quinta-feira, 29 de maio de 2014

Fichamento: O QUE E COMO ENSINAR. Por uma História prazerosa e consequente. Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky

Neste capitulo do livro História na sala de aula Jaime e Carla Pinsky escrevem um verdadeiro manifesto sobre a necessidade de conjugar a tradição humanística com a necessidade de educar jovens do século XXI.
Parte I – Abordagens
O QUE E COMO ENSINAR. Por uma História prazerosa e consequente.
Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky
(P.17) O Problema.
As grandes mudanças políticas e econômicas ocorridas no final do século XX causaram muita perplexidade entre professores e estudantes de História em geral, criando um certo ceticismo em relação ao próprio conhecimento histórico, o valor do ensino de História nas escolas e seu potencial transformador..
Somado a isso está a difusão das novas tecnologias globais que questiona a eficácia dos livros, da utilidade dos professores e das propostas curriculares ligadas as necessidades nacionais e locais.
Procurando acompanhar essas mudanças os professores acabaram comprando a ideia de que o que não é veloz é chato. Na sala de aula, o pensamento analítico é substituído por “achismos”, alunos trocam as investigações bibliográficas por informações superficiais dos sites e vídeos que são utilizados para substituir e não complementar os livros. E o passado é sempre visto como algo passado e portanto superado.
(P.19) O grande desafio neste novo milênio é adequar o nosso olhar às grandes exigências do mundo real sem sermos sugados pela onda neoliberal que parece estar empolgando corações e mentes. É preciso desenvolver uma prática de ensino de História adequada aos novos tempos (e alunos): rica de conteúdo, socialmente responsável e sem ingenuidade ou nostalgia.
A proposta: a favor do conhecimento humanista.
Ao mesmo tempo que condeno, no discurso, o pragmatismo e o materialismo dos novos tempos, as escolas parecem ter esquecido de sua parcela de responsabilidade na formação humanística do aluno. Onde está o humanismo quando a escola transforma o aluno em uma máquina de responder vestibular?
Queiram ou não a história na escola é de extrema importância, pois história é referência e deve ser bem ensinada.
(P.20) Neste momento em que a sociedade brasileira começa a dar extrema importância a História (livros, filmes e novelas com esse tema se tornam sucesso) parece que muitas escolas caminham na contramão, cortando a disciplina de sua grade, ou mutilando-a. E mais grave, desistindo de, ao menos, nos aproximar do patrimônio cultural da humanidade. E qual é o papel do professor senão estabelecer uma articulação entre o patrimônio cultural da humanidade e o universo cultural do aluno?
(P.21) Cada estudante precisa se perceber de fato, como sujeito histórico, e isso só se consegue quando ele se dá conta dos esforços que nossos antepassados fizeram para chegarmos ao estágio civilizatório no qual nos encontramos.
(P.22) O papel do professor de história.
O ensino de História deve ser revalorizado e os professores dessa disciplina devem ter consciência de sua responsabilidade social perante os alunos, preocupando-se em ajudá-los a compreender e melhorar o mundo em que vivem. Para isso é bom não confundirmos informação com educação. Para informação temos jornais, televisão e internet. Essa informação só é transformada em conhecimento quando é organizada.
O professor deve ter conteúdo, ou melhor, cultura e erudição. Sem estudar e saber a matéria não pode haver ensino. É inadmissível um professor que não lê. Se o tempo é curto, o salário é baixo e se o Estado não cumpre com seus deveres, discute-se isso nas esferas competentes. Mas o professor deve estar atualizado.
(P.23) Afinal, se o professor é o elemento que estabelece a intermediação entre o patrimônio cultural da humanidade e a cultura do educando é necessário que ele conheça tanto um quanto o outro. O professor precisa conhecer a base de nossa cultura e o universo sócio cultural do educando, sua maneira de falar, seus valores e aspirações. É a partir do conhecimento desses dois universos que ele realiza seu trabalho.
Pela volta do conteúdo nas aulas de história.
O passado deve ser interrogado a partir de questões que nos inquietam no presente (caso contrário, estuda-lo fica sem sentido). Portanto, as aulas de História serão muito melhores se conseguirem estabelecer um duplo compromisso: com o passado e o presente.
