quarta-feira, 2 de outubro de 2013

América Latina e o analfabetismo científico.


Por: William C. T. Rodrigues
Há alguns meses escrevi este texto para concorrer ao prêmio mercosul de ciência e Tecnologia, nada muito sério, na esperança de ganhar o prêmio de 5 mil dólares (Wow!). Bom não ganhei o tão valioso prêmio (snif, snif). Mas espero que diferente da banca avaliadora, vocês gostem do meu texto.
Boa Leitura.
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo principal buscar entender o fenômeno do analfabetismo científico na sociedade contemporânea, seus males e consequências.  Buscando compreender, como é possível que ainda hoje existam em nossa sociedade pessoas completamente analfabetas quando a questão é ciência é tecnologia.
Partindo deste principio surgem, durante o trabalho, as mais diversas indagações sobre as causas do analfabetismo científico, que durante o texto serão debatidas e problematizadas, buscando assim, conseguir uma abordagem mais ampla e pontual sobre o tema.
Tendo sempre como horizonte, a busca por uma educação científica de qualidade que solucione este problema que de tão comum e invisível, atinge sem ser percebido a maior parte da população mundial.
Palavras-chaves: Educação científica; Analfabetismo científico; América-Latina.

INTRODUÇÃO.
Em 1609 ao observar por entre as lentes de um telescópio rustico[1], Galileu Galilei (1564-1642) deu inicio a nossa ciência moderna. O simples ato de ampliação dos sentidos através de uma ferramenta construída racionalmente pelo homem, pôs em xeque todos os argumentos de autoridade embasados na tradição escolástica.
Segundo Giovana Girardi “1609 foi simbólico porque Galileu começa ali a oferecer uma visão nova sobre o procedimento científico. Criou um programa sistemático de observações, a base da instrumentação científica, com experiências repetíveis, cada vez mais aperfeiçoadas”. Não é à toa que Hanna Arendt põe o Telescópio, juntamente com a descoberta da América e a Reforma, como os três fatores dos quais derivaram a modernidade.
Partindo deste princípio nos surgem algumas questões. Como é possível que quatro séculos após o surgimento da ciência moderna, bilhões de pessoas em todo o mundo ainda vivam na total escuridão e ignorância em relação à ciência e seus métodos? Quais são as causas principais do pensamento irracional e anticientífico na nossa sociedade? Como combater esse mal?
Não podemos nos esquecer de que estes são problemas que remontam a um período muito anterior a Galileu e a ciência moderna. O próprio filósofo grego Platão já se preocupava com o analfabetismo científico a cerca 2.400 atrás, definindo um analfabeto científico como:

Aquele que não sabe contar um, dois, três, nem distinguir os números ímpares dos pares, ou que não sabe contar coisa alguma, nem a noite nem o dia, e que não tem noção da revolução do Sol e da Lua, nem das outras estrelas [...]. Acho que todos os homens livres devem estudar esses ramos do conhecimento tanto quanto ensinam a uma criança no Egito, quando ela aprende o alfabeto. Naquele país, os jogos aritméticos foram inventados para ser empregados por simples crianças, e elas os aprendem como se fosse prazer e diversão [...]. Com espanto, eu [...] no final da vida, tenho tomado conhecimento de nossa ignorância sobre essas questões; acho que parecemos mais porcos do que homens, e tenho muita vergonha, não só de mim mesmo, mas de todos os gregos. (Apud Sagan et al., 2006, p.21).

