domingo, 14 de abril de 2013

Sete Perguntas e Respostas Sobre O Príncipe de Maquiavel.



Por: William C.T. Rodrigues
1) Como Maquiavel define política? Quais suas principais características?
Antes de Maquiavel, os tratados sobre política eram todos envoltos em uma moral cristã, sendo a única maneira concebível de se governar propostas por leituras de textos religiosos. Ele rompe com a tradição, separando a moral da política. Se antes o príncipe era um coadjuvante na política frente ao poder do deus cristão, agora o soberano tornou-se atuante sendo quase como uma divisão das ações, o que foi um grande avanço.
O livro, escrito de maneira bem organizada e direta, funciona quase como um guia de autoajuda aos governantes, explicando passo-a-passo a melhor maneira de manter no poder.
2) Discorra acerca da virtú e fortuna, no âmbito dos valores e práticas que devem ser trabalhadas pelo Príncipe.
Dois conceitos muito utilizados dentro da obra de Maquiavel são virtú e Fortuna. Virtú pode ser entendido como força, potência, merecimento ou competência de um governante em conquistar ou/e manter o poder fazendo o que for preciso, diante das necessidades, para alcançar um objetivo. Já fortuna pode ser entendida por sorte alguém que por força do acaso (ou de Deus como cita Maquiavel) conquiste o poder ou/e o mantenha graças aos acasos do “destino”.
3) Caracterize os tipos de principado apresentados por Maquiavel, os modos como estes são formados (ou usurpados) e estabeleça uma comparação entre eles.
Para Maquiavel existem duas formas de Estado: a república ou o principado. O autor simplesmente ignora a primeira e se atém somente ao principado. Esses principados podem ser hereditários (um príncipe torna-se rei após a morte do pai) ou novos. Os principados novos podem ser recém criados ou anexados pelo príncipe. Entre os principados anexados pode haver os principados que já estão acostumados com o príncipe anexador (como no caso de um casamento real em que as coroas se unem), ou livre e teve que ser conquistado a força. Essa conquista pode ter sido feita com tropas próprias do príncipe ou com tropas “emprestadas” de outro soberano.
Ou seja, existem basicamente dois tipos de principados, os hereditários e os anexados. Manter um principado hereditário é basicamente simples, pois o príncipe herda além do reino a lealdade dos súditos de seu pai. Já a conquista e em especial a manutenção de outros principados é mais complicada e requer uma grande virtú por parte do príncipe conquistador.
4) Sheldon Wolin afirma que os teóricos políticos em suas análises refletem sobre a seguinte indagação: “¿Qué tipo de conocimiento necesitan gobernantes y gobernados para que se mantenga la paz y la estabilidad?”. A partir dessa premissa desenvolva uma resposta sobre as lições que Maquiavel apresenta para o príncipe no que se refere à tomada de poder e sua manutenção?
Para Maquiavel o príncipe deve, após tomar o poder, procurar de todas as formas mantê-lo. Para isso o autor defende o medo como arma de lealdade, pois, o amor pode em pouco tempo se transformar em frustração enquanto o temor é “mantido pelo receio do castigo”. Entretanto, o príncipe deve evitar de todas as maneiras cabíveis ser odiado por seus súditos. O ódio do povo ocorre quando se ataca a honra e a propriedade destes, salvo isto, um príncipe pode seguir reinando, sendo temido por seus súditos mas não odiado por eles.
5) No capítulo XXVI o autor escreve “Não se deve, pois, deixar passar esta ocasião, a fim de que a Itália conheça, depois de tanto tempo, um seu redentor”. Relacione a afirmação com o contexto das cidades italianas na época de Maquiavel e a centralização da autoridade.
A Península Itálica no tempo de Maquiavel não era como nós a conhecemos hoje, ocupada por um Estado-nação chamado Itália, unificado econômica e politicamente, que tem como língua oficial o italiano, etc. O próprio conceito de Itália não era relevante, o que existia durante a vida de Maquiavel na península itálica eram diversos pequenos Estados- que não raramente guerreavam entre si- de culturas diferentes, línguas diferentes, etc.
Entre estes Estados, os mais poderosos eram, o Reino de Nápoles, os Estados Pontifícios, a República de Veneza, o Ducado de Milão e o Estado Florentino, local de nascimento de Maquiavel.
Tudo isso envolto em meio à aura de renovação concebida pelo Renascimento, forma o contexto em que Maquiavel concebeu sua obra. Ao final de sua obra ela clama aos Médici que tomem o poder em toda a Itália. Para o autor a península chegou a um ponto de extremo caos necessitando de um novo e único príncipe, capaz de colocar toda a região em ordem.
6) Para você qual o capítulo ou os capítulos mais importantes da obra? Justifique sua resposta.
A meu ver, o capitulo XVIII pode não ser o mais importante da obra, nem o mais original. Mas ele resume em algumas poucas palavras todo o espirito da obra. Sempre que ela é evocada, vem à tona a máxima de Maquiavel de que os fins justificam os meios e é justamente neste capítulo que ela se apresenta da seguinte forma “nas nações de todos os homens, principalmente os príncipes, o que importa são os fins e, sejam quais forem os meios empregados, serão sempre honrados e louvados”.
7) Identifique os elementos presentes em “O princípe” retomados pela teoria realista das Relações Internacionais.
Em Relações Internacionais, o pensamento de Maquiavel foi, posteriormente, “adotado” pela teoria realista. Quem tem o Estado como figura central nas relações entre os diversos países. No realismo a ideia de guerra inevitável permeia toda a corrente, ou seja, os conflitos bélicos entre os Estados é algo inevitável, as relações geram conflitos e estes conflitos, invariavelmente, terminam em disputas bélicas.
Maquiavel, que acredita na maldade inerente do homem, afirma que guerras somente podem ser postergadas – e sempre em beneficio do adversário – e não evitadas. 

