quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Análise do documentário A História das coisas

O consumo é estimulado de várias formas. Cinema, moda , propagandas, televisão, etc. estimulam esse modo de vida
Por: William C. T. Rodrugues
Há alguns dias assisti ao pequeno documentário intitulado “A História das coisas” (The Story of Stuff, 2009), que apesar de sua curta duração - 21 minutos – é de fazer qualquer pessoa repensar o modo como consome e encara o consumismo. O eixo central do documentário é propor uma mudança nos hábitos de consumo, usando como fio condutor cada uma das etapas pelas quais passa o produto, desde matéria-prima até ser descartado tendo utilidade ou não. E apesar de ser um documentário de cunho ambientalista, preferi nesta análise focar principalmente a questão do consumo.(...)
Segundo o senso comum, tudo o que é produzido desloca-se por um sistema linear, chamado economia de materiais: primeiro extração, depois produção, distribuição, consumo e por fim o descarte. Apesar de sua aparente organização, este é um sistema em crise, pois um planeta finito não tem capacidade de gerir um sistema linear de produção.
Em todo esse processo, composto de 5 etapas, temos pessoas vivendo e trabalhando, além do governo e das corporações. Em uma ordem de importância, pode se dizer que as corporações são maiores que o governo, pois atualmente (2009) entre as 100 maiores economias da Terra, 51 são corporações e as 49 restantes são governos. Isso quer dizer que 51 empresas são mais ricas do que muitos países do mundo.
À medida que essas corporações cresceram em tamanho e poder, notou-se que os governos em geral, passaram a se preocupar mais com o bem estar das corporações do que da população.
1º fase: Extração.
Basicamente é a exploração dos recursos naturais, das matérias-primas. O que acontece, é que nesse ritmo de exploração e consumo o planeta não consegue se restabelecer. Os maiores consumidores do planeta são os EUA, sua população corresponde a cerca de 5% da população mundial, mas eles consomem o equivalente a 30% dos recursos mundiais. Se o mundo inteiro consumisse como os norte-americanos seria necessário de 3 a 5 planetas! Os recursos naturais dos EUA são baixos, apenas 4% de suas florestas originais estão preservadas e a única maneira encontrada para suprir essa necessidade de matérias-primas, foi tomá-las de países subdesenvolvidos. Explorando, degradando, e expulsando os verdadeiros moradores do lugar. Que pelo fato de não consumirem são considerados cidadãos de segunda classe.
2º fase: Produção.
A matéria-prima é beneficiada, sendo bombardeada por diversos agentes químicos. Essas toxinas se acumulam gradativamente no organismo, pois não são expelidas pelo corpo humano. Os que mais sofrem são os trabalhadores, obrigados a terem contato direto com esses agente tóxicos, por não terem melhores opções de trabalho.
3º fase: Distribuição.
Basicamente significa vender todos os produtos o mais rápido possível. Preços baixos mantêm as pessoas comprando, essas por sua vez mantêm a economia em movimento. Usa-se então da tática de exteriorizar os custos, onde o custo real da produção não se reflete no preço. Imagine a seguinte situação, você compra um rádio de pilha por apenas R$4,99, mas esse preço, tão barato não reflete os custos da produção, trabalho e transporte desse rádio até as suas mãos. Esse preço não paga nem o espaço ocupado pelo rádio na prateleira. O que realmente acontece é que você não paga o rádio sozinho, as pessoas que trabalharam em sua produção e distribuição também pagaram por ele. Como? Perdendo um pouco em cada etapa: os trabalhadores da extração são explorados, os operários das fábricas fazem longas jornadas de trabalho e muitas redes de lojas não pagam os direitos trabalhistas de seus funcionários, ou seja, todo mundo pagou o radio que você comprou.
4º Fase: Consumo
Esse é o coração do sistema, o motor da economia, sendo tão importante protegê-lo que se tornou a prioridade número 1 dos governos e corporações. Um exemplo desse fato vem também dos EUA, após os atentados de 11 de setembro, o então presidente George Bush pediu à população que fizesse compras. Como está é uma nação de consumidores, onde cada pessoa é avaliada conforme o quanto consome é obvio que a falta de consumo levaria a recessão.
Um dado interessante é o fato de que nos EUA a proporção de produtos comprados que ainda são usados 6 meses depois é de apenas 1%, ou seja, 99% do que se compra vai para o lixo em apenas 6 meses. Um americano médio consome 50% a mais do que há 50 anos.
Esse consumo desenfreado foi planejado após a Segunda Guerra. Governos e corporações imaginavam um jeito de impulsionar a economia. A solução veio por Victor Lebow:
“A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo nossa forma de vida, que tornemos a compra e o uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual, a satisfação do nosso ego, no consumo... Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmos cada vez maior”.
O conselho econômico do ex-presidente Eisenhower disse que o principal objetivo da economia americana é produzir bens de consumo, sendo a educação, saúde e transporte coisas secundárias.
Esse consumo nada tem a ver com o acaso, ele foi planejado e implantado com o uso de duas estratégias: a obsolescência planejada e obsolescência perceptiva.
Obsolescência Planejada: é algo criado com a intenção de ser descartado em pouco tempo, assim tornando-se inútil em um curto espaço de tempo somos obrigados e comprar novamente o mesmo produto. Já reparou como a tecnologia muda tão rapidamente, de forma, que após poucos meses de uso, um produto já se torna obsoleto.
A obsolescência planejada surgiu na década de 1950, com a seguinte problemática: como fazer um objeto avariar rapidamente, sem que o consumidor perca a fé na marca e compre outro? Entretanto, esses produtos não quebram tão rápido como se gostaria e para solucionar esse problema existe a obsolescência perceptiva.
Obsolescência Perceptiva: ela serve para nos fazer jogar fora coisas perfeitamente úteis. Mas, como fazem isso? Simples, mudam a aparência das coisas. Neste exato momento, designs trabalham em como deixar os computadores, carros, roupas, geladeiras, bicicletas com ares mais modernos que os do ano passado. Um exemplo são as telas dos computadores, que passaram de grandes e brancas para finas e compactas. Quantos monitores, em perfeito estado de conservação, não foram descartados apenas para se entrar na moda da tela plana.
Mas porque se descarta produtos em perfeito estado? A resposta é clara, como as pessoas valem o que consomem, quem ainda possui produtos, digamos fora de moda, se sente embaraçado, pois as outras pessoas percebem que você não consumiu. Na moda isso é muito mais evidente, algum especialista diz o que é tendência e que a roupas que você comprou o ano passado não podem mais serem usadas.
A publicidade e a mídia possuem papéis fundamentais nisso. Todos os dias ela nos bombardeia com propagandas dizendo que somos infelizes, nosso cabelo, nossa pele não é como deveria, nossa carro é feio e que tudo se resolverá se formos as compras.
5º fase: Descarte.
Nesse ritmo de produção, consumo e descarte não deposito que agüente. E só a reciclagem não é capaz de absorver todo esse lixo produzido, pois para cada saco de lixo descartado em uma residência outros 70 foram produzidos anteriormente, só para chegarem as nossas mãos. Assim, mesmo que reciclássemos 100% do lixo doméstico não acabaríamos com a fonte do problema.