Segundo a Revista Sciense de abril de 2010, o chamado analfabetismo científico é um problema sério e que atinge todo o planeta, pois diferentemente do analfabetismo literal, ele não é visto pela sociedade como um problema sério.
Contudo, a ignorância sobre os princípios básicos da ciência é de extrema gravidade. Como o próprio Platão citou acima, o analfabeto científico vaga pelo mundo sem compreender nenhum fenômeno a sua volta, e isso se dá pelo fato dele não possuir nenhuma bagagem científica capaz de ajuda-lo a resolver pequenas questões do cotidiano.
Este desconhecimento abre as portas para a charlatanice, a pseudociência, a anticiência, o misticismo, pode gerar preconceitos e levar a intolerância.
Uma pesquisa realizada pelo astrônomo Chris Impey em universidades norte-americanas no ano de 2010, revelou o grau de analfabetismo científico e a absorção de pseudociência entre os universitários do país mais rico do mundo. Cerca de 65% dos entrevistados acreditavam que extraterrestres haviam ajudado na construção das pirâmides do Egito e 40% acreditavam que antibióticos matam tanto vírus quanto bactérias.
O caso se torna mais gritante quanto à entrevista parte para o cidadão médio e sem curso superior, onde: 20% acreditam que o Sol gira em torno da Terra, 30% acreditam na existência de discos voadores, 30% acreditam em espíritos de mortos e casas mal assombradas, 41% consideram a astrologia válida, 43% acreditam que a criação ocorreu conforme a Bíblia descreve....e assim vai.
Não existem dados confiáveis sobre o analfabetismo científico no Brasil ou em outros países sul-americanos. Entretanto, Marcelo Sabattini acredita que nosso caso deve ser mais grave, pois, “70% dos brasileiros só conseguem ler textos curtos e retirar informações esparsas deles”. Sendo o analfabetismo funcional o principal fator de analfabetismo científico no Brasil.
Muitas vezes a ciência e o pensamento científico fazem abstrações teóricas e hipotéticas tão profundas que chegam a ser intuitivamente incoerentes com o que pode ser observado a olho nu na natureza. Entre os analfabetos científicos é comum a interpretação de fenômenos de forma causal e intuitiva, ignorando a real complexidade da natureza. A essa forma de interpretação da realidade damos o nome de senso comum.
É neste ponto que uma educação científica de qualidade mostra seu valor. Conseguir com que crianças e adolescentes compreendam a visão de mundo oferecida pela ciência é um desafio duro, mas se não realizado, causará aos países que fracassarem nesta empreitada, um futuro ainda mais duro. Ou como gostava de dizer Carl Sagan “um mundo assombrado por demônios”, neste caso o demônio é a ignorância de seu povo.

OBJETIVOS
Como acabar com o analfabetismo científico em nosso continente? Essa é uma questão que os profissionais que elaboram currículos pedagógicos de ciência têm se debruçado a muito tempo. Apesar das mais diferentes abordagens surgidas nestas últimas décadas, esta ainda é uma questão em aberto, pois nenhuma proposta foi capaz até o momento de se mostrar unânime nos meios educacionais.
Acredito que cada pensador da educação, da ciência ou de ambas, possui estruturado em sua mente um conjunto de ideias e métodos impares, de como resolver esta questão. Então, o que farei aqui, será estruturar a meu modo o conjunto de ideias pelos quais acredito dar um passo em direção à resolução destas questões no Brasil e na América Latina.
O presente texto então, busca levantar e propor um conjunto de ações que possibilite a divulgação, produção e compreensão da ciência por toda a sociedade de qualquer país de nosso continente. Sempre levando em conta a realidade tecnológica, cultural, social e econômica latino-americana, para assim não cometer equívocos anacrônicos de comparação entre nossa realidade (de países em desenvolvimento) para com países já desenvolvidos cientificamente como EUA, Coréia-do-Sul ou Japão.
A empreitada não é fácil. E não sou um especialista em ciências propriamente ditas, porém acredito que estas propostas podem constituir um inicio, um primeiro passo, em direção a uma sociedade mais alfabetizada cientificamente.