sábado, 13 de abril de 2013

Resenha do livro A Democracia na América de Alexis de Tocqueville.


Por: William C. T. Rodrigues
Em 1831 os aristocratas Alexis de Tocqueville e Gustave de Beaumont foram aos Estados Unidos, sob o pretexto de estudar o sistema prisional norte americano. Inspirados pelos boatos de que neste país as instituições “garantiam a felicidade” do homem comum partiram rumo ao pedaço anglo saxão da continente americano. Onde ambos ficaram por cerca de nove meses e anotaram tudo o que puderam sobre esta nova sociedade, sua economia e seu sistema político único no mundo.
A política americana exerceu fascínio imediato sobre Tocqueville, em especial a participação das pessoas comuns no processo político. De volta à França e com base em seus escritos, lança em 1835 o volume um do livro Da Democracia na América.  Livro que visa abordar os EUA dos anos 30 do século XIX, suas virtudes e seus defeitos. Utilizando-a como exemplo para a recém-formada II República Francesa.
Tocqueville foi um pensador extremamente precoce. Oriundo de uma família da antiguíssima nobreza normanda, nasceu em Paris em 1805 e com apenas 26 anos empreendeu a viagem que foi o marco intelectual de sua teoria política.
No primeiro volume de A Democracia na América, o autor trata das leis e costumes. E deixa claro que para ele não cabe à República Francesa copiar a República norte-americana, pelo contrário, “a República Francesa deve ser diferente, mas os princípios de ordem, de ponderação dos poderes, da liberdade verdadeira, de respeito sincero e profundo ao direito são indispensáveis a todas as Repúblicas”. Ou seja, a França deveria aprender com os Estados Unidos, mas construir sua própria democracia.
Logo no prefácio de seu livro, Tocqueville deixa claro o que lhe deixou mais encantado sobre a sociedade norte-americana: a igualdade de condições. Diferente da França pré-revolucionária, onde os homens eram determinados a viver conforme a origem de seu nascimento, os EUA apresentavam um estímulo ao desenvolvimento pessoal e consequentemente a própria democracia.
Segundo ele, esta igualdade de condições e esta democracia – única no mundo - podem ser explicadas através da origem dos anglo-americanos. Pois, os imigrantes que fundaram este novo país, apesar de diferentes entre si, possuíam diversos aspectos em comun. Tocqueville aponta três fatores determinantes para o surgimento destas novas instituições em solo americano. 1) os pais fundadores desta nova nação eram provenientes de uma Inglaterra marcada por lutas políticas e religiosas, e assim aprenderam a amar a liberdade. 2) são contemporâneos da ideia de governo comunal, o germe das instituições livres, com as ideias de soberania do povo. 3) ao chegar a América perceberam a impossibilidade de implantação de uma aristocracia territorial no novo mundo, pelo fato, de uma inicial impossibilidade de administrar imensos pedaços de terra.
A combinação destes princípios, com a educação possuída por estes pioneiros foi determinante para o desenvolvimento das instituições democráticas estadunidense. Pois, diferente das outras colônias americanas, povoadas por desterrados incultos, católicos e miseráveis, os EUA foram povoados pela classe média puritana Inglesa.
Chegando a América, estes gozaram de extrema liberdade e independência política. Nomeavam magistrados, estabeleceram regulamentos de polícia e promulgavam leis com base em seus textos sagrados para si mesmos. Junto a isto, as leis políticas eram extremamente democráticas e abertas à participação popular real e ativa. Fato que leva Tocqueville a compará-la com Atenas.
A religiosidade é algo muito presente nas instituições da Nova Inglaterra, pois para os puritanos “satanás tende a manter os homens na ignorância das escrituras”, e para evitar tal fato a educação é obrigatória a todas as crianças. Tocqueville percebe então, que “na América, é a religião que conduz ao saber; é a observância das leis divinas que conduz o homem à liberdade”.
É interessante o fato, de como a sociedade anglo-americana consegue combinar dois elementos tão contraditórios, quanto religião e espírito de liberdade de forma tão plena, que ambos parecem reforçarem-se. “A religião como salvaguarda dos costumes; os costumes, como a garantia das leis e penhor da sua preservação”.
A situação social dos cidadãos dos EUA é marcada por seu caráter democrático e igualitário. Um exemplo é que diferentemente da Europa, onde não existe a partilha da terra entre os filhos – cabendo somente ao primogênito à posse da terra – o que cria um vínculo familiar com a terra favorecendo a manutenção da aristocracia, nos EUA a terra é dividida igualitariamente entre todos os descendentes, destruindo a relação familiar com a terra e garantindo a rotatividade da mesma. A própria inteligência dos anglo-americanos é igualitária (não existindo nem eruditos, nem completo estúpidos), estabelecendo-se ali um nível mediano. A educação primária para todos garante o mínimo de conhecimento necessário para a participação política dos cidadãos. Em nenhum outro país os homens são tão iguais em fortuna e em inteligência como nos EUA.
Na política isso significa a garantia da manutenção da soberania popular da igualdade e da liberdade. Sendo esta soberania popular um eco dos costumes garantido pelas leis políticas. As leis que surgem nos EUA, não são externas a sociedade, mas debatidas e compostas pelo próprio povo através dos agentes do poder executivo, ou seja, a representatividade nos EUA é algo que garante o poder popular.
Outro sistema politico norte-americano que chamou a atenção de Tocqueville foi o sistema de federação que dá nome ao próprio país. Na época eram 24 estados quase independentes, que juntos davam corpo a União. Dentro dos estados, o poder político era descentralizado em comuna, condado e poder estadual a fim de garantir uma melhor abrangência e participação política. A comuna representa o poder local, é lugar onde se desenvolve a participação direta dos cidadãos, o condado representa o poder judiciário com sua corte de justiça, seu xerife executor das leis e um prisão para os criminosos. Por fim, o estado representa o poder legislativo dividido entre senadores e representes. Ao governo federal cabe a paz, a guerra, o comércio internacional, regular o dinheiro, os correios, etc.
Tocqueville se debruça sobre quase todas as instituições políticas norte-americanas. Como sua constituição altamente mutável, as atribuições dos poderes, atc.
Esta sociedade lhe apresenta regras, modelos, hábitos, que o levaram a considerar a democracia americana como um sistema político singular. Sendo este o único regime político capaz de proporcionar liberdade de expressão, de crença, de mobilidade social, de liberdade (livre arbítrio) e igualdade de condições para participar do jogo democrático.
O sistema político americano é, portanto, um regime democrático por excelência, uma vez que os membros dos três poderes são escolhidos através do sufrágio universal realizado frequentemente. Frequência esta, que garante a limitação e a rotatividade do poder. A vontade da maioria constitui a verdadeira força de um Estado Democrático, no entanto, o autor alerta para o fato de que, deve se tomar cuidado para que em um determinado momento a vontade da maioria não se torne ditadura para a minoria.
Por fim, Tocqueville apresenta as três principais causas de sustentabilidade da república americana: 1) condições geográficas (território americano); 2) a existência de boas leis; 3) hábitos, costumes e crenças (estes vão se repetindo durante os anos, caso sejam viáveis e aprovados pela maioria são conservados). Entretanto, estes três sustentáculos da sociedade americana, apenas obtém estabilidade graças ao sufrágio universal e a crença no princípio de igualdade política.

Tocqueville demonstra de que forma o Estado norte-americano é resultante da vontade de participação, de autonomia dos seus cidadãos desde os primeiros momentos do processo de colonização. E que os EUA de hoje não é obra do acaso, mas o resultado de um povo que desde seus primórdios tomou-se a si mesmo como objeto, e procurou compreender sua condição e afirmou sua vocação é a liberdade. (Deluca, Bazzanella, 2012)

Podemos dizer, que Tocqueville escreveu para uma burguesia francesa recém-chegada ao poder, ansiosa por estabelecer um sistema político que seguisse o rumo de seus interesses, e a democracia norte-americana com sua mobilidade social, igualdade de oportunidades e sufrágio universal é exatamente o que ela buscava em sua luta contra o Antigo-regime. Ou seja, pode-se dizer, que “a democracia é a forma mais adequada para responder aos interesses da emergente burguesia” (Deluca, Bazzanella, 2012)
Bibliografia:
DELUCA, D. BAZZANELLA, S: A Democracia na América Revista Brasileira de Educação e Cultura – ISSN 2237-3098. Centro de Ensino Superior de São Gotardo. Número V Jan-jun 2012.
TOCQUEVILLE, Alexis: A Democracia na América. ed Martins Fontes, São Paulo-SP, 2º ed. 2005.
Sites:

sexta-feira, 12 de abril de 2013

As Crises Econômicas por Giovanni Arrighi.