Para baixar o documentário clique aqui.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Quem foi Maomé?

Profeta e fundador do islamismo, ele também exerceu o papel de líder político e militar.
William Cirilo Teixeira Rodrigues
Maomé, o profeta máximo do Islã, teve três fases em sua vida: comerciante, profeta e profeta general. Nascido com o nome de Muhammad Ibn Abdullah, em 570, na cidade de Meca (na Arábia Saudita), perdeu a mãe aos 6 anos e seu pai antes de nascer. Foi criado pelo tio Abu Talib e desde cedo começou a trabalhar no comércio. Sua família era influente e bem relacionada e, aos 25 anos, casou-se com uma rica comerciante, Cadija, então com 40 anos. O casamento duraria 24 anos.(...)

Maomé tinha contato com cristãos e judeus, que conviviam com pagãos na Arábia da época. Aos 40 anos, quando meditava numa caverna, afirmou ter recebido a visita do arcanjo Gabriel, que passou a lhe revelar a palavra de Deus. Analfabeto, o profeta não escreveu ele mesmo os versos, mas seus seguidores fizeram isso em qualquer material disponível, como folhas de palmeira.
Na fase de Meca, os versos eram brandos e falavam principalmente contra a avareza e a obrigação de ajudar os pobres. Quando, no entanto, Maomé passou a condenar os ídolos pagãos no templo central de Meca, criou animosidades em torno de si e de seu islã.
Em 619, morreu Cadija, que deixou a Maomé seis filhos, entre eles dois homens, que morreriam antes dele. Casou-se novamente, com duas mulheres ao mesmo tempo. Uma delas, Aisha, tinha 7 anos. Aisha seria uma figura importante para o Islã, ao recoletar os versos do Corão e liderar uma disputa política que separaria xiitas e sunitas.
Em 9 de setembro de 622, Maomé fugiu de Meca, perseguido pelos pagãos. Esse fato é considerado tão importante que é a data inicial do calendário islâmico. Instalou-se na cidade de Medina, onde conseguiu converter muitos seguidores. Aos 52 anos, era não apenas um profeta, mas um líder político e militar.
Maomé reagia a ataques de tribos rivais com seu exército e passou a conquistar cidades. Em 630, tomou Meca. Ordenou a destruição de todos os ídolos do templo pagão, deixando apenas uma pedra preta. Segundo Maomé, a pedra datava da época de Adão e Eva e havia ficado preta em razão dos pecados dos homens. Em volta dessa pedra foi construída a Caaba, o templo que é o lugar mais sagrado para os islâmicos.
Se os versos da fase de Meca eram relativamente “paz e amor”, os versos da fase de Medina tornaram-se mais militaristas. Desse período data o Verso da Espada (Corão 9:5), que afirma: “Mas quando os meses sagrados houverem transcorridos, matai os idólatras (564), onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é indulgente, Misericordiosíssimo”, um preferido dos radicais contemporâneos.
Em Medina, Maomé casou-se várias vezes, chagando a ter 10 mulheres ao mesmo tempo – para os demais homens, o limite estabelecido era quatro. Além do Corão, os Hadiths, diversos livros que contam sua vida, são também sagrados aos islâmicos. Esses exemplos e as revelações no Corão estabelecem os preceitos que formam e Sharia, as leis islâmicas.
Maomé não deixou filhos homens, o que, ao morrer em 632, aos 62 anos, causou sérios problemas de sucessão no império que havia criado. Dessa sucessão conflituosa nasceu a divisão entre xiitas e sunitas.
Menos de 100 anos depois de sua criação, a religião islâmica chegava a Europa.
Como era analfabeto, Maomé, em seus 23 anos de pregação, não deixou absolutamente nada documentado, coube assim aos fiéis juntar os relatos orais de sua profecias.
Mais do que uma religião, Maomé criou um sistema legal e político, codificado na lei islâmica, a Sharia, e também um império. Nos 20 anos seguintes, o califado fundado por ele, já havia se expandido até a Pérsia (atual Irã), e então entraria em guerra civil por um problema de sucessão. A guerra opôs duas facções, uma apoiada pela esposa do profeta, Aisha, outra pelo genro, o califa Ali. Ali e seus filhos acabaram assassinados, fato que marcou a divisão entre sunitas (palavra que vem de “sunnah”, tradição) e xiitas (“shi’atua Ali”), partidários de Ali.
A dinastia sunita Omíada conquistou diversos territórios, expandindo-se tanto em direção a índia quanto à península Ibérica. Em 730, as tropas islâmicas chegavam a Paris, mas foram repelidas pelo imperador franco Carlos Martel. O califado islâmico recuou, mas permaneceu na Europa Ocidental até 1492, de onde foi expulso em progressivas guerras de reconquistas.