1. OS DIFERENTES TIPOS DE ANALFABETISMO
Como vimos acima, o analfabetismo em suas múltiplas vertentes é um mal que atinge a maior parte da população mundial. Em entrevista dada a revista Educação em Setembro de 2011, Virginia Schall classifica o analfabetismo como “a falta de acesso ou dificuldade de aprender o conhecimento disponível”.
Para fins didáticos classificaremos o analfabetismo em três tipos: analfabetismo literal, o funcional e o científico.
O analfabeto, em seu sentido literal, é aquele que não consegue decodificar as letras e números e com estes formar palavras compreensíveis para o mesmo.
O analfabeto funcional é aquele que foi a escola, sabe ler, escrever e fazer pequenas operações aritméticas, entretanto não consegue entender aquilo que leu, escreve mal, e não consegue tirar opiniões e muito menos formar concepções abstratas de um pequeno texto.
Já o analfabeto científico, pode ser considerado como um terceiro nível de analfabetismo, sendo também o mais difundido entre todas as camadas da sociedade. Por ser quase imperceptível, muitas vezes o analfabetismo científico não é considerado um mal para o desenvolvimento pessoal. Um sujeito pode ser PHD em alguma área do conhecimento e ser um completo analfabeto nas questões da ciência.
Segundo Renato M. E Sabbatini [s.d] o analfabetismo científico consiste em uma “ignorância sobre os conhecimentos mais básicos de ciência e tecnologia que qualquer pessoa precisa ter para ‘sobreviver’ razoavelmente em uma sociedade moderna”. 
Já o alfabetismo científico seria, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OECD), “a capacidade de combinar conhecimento científico com a habilidade de tirar conclusões baseadas em evidências, de modo a compreender e ajudar a tomar decisões sobre o mundo natural e as mudanças nele provocadas pela atividade humana”.
É interessante o fato de que, os três tipos de analfabetismo aqui descritos possuem uma fonte em comum, que é a falta de meios concretos para a disseminação do conhecimento. Isso decorre graças a uma educação básica deficiente ou inexistente na infância e adolescência. Fase esta, extremante delicada do desenvolvimento cognitivo do aluno e que poderá marcar o sucesso ou o fracasso intelectual do adulto.
  
2. PORQUE AINDA EXISTE O ALFABETISMO CIENTÍFICO?
 Além de sua suposta “invisibilidade”, o analfabetismo científico apresenta outros meios pelos quais se perpetua. E a educação científica de baixa qualidade é uma delas.
Segundo Schall “a educação brasileira é muito focada nos conteúdos, ou seja, há uma deficiência em provocar nos jovens a capacidade de atribuir sentido ao que aprendem”. Ainda segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), conduzido pela Unesco, a maioria dos jovens brasileiros não conseguem relacionar o que aprendem em sala com seu cotidiano.
O grande problema aqui, acredito, seja a aplicação real do conhecimento. A união entre teoria e prática. Isto fica evidente na afirmação de Schall (2011):

“Os currículos deveriam ser estruturados de forma a atender uma dupla demanda: sociedade e auto realização do indivíduo. O Currículo escolar deveria orientar-se para temas que tornem o aluno capaz de compreender o mundo e que isto seja significativo em sua vida. Deve-se estimular a curiosidade, reflexão e a troca de saberes”.

O currículo escolar na forma em que está estruturado pode levar, parafraseando Augusto Cury (2008), a frustração. Pois, “sonhos sem treino produzem pessoas frustradas e conformistas e, por sua vez treino sem sonhos produz servos do sistema social, pessoas que apenas obedecem a ordens, quem não tem alvos ou metas”.
Quantas e quantas crianças não se deliciam em suas casas com programas de cunho científico como O Mundo de Beakman´s e, contudo, na escola vão mal em ciências? O que isso quer dizer? Quais constatações podemos extrair desta questão?
Acredito que a resposta mais simples a estas questões seja: porque a escola é chata! Imagine treinar a direção e jamais dirigir, imagine fazer os mais diversos cursos profissionalizantes e nunca trabalhar, imagine programar as férias de verão e ficar em casa. É assim que a escola funciona; aprende-se que o fermento reage com o vinagre, mas não se sabe o porquê e como, sabe-se que fogo consome oxigênio mas nunca se acendeu um simples fósforo em sala de aula para provar tal teoria, isso é realmente muito frustrante.
Por fim, acredito que o analfabetismo científico generalizado decorre de dois fatores:
O primeiro é causado pela própria ciência que, durante as Revoluções Industriais e ao longo de todo século XX, foi perdendo pouco a pouco sua autonomia ao se tornar apenas mais um instrumento capitalista em sua busca por uma melhor competitividade e produtividade. A partir do momento em que a ciência deixou os meios letrados e partiu para os laboratórios fechados das fábricas, ela se tornou tão misteriosa quanto às religiões[2]. Apesar de seus avanços tecnológicos concretos sentidos por todos durante este período, os métodos utilizados para tal fim se tornaram misteriosos graças ao medo dos empresários da chamada “espionagem industrial” que consequentemente poderiam levar a prejuízos incalculáveis para os mesmos. Por fim, este processo minou as divulgações científicas e o próprio contato da população em geral com a ciência por mais um século.
O segundo fator que gera o analfabetismo científico é decorrente do primeiro. Pois, uma vez vedado a acesso á ciência ela perde seu caráter social que é a sua divulgação para os não cientistas.

