sábado, 10 de novembro de 2012

Fichamento: Circe Maria F. Bittencourt " O uso didático dos documentos".



 Resumo:
O uso de documentos em sala de aula é bastante valioso. O documento permite aproximar o aluno de vários conteúdos, seja ilustrando um contexto e colorindo-o com os afetos envolvidos na sua produção, seja humanizando os eventos distantes, seja convidando o aluno a procurar os vestígios escondidos nele para enxergar como era determinada época. Entretanto, como utilizá-lo? O aluno deve ser transformado pelo professor em um mini-historiador? Estas e outras questões serão debatidas pela grande historiadora Circe Bittencourt.
Boa Leitura.


(P. 327) Cap. 02: Uso didático dos documentos.
Alguns historiadores acreditam que o uso de documentos nas aulas de História é importante por favorecer a introdução do aluno no pensamento histórico e nos métodos de trabalho do historiador. Essa pretensão acarreta uma série de dificuldades ao ensino e contraria os objetivos da disciplina, cujo objetivo é desenvolver a autonomia intelectual.
(P. 328) Daí a necessidade de se deter em alguns aspectos do uso de documentos ou de fontes históricas nas aulas de História. Começando pela identificação das especialidades desse uso.
1. Análises de documentos.
1.1. Historiadores e professores: diferentes usos das fontes históricas.
É um erro tentar transformar o aluno em um “pequeno historiador” uma vez que os documentos para os historiadores tem outra finalidade. Para eles, os documentos são a fonte principal de seu ofício, a matéria-prima por intermédio do qual escrevem história.
(P. 329) Para Henri Moniot, o historiador, ao selecionar suas fontes de pesquisa, já possui um conhecimento histórico sobre o período e tem domínio de conceitos e categorias fundamentais para uma análise histórica. Ao usar um documento transformado em fonte de pesquisa, o historiador parte, portanto, de referenciais e de objetivos muito diferentes aos de uma sala de aula. As fontes históricas em sala de aula serão utilizadas diferentemente, pois os jovens estão “aprendendo história” e não dominam o contexto histórico em que o documento foi produzido.
(P. 330) Um documento pode ser utilizado como um reforço de uma ideia, como fonte de informação, ou introduzir uma situação problema. O maior desafio para o professor é a seleção desse recurso de acordo com a capacidade intelectual de seu aluno. Deve-se ter em mente que textos com vocabulário muito complexo, longos e inadequados a idade do aluno produzem mais dificuldades que interesse e curiosidade.
(P. 331) O objetivo é favorecer sua exploração pelos alunos, com textos claros, compreensíveis e curtos. O contrário disto pode causar uma rejeição pelo tema.
Para que o documento se transforme em material didático significativo é importante haver sensibilidade ao sentido que lhe conferimos enquanto registro do passado. Nessa condição, convém aos alunos perceberem que tais registros e marcas do passado são os mais diversos e se encontram em toda parte; livros, revistas, quadros, músicas, filmes, fotografias, etc.
1.2. Métodos de Análise de Documentos.
No artigo “Reflexões sobre o procedimento Histórico” o historiador Adalberto Marson mostra a importância do uso de documentos em sua investigação, para e seguida se apropriar do procedimento de análise.
(P. 332) É importante, para a compreensão do documento, que se faça uma análise dele como sujeito de uma ação e também como objeto, formulando três níveis de indagação:
1) Sobre a existência em si do documento: o que vem a ser documento? O que é capaz de dizer? Como podemos recuperar o sentido do seu dizer? Por que tal documento existe? Quem o fez, em que circunstância e para qual finalidade?
2) Sobre o significado do documento como objeto: o que significa como simples objeto (isto é fruto do trabalho humano)? Como e por quem foi produzido? Para que e para quem se fez esta produção? Qual é a relação do documento (como objeto particular) no universo da produção? Qual a finalidade e o caráter necessário que comanda sua existência?
3) Sobre o significado do documento como sujeito: por quem fala tal documento? De que história particular participou? Que ação e que pensamento estão contidos em seu significado? O que o fez perdurar como depósito da memória? Em que consiste seu ato de poder?
(P. 333) Para Elias Saliba, vale a pena refletir sobre a distinção entre documento (produzido voluntária ou involuntariamente pela sociedade segundo determinadas relações de força), e o monumento (voluntariamente produzido pelo poder, ou seja, por que detém o poder de sua perpetuação). O que transforma o documento em monumento é a sua utilização pelo poder. Entenda-se: o poder da produção, difusão, edição, manipulação, conservação, reciclagem ou descarte.
O uso de documentos nas aulas de história justifica-se pelas contribuições que pode oferecer para o desenvolvimento do pensamento histórico. Uma delas é facilitar a compreensão do processo de produção do conhecimento histórico pelo entendimento de que os vestígios do passado se encontram em diferentes lugares, fazem parte da memória social e precisam ser preservados.
