sábado, 28 de janeiro de 2012

Um Elefante Sagrado e Incômodo.

Saiba onde surgiram as expressões Elefante Branco e Bode Expiatório.
 Sagrados para alguns, incômodos para outros e companheiro para muitos, os animais são indissociáveis do mundo humano em todas as culturas. Por exemplo, quando se lembra do grande numero de esqueletos de prédios suntuosos que ficaram pela metade ao longo do país, ou os edifícios majestosos de concepção e uso duvidosos, poucas pessoas talvez os associem a um costume oriundo do Sião, atual Tailândia...
  Nesse reino, era costume o soberano presentear os cortesãos em desgraça com um elefante branco, animal sagrado, que não podia ser posto para trabalhar. E como se tratava de presente real, o súdito era obrigado a tratar o animal com todo carinho. Devia dar-lhe o melhor alimento e enfeitá-lo com tecidos e fios de seda, pois o monarca fazia visitas surpresas ao proprietário do elefante para ver como ele estava sendo cuidado. E ai de quem recusasse o presente.
  Pois é, todos nós conhecemos, pelo Brasil afora, estádios enormes em relação ao numero de habitantes da cidade, edifícios que nunca se pagam, palácios e escolas mirabolantes que, na verdade, parecem ter sido presente de grego ou do rei do antigo Sião.
  Se não faltam escândalos políticos no Brasil, o que poderia causar surpresa é o fato de muitas vezes um único acusado ser escolhido para pagar os pecados de todo um grupo denunciado por atitudes pouco honradas no manejo do dinheiro público. A prática, porém, é mais antiga do que se pensa. Aí esta Tiradentes, por exemplo, o bode expiatório escolhido para pagar pelos pecados dos inconfidentes.
  A figura do bode expiatório é de origem religiosa: no Yom Kippur, o Dia do Perdão dos hebreus, o sumo-sacerdote judeu enviava um bode para o meio do deserto, acompanhado de um cidadão especialmente designado para isso. Esse animal, segundo os rituais da época, carregava todas as culpas e pecados do povo de Israel e era abandonado para morrer. Por esse motivo, o Yom Kippur é também chamado de Dia da Expiação, ou seja, dia no qual se expiam ou se pagam os delitos.

Fonte:
Matéria retirada integralmente da Revista História Viva ano IV, nº46 de junho de 2007. Pág 17

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Por que Darwin se atrasou?

Historiadores tentam entender por que o naturalista inglês esperou mais de 20 anos para publicar A Origem das Espécies.
Imagine o susto que Charles Darwin deve ter levado em 1858 ao receber a carta do também naturalista Alfred Russel Wallace, com quem havia trabalhado, comunicando a descoberta da evolução das espécies pela seleção natural, assunto que ele próprio havia passado os 20 anos anteriores estudando em segredo do grande público. O que deveria fazer? Ignorar o trabalho de Wallace, que havia confiado nele, publicar seus achados e ficar com a glória sozinho? Na Inglaterra do século XIX, a lealdade era tudo e Darwin não podia trair seu companheiro. Ocorreu que o anúncio da descoberta independente dos dois cientistas foi feito simultaneamente em 1858, na sociedade Lineana de Londres. E sua famosa obra, A Origem das Espécies, foi lançada no ano seguinte...

  Uma questão, porém sempre fascinou os historiadores. Por que, após descobrir o processo de seleção natural em 1838, Darwin demorou duas décadas para tornar sua idéias públicas? Teria ele planejado esperar até a morte, como Copérnico, por medo de perseguição religiosa? Ou teria sido forçado a mudar os planos em razão da carta de Wallace?

Seus biógrafos não sabem quanto tempo ele teria demorado a publicar suas conclusões. Mas, mesmo assim, têm como certo que a religião contribuiu para essa demora. Naquela época, ela ainda exercia bastante influência sobre a ciência. E muitos cientistas aceitavam a palavra da Bíblia literalmente. Ou seja, acreditavam que o mundo e as espécies vivas eram imutáveis e tinham sido criadas por Deus cerca de 6 mil anos atrás.

