional.
(P.103) Contudo, Tamayo também entende o mestiço entre branco e índio (cholo) como um ser parasitário de segunda categoria, mas sustenta – diferente de outros autores – que as causas dessa falta de caráter vêm de seu lado branco. O autor ainda entende que existe uma degeneração extremamente rápida do homem branco americano, frente ao seu par europeu.
(P.104) Tamayo ainda admite que “por uma fatalidade histórica” o futuro da Bolívia será mestiço, devido a debilidade do branco e o desequilíbrio colonial republicano em desfavor do índio.  Contudo essa visão (o ideal de uma nação mestiça) será recuperada mais tarde (duas décadas depois) pelo nacionalismo revolucionário e será carregada de valores positivos, propondo a ideia de “bolivianidade”.
Era o novo clima da época. O fim da ilusão (ingênua) no progresso lançou os intelectuais em diversas aventuras teóricas antiliberais. Em 1929 via-se o entusiasmo das conferencias de La Paz que considerava a América como o continente com a maior força transformadora da humanidade e a Bolívia como uma possível potencia dentro dela, uma vez que em seu território há a parte mais antiga da humanidade, sendo essa sua melhor promessa de futuro.
(P.105) Surgiram as mais diversas correntes:
Como a de Roberto Prudencio que chamava o mestiço e o criollo para construir um novo ciclo de renascimento cultural sobre as bases do Tiwanaku (o Paternon da América).
Fernando Diez de Medina, fundador do pachakutismo, um movimento distante do marxismo e do fascismo que proclamava uma nova síntese politica de estrutura tipicamente boliviana, onde as classes e as raças se fundiriam.
Cecílio Guzmán de Rojas, pintor, que estetizou o índio de acordo com a beleza grega, de acordo com o bom gosto das classes altas (como seu Cristo Aymara de 1939).
(P.106) O excêntrico Tristán Marof (seu nome verdadeiro era Gustavo Navarro) mesclou o marxismo com o indigenismo. Ele estava convencido de que os indígenas eram socialistas por natureza e que eles deveriam ser a vanguarda da revolução boliviana.
Temos também Jaime Mendoza que dizia ser o “núcleo andino” um fator de unidade nacional, além de refutar as pessoas que achavam a Bolívia um absurdo geográfico e considerar que a grandeza da Bolívia estava em seu índio.
A obsessão de todos estes escritores, de diferentes perspectivas, era a mesma. Suprir a falta de um sentimento e de um caráter nacional em um país-enclave com diversas singularidades étnicas, culturais e psicológicas.
A decadência do Ocidente.
(P.107) Será o “mito do Chaco” (guerra perdida contra o Paraguai 1932-1935) e a incapacidade do Estado Oligárquico de liderar o conflito, o responsável por criar as bases do nacionalismo efetivo e politicamente eficiente. Serão os militares (inicialmente socialistas, depois nacionalistas) os encarregados de imaginar a nação.
O filósofo Humberto Palza contribuirá a esta corrente, articulando elementos do nacionalismo, telurismo, socialismo de Estado e, sobretudo o antiliberalismo (1939). Palza considerava o homem como uma expressão do espirito da terra e das forças telúricas, sustentando que não existia cultura universal, nem homem, nem humanismo universal. Cada pessoa e cada cultura são sociogeográficas. O homem indoamericano sente e pensa a sua maneira, os bolivianos devem, para reconstruir a sua identidade, recorrer ao espirito dos Andes e a energia cósmica da raça indígena. Para ele o regime que melhor fez isso foi o nacional-socialismo alemão.
(P.108) O novo indigenismo teve uma variante educativa-pedagógica com Elizardo Pérez que unia trabalho e educação como um dos princípios do coletivismo incaico. Um indigenismo mais maduro e inspirado nas obras de Mariátegui foi proposto po Carlos Medinaceli em 1938.
Contudo, desde os anos trinta, as obras de Lenin, Plejanov e Bujarin inundaram as livrarias bolivianas. O que levou a Bolívia se tornar o pais sul-americano com mais influencia trotskista. Surgiu daí um marxismo mineiro que entraria em constante tensão com o Estado nacionalista-revolucionário e com sérios problemas de incorporar a problemática étnica.
(P.109) Imaginar a nação, desde o poder.
O coronel e herói da Guerra do Chaco German Busch tomou o poder mediante um golpe de Estado em 1936, anunciando um novo regime: “um socialismo de Estado prudente, gradual e sem convulsões que estabeleça na Bolívia um regime de justiça social. Era o começo do chamado socialismo militar. Um grupo encabeçado por Carlos Montenegro ocupou a exclusivo Club da la Unión, cujos membros eram o creme da elite local, colocando no alto do edifício uma faixa com os dizeres Comitê Revolucionário. Este ataque ao símbolo máximo da oligarquia horrorizou a elite tradicional boliviana.
O sucessor de Busch, David Toro nacionalizou a petroleira Standart Oil & Company, decretou a sindicalização obrigatória e criou o Ministério do Trabalho, além de criar o primeiro código de leis trabalhistas.