Compromisso com o presente significa tomar como referência questões sociais, assim como problemáticas humanas que fazem parte da nossa vida, temas como desigualdades sociais, raciais, sexuais, diferenças culturais, etc.
(P.24) Compromisso com o passado não significa estudar o passado pelo passado, apaixonar-se pelo objeto de pesquisa por ser a nossa pesquisa, sem pensar no que a humanidade pode ser beneficiada com isso. Compromisso com o passado é pesquisar com seriedade, basear-se nos fatos históricos, não distorcer o acontecido como se fosse uma massa amorfa a disposição da fantasia de seu manipulador. Sem esse respeito ao acontecido a História vira ficção. Interpretar não é inventar.
Afirmações baseadas em filiações ideológicas são desprezíveis, perigosas, não verdadeiras, e podem acabar se transformando em veículos de preconceito e segregação.
Além dessas questões estruturais, há alguns vícios que afetam a qualidade das aulas de história.
Um deles é a critica sem base. Antes de entender um texto, uma questão, uma conjuntura, professores e alunos já lançam críticas. “Tal autor? Esta superado”, dizem alunos e professores que nunca se deram ao luxo de lê-lo, mas que se permitem julgamentos definitivos.
(P.25) Outra é a supervalorização do desconstrutivismo. Não que ele não tenha sido um avanço importante, porém como proposta de ensino ele deve ser utilizado com cautela, pois mesmo que o professor tenha total domínio, só a desconstrução não basta, pois deixa um gostinho de vazio no ar. É preciso que o aluno tenha acesso a algum conteúdo histórico que o contextualize.
Um modo mais construtivo seria abordar a História a partir de questões temas e conceitos. Quais as questões relevantes que podem ser feitas ao presente e, por extensão ao passado? Qual a relevância dos recortes temáticos tradicionais e novos feitos pela historiografia? Quais conceitos importantes a serem discutidos com os alunos? Com isso o professor poderá:
- Despertar o interesse dos alunos demonstrando a atualidade de coisas tão cronologicamente distantes;
- Capacitar os estudantes no sentido de perceberem a historicidade de um conceito como democracia, cidadania, beleza (porque e como mudaram através do tempo?);
(P.26) – Práticas como manifestações de religiosidade, afetividade e sexualidade, ideias como a inferioridade racial, cultural e moral;
- Fazer com que os alunos reconheçam preconceitos, seu desenvolvimento e mecanismos de atuação, para assim criticá-los com argumentos sólidos.
- Demonstrar com clareza os usos e abusos da História, perpetrados por grupos políticos, nações e facções;
- Possibilitar a crítica a dogmatismos e “verdades” absolutas.
(P.27) Uma questão de abordagem.
Não há incompatibilidade entre História Social e a História das mentalidades e do Cotidiano. Pois na visão do autor, em sala de aula elas se complementam. A abordagem da corrente da História Social busca a percepção das relações sociais, do papel histórico dos indivíduos e dos limites e possibilidades de cada contexto e processo histórico. A das mentalidades privilegia cortes temáticos. Bem utilizados, ambos são procedimentos recomendáveis.
O potencial transformador do ensino de História.
Este é um assunto que causa muita polêmica e que quase sempre possui uma enorme dificuldade para o professor situar racionalmente.
A frase de Marx que dizia que não era mais hora de apenas entender o mundo, mas mudá-lo, tem justificado diversas propagandas politicas sobre esse ou aquele candidato em sala de aula. Sob o pretexto de saber qual a mudança que o mundo deve merecer o professor corre o risco de se tornar um cabo eleitoral privilegiado, perdendo sua dignidade.
(P.28) Privilegiado pois suas palavras podem ter grande aceitação sobre sua turma de alunos.
Não se trata aqui de despolitizar o discurso do professor, uma vez que não há discurso apolítico, mas dotá-lo de equilíbrio e ponderação. O conhecimento histórico, por si só, já carrega um profundo potencial transformador.