  Agora, o historiador John van Wyhe, da Universidade de Cambridge, alega que a crença de que Darwin tinha receio da reação popular é infundada. Ele pesquisou a fundo a vasta correspondência do naturalista inglês procurando pela palavra “adiar” e não encontrou nenhuma evidência. Sua conclusão é que não há provas que apóiem a idéia de que Darwin optou por postergar a publicação de seu grande trabalho. Em vez disso, diz o pesquisador, durante todo o tempo que levou até comunicar seus achados, Darwin se empenhou em coletar uma quantidade avassaladora de provas de que sua teoria estava certa. Para Van Wyhe, ele estava apenas esperando o momento ideal para publicar a Origem das Espécies. O historiador argumenta ainda, que Darwin nunca escondeu suas idéias de ninguém. Ele apenas não quis divulgá-las.
Após publicar seu livro Darwin foi
ridicularizado por alguns seguimentos
da sociedade.
  Clima Favorável.
  Sua tese encontra oposição entre outros historiadores. David Kohn, editor da Biblioteca Digital de Evolução Darwin, diz que é muito simplista procurar por ocorrências da palavra “adiar” e ignorar importantes fatores sociais e culturais da época. Sabe-se que Darwin com freqüência criticava a religião em suas notas particulares. Em seu segundo livro, A descendência do homem (1871), ele menciona explicitamente que esperou até que o clima fosse mais favorável à recepção de suas idéias.

Fonte:
Matéria retirada e reproduzida integralmente da revista História Viva ano IV, nº44 de junho de 2007. Pág 14.

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Todos somos Pinheirinho!

Pinheirinho exemplo de resistência urbana
Acredito que todos saibam o que aconteceu e o que está acontecendo no bairro do Pinheirinho em São José dos Campos, no vale do Paraíba à cerca de 100 km de São Paulo. Entretanto, caso não saibam, irei fazer um breve resumo do que está acontecendo...
Há alguns dias atrás, estava em uma padaria e vi em um jornal (não me lembro se foi a Folha ou o Estadão) uma imagem que me chamou a atenção: Centenas de pessoas armadas com paus, escudos improvisados, capacetes e cães com a seguinte chamada Brancaleone! Em referência clara ao filme italiano de 1965, dirigido por Mário Monicelli.
Segundo o que sei, o terreno de 1 milhão e 300 mil hectares é da massa falida do grupo selecta que pertencia ao especulador libanês Naji Nahas que deve por este terreno cerca de 10 a 20 milhões em impostos.
A comunidade do Pinheirinho surgiu em 2004, impulsionada pelo déficit imobiliário do município e recebeu água encanada e medidores de luz, ou seja, recebeu urbanização!
Até que a juíza Márcia Faria Mathey Loureinro decidiu pela reintegração de posse ao grupo selecta. Foi neste momento que os moradores da comunidade tomaram consciência de seu poder, e organizaram-se em milícias chamando a atenção da opinião publica que já estava acostuma a ver pobre apanhando sem revidar.
A justiça federal entrou no caso e em um primeiro momento, conseguiu adiar um pouco o inevitável.
Domingo dia 22, às seis horas da manhã um exército formado por cerca de dois mil homens, mais do que o efetivo usado na invasão da favela da rocinha (e olha que os traficantes tinha Fuzis!) invadiu a sitiada comunidade do Pinheirinho, que não teve chance de reação.
Rapidamente os moradores foram expulsos de seus lares, conseguindo somente se reorganizar nos bairros vizinhos transformando-os em um palco de selvageria e truculência policial.
Foram mais de 30 horas de manifestações, os mais exaltados foram presos, os mais submissos foram jogados para dormir em acampamentos de terra batida e as rede sociais exalavam indignação.
Hoje é o bairro do pinheirinho e amanhã, qual bairro será? Como disse Robson Silva em um comentário do Facebook: “Esse é um ato de resistência civil, que como tal, a tempo não se vê em nossa sociedade. É uma obrigação de todos apoiar esta resistência”.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os dez princípios de Mao Tsé Tung

Mao Tsé Tung, fundador da China moderna tinha dez princípios básicos de combate, enquanto liderava "A Longa Marcha".

