sexta-feira, 3 de julho de 2015

Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior. 7º Capítulo.

Vida Material.
Em seu 7º capítulo Caio Prado Jr. nos apresenta os pormenores da Grande Lavoura (base mestra da economia colonial brasileira).
Boa Leitura

Cap 7: Grande Lavoura
(P.130) A agricultura é o nervo econômico da civilização. É sobre ela que se assentou a ocupação e exploração do Brasil. O pau-brasil e a mineração não passaram de parênteses de curta duração.
(P.133) Produzindo exclusivamente para o exterior, as atividades econômicas da colônia se fixam naturalmente próximos aos portos de embarque e exportação. Isso ocorre graças ao relevo acidentado da Serra do Mar que tornava ao agricultor impossível arcar com as despesas de produção e transporte, caso este se fixasse no interior.
As desvantagens das capitanias do interior são claras, pois numa economia essencialmente exportadora como a da colônia, sua posição é excêntrica. E se dependesse somente da agricultura a colonização não teria penetrado o interior. Foram a mineração e a pecuária que tornaram possível e provocaram este avanço.
(P.134) O algodão, gozando de preços anormalmente altos, será uma exceção, pois encontrará no interior condições naturais propicias e mão-de-obra abundante graças a decadência da mineração.
Em São Paulo ocorre um paradoxo, no século XVIII quando esta região começou a representar alguma coisa na economia nacional foi graças aos planaltos do interior e sua abundante produção de açúcar. Essa condição de São Paulo ocorre graças as condições desfavoráveis de seu litoral, frente ao planalto de solo magnífico, sem dúvida um dos melhores do país. E embora separados dos portos pela serra, não se afastava deles excessivamente.
Contudo, de uma maneira geral a agricultura se fará próximo ao litoral.
(P.135) Embora a agricultura seja de considerável importância para a economia brasileira, ela é muito mais quantitativa que qualitativa. Da colonização até próximo ao século XX as práticas agrícolas se mantiveram praticamente as mesmas. Processos bárbaros, destrutivos, explicáveis e insubstituíveis na primeira fase de ocupação.
Para a instalação de novas culturas, nada de novo se realizara que o processo brutal, copiado dos indígenas, da “queimada”. Para o problema do esgotamento do solo outra solução era o abandono puro e simples do local por anos consecutivos, com prazos cada vez maiores, até o esgotamento definitivo.
A queimada e o consumo indiscriminado e descontrolado de lenha (sobretudo no engenhos de açúcar) vão tragando as matas a beira do atlântico, especialmente no nordeste.
(P.136) A devastação da mata em larga escala ia semeando desertos estéreis atrás do colonizador, sempre em busca de solos frescos que não exigissem maior esforço de sua parte. No trato com a terra nada se fizera no sentido de melhor aproveitar, restaurar ou conservar as propriedades do solo. Era o sistema de monocultura somado ao espírito do colonizador.
(P.137) Em matéria de lavra do solo só se utilizava a queimada e a enxada.
(P.138) Mesmo nos engenhos, a tecnologia era rudimentar e geralmente movido por tração animal, poucos eram os engenhos movidos a água (muito mais eficientes).
(P.139) Segundo Caio Prado Jr o principal responsável pelo estado das coisas era naturalmente o sistema geral da colonização fundada no trabalho ineficiente e quase sempre semibárbaro do escravo africano.
(P.140) Mas não é só o trabalho escravo o responsável. Outras colônias tropicais do continente que usavam a mesma forma de mão-de-obra eram extremamente superiores na agricultura e indústria. A razão da diferença pode estar na natureza do colono português, e sobretudo no regime político e administrativo que a metrópole impôs a sua colônia, sempre buscando isolar o Brasil, mantendo-o afastado do mundo.
Somado a isto está o baixo nível cultural da colônia e uma administração mesquinha de burocratas sem escrúpulos.
Esses fatores já nos dá uma boa margem para explicar o nível rudimentar das principais atividades econômicas da colônia.
(P.141) A baixa produtividade, a monocultura, o latifúndio e a tecnologia rudimentar foram pouco a pouco desgastando a terra.
(P.142) É com esta conjuntura que a economia entra no século XIX, século marcado pela livre concorrência, que o colocou de frente com adversários infinitamente mais bem aparelhados. Sua derrota era inevitável. Contudo, para os contemporâneos o horizonte da agricultura colonial não era tão sombrio. Os nossos produtos estavam valorizados, como por exemplo, o café. O resultados só foram sentidos posteriormente a médio prazo.