Esse período logo após a expansão inicial é a Era de Ouro do Islã. Tecnologicamente mais avançada, urbana, com vastas redes comerciais e mais alfabetizada que o resto da Europa, a Andaluzia islâmica tornou-se um grande centro intelectual e tecnológico, assim como a cidade de Bagdá e a Persia. Muito da filosofia e das ciências da Grécia antiga, que haviam se perdido na Europa, foram preservadas no mundo islâmico. Os árabes não destruíram também a arte Greco-romana, o que resultou numa importante herança cultural. Além disso, sua postura para com os derrotados era mais tolerante que a dos europeus da época. Hoje o Islã tem 1,5 bilhão de adeptos e é a segunda maior religião do mundo, depois do cristianismo. O ramo sunita é a fé de 90% dos muçulmanos.

Matéria retirada da revista curso preparatório Enem 2011 ed abril.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Tudo começou em 1808

Pressionados pela Inglaterra e por Napoleão, a família real portuguesa não encontrou outra  alternativa  a não ser  fugir para a sua mais rentável colônia.
William Cirilo Teixeira Rodrigues
Antes da chegada da família real, os brasileiros ainda comiam com as mãos, não tinham médicos, imprensa nem universidades.
No começo do século 19, o pedaço mais lucrativo do império português era também um local tosco, desprovido de saneamento básico, educação superior, hospitais e até de moeda circulante – vivia-se do escambo. A fuga do príncipe regente dom João e de todo o aparato estatal português para o Brasil, entre o fim de 1807 e o começo de 1808, deus os primeiros passos contra o marasmo. Tudo graças a um certo Napoleão Bonaparte. Enquanto expandia seus domínios pela Europa, o imperador francês enfrentava uma guerra prolongada com os britânicos e queria expulsá-los dos portos da Europa. Como Portugal era um dos países ainda abertos à Marinha Inglesa, Napoleão pressionava dom João a abandonar seus velhos aliados – e, diante da resistência, estava decidido a ocupar o pequeno país ibérico.(...)
O indeciso príncipe regente adotou por meses sua tática favorita: enrolar. Mas a pressão britânica foi mais forte que a francesa, em especial porque a Inglaterra ameaçava ocupar o Brasil caso o monarca não concordasse com o plano de fugir para a colônia. Quando dom João finalmente aprovou a retirada estratégica, a situação logo virou um Deus nos acuda. Os 40 navios carregavam cerca de 11.500 pessoas. A frota, escoltada pelos britânicos, deixou Lisboa em 29 de novembro de 1807, quando o Exército francês já estava entrando na capital.
A comitiva aportou em Salvador em 22 de janeiro de 1808. Antes de rumar para o Rio de Janeiro, dom João ficou pouco mais de um mês na Bahia. Foi apenas o tempo estritamente necessário para se recuperar da travessia e emitir a famosa ordem de abertura dos portos brasileiros às “nações amigas” – leia se Inglaterra -, acabando com o monopólio naval português por aqui. Era a primeira prestação devida aos britânicos por seu papel de cães de guarda do império lusitano. E a primeira transformação relevante a afetar a colônia que estava, sob muitos aspectos, parada no tempo.
Estima-se que o Brasil da época tivesse 3 milhões de habitantes – incluindo 1 milhão de escravos e 800 mil índios. Cerca de 60 mil pessoas viviam no Rio de Janeiro, contra 46 mil em Salvador e 20 mil em São Paulo. A vida urbana era caótica. Estreitas e mal iluminadas, as ruas centrais permaneciam lotadas de vendedores ambulantes – cuja gritaria não deixava ninguém em paz -, os bichos (principalmente porcos e galinhas), e lixo. Sem falar nos urubus, que se esbaldavam com tanta fartura. Segundo cálculos dos viajante inglês John Luccock, cada residência carioca espremia, em média, 15 pessoas.
Em vários aspectos do cotidiano, até mesmo os brasileiros mais ricos levavam uma vida quase medieval em 1808 – com exceção do costume aprendido com os índios de tomar banhos regulares, impensável para os portugueses. Quem vivia aqui em geral não sabia o que era usar talheres à mesa. O mais comum era mergulhar as mãos na papa da comida – um menu não muito variado, que em geral incluía carne-seca, toucinho, feijão-preto, farinha de milho e, para beber, água.
Sem nenhuma faculdade por aqui, qualquer estudante mais ambicioso precisava ir para uma instituição européia, como Coimbra, em Portugal, que formou 527 brasileiros entre 1772 e 1800. O ensino mais básico dependia das ordens religiosas, de seminários ou, bem mais raramente, de professores leigos isolados nas cidades e vilas pagos pela Coroa. Dom João deus os primeiros passos para mudar isso já em 1808, ao fundar uma escola de Medicina em Salvador e outra no Rio de Janeiro. Somavam-se à falta de educação formal o controle rígido da circulação de obras escritas estrangeiras e a proibição de imprimir jornais, revistas ou livros por aqui. O primeiro jornal dedicado à comunidade brasileira, o Correio Braziliense, começou a ser impresso...em Londres, pelo jornalista gaúcho Hipólito José da Costa, em 1808.