 Por William C.T. Rodrigues
É um erro capital teorizar antes de ter os dados.
Insensivelmente, começa-se a distorcer os fatos
para adaptá-los às teorias, em vez de fazer com
que as teorias se adaptem aos fatos.
Sherlock Holmes, em A scandal in Bohemia, de
Conan Doyle (1981)

Resumo.
Este trabalho é o resultado final, da disciplina de Economia Internacional ministrada pelo professor doutor Fábio Borges, no curso de Relações Internacionais e Integração da UNILA no ano de 2012-2013. Aqui buscamos desenvolver e compreender o pensamento do intelectual italiano Giovanni Arrighi sobre as crises do sistema capitalista.
Crise. Segundo o Novíssimo Dicionário de Economia de Paulo Sandroni é a “perturbação na vida econômica, atribuída pela economia clássica a um desequilíbrio entre produção e consumo, localizado em setores isolados da produção” que no capitalismo moderno, são em sua maioria crises de superprodução. O dicionário ainda evidencia o caráter cíclico destas crises.
A principal questão levantada aqui, diz respeito à ligação intima entre estas crises econômicas e a emergência de novas potências. 
Palavras chave: EUA, hegemonia, Arrighi, crises econômicas, capitalismo.

Sumário.
1.    Introdução................................................................................................................05
2.    As Três Hegemonias do capitalismo histórico......................................................08
3.    Costume e inovação: ondas largas e estágios do desenvolvimento capitalista..10
4.    Relação entre as crises de hegemonia com as crises políticas e econômicas.....12
5.   Conclusão..................................................................................................................15 
 Introdução.
O presente trabalho tem como objetivo analisar dois textos do economista político italiano Giovanni Arrighi. O primeiro livro intitulado O longo Século XX. Dinheiro, Poder e as Origens do Capitalismo, terá somente o capitulo As Três Hegemonias do Capitalismo Histórico trabalhado pelo grupo. Enquanto o segundo livro A Ilusão do Desenvolvimento terá o capitulo Costume e Inovação: ondas longas e estágios do desenvolvimento capitalista analisado.
Giovanni Arrighi nasceu em 07 de julho de 1937 na Itália, formou-se como economista neoclássico na Universidade de Milão e como doutor em Economia e catedrático em sociologia pela Universidade Estadual de Nova York. Foi professor de Sociologia e gerente do Instituto para Estudos Globais em Cultura, Poder e História da Universidade Johns Hopkins. Sua principal contribuição foi no campo da sociologia comparativa e história utilizando-as na analise do sistema mundial e da sociologia econômica.
Em 1963, foi à África pesquisar sobre possíveis modelos de desenvolvimento econômicos para o continente. Arrighi fez parte da geração de estudiosos europeus e americanos que se dedicaram ao estudo do desenvolvimento do capitalismo em suas áreas periféricas. Já no continente inicia sua investigação sobre os processos de formação do mercado de trabalho e no desenvolvimento econômico na África setentrional e na Europa setentrional, além das origens e transformações do sistema capitalista mundial e na estratificação da econômica global. Em 1969, volta à Itália e começa a interessar-se pelos problemas do movimento operário, assunto que integra grande parte dos seus estudos até o final dos anos 70.
De volta aos Estados Unidos, Arrighi, centraliza seus trabalhos no caráter das crises mundiais, integrando as análises na perspectiva dos períodos buscando assim entender como as economias nacionais se comportaram no novo contexto internacional e quais suas perspectivas.
Tem como obras principais os livros O Longo Século XX, Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial e Adam Smith em Pequim. Essas três obras juntas formam sua trilogia sobre o capitalismo em perspectiva histórico mundial, a chamada Teoria Sistema Mundo.
Arrighi morreu nos Estados Unidos no dia 19 de junho de 2009 na cidade de Baltimore, onde era professor na Universidade Johns Hopkins.
José Luís Fiori, professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ, chama a atenção para o fato interessante de como o autor mudou sua preocupação teórica no decorrer dos anos.



“Pouco a pouco, Arrighi mudou sua preocupação teórica do tema do crescimento econômico dos países periféricos e atrasados, para o estudo mais amplo do desenvolvimento histórico do capitalismo e do “sistema mundial moderno”, que se formou, se expandiu e se consolidou a partir da Europa, desde o século XVI.”

Ainda para Fiori, o filosofo alemão Karl Marx foi decisivo na formação do pensamento de Arrighi. Mas foi o historiador francês Fernand Braudel e suas três teses “heterodoxas”, que fundamentaram a extensa investigação de Arrighi sobre os ciclos e as crises econômicas.

 Segundo Braudel, o capitalismo não é igual à economia de mercado, pelo contrário, é o “anti-mercado”, e o segredo de seu crescimento contínuo são os “lucros extraordinários” dos “grandes predadores” que não se comportam como o empresário típico ideal da teoria econômica convencional. Em segundo lugar, para Braudel, a força originária do capitalismo não veio da extração da mais valia dos trabalhadores, mas sim da associação entre os “príncipes” e os “banqueiros” europeus, que se consolida muito antes do século XVI. E, finalmente, sempre segundo Braudel, todos os grandes ciclos de expansão do capitalismo chegam a uma fase “outonal”, onde as finanças substituem a atividade produtiva, na liderança da produção da riqueza.

Como base nestas premissas, Arrighi fundamenta seu método na ideia de longa duração, própria da forma de se escrever história de Fernand Braudel. Braudel já era famoso entre os historiadores da Escola dos Annales por suas inovações, entre as mais importantes está o método da longa duração em conjunto com o conceito de economia-mundo proposta por Wallerstein. O método da longa duração tem como objetivo compreender e analisar as continuidades e descontinuidades que ocorrem de forma extremamente lenta nas estruturas sociais.
O próprio título de seu livro O Longo Século XX é um reflexo desta ideia da longa duração. Para Arrighi o século XX seria um século longo pelo fato de representar o auge de um movimento que vinha se desenvolvendo desde os séculos XV e XVI. O surgimento, maturação, expansão e consolidação do capitalismo como sistema econômico mundial. Ou seja, o século XX é entendido por Arrighi, como o resultado de cerca de cinco séculos de desenvolvimento do sistema capitalista. Nota-se perfeitamente a influência de Braudel, e de sua história da longa duração, no pensamento do autor.
Em O Longo Século XX, Giovanni Arrighi busca compreender “qual o papel da concorrência estatal e da concorrência capitalista no desenvolvimento da história moderna” (Fiori, 2009). Sendo, o primeiro capitulo As Três Hegemonias do Capitalismo Histórico, dedicado ao surgimento de hegemonias mundiais durante os primeiros séculos do capitalismo.
 As Três Hegemonias do capitalismo histórico.
Arrighi inicia o texto trabalhando com o conceito de “hegemonia mundial” que para ele significa a capacidade de um Estado em exercer funções de liderança e governo sobre um sistema de nações soberanas. Entretanto, esta liderança é mais que simplesmente dominação, é segundo Gramsci “a dominação, ampliada pelo exercício da liderança intelectual e moral”.
Dominação e hegemonia são coisas distintas. A primeira é concebida através da força e da coerção sobre as nações mais fracas. A segunda é um poder adicional conquistado por outros meios, que o faz ser reconhecido como “líder” frente às outras nações.
Esta “liderança/dominação” descrita por Arrighi cria dois problemas quando aplicado às relações entre os Estados. O primeiro surge quando, um Estado dominante, ao exercer uma função hegemônica liderando um conjunto de Estados os direciona rumo a uma direção, tida como vantajosas a todos. O segundo problema é o fato de que, definir um interesse geral internacional é extremamente difícil. E geralmente o poder não aumenta para todos os Estados, “mas para um grupo particular de nações à custa das outras”.
Ainda, segundo o texto um país somente pode ser considerado hegemônico no sistema internacional, quando é capaz “de alegar, com credibilidade, que é a força motriz de uma expansão geral do poder coletivo dos governantes perante os indivíduos” ou quando afirma que “a expansão de seu poder (...) é do interesse geral de todos os cidadãos”.
Para Arrighi estas afirmações são verdadeiras somente em momentos de caos sistêmico no sistema internacional. Afirma ainda que não se deve confundir caos sistêmico com anarquia. Para ele anarquia designa a ausência de um governo central, enquanto caos sistêmico represente a falta total, aparentemente irremediável, de organização.
Analisando estas premissas, o autor chega à conclusão de que; conforme há um aumento generalizado do caos sistêmico, surge – surge no plano internacional – uma demanda por ordem – qualquer tipo de ordem – entre governantes e governados. É neste momento, que o Estado (ou grupo de Estados) que está mais apto a atender esta demanda por ordem, tem a oportunidade de se tornar hegemônico. Historicamente, todos os países que aproveitaram esta oportunidade com êxito, fizeram-no reconstruindo o sistema mundial. Nota-se aqui que “as hegemonias estatais não “ascenderam” ou “declinaram” em um sistema mundial estático e invariável”. Pelo contrário, o Estado moderno é marcado por sucessivas reestruturações.
É importante também ter em mente que este moderno sistema de governo, surgiu e está intimamente ligado com o desenvolvimento do capitalismo como sistema econômico mundial. Arrighi aponta que “na busca pela competitividade internacional os Estados se moldaram sobre a forma do capitalismo”. Ou seja, o sistema econômico moldou a forma de se fazer política.
Entretanto, mesmo com a resistência por parte do capitalismo à ampliação do poder do Estado, pode se dizer que um é dependente do outro. E influenciam diretamente as formas de governo e lógica de poder. Segundo o autor, surgiram os governantes territorialistas e os capitalistas:

“Os governantes territorialistas identificam o poder como a extensão e a densidade populacional de seus domínios, concebendo riqueza/capital como um meio ou subproduto da busca de expansão territorial. Os governantes capitalistas, ao contrário, identificam o poder com a extensão de seu controle sobre os recursos territoriais um meio e um subproduto da acumulação de capitais.”

Por fim, podemos perceber como Arrighi desenvolve sua teoria sobre o papel da concorrência estatal e da concorrência capitalista no desenvolvimento da história moderna. Que ocorre, segundo Fiori, “através de uma sucessão de ciclos de acumulação econômica, liderados por uma sucessão de potências hegemônicas que mantiveram a ordem política e o funcionamento da economia mundial, graças à sua capacidade crescente de projetar seu poder nacional sobre um espaço cada vez mais global”. Que foram segundo Arrighi, Holanda no século XVII, Grã Bretanha no século XIX e Estados Unidos no século XX.
 Costume e inovação: ondas largas e estágios do desenvolvimento capitalista.
Neste texto Giovanni Arrighi analisa as ondas longas que marcaram o sistema capitalismo nos últimos 200 anos. Inicialmente deve-se ter em mente, que o termo ondas londas surgiu com o russo Nikolai Kondratieff, que ao analisar as quebras da economia do século XVIII até a década de 1920, chegou à conclusão de que, a partir da industrialização, a economia adquiriu uma dinâmica própria, marcada por períodos de rápido crescimento (com fôlego na produção, geração de capital e prosperidade) com estagnação, declínio e recessão gerando, por fim, uma crise econômica.
Percebendo esses ciclos contínuos de euforia, estagnação, queda e recuperação, Kondratiev chegou à conclusão de que o capitalismo sofre de ondas longas, ou seja, a crise dentro desse sistema econômico é algo inerente do próprio sistema. De acordo com essa teoria, as flutuações da produção e dos preços ocorreriam em ondas longas com intervalos de 50 e 70 anos. Hoje, muitos economistas acreditam que essas flutuações periódicas de são em intervalos mais curtos.
Kondratieff foi duramente criticado pelos comunistas, que acreditavam que o capitalismo deveria entrar em crise permanente e não cíclica. Preso por suposta traição, ele passou oito anos num gulag (campo de trabalho forçado), até ser executado por fuzilamento em 1938, aos 46 anos.
Aqui Arrighi, se apropria do pensamento de Kondratiev e inclui dois novos elementos teóricos de Schumpeter: o costume e a inovação. Segundo Schumpeter a intensidade da competição na economia capitalista varia no tempo de acordo com o equilíbrio, sempre mutável, entre as forças do costume a as forças da inovação.
Como todos os sistemas anteriores o capitalismo se assenta em um certo tipo de ordem costumeira: onde os atores políticos, econômicos e sociais se desenvolvem e se comportam de acordo com as regras e normas que asseguram a continuidade do “fluxo circular da vida econômica”. Entretanto, o capitalismo tende a gerar inovações muito mais rapidamente, rompendo com as ordens costumeiras e estabelecendo outras. Ou seja, O capitalismo, assim como todos os sistemas anteriores, foi capaz de gerar ordens costumeiras. A diferença principal é sua capacidade única, de gerar inovações. Para Arrighi as inovações tecnológicas tem que vencer a resistência dos costumes, que são diferentes nos Estados domicílios e empresas.
As ondas largas aconteceriam em duas fases que o autor caracteriza como fase A e B:
Na fase A as empresas capitalistas fazem acordos de cooperação e complementaridade, graças à existência de mercado para todas.
Na fase B eles se envolvem em lutas e competições encarniçadas por mercados e lucros.
Transição da fase B para a A: Em um dado momento, a competição excessiva suscita tendências compensadoras que a longo prazo se cristalizam num conjunto de acordos que se tornarão costumeiros.
Transição da fase A para a fase B: em um dado momento os acordos costumeiros já não garantem uma acumulação igualitária entre as empresas. O que gera uma nova rodada de competição.
Ou seja, as fases B são os períodos de competição excessiva entre as empresas capitalistas e as fases A são os períodos de trégua que preparam uma nova rodada de luta.
Fiori deixa claro que “estas sucessivas ‘situações hegemônicas’ não suspendem os processos de competição e centralização do capital e do poder, responsáveis pela repetição periódica de grandes crises e longos períodos de transição e reorganização da base produtiva, assim como de mudança na liderança mundial do sistema”.
 Relação entre as crises de hegemonia com as crises econômicas.
Analisando-se o seguinte gráfico Giovanni Arrighi chega à conclusão de que;
Os ciclos de Konfratieff acompanham a ascensão e queda de algumas hegemonias mundiais. Ou como afirma Fiori “o conceito de ‘hegemonia mundial’ se refere à capacidade de um Estado de liderar o sistema político mundial formado pelos Estados soberanos e suas economias nacionais”.
Vê-se claramente que no Primeiro Kindratieff a liderança política e econômica mundial está nas mãos dos britânicos, graças a Revolução Industrial que foi o principal sustentáculo desta hegemonia inglesa. Em algum momento entre 1810 e 1817, ocorreu uma estagnação da economia que levou consequentemente a crise econômica de 1884/1851, dando inicio assim ao segundo Kondratieff.
Para se recuperar desta crise, o governo britânico foi obrigado a fazer obras de infraestrutura, chamada por Arrighi como Revolução ‘secundária’ dos transportes[1]. Neste momento não existiam países capazes de competir com a produção inglesa, e esta seguiu como hegemonia até cerca de 1890, quando a liderança econômica fragmentou-se. EUA e Alemanha, cada uma a seu modo, ingressaram na luta pela liderança política e econômica mundial.
Neste período, a existência de diversas potências econômicas, minou a liderança inglesa e entre 1890 e 1920 não havia, no sistema internacional, nenhuma liderança política mundial. Foi um período, segundo Arrighi de anarquia no sistema inter-Estados.