1.           Atacar primeiro forças dispersas e isoladas do inimigo, depois as forças concentradas...
2.           Controlar antes vastas áreas rurais ou de cidades pequenas, depois as grandes cidades.
3.           A meta principal é derrubar a força efetiva do inimigo.
4.           Em combate, usar contingente superior ao do inimigo; dessa forma, um numero inferior (no global) acabará por triunfar.
5.           Não entrar em combate sem estar preparado, nem numa batalha que não esteja certo de ganhar.
6.           Não temer nenhum sacrifício.
7.           Usar tática de guerra móvel para derrotar o inimigo e prestar atenção à tática de ataque de posições.
8.           Tomar primeiramente as cidades cuja defesa esteja fraca.
9.           Usar tropas e armas capturadas do inimigo para renovar as próprias forças de combate.
10.        Usar pausas nos combates para repousar, treinar e reagrupar-se.



Fonte: Livro Guerra na Paz

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fichamento: A América Pré-Colombiana de Ciro Flamarion S. Cardoso

  Neste livro Ciro Flamarion S.Cardoso, nos apresenta à América Pré-Colombiana, mas não a América dos incas, maias ou astecas e sim a América pré-histórica. Da chegada dos primeiros grupos humanos ao continente, como viviam, como era sua estrutura econômica e social, suas tecnologias e seu desenvolvimento através do tempo.
Fichamento: William Cirilo Teixeira Rodrigues
Introdução.
(P.07) As inúmeras civilizações indígenas existentes no continentes foram dizimadas na fase do descobrimento europeu e da conquistas (séc. XV e XVI) e desse fato ainda derivam vários problemas de documentação e interpretação...
De documentação: os conquistadores destruíram monumentos, obras de arte e queimaram quase todos os códices[1], além da destruição física da maioria dos nativos americanos, entre eles os sábios portadores da cultura oral desses povos.
(P.08) De interpretação: nas regiões indígenas e mestiças da América, o trauma da conquista e da colonização se prolonga até hoje, expressando-se na oposição entre “hispanistas” e “indigenistas”. Que em ambos os casos, são posições unilaterais, distorcidas e idealizadas.
(P.09) Podemos dividir em três grandes grupos os documentos de que dispomos para o estudo da antiguidade americana[2]: em primeiro lugar as fontes disponíveis para toda a América, que são restos arqueológicos, mapas lingüísticos, textos escritos pelos colonizadores ou funcionários da coroa etc. Segundo, fontes disponíveis principalmente para a Meso-América e a zona andina central, como textos em línguas indígenas, provenientes da tradição oral, escritos com caracteres latinos depois da conquista. E por ultimo, fontes disponíveis somente para a Meso-América como códices ou livros de pinturas dos quais somente quarenta são Pré-Colombianos, e o resto do século XVI feitos segunda a tradição indígena.
(P.10) Conhecida as fontes, qual é o método que deve ser aplicado? O único método aplicável ao passado indígena é o arqueológico. Trata-se da reconstrução de culturas desaparecidas através dos vestígios materiais por elas deixados. Outra metodologia muito importante para os estudos pré-colombianos é a da etno-história, o uso crítico de documentos diversos para a reconstrução das estruturas econômicas, sociais, políticas e intelectuais dos diversos grupos indígenas, eliminando as visões deformadas induzidas por uma documentação repleta de uma visão eurocêntrica do mundo. (P.11) A etno-história se apóia ainda em métodos antropológicos e historiográficos.
Entretanto, em regiões fartas em fontes como é o caso da Meso-América, o método historiográfico tradicional, baseado na análise de documentos e na tradição oral já é suficiente.
Por fim, deve ficar claro que não é possível construir um saber histórico sobre a América pré-colombiana comparável ao que possuímos sobre a Grécia ou a Roma.
Sociedades Pré-Agrícolas:
O povoamento da América.
(P.12) Esta é uma questão que permanece sem solução cabal, mas convêm resumir os pontos sobre os quais hoje há um consenso geral: 1) a impossibilidade de uma evolução autóctone do homem ter-se produzido na América, pois todos os esqueletos humanos encontrados são do tipo Homo sapiens sapiens que tem no máximo cinqüenta mil anos. (P.16) 2) a rota que conduz da Ásia à América do Norte, seja pelo estreito de Bering, seja pelo arquipélago das Aleutas, é considerado a rota principal. 3) admite-se a existência de um Paleolítico Americano. 4) acredita-se que o povoamento se fez em diversas ondas e no curso de longos períodos e não em uma entrada única.