Como já vimos anteriormente, a agricultura colonial brasileira pode se distinguir em dois setores diversos: a grande lavoura em geral voltada para o mercado externo (açúcar, algodão, tabaco) e a agricultura de subsistência produtora de gêneros destinados à manutenção da população do país (ao consumo interno).
(P.143) Aqui analisaremos os traços fundamentais da grande lavoura: o primeiro é a exploração em larga escala em áreas extensas e numerosos trabalhadores, constituindo-se como uma usina.
Isto tem grande significação econômica e social, pois é deste tipo de organização que se constituí a lavoura brasileira e toda estrutura do país.
(P.144) Começaremos então a repassar todas as grandes culturas das grandes lavouras.
A primeira analisada é a cana de açúcar. Primeira cronologicamente, contribuiu para a colonização, pois serviu como base material para a fixação do europeu neste território. Parodiando Heródoto “o Brasil é um dom do açúcar”.
Geograficamente foi plantada em toda zona habitada, mas era no litoral que existiam seus grandes centros produtores.
(P.145) Mas em todo país a lavoura canavieira tem por elemento central o engenho. Fábrica destinada a manipulação da cana e da produção de açúcar.
(P.146) O engenho é uma organização complexa e dispendiosa que compreende numerosas instituição e instalações: moenda, caldeira, casa de purgar, além da casa-grande que era a habitação do senhor e a senzala dos escravos.
(P.147) Nas terras do engenho, além dos canaviais, existiam pastagens para a alimentação do grande número de bois e cavalos que eram utilizados no engenho.
Culturas alimentares para alimentar o numeroso pessoal e matas para lenha e madeira de construção. O engenho era um verdadeiro mundo em miniatura.
O trabalho é todo escravo, mas há um pequeno número de assalariados para funções especializadas ou de direção (mestres, purgadores, feitores, caixeiros, etc) e não era raro encontrar nestas funções antigos escravos libertos.
Além do açúcar, extrai-se também da cana a aguardente. Subproduto muito consumido no país e exportado para as costas da África onde servia no escambo de escravos.
(P.148) A aguardente era uma produção muito mais democrática que a do aristocrático açúcar. Outro subproduto da cana era a rapadura, largamente consumida na colônia.
Muito mais simples e dispendiosa era a produção de algodão. Esta era a cultura dos lavradores modestos e é isto que tornou possível o seu grande desenvolvimento. E somente quando se torna mercadoria de grande importância no mercado internacional (graças à demanda inglesa), que o algodão passa a ser uma das principais riquezas da colônia.
(P.150) A cultura do algodão neste apogeu dos primeiros anos do século XVIII dissemina-se largamente por todo território e o Brasil se alinha entre os grandes produtores mundiais. O país inteiro fora atingido pelo boom, que segundo o autor não fora mais que isso, uma febre momentânea. Com o declínio dos preços, por consequência do aumento da produção norte-americana e do aperfeiçoamento de técnicas que o Brasil não pôde acompanhar.
(P.153) A terceira grande lavoura da colônia é a do tabaco. Sua cultura data entre nós do século XVII, e em princípios do seguinte, já figurava com quantidades avultadas no comércio exterior. Este nível, embora estacionário ou com pequeno progresso, se manteve. E só em princípios do século XIX começa a declinar. Boa parte de sua produção se destinava a exportação e o escambo. Assim como a cana e o algodão, embora em menor escala, a cultura do tabaco se espalhou por toda colônia.
(P.155) As três lavouras que acabamos de ver constituem os fundamentos da agricultura colonial, tanto pelo valor da produção como pela parte da população que nelas exerce sua atividade, representando quase a totalidade da economia agrária do Brasil.
Contudo, existiam outras culturas, menos vultuosas, mas ainda sim destinadas a exportação como:
O café que nesta época tinha uma produção insignificante.
O cacau constituía a principal atividade agrícola das capitanias setentrionais: o Pará e o Rio Negro.
O arroz muito consumido na colônia e se desenvolvia principalmente no Maranhão.
E o anil, que foi uma esperança que se frustrou. Foi cultivada especialmente no Rio de Janeiro, mas seu produto final mal preparado e muitas vezes fraudado, tinha péssima aceitação nos mercados, o que fez a cultura do indigoeiro desaparecer.

Fonte: PRADO JÚNIOR, Caio: Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo. Ed Brasiliense. 7ª reimpressão, da 23ª edição de 1994. Pág 130-155.

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