Matéria retirada da revista curso preparatório Enem 2011 ed abril. Aventuras na História,1/2008, adaptado. Por Reinaldo José Lopes.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um grito rouco.

A declaração de independência do Brasil em 1822 não mudou a estrutura social e econômica.
William Cirilo Teixeira Rodrigues
A colônia brasileira ficou independente politicamente de Portugal em 7 de setembro de 1822. A independência foi conseqüência de um processo iniciado décadas antes com as revoltas emancipacionistas, a chegada da Coroa portuguesa em 1808 e a crise do antigo sistema colonial, além de fatores externos como as guerras napoleônicas e a pressão dos ingleses pela liberalização do comércio, motivados pela revolução industrial. Dom João VI transformou o Rio de Janeiro em capital do reino português e foi pressionado a voltar a Portugal em 1920, deixando o príncipe regente, Pedro, em seu lugar. No fim de 1821, por pressões da elite, Dom Pedro resolveu ficar no país, contra o pedido do pai, que exigiu sua volta.(...)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Leibniz o otimista

Leibniz. Seu otimismo foi satirizado por diversos filósofos iluministas, entre eles Voltaire.
William Cirilo Teixeira Rodrigues
Gottfired Leibniz (1646-1716) foi um desse gênios multitarefa que eram comuns no passado, quando não havia carreiras muito específicas nas universidades. Deixou contribuições definitivas para a matemática, a física, a filosofia e até mesmo a tecnologia – como inventor, ele criou a primeira calculadora mecânica capaz de fazer multiplicações e divisões, um modelo que continuaria a ser usado até os anos 1970, quando surgiram as calculadoras eletrônicas.(...)
Leibniz nasceu em Leipzig, na Alemanha (então Sacro Império Romano-Germânico), e perdeu o pai aos 6 anos de idade. Mas o pai, professor de filosofia, deixou a ele uma grande biblioteca em latim, a língua que ele usaria na maioria na maioria de seus escritos e já dominava aos 12 anos. Entrando numa faculdade de filosofia aos 14, formou-se aos 17 anos. Aos 20, mudou-se para Nuremberg, onde se tornou secretário da sociedade local de alquimia – assunto do qual não entendia nada, mas acabou introduzindo-o aos nobres da cidade. Sob a proteção do barão Johann Von Boneiburg, acabou se tornando diplomata.
Em 1672, foi enviado a Paris para tentar resolver uma questão de guerra. Leibniz havia proposto permitir que os franceses invadissem o Egito, desde que deixassem os alemães em paz. A proposta foi rejeitada, mas outra amizade mudou de novo os rumos de sua carreira: o astrônomo e matemático holandês Christian Huygens (1629-1695), descobridor dos anéis de Saturno, também vivia em Paris, e tornou-se seu amigo.
Até então, aos 24 anos, Leibniz não sabia quase nada de matemática, e descobriu o quão pouco sabia ao conversar com Huygens. Pedindo sua ajuda, recebeu vários livros e começou a se instruir. Isso é bastante inspirador para quem tem problemas com matemática, porque Leibniz se tornou um dos dois inventores do cálculo infinitesimal, o estudo de curvas em função, que ele começou a desenvolver em 1674, dois anos após aprender matemática. O outro criador, ninguém menos que o britânico Isaac Newton (1643-1727), passou a chamá-lo de plagiário, ainda que Leibniz não soubesse que ele também estava estudando o tema.
Leibniz voltou para a Alemanha em 1675 e prosseguiu em sua carreira de gênio múltiplo, diplomata, conselheiro dos nobres e celebridade intelectual. Nunca se casou e quando morreu, estava meio brigado com os figurões da realeza alemã. Nenhum nobre foi ao seu velório – o que não o impediu de ser reconhecido como um dos maiores gênios do país anos seguintes.
Outra coisa interessante sobre Leibniz era o seu otimismo. Como cristão, estabeleceu que “vivemos no melhor dos mundos”, porque Deus sendo bom e onipresente, não poderia escolher de outra forma. Sua filosofia de vida era: qualquer coisa que aconteça, qualquer tragédia no mundo, acontece sempre para melhor, ainda que não saibamos a causa. Essa noção seria satirizada por filósofos do iluminismo do século 18. A sátira mais conhecida foi feita por Voltaire no livro Candido ou o otimismo, Voltaire como duro critico da religião ficou particularmente incomodado com o otimismo de Leibniz.

Matéria retirada da revista curso preparatório Enem 2011

sábado, 3 de setembro de 2011

Século XX: que século foi esse?

Como classificar o século XX? Como o século do capitalismo norte-americano? Como o século das guerras? Como o século da tecnologia? Para Emir Sader o século pode ser caracterizado como a construção da hegemonia norte-americana, sobrepujando a Inglaterra, derrotando a rival Alemanha dentro do bloco capitalista e ajudando no fracasso do socialismo soviético.
Fichamento realizado por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
Que século foi esse?
(P.119) Visto se seu final, foi, sem dúvida, o século do capitalismo norte-americano. O final do século XIX viu os surgimento dos EUA como potência mundial e o século XX viu a sua consolidação inquestionável. Da projeção na Primeira Guerra à afirmação na Segunda, passando pela disputa com a URSS durante a Guerra Fria até sua consolidação como única superpotência, a história do século XX poderia ser contada como a história do capitalismo norte-americano. (...)
No entanto, o século XX poderia também ser definido como o século das guerras. No período entre 1914 e 1991, mais homens foram mortos ou abandonados à morte por decisão humana como nunca antes. Um cálculo dessas megamortes totaliza 187 milhões de pessoas. Por isso, para Hobsbawm, o século XX foi “o século mais assassino de que temos registro”.
(P.120) Ou se preferir, o século XX pode ser caracterizado como o século da tecnologia, aquele em que a modernização da vida, em todas as suas dimensões, assumiu um ritmo incomparável com tudo o que se havia vivido. Levando em consideração que grande parte dessas descobertas são provenientes do século anterior.
(P.121) Assim, o homem da virada dos século XIX para o XX podia, diferente de uma geração anterior, viajar de trem, ouvir música em casa, falar por telefone, mandar mensagens pelo telégrafo, fotografar, usar lâmpadas elétricas. Mudanças incomparavelmente maiores do que assistimos na virada do século XX para o XXI. É muito mais radicalmente novo falar por telefone do que avançar do telefone tradicional para o celular. Maior é a novidade em andar de trem do que passar a andar de trem bala.
Com todas essas invenções, estavam dados os fundamentos para o tipo de vida que se considerou patamar de bem-estar ao longo do século XX. A elas se somaram posteriormente o avião, a TV e o computador.
Essas grandes descobertas feitas no final do século XIX, foram generalizadas e consumidas, mesmo que de forma desigual, por todo  o século XX.
(P.122) O século XX foi o século do predomínio norte-americano, que já no século XIX, com a guerra contra a Espanha, já se projetava como uma grande força imperial, não só pela demonstração de força, mas pela ambição de se apropriar de Cuba, Porto Rico e das Filipinas, começando a constituir exatamente aquilo que o cubano José Martí temia – um império desenhado a partir do controle de todo o novo continente, de que a Doutrina Monroe foi a formulação ideológica. Comparando-se a Inglaterra no século anterior.
(P.123) Quando o império britânico começou a declinar, o processo de construção de uma hegemonia alternativa deu-se em duas frentes – a norte-americana e a alemã. As guerras iniciadas em 1914 e em 1939, respectivamente, definiram qual delas triunfaria.
Mas antes mesmo do final da guerra de 1914, um novo fenômeno viria a agregar novos elementos de complexidade àquela disputa hegemônica – a Revolução Russa. A entrada dos EUA e a saída da Rússia da 1º Guerra começou e desenhar o novo quadro de disputas estratégicas que viriam a acontecer, só que agora não entre potências da mesma natureza econômico-social e sim contra uma potência que reivindicava a ruptura com o capitalismo e a construção de uma sociedade socialista.
Assim, o período de hegemonia norte-americana incluíra, pela primeira vez na história, uma disputa entre sistemas econômicos –sociais diferentes – o capitalismo e o socialismo – disputa que terminará por marcar profundamente o século XX.
Se a afirmação hegemônica dos EUA se deu ao longo das duas guerras mundiais, a partir do término delas desenhou-se o novo quadro de enfrentamentos estratégicos, que teve na polarização EUA/URSS o seu eixo.
Existem ainda outros fenômenos que também marcaram a fisionomia do capitalismo como a crise de 1929, o surgimento do capitalismo de Estado (Estado keynesiano), o nazismo, o fascismo, as revoluções chinesas e cubana, entre outros.
(P.124) Se a hegemonia inglesa do século XIX foi, a partir da derrota de Napoleão, uma hegemonia relativamente linear ao longo de todo o período, o mesmo não pode ser dito da hegemonia norte-americana. Esta pode ser dividida entre um período ascendente até o final da Segunda Guerra; e o período da Guerra Fria, onde a predominância norte-americana foi questionada de fora do capitalismo, pelo URSS.
