quinta-feira, 3 de março de 2011

A Crise no Oriente Médio e a Força do Ato Individual



Por: João Pedro Cassiano & William C.T. Rodrigues

O individuo pode estar à frente de seu tempo? Para essa questão a historiografia tem respondido negativamente! Cada homem pertence ao seu tempo, luta por questões do seu tempo. Nosso objetivo aqui é analisar o individuo como portador de uma capacidade extraordinária de gerar transformações na história de sua época. As duas figuras que estamos analisando são portadoras dessa capacidade. Elas são como bombas, explodem detonando tudo que está em volta e colocam em xeque a velha ordem estabelecida.(...)

Existe uma vasta e fascinante bibliografia que trata da relação entre história e individuo e vice - versa. Devido ao caráter desse texto, não vamos arrolar aqui os principais livros que tratam do assunto. Mas recomendamos ao leitor interessado a leitura de Lucien Febvre..

Nos últimos dias o mundo foi sacudido por uma onda de revoltas, dessa vez o palco dessas manifestações foi o assim chamado mundo árabe. Surpreendendo o Ocidente pelo fato de ser uma revolta social, sem caráter religioso. As velhas ditaduras iniciadas entre os anos 50 e 60 do século XX sofreram um duro golpe no alvorecer do século XXI. Suas estruturas mais sólidas estão ruindo frente às reivindicações da população por participação política. Aquilo que parecia sólido desabou frente uma manifestação iniciada na Tunísia. Essa onda de protestos se alastrou da Tunísia para o Egito, Líbia Argélia, Marrocos, Jordânia, e diversos outros países árabes derrubando vários ditadores.

A questão central é saber até que ponto um ato individual como esse é capaz de gerar revoltas de proporções imprevisíveis? Qual o poder desse ato como símbolo sintetizador de uma causa coletiva? Como uma única pessoa pode ser o estopim de mudanças tão profundas?

Nos EUA da década de 50, durante a segregação racial, Rosa Parks uma senhora negra da cidade de Montgomery no Alabama negou-se a ceder seu lugar no acento do ônibus a um homem branco, esse ato de desobediência à lei que amparava o segregacionismo levou a um grande boicote aos ônibus. A comunidade negra norte-americana revoltou-se iniciando uma serie de protestos que culminou na luta pelos direitos civis da década de 60.

De forma praticamente idêntica, Mohamad Bouazizi um jovem engenheiro tunisiano, era obrigado a ganhar a vida como vendedor autônomo por causa do desemprego, sendo constantemente molestado pelas autoridades locais que o impediam de trabalhar de forma digna. Como forma de protesto, Mohamad ateou fogo ao próprio corpo vindo há falecer alguns dias depois. Esse ato solitário gerou centenas de protestos pela Tunísia que posteriormente se alastraram por quase todos os países árabes, e hoje esse ato isolado tem como saldo milhares de mortos, ditadores derrubados e dezenas de países em processo de transição política.

Nota-se, nos dois exemplos, a atuação do individuo que de forma inconsciente, resistindo ao sistema, irradia os anseios de um povo. Essas figuras históricas não estão ligadas a nenhum partido, há nenhuma ideologia, seus protestos sugiram de forma espontânea e como o raiar do sol em um novo dia, atingiu toda a população. Eles não representam nenhuma vanguarda consciente dos seus atos, como, por exemplo, um revolucionário comunista, que sabe onde quer chegar. Eles apenas manifestam um sentimento que estava aprisionado no seio da população pelas redes dos sistemas que os aprisionavam.

Esses indivíduos são os portadores das angústias coletivas. Assim, seus atos individuais se propagam como uma epidemia pela sociedade. Muitas vezes essas rebeliões extrapolam as frágeis fronteiras nacionais gerando temor em outros países, como é o caso do Oriente Médio e Norte da África. Nos Estados Unidos, diferentemente do mundo árabe, essa manifestação ficou dentro das suas fronteiras, porque essa reivindicação era local, qual seja, direito civis para os negros.

Como já ficou explicito, não existem homens que estão a frente de seu tempo, seja ele um líder, um filósofo, um manifestante ou um mártir. Eles não surgem do nada. Ele concentra todas as reivindicações, mazelas e esperanças de um povo e, extravasa por meio de livros, atos e discursos todo o sentimento do povo que representa. O homem é fruto de seu tempo e só pode agir dentro dele, se o ato de atear fogo ao próprio corpo, ou de não ceder o lugar no ônibus não tivessem embasamento no coletivo, se a massa não exprimisse o mesmo sentimento, dificilmente ela se mobilizaria e abraçaria a causa pela qual o suposto “herói” morreu.

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