Quanto a antiguidade máxima do povoamento, utilizando-se do carbono 14, é data do século X a.C.
(P.17) Acreditava-se que o povoamento da América veio totalmente da Ásia e que todos os indígenas americanos pertencessem à raça mongolóide. (P.18) Isto apesar de já conhecerem o “homem de Lagoa Santa” (MG) descoberto por volta de 1840, que data de uns dez mil anos e que nada tem de mongolóide. Então é absurdo insistir na unidade mongolóide dos povoadores, já que não existiam mongolóides, mas apenas proto-mongolóides. É possível que essa onda de proto-mongolóides tenha sofrido algum tipo de mutação ou variação genética durante milênios e que algumas ondas de mongolóides autênticos tenham chegado a América posteriormente.
Entretanto, hoje, a idéia mais aceita é a de um povoamento heterogêneo em várias ondas: asiáticas, australianas, melanésia e polinésia. Essa hipótese se apóia no estudo lingüístico, que busca entender como em alguns milênios se formaram no continente dois mil e seiscentos idiomas.
(P.19) A explicação mais plausível sobre a travessia do estreito de Bering, diz que como os migrantes não possuíam embarcações, eles conseguiram atravessar ao estreito graças à ultima glaciação que fortaleceu as geleiras e faz baixar o nível do mar.
(P.20) O nível cultural dos primeiros povoadores é objeto de grandes polêmicas, como veremos a seguir.
Existiu na América uma etapa cultural anterior ao Paleolítico Superior.
(P.21) Há uma discussão a respeito de saber se antes dos caçadores especializados em grandes animais, armados com projéteis pontiagudos feitos em pedras, existiam na América grupos: 1) com utensílios toscos e rudimentares que impossibilitavam o ataque frontal a caça. 2) vida baseada na coleta e na caça não especializada (que se aproveita de animais enfraquecidos, doentes ou presos em pântanos). 3) população baixa, devido ao nível primitivo das forças produtivas.
(P.22) A maioria das provas arqueológicas para afirmar a existência dessa etapa ficam na América do Sul. Entretanto as dúvidas permanecem devido: 1) alguns sítios arqueológicos são superficiais, impedindo a datação, e outros nem foram datados. 2) Em certos casos a datação com carbono 14 foi falha e precisou ser revista. 3) Em alguns sítios existem a duvida se os artefatos são mesmos produzidos pela espécie humana ou são frutos de formações naturais. 4) Alguns sítios são tão pobres que não é possível afirmar a ausência de um paleolítico superior. 5) Grupos humanos tecnicamente avançados podem produzir ferramentas de aparência tosca para suprir certas necessidades e isso engana os pesquisadores.
  (P.23) Cada vez mais especialistas aceitam a existência de uma etapa cultural americana anterior ao paleolítico superior. Entretanto, ao se aceitar isso surge uma questão, na Europa, na África e no Oriente Próximo, o paleolítico superior se desenvolveu entre hominídeos fósseis[3], e como já vimos na América não há hominídeos anteriores ao Homo sapiens sapiens. Isso ocorre simplesmente pela transferência do atraso tecnológico dos povos que migraram para a América.
O paleolítico superior
(P.24) Entre 11000 e 7000 a.C, grupos humanos dotados de tecnologia lítica[4] já caçavam grandes animais da megafauna. O exame arqueológico deste período mostra: 1) Maior quantidade de sítios, que indica um aumento demográfico. 2) Surgimentos de diferentes tipos de pontas de projéteis (ponta de lança). 3) Continuidade da caça e da coleta não especializada., com algumas modificações.
Discute-se muito sobre a origem das pontas de projétil: seria uma difusão a partir da Ásia ou uma invenção autentica americana. A ultima hipótese parece mais provável, por razões tipológicas e cronológicas.
  (P.26) Entretanto, é um erro imaginar que todos os nativo americanos fossem caçadores de animais grandes. Em certas regiões sim, em outras a coleta era a base principal. Devemos imaginar dois conjuntos pancontinentais, refletidos em dois modos de vida básicos, caça é coleta generalizadas de um lado e caça especializada de outro.
O Mesolítico.
(P.27) O fim do ultimo período glacial, marcado pela transição entre o Pleistoceno e o Holoceno[5], começou na América com atraso em relação à Europa, entre 8800 e 7000 a.C e completou-se por volta de 600 a.C com a retirada das geleiras abrindo caminho para uma fase seca que se prolongou até 3000 a.C.