 “o esforço da tradução e da comunicação da produção científica e tecnológica para o ‘senso comum’ tem um efeito indutivo na própria construção do conhecimento e na elevação dos padrões críticos e éticos da comunidade em geral e também na comunidade científica”. (Schall 2011).

Estes acredito, sejam os dois principais fatores que levam ao analfabetismo científico contemporâneo.
Resumindo, a ciência fechada não divulga seus resultados para a maior parte da população, a esta desinformação soma-se uma educação deficiente e incapaz de traduzir a ciência para as crianças, que por fim tornam-se adultos propensos a acreditarem e guiarem suas vidas com base em bobagens, pseudociências e charlatanismos.

3. QUAIS SÃO OS MALES DO ANALFABETISMO CIENTÍFICO?
Para ilustrar este capítulo apresento dois exemplos extremos de até que ponto o analfabetismo científico e a crença na pseudociência podem levar.
No dia 18 de novembro de 1978, no Templo do Povo em Jonestown, Guiana. Ocorreu o maior suicídio coletivo do século XX. Ao todo 908 estadunidenses, membros da seita, se suicidaram a mando do reverendo Jim Jones que acreditava ser uma reencarnação de Lenin e Jesus. Todos, inclusive crianças, foram obrigados a beber o suco de uva com cianeto, após o assassinato do deputado Leo Ryan que investigava as suspeitas de violências cometidas dentro do templo.
A crença de que Jones levaria todos ao paraíso foi mais forte que a razão, homens e mulheres bestializados foram presas fáceis, negando o instinto da autopreservação e entregando suas vidas e de seus filhos  a morte.
O segundo caso é mais recente e ocorreu em 27 de março de 1997 em San Diego na Califórnia onde 39 pessoas, lideradas por Marshall Applewhite, também cometeram suicídio. A seita Heaven’s Gate da qual Marshal era membro, faz parte da denominação dos Raelianos, fundada em 1975 pelo francês Claude Vorilhon, autodenominado Rael. Esta seita prega que os seres-humanos foram criados em laboratório por alienígenas. O interessante neste suicídio é o fato de que Apllewhite e seus seguidores acreditavam que alcançariam a vida eterna se morressem no momento da passagem do cometa Halle-Bopp, pois este astro abrigaria em sua cauda uma nave espacial.
Os dois exemplos são chocantes e mostram em até que ponto, níveis insuficientes de pensamento crítico e baixa resistência a informações sem base científica podem levar. Ficando claro que pessoas menos instruídas em assuntos de ciências possuem maior tendência a apresentar pensamento irracional nos assuntos cotidianos e nas decisões pessoais.
Ambos os casos poderiam ter sido evitados se os membros destas seitas conhecessem um dos mandamentos básicos da ciência que é “desconfiar dos argumentos de autoridade” (Sagan, 2006). As autoridades já erraram diversas vezes e ninguém nos garante que eles não errarão de novo no futuro.
Contudo, na maioria das vezes os prejuízos causados pelo analfabetismo científico passam despercebidos pela maioria das pessoas. Por não causarem tanto impacto como os dois exemplos acima citados, não têm espaço na mídia e se repetem ad infinitum por todo o mundo, sempre se reinventando e enganando mais e mais pessoas de boa fé.
Ou como cita Sabbatini:

O analfabetismo científico põe por terra todo o investimento feito em ciência, tecnologia, pesquisa e inovação, por causa de resistências e incompreensões da população sobre a importância vital e os benefícios da ciência para a sociedade. Permitindo que a pseudociência e a anticiência prosperem e aumentem, tornando a população presa fácil dos charlatões.
  
4. EM QUE UMA EDUCAÇÃO CIENTÍFICA PODERIA AJUDAR?
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura (Unesco), “a educação em todos os níveis e sem discriminação, é requisito fundamental para a democracia”. Ainda segundo ela a “igualdade no acesso à ciência não é somente uma exigência social e ética: é uma necessidade para a realização plena do potencial intelectual do homem”.
Segundo Glaci T. Zancan (2000),  professora de bioquímica da Universidade Federal do Paraná:
A ciência é antes de mais nada um mundo de ideias em movimento – o processo para a produção do conhecimento – e busca descobrir a unidade existente nas diferentes facetas da experiência do homem com seu meio.