Essa periodização, de caráter político, se assenta num fenômeno histórico de maior proporção: o desenvolvimento do processo de acumulação capitalista. A diferença entre o “curto” século XX de Hobsbawm e o “longo” de Givanni Arrighi está em que este privilegia a evolução da capitalismo como sistema econômico, enquanto aquele destaca a evolução histórica das hegemonias mundiais.
(P.125) Na impossibilidade teórica e técnica de dar conta do conjunto dos fenômenos que produziram o século XX, optamos por alguns, cujo significado nos parece essencial para entender o significado político do século.
A escolha partiu de uma visão retrospectiva, que busca combinar com dois elementos determinantes – a construção da hegemonia norte-americana, sobrepujando a inglesa e obstruindo a alemã dentro do bloco capitalista, e a construção e o fracasso do bloco alternativo, liderado pela URSS. O pano de fundo é a evolução do capitalismo no século, da virada do século até a crise de 1929, passando por todas as conseqüências desta, desde a recessão até a recuperação e expansão do segundo pós-guerra até o ciclo longo e recessivo que se prolongou até o final do século.
A guerra de 1914 é o momento de virada no século e é o ponto de partida de uma série de fenômenos decisivos: o declínio inglês e a ascensão norte-americana; o bloqueio a ascensão alemã; a revolução russa; o nazismo e outros fenômenos militares; a guerra de 1939; a derrota da Alemanha e do Japão, seu bloqueio para se tornarem potências militares no segundo pós-guerra; a bomba de Hiroshima; os acordos de Yalta, a Guerra Fria.
(P.126) O século XX terminou por não ser nem o século do socialismo, nem o do capitalismo pura e simplesmente. Ele foi o século do enfrentamento mutuo, nas formas históricas que cada um assumiu. Desse ponto de vista, o século terminou com a vitória do capitalismo.
A derrota do socialismo soviético não favoreceu a superação das contradições internas do capitalismo. Ao contrário aprofundou-as, pois já não existe um sistema alternativo. A ultima década do século XX, que deveria ser de euforia para o capitalismo triunfante, foi na verdade uma década de prolongadas recessões econômicas, crises, guerras (Iraque, Iugoslávia, Chechênia, África) e catástrofes ambientais.
(P.127) Embora, haja renovações tecnológicas o capitalismo segue seu longo ciclo recessivo iniciado nos anos 1970. Isso acontece porque a desregulamentação econômica atraiu o grosso dos capitais para a especulação financeira, com as taxas de juros superando as taxas de lucro.
Assim, os capitais ficam girando na esfera financeira, contraindo em vez de alavancar as economias dos países, especialmente os endividados do sistema.
Por suas conseqüências negativas, o triunfo do capitalismo, não gerou a euforia que se anunciou na obra de Fukuyama O fim da história e o último homem, de 1989. O triunfo do capitalismo e de suas expressões, no entanto ainda não foi capaz de se estender para toda a humanidade. Nem se pode dizer que mais da metade da humanidade viva integrada à economia de mercado. A própria incapacidade do capitalismo de completar sua dominação, mesmo sem a competição de um sistema antagônico é evidente.
(P.128) Por outro lado, se o socialismo fracassou, as raízes desse fracasso não são alheias ao sucesso do capitalismo. Isto é, enquanto o socialismo surgiu e se manteve na periferia do mundo, em países de menor desenvolvimento, o capitalismo seguiu reproduzindo-se naqueles de maior nível de desenvolvimento.
Mais de dois séculos de capitalismo e da Revolução Francesa ainda não foram suficientes para por em prática os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade” e provavelmente estejamos cada vez mais longe de realizá-los. A liberdade é cada vez mais cerceada e trocada por segurança. O desenvolvimento econômico serve apenas para aumentar a concentração de renda e o precipício entre ricos e pobres. (P.129) O fim dos Estados de bem-estar social e dos Estados socialistas fez proliferar o egoísmo e não a fraternidade, a solidariedade é substituída pela gana do consumo.
A derrota política e ideológica do socialismo foi também a derrota dos valores morais e éticos.
Finalizando, nada indica que a humanidade esteja condenada a viver no capitalismo ao longo do século XXI ou que caminha necessariamente para o socialismo. O que o século mostrou é que a história é um processo em aberto, em que os homens não estão condenados e vivem em nenhum tipo de sociedade em particular. O século XX mostrou que as condições para a construção de uma sociedade socialista já existem. Foi primeiro século em que o capitalismo enfrentou um tipo de sociedade que pretende negá-lo e superá-lo. O desafio fica colocado para o século XXI.