(P.28) A fauna do Pleistoceno sofreu um lento processo de extinção. E a flora se modificou. Evidentemente todas estas transformações provocaram mudanças no modo de vida e nos padrões tecnológicos dos habitantes da América.
(P.29) Às modalidades de subsistência que já existiam (coleta e caça generalizada e caça especializada) vieram se juntar a exploração especializada de moluscos, e outros recursos marinhos, a pesca marinha ou fluvial, a coleta de vegetal especializado, etc.
A organização social dos grupos humanos pré-agrícolas.
(P.31) O grupo de caçadores e coletores é considerado um “bando”. Um bando é sobretudo uma associação residencial de famílias nucleares ou restritas, segundo um sistema exogâmico[6] e virilocal[7]. O trabalho é dividido segundo o sexo (coleta para as mulheres e caça para os homens) e o produto sofre um processo de distribuição imediata. Um bando tem em média 25 pessoas e integram uma “tribo dialetal”, com cerca de 500 indivíduos.
(P.32) Como todos os bandos são nômades o numero de objetos fabricados e usados é mínimo. A base social é o parentesco mínimo, sem genealogias longas e culto aos antepassados. Idade e sexo são os únicos elementos de diferenciação social, o poder é baseado no prestígio pessoal é temporário e não traz privilégios.
Em épocas de fartura os bandos se unem formando macrobandos, e nos meses mais difíceis ocorre uma dispersão.
Sociedades Agrícolas Pré-Urbanas.
(P.34) A “revolução neolítica” e sua difusão.
A noção de uma “revolução neolítica” que pode ser entendida como o surgimento de novas tecnologias que possibilitou aos grupos humanos a transição da situação de predadores da natureza para produtores foi popularizada há meio século pelo arqueólogo V. Gordon Childe.
(P.35) Hoje, a noção de “revolução neolítica” sofre diversos ataques. Em primeiro lugar, tal expressão pode dar a idéia de algo rápido e “explosivo” quando na verdade se estendeu por milênios. É claro que se colocarmos as transformações do neolítico na perspectiva global da pré-história humana, elas pareceram rapidíssimas em comparação com os dois milhões de anos do paleolítico.
(P.36) Acreditava-se no passado na existência de um só foco de desenvolvimento da agricultura e da criação, situado no Oriente Próximo, e que de lá essa tecnologia se espalhou pelo mundo, se adaptando aos mais variados ambientes. Hoje acredita-se na teoria de que houve uma invenção da agricultura na América independente da do Velho Mundo, embora ainda haja alguns problemas ligados à origem botânica de certas plantas cultivadas na América.
(P.37) No caso da América, a domesticação de plantas foi incomparavelmente mais rica do que a de animais. Na Meso-América, a parti de 7.000 a.C foram domesticados o milho, o feijão, a pimenta, a cabaça, uma espécie de cão comestível e o peru, na zona Andina por volta de 5.000 a.C a batata, a quinoa, a cabaça, o feijão e a lhama, na América do Sul a mandioca.
O neolítico americano, ao difundir-se a partir de seus focos, originou duas grandes tradições agrícolas; uma baseada na semeadura, colheita e armazenamento de grãos, de cereais e leguminosos. E a outra, na plantação de mudas, raízes e tubérculos.  
(P.40) A descrição sobre a domesticação de plantas e animais não responde, “o porquê dela ter sido empreendida?” Há algumas décadas, quase todos os pré-historiadores viam os inícios agrícolas como uma resposta às drásticas mudanças ecológicas e climáticas da passagem do Pleistoceno para o Holoceno. Porém, o Oriente Próximo e a Meso-América foram regiões pouco afetadas por tais mudanças.
(P.41) Assim, surgiram novas hipóteses. R.Braidwood, acredita numa causalidade cultural: o Neolítico seria causado simplesmente,por uma acumulação de conhecimento agrícolas e pastoris. L. Binford vê o desenvolvimento agrícola deste período como uma resposta ao crescimento demográfico causado pela imigração. Já K. Flannery considera a passagem da vida nômade de caçadores-coletores à sedentária de agricultores, marcada pelo fato de que certas plantas, como o milho, ao serem domesticas e aperfeiçoadas responderam bem, permitindo finalmente uma “explosão” de recursos e conseqüentemente demográfica.
(P.42) Por fim, existem diversas teorias sobre o surgimento da agricultura no continente, e talvez tenham que receber respostas variadas segundo os casos, em função de circunstancias e ambientes distintos.