Não há como ficar imparcial frente as descobertas científicas e desenvolvimentos tecnológico, pois, de todos os empreendimentos da humanidade, a ciência é a que teve maior impacto sobre nós. Não há como negar que suas ideias, feitos e resultados estão ao nosso redor. É impossível que alguém hoje consiga entender o mundo, sem possuir um conhecimento – mesmo que rustico – de ciência e tecnologia.
Carlos Orsi (2010) consegue capturar em sua essência as benesses que um conhecimento científico um pouco mais profundo trás a sociedade:

Mais do que uma instituição acadêmica ou de um conjunto de princípios, leis e teorias a ciência é um método, uma disciplina uma postura. Resumindo é o hábito de não aceitar afirmações como verdadeiras sem prova, e de avaliar criticamente todo prova apresentada. Ciência, enfim, é uma ferramenta de detecção de falsidade e de busca da verdade.
Tão ou mais importante do que conhecer os resultados obtidos por essa ferramenta é familiarizar-se com o instrumento em si. Empunha-lo, acostumar-se com seu peso, ver como sua lâmina é afiada e, por fim, aprender a usá-la no dia-a-dia, ao lidar com coisas tão dispares quanto promessas de políticos, discursos de auto-ajuda, comerciais de produtos milagrosos, oferta  de créditos, terapias místicas, etc.

Ou seja, a alfabetização científica, mais do que criar um exército de cientistas deverá ser capaz de formar cidadãos plenos, conscientes, informados e críticos.
  
5.PROPOSTAS.
Não existe formula mágica na resolução desta questão. E todos sabem que única fonte viável de ensino científico é a boa e velha escola e sua atuação, com qualidade, por um longo período de tempo.
O professor deve trabalhar a ciência com seus alunos não como uma revelação mística e intocável, mas sim como o mediador rumo a um mundo de possibilidades deixando que os alunos sintam o prazer da descoberta. Pois só assim eles entenderão a ciência, seus métodos e a considerarão uma fonte realmente confiável de informações sobre o mundo.
Sabbatini nos apresenta sete pontos, que segundo ele, são os principais causadores das deficiência da Educação Científica no Brasil:
1.Insuficiência quantitativa na formação de professores de ciências;
2.Péssimo nível de informação e de capacitação pedagógica adequada do professor;
3.Falta de laboratórios, bibliotecas e atividades extracurriculares de ciência;
4.Insuficiente correlação do conhecimento adquirido com o cotidiano do aluno e sua aplicabilidade no mundo real;
5.Baixo prestígio social e baixa motivação para o aprendizado de conhecimentos científicos-tecnológicos;
6.Predomínio do modelo de “educação bancária” (Paulo Freire): Formação versus informação.
7.Ausência de atividades e modelos pedagógicos voltados ao desenvolvimento do pensamento crítico do pensamento analítico, sintético, racionalista, crítico e cético.
As dificuldades no ensino da ciência são muitas e o caminho rumo a uma educação realmente transformadora pode ser tortuosa e difícil. Entretanto, educadores e governantes devem entender que hoje em nossa sociedade, “a tecnologia se tornou mais excludente que o capital, e este em conjunto com a ciência, definem o futuro de um povo” (Zancan).
Esta é a hora de decidir se nós – latino-americanos – continuaremos consumidores ou nos tornaremos produtores da ciência e tecnologia. Se nosso povo continuará a mercê de charlatões ou tomará as rédeas de seu destino e assim fortalecer a democracia.
Sabbatini então enumera 10 pontos para uma educação científica de qualidade:
1. Equipar escolas com bons laboratórios, feiras e clubes de ciência;
2. Criar museus interativos de ciência em cada cidade brasileira com mais de 50 mil habitantes;
3.Envolver as empresas de base tecnológica no apoio às atividades extracurriculares de ensino de ciências;
4.Incentivar as mídias para promover um esforço sistemático de fomento à imagem pública da ciência e tecnologia;
5.Incentivar a leitura informal de temas de ciência entre os jovens em todos os níveis de ensino;
6.Reformular totalmente os cursos de formação de professores de ciências, bem como a abordagem pedagógica;
7.Promover ações destinadas a aumentar a formação de mais professores de biologia, física, química e matemática (educação a distância);
8.Promover a educação continuada dos professores existentes, visando melhorar seus níveis de conhecimento sobre temas científicos;
9.Incrementar o conteúdo de ciências no ensino fundamental;
10.Desenvolver planos de aulas e atividades que enfatizem o confronto entre ciência, pseudociência e anticiência.
Enquanto terminava o texto surgiu uma notícia, que acredito, seja um passo importante do Brasil em direção a uma educação em ciências de qualidade. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) lançou um programa de bolsas de estudo para mais de 100 mil estudantes do ensino médio. São bolsas de incentivo a vocação, onde os alunos ganharão para estudar e se dedicar a áreas como matemática e ciências. “Benefício será estímulo a aluno cursar licenciatura em ciências, área que enfrenta déficit de professores” (SANTOS, 2013).