O professor deve fazer o aluno entender que ele é fruto de seu tempo, região, classe social, etc. Ou seja, o aluno deve entender que ele não poderá se tornar um guerreiro medieval ou um faraó egípcio pois ele é um homem de seu tempo e essa é uma determinação histórica. Porém, dentro de seu tempo, dentro de suas limitações, ele possui a liberdade de optar. Sua vida é feita de escolhas e ele, com maior ou menor grau de liberdade pode tornar-se o sujeito principal de sua história, o senhor do seu destino.
Quanto mais o aluno sentir a História como algo próximo dele, mais terá vontade de interagir com ela. O verdadeiro potencial transformador da história é a oportunidade que ela oferece de “inclusão histórica”.
O que ensinar (do abstrato para exemplos concretos).
(P.29) Vemos muitos professores frustrados por não conseguirem dar toda a matéria. Há estudantes que durante todo o período escolar só viram um tema, um recorte histórico.
Com o numero reduzido de aulas e o vasto conteúdo o professor se vê incutido de desestimular as discussões que atrasariam a matéria. O resultado são passagens de um tema para outro muito rapidamente, o que transforma a disciplina numa maçaroca de informações desconectadas e articuladas à força, mas sempre desinteressante e inútil.
A primeira coisa que um professor deve fazer ao montar um curso é selecionar conteúdos. Caso o professor não encontre conteúdos o suficiente, ele não deve ter pena em abandonar um determinado assunto. Outras vezes vale a pana dedicar um tempo maior à leitura cuidadosa de determinado documento histórico, tanto por seu significado, quanto pela validade de se ler uma fonte primária.
(P.30) A matéria escolar pode estar relacionada a vários recortes da História. Entre outros, citamos:
1) Um acontecimento ou evento histórico (ex.Revolução Francesa, II Guerra, Proclamação da República no Brasil).
2) Uma instituição social (ex.a escravidão no Brasil, o imperialismo, a globalização).
3) Um processo de longa duração (ex.o desenvolvimento das primeiras civilizações).
4) Uma interação cultural (ex.o encontro entre europeus e indígenas).
5) Um tema manográfico (ex.a mulher na idade média).
O primeiro pode ser estudado sob a ótica da continuidade e da ruptura histórica (A história é um processo que sofre rupturas. Há fatos que mudaram a ordem mundial). Os desenvolvimentos políticos, sociais e culturais de países inseridos no contexto mundial. (P.31) Exemplos de revoltas contra a ordem estabelecida e da tentativa de reconstrução social, assim como dos problemas que impediram que os objetivos fossem alcançados.
O segundo tema pode ser trabalhado tendo em vista a ordem e o contexto histórico desse período que permitiram e permitem que determinada instituição exerça poder sobre determinada sociedade.
O terceiro tema deve levar o aluno a entender, que mais do que grandes acontecimentos a história deve ser entendida como um largo período em que as mudanças também ocorrem, mas de forma menos perceptíveis. Ex, surgimento do homem até as primeiras civilizações.
(P.32) O quarto tema visa abordar a problemática da pluralidade cultural e do choque que ocorre no entre elas.
(P.34) No último, um tema monográfico significa escolher um elemento (muitas vezes desconsiderado na História) e estuda-lo. Um exemplo são os estudos sobre a mulher no Brasil colônia. A partir da escolha pode-se discorrer sobre o imaginário social, as representações, as mentalidade que moldaram atitudes e comportamentos.
(P.35) Conclusão.
Como se vê, diferentes recortes da História permitem que o aluno abra enormes horizontes que podem acolher, inicialmente, sua curiosidade, depois, sua análise e, finalmente, sua identificação com essa “gente como a gente” que construiu o processo histórico do qual ele faz parte.
O problema do processo de ensino-aprendizagem é o abandono da ideia de processo. Muitos profissionais misturam Espartaco e Zumbi em um mesmo tema transversal e colocam eles para dialogar como se fossem contemporâneos.
Por sim o autor convoca todos alunos e professores para voltarem aos livros, pois só com eles a pesquisa virtual, os vídeos e os jogos eletrônicos fazem sentido.


 Fonte: KARNAL, Leandro (org): História na sala de aula. Conceitos propostas e prática. 6.ed. São Paulo: Contexto 2010.

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