Bibliografia:
SADER; Emir:“Século XX uma biografia não autorizada” – ed Fundação Perseu Abramo.Pág 119-129

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Parar de transformar crianças e adolescentes em alunos.

Para Rui Canário o modelo escolar tornou-se obsoleto, sendo este o grande responsável pelo má qualidade da educação. Ainda segundo ele a escola deve ser reformulada e transformar-se na escola do futuro.

Rui Canário[1].
O diagnóstico sobre a situação atual da escola é sombrio. O problema da escola pode ser sintetizado em três facetas: a escola na configuração histórica que conhecemos (baseada num saber cumulativo e revelado), é obsoleta, padece de um déficit de sentido para os que nela trabalham (professores e alunos) e é marcada, ainda, por déficit de legitimidade social, na medida em que faz o contrário do que diz (reproduz e acentua desigualdade, fabrica exclusão relativa). (...)
Não é possível adivinhar, nem prever, o futuro da escola, ma é possível problematizá-lo. Ou seja, é desejável agir estrategicamente, no presente, para que o futuro possa ser o resultado de uma escolha, e não a conseqüência de um destino. É nessa perspectiva que pode ser fecundo, e pertinente, imaginar uma “outra” escola a partir de uma crítica ao que existe.
Assim, a construção da escola do futuro deverá orientar-se por três finalidades fundamentais:
- a de construir uma escola onde se aprenda pelo trabalho e não para o trabalho, contrariando a subordinação funcional da educação escolar à racionalidade econômica vigente. É na medida em que o aluno passa à condição de produtor que nos afastamos de uma concepção molecular e transmissiva da aprendizagem, evoluindo da repetição de informação para a produção de saber;
  -a de fazer da escola um sítio onde se desenvolva e estimule o gosto pelo ato intelectual de aprender, cuja importância decorrerá do seu valor de uso para “ler” e intervir no mundo e não dos benefícios materiais ou simbólicos que promete no futuro;
-e de transformar a escola num sítio em que se ganha gosto pela política, isto é, onde se vive a democracia, onde se aprende a ser intolerante com, as injustiças e a exercer o direito à palavra, usando-a para pensar o mundo e nele intervir.
A transformação da escola atual implica do meu ponto de vista em três planos distintos.
Por um lado é necessário pensar a escola a partir do não escolar. A experiência mostra que a escola é muito dificilmente modificável, a partir de sua própria lógica. A maior parte das aprendizagens significativas realizam-se fora da escola, de modo informal, e será fecundo que a escola possa ser contaminada por essas práticas educativas que, hoje, nos aparecem como portadoras de futuro.
Por outro lado, é preciso caminhar no sentido de desalienar o trabalho escolar, favorecendo o seu exercício como uma “expressão de si”, quer dizer, como uma obra, o que permitirá passar do enfado ao prazer.
Finalmente, é imperioso pensar a escola a partir de um projeto de sociedade, com base numa idéia do que queremos que sejam a vida e o devir coletivos. Não será possível uma escola que promova a realização da pessoa humana, livre de tiranias e de exploração, numa sociedade baseada em valores e pressupostos que sejam seu oposto.
Os professores e os alunos, no seu conjunto, prisioneiros dos problemas e constrangimentos que decorrem do déficit de sentido das situações escolares. A construção de uma outra relação com o saber, por parte dos alunos, e de uma outra forma de viver a profissão, por parte dos professores, tem de ser feitas a par. A escola erigiu, historicamente, como requisito prévio da aprendizagem, a transformação das crianças e dos jovens em alunos. Construir a escola do futuro supõe a adoção do procedimento inverso: transformar os alunos em pessoas. Só nessas condições a escola poderá assumir-se, para todos, como um lugar de hospitalidade.


[1] O português Rui Canário, 55, é doutor em ciências da educação pela Universidade de Lisboa e professor desde 1991, dessa universidade. Como pesquisador, atua sobretudo nas áreas de formação de professores e de sociologia da escola. É autor de “Escola e Exclusão Social”(Educa, 2001), entre outros. No Brasil, publicou artigos em revistas especializadas.

Matéria retirada do jornal Folha de São Paulo (Sinapse) de 29 de junho de 2003

Estatísticas mentem?

Um grande erro que as pessoas cometem é considerar a estatística como uma prova irrefutável. Quando na verdade ela é passível de erros, maquiagens e manipulações, além de não levar em consideração os diversos contrastes dentro de uma mesma estatística
William Cirilo Teixeira Rodrigues
Sim: elas mentem e é preciso descobrir de onde vem os dados, e o que eles não mostram.