Outro tema muito debatido é o da origem da cerâmica no Novo Mundo. A mais antiga foi encontrada na costa do Equador (3200 a.C), e por se assemelhar com a cerâmica do período Jomon médio do Japão, levantou a hipótese de um contato asiático transpacífico.
A diversificação cultural dos grupos agrícolas pré-urbanos.
(P.43) Ao fim da era pré-colombiana (séc XV), Pierre Chaunu divide o continente americano em três áreas de acordo com à agricultura e o povoamento:
1) Uma área de 2 milhões de Km² (5% do continente) e que continha 90% da população do continente: a ilha do Haiti e República Dominicana, planaltos centrais do México, a região do chibchas na Colômbia e região quíchua-aimará nos Andes Centrais. Tinha uma densidade demográfica média de 35 a 40 habitantes por Km². Com uma dieta composta de batata e milho e possuindo tecnologias de irrigação e plantio em terraços.
2) Outra região de 2 milhões de Km²: planícies e planaltos maias. Agricultura baseada no milho e apresentando uma densidade demográfica de 2 a 5 habitantes por 2 milhões de Km².
(P.44) 3) No resto do continente, onde a caça, a coleta e a pesca predominavam, e quando muito uma agricultura primitiva que só permitiam densidades baixas e modos de vida nômades.
Esta situação constitui o ponto fundamental de diferenciação entre a “área nuclear” (Meso-América e Andes centrais, cultural e demograficamente) da América pré-colombiana, e as “culturas marginais” que recebem por difusão muitos elementos da “área nuclear”,
Mencionaremos agora áreas que mesmo sem atingirem a etapa das cidades e dos Estados, exibiram complexos culturais bem avançados, com esboços de hierarquia e existência de um artesanato de boa qualidade.
(P.45) Entre as numerosas sociedades pré-urbanas da América que já apresentavam considerável complexidade cultural citemos com exemplo: as culturas pueblos do sudoeste dos EUA, as diversas culturas do noroeste argentino, diferentes grupos culturais da América Central e as culturas chibcha e San Agustín da Colômbia.
A organização econômico-social dos agricultores pré-urbanos.
(P.47) Os grupos agrícolas pré-urbanos caracterizam-se por dois tipos de organização social, a tribo e a chefia.
As tribos são sociedades subdivididas em unidades sociais multifamiliares. As relações de parentesco tem um caráter multifuncional funcionando ao mesmo tempo como relações econômicas, políticas e ideológicas.
(P.48) As chefias surgem quando há uma hierarquia de prestígio entre linhagens, chegando a ser hereditário o cargo de chefe. Ainda não há uma estratificação em classes sociais e a sociedade ainda se baseia no parentesco. Porém, o chefe, como redistribuidor dos bens que concentra, pode manter uma corte.
(P.49) A explicação marxista tradicional a respeito das sociedades tribais pré-urbanas baseia-se na noção de “comunidade primitiva”, e foi elaborada por F. Engels.
Segundo ele, à horda primitiva sucedeu o regime de clãs. A produtividade do trabalho tornou possível a associação dos homens em grupos menores e mais estáveis. Porém, tais grupos permanecem em contato com o restante da coletividade e o casamento ocorre dentro desta coletividade, ou seja, entre os diferentes clãs derivados de uma mesma horda (coletividade). (P.50) O casamento ainda não é individual e sim por grupos, ou seja, todas as mulheres do clã são esposas de todos os homens de outros. Nessa primeira etapa o regime de clãs e matriarcal e matrilinear, isto porque, no casamento por grupos a paternidade não pode ser estabelecida. Com o inicio da agricultura o poder da mulher atinge a supremacia, pois elas dirigiam a comunidade enquanto os homens estavam fora caçando ou guerreando.
A transformação do homem em pastor e agricultor dá a ele primazia, relegando a mulher a segundo plano. O clã se torna patrilinear e patrilocal. O casamento por grupos desaparece, cedendo lugar aos casais estáveis.
E finalmente, o progresso técnico permite que uma família restrita (o casal e os filhos) assegure sua subsistência apenas com seu trabalho, iniciando o processo de desagregação dos clãs, do surgimento da propriedade privada e das diferenças de classe e do Estado.
(P.51) Fora dos países socialistas, essa tese é duramente criticada. E varias tentativas foram feitas no sentido de construir um novo tipo de teoria destas sociedades. Contudo, tais estudos ainda não chegaram a resultados plenamente satisfatórios, sendo necessário o prosseguimento dos esforços teóricos e de pesquisa.