Outra exigência para se uso é o cuidado para com as diferentes linguagens. São muito variadas quanto à origem e precisam ser analisados de acordo com suas características de linguagem e especificidades de comunicação. Como recursos didáticos, distinguem-se três tipos: escritos, materiais (objetos de arte ou do cotidiano, construções...) e visuais/audiovisuais (imagens fixas ou em movimento, gráficas ou musicais).
De modo geral ao analisar um documento devem-se articular os métodos do historiador com os pedagógicos. Uma boa proposta seria o esquema a seguir:
Fazer análise e comentário de um documento corresponde a:
(P. 335) 2. Documentos escritos: jornais e literatura.
São aos mais comumente utilizados em sala de aula, podem ser textos legislativos, artigos de jornal e revistas de diferentes épocas, trechos literários, poemas e letras de música.
2.1. Imprensa Escrita nas aulas de história.
A imprensa escrita como fonte e objeto de estudo histórico foi abordado por vários historiadores. Maria Capelato, em Imprensa e História do Brasil, ressalta que há vários tipos de imprensa, assim como vários modos de estuda-la.
As possiblidades de utilizar jornais como fonte histórica são múltiplas: análise dos conteúdos das notícias (politica, economia, cultura), da forma como as notícias são apresentadas, as propagandas, os anúncios, as fotografias e de como estão distribuídas.
(P. 336) Neste contexto o jornalista é um agente significativo na criação de fatos históricos. Entretanto, não podemos nos esquecer que o Jornal além de ser um objeto de cultura é também uma mercadoria fruto de uma empresa capitalista. Por sua influência, o jornal vem sendo analisado como um formador de opinião pública ligado a interesses variados fazendo parte do jogo politico e do poder. Nesse contexto, tem sido analisado tendo como contraponto jornais de sindicato por exemplo.
Outro tema comumente abordado no Brasil refere-se a censura, em especial no período entre 1964- 1985. Na história escolar, os documentos têm servido como material de aprendizagem em livros, provas e vestibulares. Em especial em temas de história contemporânea.
(P. 337) O importante no uso de textos jornalísticos é considerar a notícia como um discurso que jamais é neutro ou imparcial. Isso é necessário para que se possa realizar uma crítica referente aos limites do texto e aos interesses de poder implícitos nele.
(P. 338) 2.2. Literatura como documento interdisciplinar.
Romances, poemas, contos são textos que contribuem, pela sua própria natureza, para trabalhos interdisciplinares.
(P. 340) Os estudos de textos literários têm assim como objetivo não apenas desenvolver “o gosto pela leitura”, mas também fornecer condições de analises mais profundas para o estabelecimento de relações entre conteúdo e forma.
(P. 342) Para a história, esse referencial torna-se possível analisar textos literários como documentos de época, cujos autores pertencem a determinado contexto histórico e são portadores de uma cultura exposta em suas criações, seguidores de determinada corrente artística e representantes de seu tempo.
3. Os documentos escritos canônicos.
3.1. Documentos oficiais e cidadania.
Entre os documentos escritos, os produzidos pelo poder institucional são bastante usuais na pesquisa historiográfica, notadamente naquela afinada com a tradição de uma história politica que se preocupa com o poder institucional e privilegia o papel do Estado nas transformações históricas. Entretanto, em livros didáticos não é comum encontrarmos documentos legislativos. Contudo existem algumas exceções como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789).
(P. 343) Tem sido comum a temática em torno da constituição da cidadania, noções de direito, ética e poder que se manifesta no cotidiano das pessoas, fazendo-se assim análises nos documentos pessoas dos alunos.
3.2. Proposta de trabalho com dossiês temáticos.
Umas das demandas dos professores de história é a constituição de coletâneas de documentos sobre determinados temas. A proposta aqui apresentada é a constituição de um dossiê de documentos sobre um tema de estudo. Buscando vários elementos sobre um mesmo tema a fim de confrontá-los e compará-los.
(P. 348) Os documentos devem ser cuidadosamente escolhidos para uso pedagógico, não sendo aconselháveis textos longos ou com vocabulário difícil para o aluno. Um trabalho com documentos pressupõe, além dos procedimentos metodológicos de análise interna e externa, atividades que favoreçam o debate e a escrita, as quais podem obedecer às seguinte etapas:
-Iniciar com uma leitura integral para a apreensão do problema ou tema central;
- Decompor as informações para que o aluno estabeleça relações entre as informações e as que já possui;
- Identificar a forma pela qual as informações e conceitos são apresentados;
-Estabelecer uma hierarquia pela qual as informações com destaque às mais importantes e relevantes;
- Finalmente, retomar o texto em sua integralidade para uma última leitura, Comparando a leitura inicial com a final.