CONCLUSÃO
Quantos cientistas, pesquisadores, intelectuais, escritores, especialistas, etc, nós sul-americanos já perdemos? Ou melhor, deixamos de criar, apenas, nos últimos 50 anos? Quantas crianças visionárias, superdotadas, sonhadoras, não tiveram seus sonhos tragados pela realidade e se tornaram adultos opacos e medianos?
Primeiramente devemos entender que a educação cientifica em sua essência não deve focar somente os benefícios econômicos a curto e médio prazo (como acontece). Em um primeiro momento, deve se ter como meta a plena formação intelectual da criança e a sua transformação através de uma educação de qualidade em um adulto consciente, crítico, democrático, cético, etc. Ou seja, a educação deve atribuir à criança todas as qualidades utilizadas pelo método científico.
Assim como a educação transformou a cara da Coréia do Sul, de país arrasado pela guerra, para a 15% economia em menos de meio século. O mesmo critério pode ser aplicado – sem ser anacrônico – ao nosso continente.
Mesmo que em um primeiro momento nenhuma criança se torne um cientista digno de Prêmio Nobel, com certeza a sociedade se transformará. Mesmo que o estudante não se torne um engenheiro de sucesso, ele possuíra a ética e a postura perante a vida própria da ciência. Hoje, dos 20 países mais violentos do mundo, 11 ou são sul-americanos, ou são centro-americanos ou caribenhos. Nosso continente exala sangue. E todos sabem que o único caminho a seguir é a educação.
Por fim, acredito que nossa ciência e tecnologia deva ser como o paulista Oswald de Andrade propunha para a cultura brasileira: Antropofágica!
Em 1928 (seis anos após a Semana de Arte Moderna de São Paulo), este autor ciente da dependência cultural brasileira, e inquieto na busca da verdadeira identidade do Brasil, propôs em seu Manifesto Antropofágico que a cultura brasileira deveria ser como um canibal, “deglutir” criticamente as ideias vindas de fora e sintetizá-las de forma adequada à nossa realidade, “regurgitando” tudo o que não nos interessa-se.
Assim creio, deva ser a ciência latino-americana: uma ciência antropofágica, canibal, ‘deglutinadora’ e ‘regurgitadora’.
Onde “só a Antropofagia nos unes. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”. E que a estas palavras de Oswald de Andrade acrescento mais duas: Cientificamente e tecnologicamente.

REFERÊNCIAS.
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ALVES, Rafael da Cruz. Manifesto Antropofágico e Teoria Modernista do Brasil. Belo Horizonte - MG. Disponível em <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=36889> Acesso em 07/08/2013
ANDRADE, Oswald. Manifesto antropofágico. Disponível em <http://www.tanto.com.br/manifestoantropofago.htm> Acesso em 07/08/2013
CARVALHO, Bruna. Investimento e Disciplina Fizeram da Coréia do Sul uma Campeã em Educação. São Paulo. <http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-06-05/investimento-e-disciplina-fizeram-da-coreia-do-sul-uma-campea-em-educacao.html> acesso em 06/08/2013
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ZACAN, Glaci T. Educação Científica uma Prioridade Nacional. Revista São Paulo em Perspectiva. São Paulo. 14 (1). 2000



[1] Na época chamada de luneta holandesa.
[2] O surgimento das Laboratórios de Pesquisa, ocorreu no século XIX na Alemanha. 

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