[1] Manuscritos pré-colombianos
[2] A região mais rica é a chamada Meso-América na região da América central.
[3] Homo habilis, Homo erectus, Homo sapiens neanderthalensis e seus contemporâneos.
[4] Lítica: referente a pedra.
[5] Período geológico atual.
[6] Exogamia: Regime social em que os casamentos se realizam com membros de tribos estranhas ou dentro de uma mesma tribo com os de outra família ou clã.
[7] Os homens de um bando devem buscar esposas em outros bandos, e estes vem residir no bando dos maridos.

Bibliografia
CARDOSO, Ciro Flamarion S.: América Pré-Colombiana. Ed Brasiliense, 1996. Págs 51.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Análise do Livro O Queijo e os Vermes de Carlo Ginzburg

Com O Queijo e os Vermes, Ginzburg mostra toda sua maestria em relação a micro-história,  trabalhando em escala reduzida e a singularidade em meio ao plural, ele nos apresenta a história de Menocchio, um moleiro perseguido pela inquisição.
Por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
O Autor.
Carlo Ginzburg nasceu em Turim na Itália em 1939, filho do professor e tradutor Leone Ginzburg e da romancista Natalia Ginzburg. Iniciou sua formação na Escola Normal Superior de Pisa, concluindo os estudos no Instituto Warburg em Londres...
Ginzburg formou-se em História e passou a lecionar na Universidade de Bolonha. Mas logo se mudou para os EUA onde passou a lecionar nas Universidades de Harvard, Yale, Princeton e da Califórnia, ocupando por duas décadas a cadeira de Renascimento Italiano. Em 2006 retornou a Itália e agora leciona na mesma Escola Normal Superior de Pise onde iniciou sua formação.
Carlo Ginzburg está entre os intelectuais mais notáveis da Itália e seus livros já foram traduzidos para mais de 15 línguas. Estando entre os pioneiros e principal nome da Micro-história.
Micro-história.
Segundo Giovanni Levi a Micro-história surgiu durante os anos 1970, e deriva da crise do marxismo como metodologia e interpretação. Essa falência dos sistemas e paradigmas existentes requeria não tanto a construção de uma nova teoria social geral, mas uma completa revisão dos instrumentos de pesquisas atuais e a micro-história foi apenas mais uma das diversas respostas que surgiram a essa crise.
A micro-história como uma prática é essencialmente baseada na redução da escala da observação em uma análise microscópica e em um estudo intensivo do material documental. Entretanto, não basta somente chamar atenção para causas e efeitos em escalas diferentes. Para a micro-história, a redução da escala é um procedimento analítico, que pode ser aplicado em qualquer lugar, independentemente das dimensões do objeto analisado. O que é alvo de criticas de diversos historiadores.
O principio unificador de toda pesquisa micro-histórica é a crença em que a observação microscópica revelará fatores previamente não observados.
Ainda segundo Levi, apesar das diversas interpretações errôneas sobre à micro-história, ela deve ser entendida como um “zoom” em uma fotografia. O pesquisador observa um pequeno espaço bastante ampliado, mas ao mesmo tempo, tendo em conta o restante da paisagem, apesar de não estar ampliada.
A obra: O Queijo e os Vermes.
Esta pesquisa surgiu por acaso, enquanto Carlo Ginzburg pesquisava sobre uma seita italiana de curandeiros e bruxos, o historiador se deparou com um julgamento excepcionalmente detalhado. Tratava-se do depoimento de Domenico Scandella, dito Menocchio, um moleiro[1] do norte da Itália, que no século XVI ousara afirmar que o mundo tinha origem na putrefação. Segundo ele: “Tudo era um casos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo que o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos”. Graças ao fascínio dos inquisidores pelas crenças desse moleiro, Ginzburg encontrou farta documentação a partir da qual pôde reconstruir a trajetória de Menocchio num texto claro e atraente, tanto para especialistas quanto para leigos, e desembocar em uma hipótese geral sobre a cultura popular da Europa pré-industrial.
Ginzburg busca neste livro, não apenas reconstruir a vida e o julgamento de Menocchio, mas principalmente entender como essas idéias se manifestaram em sua mente, como surgiram, quais foram seus influenciadores, quais livros leu, como leu, como absorveu o conhecimento contido nesses livros, com quem conversou e assim por diante.
Resumo:
Domenico Scandella, vulgo Menocchio, nasceu em 1532 em Montereale na Itália. Casado e pai de 7 filhos, sustenta a família através de sua profissão de moleiro. Outro dado importante sobre Menocchio é que este sabia ler, escrever e somar.
O moleiro era bastante conhecido na cidade e costuma já há muito tempo blasfemar durante conversas informais pela cidade. Todos escutavam aquilo e não levavam em consideração pelo fato de ele ser considerado uma “boa pessoa”. Entretanto, após algumas divergências com o pároco local, Menocchio começou a se confessar com na cidade vizinha, sendo então denunciado no dia 28 de setembro de 1583 ao tribunal do Santo Oficio por suas diversas heresias.
Em suas conversas Menocchio sempre dizia ter vontade de falar a um rei, papa ou príncipe tudo o que achava que estava errado na religião e esta foi a sua chance. Criticou a igreja, a missa em latim, a santíssima trindade, os evangelhos, o poder da igreja, e apresentou aos inquisidores sua teoria de criação do mundo.
Após meses de interrogatório, Menocchio foi condenado à prisão perpétua e a usar pelo resto de sua vida uma túnica com uma cruz no peito. Ficou então encarcerado por três anos, até que seu filho conseguiu por meios diversos uma espécie de segunda chance para seu pai. Onde este poderia sair da prisão, mas jamais tirar a túnica, sair da cidade ou voltar a blasfemar.
E foi tudo o que Menocchio não fez saiu da cidade várias vezes para trabalhar, tirava a túnica, pois com esta não conseguia serviço, e aos poucos voltou a dizer heresias. Logo foi novamente denunciado,torturado, julgado, condenado e desta vez executado.
Análise.
Este livro narra então à história de Menocchio e busca nela suas leituras, discussões, pensamentos e sentimentos, além de sua cultura e o contexto social em que ela se moldou. Como é possível que um moleiro do interior da Itália do século XVI tenha desenvolvido uma teoria tão complexa e crítica contra os mais diversos dogmas da igreja católica.
Menocchio viveu em uma época conturbada com a invenção da imprensa que possibilitou a rápida impressão e circulação de livros em língua vulgar, a Reforma Protestante de Lutero e a Contrarreforma da Igreja Católica da qual foi vitima.
Para Ginzburg, Menocchio já possuía uma cultura oral camponesa que moldara sua visão de mundo e quando ele entrou em contato com a cultura escrita houve um choque que o induziu a formular opiniões singulares. Um exemplo disso são os mais diversos exemplos de que ele se utiliza para explicar suas teses aos inquisidores, repletos de analogias ao seu trabalho.
Apesar de ler os livros, parece que Menocchio se valia apenas do que lhe dizia respeito, ou seja, suas leituras eram deformadas, mas de forma inconsciente. O autor acredita que o que ocorria era que o moleiro se servia de trechos de diversos livros para validar suas opiniões já formadas pela cultura oral.
Isso mostra como sua reflexão é bem pessoal, apesar de receber estímulos dos livros e das conversas com viajantes. Todas as diversas idéias que ele recebe são processadas em seu cérebro formando assim sua visão única de mundo.
Fechando assim com a idéia de que Menocchio, como diz Carlo Ginzburg logo no inicio do livro é um personagem singular e não representativo, recusando a delimitá-lo respeitando assim sua originalidade, que tanto causou espanto entre os inquisidores.
Esta é a história de Menocchio, um homem simples de uma cidade pequena do interior da Itália, que impressionado pelo que sabia e pelo que lera, teve coragem de blasfemar contra a igreja católica durante o peírodo Contrarreforma. E que graças a Ginzburg e a, se assim podemos dizer, igreja Católica (que guardou toda a documentação deste período) conseguimos conhecê-lo.

Sites consultados:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Microhist%C3%B3ria      acessado em 04/01/2012

Bibliografia:
BURKE, Peter (org.): A Escrita da História. São Paulo: Editora UNESP, 1992, 360pp.
GINZBURG, Carlo: O Queijo e os Vermes; o cotidiano de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. 255pp.


[1] Dono de moinho.