Essa falta de sincronização entre ciclos de hegemonia e ciclos de competição mostra que as relações de poder no sistema inter-Estados não são um mero reflexo da liderança nas relações interempresas. Devido a essa disjunção, o terceiro Kondratieff foi completamente dominado por rivalidades hegemônicas mundiais. (Arrighi)

Durante os dois primeiros Kondratieff’s houve uma hegemonia britânica embasada no livre-cambismo. A Alemanha, em sua busca para alcançar a Inglaterra, desenvolveu-se graças à intervenção do Estado. Já os EUA não se desenvolveram nem através da tática livre-cambista, nem através do mercantilismo, mas com um resultado de sua Revolução Organizacional.
A Revolução Organizacional americana foi “o estabelecimento de coordenação gerencial sobre processos de produção verticalmente integrados, e a institucionalização de inovações econômicas no interior do território organizacional da empresa” (Arrighi). O Teylorismo, o Fordismo e o consumismo, são reflexos desta Revolução.
Por fim, ao final da Primeira Grande Guerra às empresas norte americanas emergiram como líderes econômicos no âmbito global e consequentemente, ao final da Segunda Guerra mundial o Estado norte americano consolidou-se como líder no campo político. Duas guerras, que segundo o autor, foram decorrentes da falta de uma liderança econômica e política no sistema internacional.
Após tornar-se hegemonia, os EUA necessitavam da liberdade de investir através das fronteiras do Estado, e deste fato ocorreu então a revolução ‘secundária’ da informação, fortalecendo as relações e investimentos das empresas norte americanas por todo o planeta.
Resumindo:
As crises de hegemonia são rupturas e mudanças de rumo na liderança, anunciadas pelas “expansões financeiras”, mas também pela intensificação da competição estatal; pela escalada dos conflitos sociais e coloniais ou civilizatórios; e pela emergência de novas configurações de poder capazes de superar o antigo Estado hegemônico. São crises que não ocorrem de repente, nem de uma só vez. Pelo contrário, aparecem separadas no tempo, primeiro na forma de uma “crise inicial”, e depois de algumas décadas na forma de uma grande “crise terminal”, quando então já existiria o novo “bloco de poder e capital”, capaz de reorganizar o sistema e liderar seu novo ciclo produtivo. Entre essas duas crises, é quando a expansão material dá lugar a “momentos maravilhosos” de acumulação da riqueza financeira, como ocorreu ao terminar o século XIX, e agora novamente, no final do século XX. (FIORI).  

Vemos ainda no Gráfico que na década de 1970, em pleno quarto ciclo de Kondratieff, a liderança econômica mundial, que desde 1920 está concentrada nos EUA, tornou-se múltipla (assim como na passagem do segundo para o terceiro Kondratieff). E no exato momento em que escrevemos este texto, pode-se perceber que a liderança política mundial também tornou-se múltipla. Os EUA ainda é considerado o líder moral no sistema político internacional, entretanto é visível a crescente contestação por parte de outros Estados à essa liderança.
Giovanni Arrighi “conclui sua investigação com a certeza de que a ‘crise inicial’ da hegemonia norteamericana começou na década de 1970 e que sua ‘crise terminal’ está em pleno curso” (FIORI).
Como um professa anuncia, que um novo ciclos de acumulação capitalista teve inicio e está sendo liderado por um ou por vários países asiáticos. Se suas previsões estarão certas ou não, só o tempo dirá, entretanto o vertiginoso crescimento econômico chinês dos últimos  trinta anos nos dá uma pista de quem será – segundo a teoria de Arrighi – a próxima potência hegemônica mundial. 
Conclusão.
A genialidade de Giovannni Arrighi se manifesta, em sua busca pela compreensão de como se desenvolvem as estruturas de longa duração no capitalismo. Percebeu em seus estudos que o “processo de formação e expansão do capitalismo histórico não se deu por uma trajetória linear dentro de estruturas imutáveis e relações permanentes” (ARIENTI, FILOMENO, 2007).

Há uma dinâmica com continuidades de estruturas e de relações — daí a longa duração — e descontinuidades com inovações nas estruturas e com novas relações entre elas — daí a mudança. Ao longo da história do capitalismo, houve mudanças sistêmicas, caracterizadas por processos de reorganização radical do moderno sistema-mundo, que alteraram substantivamente a natureza dos integrantes do sistema, sua maneira de se relacionar uns com os outros e o modo como o sistema funciona e se reproduz (Arrighi; Silver, 2001, p. 30).

Para Arrighi a característica essencial do capitalismo está em suas mudanças cíclicas. Mudanças estas, que para Arrighi e Braudel revelam a flexibilidade e a capacidade de adaptação do capitalismo.
Ou seja, a reorganização do sistema em tempos de crise é o fator determinante nas transições hegemônicas, são os chamados ciclos sistêmicos de acumulação. Que segundo Arrighi são:
Ciclos de ascensão e queda de hegemonias políticas e dos respectivos regimes de acumulação de capital e poder que lhes são subjacentes, intervalados por períodos de transições sistêmicas. Trata-se, portanto, de um novo conceito proposto na abordagem para analisar a dinâmica e a mudança de dinâmica da economia-mundo capitalista e da hegemonia no sistema interestatal. (ARRIGHI 1996).

Por fim, o desenvolvimento do presente trabalho, nos ajudou a compreender um pouco mais sobre o pensamento político-econômico de Giovanni Arrighi.  De como as disputas empresariais e posteriormente as disputas entre os Estados, são cíclicas e inerentes do próprio sistema capitalista. Essas crises periódicas não o enfraquecem, muito pelo contrário, estas ondas longas resolvem os problemas estruturais do sistema, mesmo que isto custe o lugar de hegemonia de alguns Estados.
Para Arrighi, o longo século XX chegou ai fim. A guerra do Iraque marca o fim da hegemonia norte-americana e o fracasso de seu projeto neoconservador para o Novo Século. Claro que os EUA ainda são dominantes econômica, militar e politicamente, mas não são mais uma hegemonia no sentido moral de liderança desde a Guerra do Vietnam.
Ainda segundo o autor, mesmo que conservadores bradem aos quatro cantos de que os EUA ainda são uma potência, por ser o único capaz de atrair aliados no sistema internacional – o que pode ser verdade – não significa que eles ainda sejam uma hegemonia.
A China está emergindo como a verdadeira vencedora da guerra ao terror. Seu crescimento vertiginoso e sua transformação em potência econômica e militar, também não quer dizer que esta se transformará na próxima hegemonia mundial, pois está deve ter capacidade moral para tal.
O certo é que a “crise sinalizadora” já ocorreu, que a “crise terminal” esta em marcha e que a hegemonia norte-americana sofre os efeitos de um mundo em pleno “caos sistêmico” marcado pela ascensão dos países da Ásia e dos países sul do planeta.
Bibliografia:
ARRIGHI, Giovanni: O Longo Século XX. 5ª reimpressão. Rio de Janeiro: Ed. Contraponto; São Paulo: Ed. Unesp.
ARRIGHI, Giovanni: Costume e Inovação: ondas longas e estágios do desenvolvimento capitalista. p. 19-51. in: ARRIGHI, Giovanni (1998)  A Ilusão do desenvolvimento. 6ª ed. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes.
ARIENTI, W.L, FILOMENO, F.A: Economia Política do moderno sistema mundial: as contribuições de Wallerstein, Braudel e Arrighi. Ensaios FEE, Porto Alegre, v.28, n1, p99-126, jul.2007
SANDRONI, Paulo: Novíssimo Dicionário de Economia. Ed Best Seller, 1999,São Paulo, SP.
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[1] Chama-se secundária por ser diretamente influenciada por uma revolução antecessora. Neste caso específico, pela Revolução Industrial.