Leia também:

 Bibliografia:
BITTENCOURT; Circe Maria F: Ensino de História: Fundamentos e Métodos. São Paulo. Ed Cortez, 2004. Pág 325-350.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Os Sujeitos das Relações Internacionais.



Fichamento e tradução William C. T. Rodrigues
 Resumo:
 O presente texto escrito por Lleana Cid Capetillo em conjunto com Pedro Gonzáles Olvera, busca desconstruir o léxico referente à utilização da palavra “ator” das Relações Internacionais. Segundo eles um termo vazio, que apesar de sua ampla utilização, não possui um respaldo teórico-metodológico. Por seguirem a linha marxista da disciplina, acreditam que a terminologia mais correta seria “sujeito”. Uma vez que este termo lhes garante o controle sobre sua própria história e por conseguinte as Relações Internacionais por ele desencadeada.
Boa leitura.
(P. 193) Os Sujeitos das Relações Internacionais.
Em nossa disciplina é comum o uso do termo “atores” das Relações Internacionais. Término este vazio, sem conceptualizações e conteúdo teórico. Isso não impede que diversos autores o reconheçam na sociedade internacional. Assim, se diz que o ator por excelência é o Estado, uma vez que concentra a representação legal e é reconhecido pela sociedade.
Inicialmente, negamos o término ator, por ser proveniente de uma proposição teórico-metodológica (o funcionalismo) que não compartilhamos.
Aqui utilizaremos os termos rol, status e grupos sociais. O rol será a conduta de cada um dos indivíduos de acordo com o status que ocupe, que por sua vez se define com a posição que o individuo ocupa no conglomerado social. Assim o “ator” será o indivíduo possuidor de um rol e um status. E como não desempanha seu papel isoladamente, aqui incorporamos o conceito de grupo social.
(P. 194) Existem várias razões para a desqualificação do término ator pelas Relações Internacionais: um ator não cria o cenário que atua, ele apenas desempenha seu papel em um cenário pré-estabelecido. O término ator carece de um conteúdo teórico-metodológico que o justifique e o sustente como conceito.
Por outro lado, dentro do marxismo encontramos o conceito adequado: o conceito de sujeito da história. Esta opção pelo término “sujeito” no lugar de “ator” não é meramente questão de vocabulário.
O conceito de sujeito nos remete a uma concepção do homem como um ente dinâmico, no sentido que suas práticas são o motor dos processos sociais. Desta forma, ao invés de concebê-lo como alguém que tem que representar papéis pré-estabelecidos por alguma entidade superior, as vezes desconhecida, e desenvolvidos em cenários igualmente impostos a ele, o sujeito se caracteriza por sua capacidade intrínseca para levar a cabo uma prática social entendida como u complexo de atividades e ações que tem como resultado concreto o desenvolvimento social.
Esta prática social possui duas características principais:
1ª se apresenta desde o momento em que o homem superando sua condição de animalidade, se relaciona com a natureza para satisfazer suas necessidades. Este vínculo provoca um duplo processo de transformação na natureza e no homem, que repercute no desenvolvimento das forças produtivas e nas formas político-sociais de organização humana.
2ª A coletividade do ser humano deve ser entendida em um contexto coletivo, pois, as relações homem-natureza não se dão de forma isolada, mas sim mediada pela forma em que o indivíduo se relaciona com outros indivíduos. O homem vive e se desenvolve sempre em comunidade onde as ações se incubem a todos seus membros, convertendo-os em seres sociais.
(P. 195) O homem, então, como ser é o sujeito que constrói a sociedade e dentro desta as relações que nela produzem (sejam nacionais, locais ou internacionais). Trata-se, portanto de um protagonista que não espera que lhe deem um papel, nem que se estabeleça um cenário; tem uma prática social da qual se deriva a história e não o contrário.
Para concretizar, devemos dizer que este homem social “sujeito” da história e a sociedade, se agrupam também em diversas classes sociais; com uma posição determinada dentro da sociedade, de onde desenvolvem suas atividades, permitindo que o homem genérico adquira expressão concreta como sujeito primário, originário ou fundamental na sociedade e na história.
A ação dos sujeitos na história (primeiramente como classes sociais), tem um primeiro âmbito de expressão: a sociedade local com fronteiras geográficas bem estabelecidas conhecida como nação. Quando esta atividade transcende as fronteiras e se dirigem ao externo surge um amplo conjunto de relações entre dois ou mais sujeitos e que se localizam em dois ou mais sociedades nacionais, chamadas Relações Internacionais.
Os próximos elementos que permitem reconhecer a um sujeito das R.I são as seguintes:
(P. 196) 1. Dentro da totalidade em que se escrevem, se encontram hierarquizados segundo o lugar que ocupam.
2. Mediante sua práxis buscam transcender os limites da formação econômico-social, local ou nacional.
3. Tem a capacidade de participar organizadamente da vida econômica e nos processos jurídico-políticos e ideológicos da sociedade.
4. Em seu práxis social implementam e utilizam diferentes mecanismos para fazer valer seus interesses.
5. Tem uma ação contínua e prolongada no desenvolvimento histórico.
6. Desenvolvem novas atividades que se agregam as primeiras e que impõe uma prática original.
Considerando estes elementos chegamos à conclusão que os três principais sujeitos internacionais são: as classes sociais, o Estado e a Nação. Dos quais entendemos as classes sociais coo sujeitos primários, uma vez que são eles que conferem vida e determinam o Estado e a nação, que são concebidos como sujeitos secundários ou derivados.

 Bibliografia:
Lleana Cid Capetillo y Pedro Gonzáles Olvera: Los Sujetos de las Relaciones Internacionales; In Relaciones Internacionales, nos 33-34, UNAM, FCP y CRI México, Julio-deciembre 1984, pp. 127-130.