(P.110) Busch voltou ao poder com o apoio dos nacionalistas e a politica seguiu um caminho sinuoso e contraditório e logo radicalizou, aliando-se aos anarcossindicalistas.
(P.111) Busch suicidou-se e abriu espaço para uma nova onda conservadora, contudo os avanços conquistados foram minando seriamente o Estado oligárquico, gerando um empasse de hegemonias que se resolveu em 1952.
Entre as décadas de 1930 e 1950 período de iniciativas nacionalistas e restaurações liberais, será o regime de Gualberto Villaroel o responsável por dar força aos contornos da alma nacional, contra aquele sentimento de inferioridade que corroí alguns cidadãos. (P.112) Apesar da curta duração de seu regime (1945-1946), ele foi o prelúdio e o impulso emotivo da revolução nacional de 1952. As teses de Ayopaya e de Carlos Montenegro sintetizam em grande parte a ideologia que impulsionou a chamada Revolução Nacional, que imaginou um país integrado regionalmente, social e etnicamente e o fim do Estado de enclave mineiro-feudal.
(P.113) Contudo na política  se  implementou um co-governo entre o Estado e a Central Operária Boliviana (COB), uma forma paradigmática de participação politico-social, levantada sobre a base da forte cultura sindicalista e corporativista dos setores populares bolivianos.
(P.114) Em 1955 foi criado um novo código de educação transformando a educação de castas em educação de massa, com enfoque principal no campo que possuía poucas escolas. Contudo, enquanto a escola urbana primava pela educação integral do aluno, a do campo tinha 8 metas específicas que deveria desenvolver nos camponeses: melhor higiene, alfabetização básica, ensinar agricultura, aumento da capacidade técnica e manual para a indústria e artesanato, manter o amor pela tradição, luta contra o vicio do álcool e da coca, acabar com os preconceitos e superstições e desenvolver a consciência cívica.
(P.115) Ao que tudo indica a índio camponês tinha uma conotação negativa e era considerado um dever da educação arrancar essas vícios e práticas.
Diversidade contra Igualdade.
Duas décadas mais tarde, em 1985 frente a uma profunda decadência politica e moral do nacionalismo revolucionário o próprio MNR e Paz Estenssoro propuseram abandonar o capitalismo de Estado a favor do liberalismo econômico. Sendo este liberalismo proposto pelo Consenso de Washington aperfeiçoado na Bolívia por Gonzalo Sánchez de Lozada e seu vice aymara Vitor Hugo Cárdenas.
(P.116) A imaginação recaiu então sobre uma nova aliança de classes global, o que resultou em uma série de iniciativas, como a incorporação do caráter multiétnico, plurilíngue e multicultural da nação boliviana.
Surgiu a Lei de Participação popular que era uma tentativa de “revolução passiva” frente as crescentes reivindicações étnicas como o Manifesto Tiwanaku (1973) dos indianistas kataristas. Este manifesto surgiu das frustrações das primeiras gerações indígenas que nasceram na cidade e ingressaram nas fileiras das universidades. Eles sentiam as diretamente a discriminação em sua própria terra. Pode-se dizer que o katarismo é produto da polarização entre o discurso igualitário da mestiçagem e as relações sociais da vida real e tinha como objetivo a reinvenção do índio como sujeito político.
(P.117) No campo da educação ocorreu uma reforma nacional com a lei 1565 que propunha reforçar os valores históricos e culturais da nação boliviana, em toda sai diversidade e sua riqueza multicultural e multiregional. Paradoxalmente, a reforma que buscava promover a diversidade, foi aos poucos unificando e acabando com as diferenças entre as escolas do campo e da cidade.
 (P.118) Esta reviravolta em favor da diversidade era extremamente útil aos neoliberais, que com sua ênfase no étnico-cultural tentava debilitar a ideia de Estado Nacional. Esta cara “participativa” e “pluri-multi” do neoliberalismo era mais atraente aos intelectuais progressistas e ao indigenistas, o que explica a surpreendente união entre Kataristas e neoliberais. Foi a tentativa mais séria de consagração da diversidade contra a igualdade, eles queriam uma desigualdade mais equitativa entre os diferentes grupos étnicos, e não acabar com a desigualdade como um todo.
(P.119) E um dia... chegaram ao poder.
Cem anos depois dos escritos de Tamayo e Arguedas, os índios não só não haviam desaparecido, como no começo XXI se sublevaram como não faziam a muito tempo. Essa série de manifestações acabou por levar a presidência o primeiro presidente indígena da história da Bolívia, Evo Morales, eleito com 54% dos votos.

(P.123) Como vimos durante todo o texto, geralmente as ideias sobre o índio e a etnicidade durante todo o século XX, são geralmente “ocidentais”. Ou como afirma Silvia Rivera, muitos dos discursos descolonizadores provem do “centro”, marcados por “uma versão logocêntrica e nominalista da descolonização”. 
Fonte: 
STEFANONI, Pablo: Pueblo Enfermo o Raza de Bronce? Etinicidad e ímaginación nacional en Bolívia (1900-2010). In Maristela Svapa et alii. Debatir Bolívia. Perspectivas de um proyecto de descolonización. Buenos Aires: Taurus, 2010, p.97-123.

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