quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Análise do documentário A História das coisas

O consumo é estimulado de várias formas. Cinema, moda , propagandas, televisão, etc. estimulam esse modo de vida
Por: William C. T. Rodrugues
Há alguns dias assisti ao pequeno documentário intitulado “A História das coisas” (The Story of Stuff, 2009), que apesar de sua curta duração - 21 minutos – é de fazer qualquer pessoa repensar o modo como consome e encara o consumismo. O eixo central do documentário é propor uma mudança nos hábitos de consumo, usando como fio condutor cada uma das etapas pelas quais passa o produto, desde matéria-prima até ser descartado tendo utilidade ou não. E apesar de ser um documentário de cunho ambientalista, preferi nesta análise focar principalmente a questão do consumo.(...)
Segundo o senso comum, tudo o que é produzido desloca-se por um sistema linear, chamado economia de materiais: primeiro extração, depois produção, distribuição, consumo e por fim o descarte. Apesar de sua aparente organização, este é um sistema em crise, pois um planeta finito não tem capacidade de gerir um sistema linear de produção.
Em todo esse processo, composto de 5 etapas, temos pessoas vivendo e trabalhando, além do governo e das corporações. Em uma ordem de importância, pode se dizer que as corporações são maiores que o governo, pois atualmente (2009) entre as 100 maiores economias da Terra, 51 são corporações e as 49 restantes são governos. Isso quer dizer que 51 empresas são mais ricas do que muitos países do mundo.
À medida que essas corporações cresceram em tamanho e poder, notou-se que os governos em geral, passaram a se preocupar mais com o bem estar das corporações do que da população.
1º fase: Extração.
Basicamente é a exploração dos recursos naturais, das matérias-primas. O que acontece, é que nesse ritmo de exploração e consumo o planeta não consegue se restabelecer. Os maiores consumidores do planeta são os EUA, sua população corresponde a cerca de 5% da população mundial, mas eles consomem o equivalente a 30% dos recursos mundiais. Se o mundo inteiro consumisse como os norte-americanos seria necessário de 3 a 5 planetas! Os recursos naturais dos EUA são baixos, apenas 4% de suas florestas originais estão preservadas e a única maneira encontrada para suprir essa necessidade de matérias-primas, foi tomá-las de países subdesenvolvidos. Explorando, degradando, e expulsando os verdadeiros moradores do lugar. Que pelo fato de não consumirem são considerados cidadãos de segunda classe.
2º fase: Produção.
A matéria-prima é beneficiada, sendo bombardeada por diversos agentes químicos. Essas toxinas se acumulam gradativamente no organismo, pois não são expelidas pelo corpo humano. Os que mais sofrem são os trabalhadores, obrigados a terem contato direto com esses agente tóxicos, por não terem melhores opções de trabalho.
3º fase: Distribuição.
Basicamente significa vender todos os produtos o mais rápido possível. Preços baixos mantêm as pessoas comprando, essas por sua vez mantêm a economia em movimento. Usa-se então da tática de exteriorizar os custos, onde o custo real da produção não se reflete no preço. Imagine a seguinte situação, você compra um rádio de pilha por apenas R$4,99, mas esse preço, tão barato não reflete os custos da produção, trabalho e transporte desse rádio até as suas mãos. Esse preço não paga nem o espaço ocupado pelo rádio na prateleira. O que realmente acontece é que você não paga o rádio sozinho, as pessoas que trabalharam em sua produção e distribuição também pagaram por ele. Como? Perdendo um pouco em cada etapa: os trabalhadores da extração são explorados, os operários das fábricas fazem longas jornadas de trabalho e muitas redes de lojas não pagam os direitos trabalhistas de seus funcionários, ou seja, todo mundo pagou o radio que você comprou.
4º Fase: Consumo
Esse é o coração do sistema, o motor da economia, sendo tão importante protegê-lo que se tornou a prioridade número 1 dos governos e corporações. Um exemplo desse fato vem também dos EUA, após os atentados de 11 de setembro, o então presidente George Bush pediu à população que fizesse compras. Como está é uma nação de consumidores, onde cada pessoa é avaliada conforme o quanto consome é obvio que a falta de consumo levaria a recessão.
Um dado interessante é o fato de que nos EUA a proporção de produtos comprados que ainda são usados 6 meses depois é de apenas 1%, ou seja, 99% do que se compra vai para o lixo em apenas 6 meses. Um americano médio consome 50% a mais do que há 50 anos.
Esse consumo desenfreado foi planejado após a Segunda Guerra. Governos e corporações imaginavam um jeito de impulsionar a economia. A solução veio por Victor Lebow:
“A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo nossa forma de vida, que tornemos a compra e o uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual, a satisfação do nosso ego, no consumo... Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmos cada vez maior”.
O conselho econômico do ex-presidente Eisenhower disse que o principal objetivo da economia americana é produzir bens de consumo, sendo a educação, saúde e transporte coisas secundárias.
Esse consumo nada tem a ver com o acaso, ele foi planejado e implantado com o uso de duas estratégias: a obsolescência planejada e obsolescência perceptiva.
Obsolescência Planejada: é algo criado com a intenção de ser descartado em pouco tempo, assim tornando-se inútil em um curto espaço de tempo somos obrigados e comprar novamente o mesmo produto. Já reparou como a tecnologia muda tão rapidamente, de forma, que após poucos meses de uso, um produto já se torna obsoleto.
A obsolescência planejada surgiu na década de 1950, com a seguinte problemática: como fazer um objeto avariar rapidamente, sem que o consumidor perca a fé na marca e compre outro? Entretanto, esses produtos não quebram tão rápido como se gostaria e para solucionar esse problema existe a obsolescência perceptiva.
Obsolescência Perceptiva: ela serve para nos fazer jogar fora coisas perfeitamente úteis. Mas, como fazem isso? Simples, mudam a aparência das coisas. Neste exato momento, designs trabalham em como deixar os computadores, carros, roupas, geladeiras, bicicletas com ares mais modernos que os do ano passado. Um exemplo são as telas dos computadores, que passaram de grandes e brancas para finas e compactas. Quantos monitores, em perfeito estado de conservação, não foram descartados apenas para se entrar na moda da tela plana.
Mas porque se descarta produtos em perfeito estado? A resposta é clara, como as pessoas valem o que consomem, quem ainda possui produtos, digamos fora de moda, se sente embaraçado, pois as outras pessoas percebem que você não consumiu. Na moda isso é muito mais evidente, algum especialista diz o que é tendência e que a roupas que você comprou o ano passado não podem mais serem usadas.
A publicidade e a mídia possuem papéis fundamentais nisso. Todos os dias ela nos bombardeia com propagandas dizendo que somos infelizes, nosso cabelo, nossa pele não é como deveria, nossa carro é feio e que tudo se resolverá se formos as compras.
5º fase: Descarte.
Nesse ritmo de produção, consumo e descarte não deposito que agüente. E só a reciclagem não é capaz de absorver todo esse lixo produzido, pois para cada saco de lixo descartado em uma residência outros 70 foram produzidos anteriormente, só para chegarem as nossas mãos. Assim, mesmo que reciclássemos 100% do lixo doméstico não acabaríamos com a fonte do problema.


Para baixar o documentário clique aqui.

Um comentário: