quinta-feira, 3 de abril de 2014

Texto sobre a leitura: A Reforma Universitária de Córdoba (1818) de José Alves de Freitas Neto.

Por: William C. T Rodrigues.
Apesar de presente e atuante em toda a História, em geral o jovem não é visto como um grupo social separado, nem que mereça grande destaque para esta disciplina quanto, por exemplo, a mulher e a criança.
São poucos os momentos em que a história reconhece o jovem como um ator social ou um agente único de transformação política e não o “dilui” em meio aos outros grupos sociais o tornando apenas mero participante de um movimento. São raros os momentos, como em de maio de 68, os caras pintadas de 1992 e as lutas pela reforma universitária de Córdoba (1918), em que os jovens passam para a história com movimentos vitoriosos compostos majoritariamente por eles.
José Alves de Freitas Neto busca compreender em seu texto, o que acontecia de tão grave com a Universidade de Córdoba, ao ponto de criar as bases para o surgimento de um movimento estudantil tão forte que criticava não somente a estrutura interna desta universidade, como também a estrutura de ensino de todas as universidades eurocêntricas, escolásticas e conservadoras de nosso continente. Freitas quer entender o alcance e a importância deste movimento que foi colocado pelo intelectual argentino Oscar Terán no mesmo patamar de influência, para os povos latino-americanos, da Revolução Cubana.
As universidades, tal como a conhecemos, surgiram na Europa da Idade Média e eram voltadas exclusivamente para os estudos das humanidades. A partir dessa ideia, pode-se supor que os movimentos estudantis surgiram na Europa, “berço” das universidades. Contudo, o primeiro movimento estudantil que se tem notícia surgiu na Universidade de Córdoba, daí sua importância para o continente e para o mundo.
Diferentemente dos portugueses, os espanhóis criaram diversas universidades em suas colônias, a Universidade de Córdoba foi a primeira da Argentina (1621) e a quarta na América espanhola. Surgiu com cursos tidos como importantes para a época como filosofia, teologia e normas jurídicas.
Entretanto, este pioneirismo do século XVII tornou-se atraso no século XX. A educação ainda era escolástica e controlada por jesuítas. A cátedra era vitalícia e praticamente hereditária, além de ser controlada não por educadores, mas por ilustres locais que buscavam prestigio. O ensino embasado nos argumentos de autoridade e a distancia entre mestres e estudantes era uma regra.
Dentro da ótica do pensamento de Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), que hoje entendemos anacrónico, a tímida modernização da Universidade após a República se deu pela ínfima adesão dos cordobenses ao movimento. É como se Córdoba vivesse as margens dos processos de consolidação da República. Segundo ele, até 1816 ela (a Universidade) desprezava conhecimentos importantes como a matemática, os idiomas a física, o direito público e a música, o que pode ser explicado, segundo seu ponto de vista, por uma relação entre o interior (barbárie) e a capital portenha (vanguarda do país).
O fato foi que em 1918, questões pontuais tomaram corpo e logo se voltaram contra a administração. Sem serem atendidos, os estudantes iniciaram uma greve geral e lançaram um manifesto à juventude argentina em 31 de março. No dia 2 de abril, a administração fechou as portas de Universidade e não cedeu as reivindicações.
O movimento tomou corpo e apoio. Em Buenos Aires foi fundada a Federação Universitária Argentina (FUA), agregando estudantes de todo o país em torno das demandas de Córdoba. O presidente Hipólito Yrigoyen, simpático a nova classe média argentina, interviu em Córdoba em 11 de abril.
O interventor nomeado, José Nicolás Matienza deu inicio a reestruturação em moldes liberais, acabou com a imobilidade do corpo docente, e organizou eleições para o preenchimento dos cargos de reitor e de membros do conselho universitário. Apesar de conseguirem a ampla maioria das cadeiras do conselho universitário, o cargo de reitor ficou com o conservador Antonio Noraes, o que demonstrou ao estudante que as reformas não foram tão democráticas e nem mudaram as estruturas internas do poder.
Outra greve teve inicio, os estudantes conseguiram apoio de sindicatos, políticos de esquerda e intelectuais como José Ingenieros e Manuel Ugarte.
Em 21 de junho de 1918, os estudantes aprovam o Manifesto Limiar ou La Juventud Argentina de Córdoba a los Hombres Libres de Sudamérica, que é considerada a principal carta de princípios da história das universidades latino americanas publicada até então.
Nela os estudantes criticam o cotidiano da Universidade e a tirania da docência. Afirmam ter rompido com o último elo que os prendiam ao atraso e a imobilidade, sendo eles os representantes do poder de renovação da juventude. E apresentam suas propostas políticas e reivindicações reformistas.
O impasse seguiu pelos meses seguintes. Até que em 7 de agosto o reitor Nores renunciou e em 9 de setembro os estudantes tomaram o controle e a direção da Universidade. O presidente Yrigoyen designou como interventor o próprio ministro da educação José Salinas, que com o apoio dos estudantes levou a cabo o projeto de reforma, tal como reivindicado pelos estudantes, assegurando o triunfo do movimento que se espalhou por toda a América Latina.
Segundo José Alves de Freitas Neto “o legado deixado por este movimento na educação superior latino-americana foi a defesa da autonomia universitária, a mudança no processo de ensino e docência e a democratização da universidade, tanto em sua gestão como na garantia da permanência de estudantes de todos os grupos sociais”.
Por fim, o autor acredita que o exemplo de Córdoba deve ser seguido. Contudo, não se deve entender o movimento como um monumento estático sobre um passado de lutas frente a um presente “pouco desafiador”. O que Neto propõe e que compreendamos que hoje vivemos novos tempos e que os desafios do Ensino Superior deste novo século são diferente, devemos então, como homens do nosso tempo – seguir o exemplo de Córdoba – mas com reivindicações que busquem superar as necessidades deste novo milênio.
Bibliografia:
Neto, José Alves Freitas. A Reforma Universitária de Córdoba (1918): um manifesto por uma universidade latino-americana. Revista de Ensino Superior Unicamp, p . 62-70.

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