“Existem mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas.” A frase, dita pelo primeiro ministro britânico Bemjamin Disraeli (1808-1881), pode ser um tanto exagerada, mas diz muito sobre quanto às pessoas tendem a tomar estatísticas como prova irrefutável de qualquer argumento, e quanto elas podem ser manipuladas para provar um ponto que não é exatamente verdadeiro.(...)
A primeira coisa ao ler sobre uma estatística é saber se ela existe mesmo. Desde sempre, e hoje em dia ainda mais, com a internet, as pessoas tendem a repetir qualquer notícia impressionante que ouvem sem conferir em outras fontes. Notícias que não dão nome, como “universidade americana” ou “cientistas russos”, são às vezes falsas. Por princípio, se uma notícia não revela a fonte, desconfie dela. Quando você sabe a fonte, pode conferir se a pesquisa existe mesmo. Geralmente, institutos de pesquisa e universidades anunciam suas pesquisas em sites - ao menos você pode encontrar um resumo. Tenha em mente que nem todas as fontes são confiáveis: institutos envolvidos com grandes empresas ou partidos políticos podem estar manipulando as informações. As pesquisas patrocinadas pelas empresas de cigarro, geralmente para desdizer os males do fumo passivo, tornaram-se infames nesse requisito.
É importante lembrar que o interesse envolvido, por si só, não prova que uma pesquisa ou qualquer afirmação seja falsa. No máximo, isso coloca a estatística sob suspeita. E é ai que começa o trabalho: descobrir o método e os dados brutos por trás de uma estatística suspeita.
Se alguém afirma, por exemplo, que o número de homicídios numa cidade do interior caiu 50%, pode parecer uma grande notícia. Se alguém  afirma que os homicídios nessa cidade, tão pacífica, foram dois no ano passado, e 1 neste ano, não há notícia alguma. Se eu aumentar o salário dos executivos de minha empresa, que ganharam muito mais que a maioria dos funcionários, isso causa um grande impacto na média dos salários, Mas essa média não diz nada sobre o rendimento real das pessoas nas categorias abaixo. É por isso que estatísticas de renda per capita podem ser enganadoras: elas pegam a soma de todos os rendimentos e dividem pela população. Não dizem nada sobre as diferenças de renda entre as pessoas- se alguns poucos ganham a maioria da renda, e tem famílias menores, a média não diz nada nem sobre os ricos, nem sobre os pobres.
Estatísticas sobre desenvolvimento humano levam em conta renda, acesso a educação e saneamento básico – mas, se a qualidade de ensino é ruim, pode ser que um lugar tenha “alto desenvolvimento”, isto é, formalmente as pessoas tem o segundo grau completo ou muitas vão a universidade, mas essa educação não é boa, o que significa que esse desenvolvimento é ilusório. Em tese, todas as pessoas tem direito a saúde pública no Brasil, mas qual é a qualidade desse atendimento?
Estatísticas são muito úteis, mas é preciso evitar efeito “prova definitiva” que elas tem sobre o ouvinte médio. É preciso manter o senso crítico ligado ao ler estatísticas, assim como ao ouvir qualquer outra notícia.

Matéria retirada da revista curso preparatório Enem 2011 ed abril.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Primeiro e Terceiro Mundo

A antiga divisão do planeta em Primeiro (azul),  Segundo (vermelho) e Terceiro Mundo (verde).
William Cirilo Teixeira Rodrigues
Desde sua origem, as expressões “Primeiro Mundo” e “Terceiro Mundo” vieram carregadas de forte conotação política. Foram criadas pelo economista e demógrafo francês Alfred Sauvy, em 1952, nem artigo publicado na revista L’Observateur. Sauvy comparava o mundo da época com as classes sociais que existiam antes da Revolução Francesa (1789-1799): Havia o “primeiro estado”, que correspondia aos nobres, o “segundo estado”, representado pelo clero católico”, e o “terceiro estado”, formado pelos plebeus, que podiam ser artesãos, camponeses ou burgueses (entre outros), que sustentavam a vida luxuosa dos dois outros estados. Nas palavras de Sauvy, como os plebeus da França, o Terceiro Mundo é explorado pelos demais, “não é nada, mas aspira a ser algo”.(...)
Sauvy classificou no Primeiro Mundo os países capitalistas da Otan, no Segundo Mundo o bloco comunista reunido sob o Pacto de Varsóvia e no Terceiro mundo os demais países, todos pobres e situados na África, Ásia, Oceania e América Latina. Quando o bloco comunista começou a ruir, a classificação criada por Sauvy já era considerada limitadora e ultrapassada.
Os termos ainda são populares, mas hoje há outras classificações que refletem melhor a realidade atual. Como não há mais “Segundo Mundo” e países de “Terceiro Mundo” podem ter alianças políticas diversas, é mais adequado falar em países “em desenvolvimento” versus “países desenvolvidos” . Incluiu-se às vezes uma terceira categoria, os “emergentes”, os países em desenvolvimento com potencial para fazer parte do primeiro grupo nas próximas décadas. Entre os emergentes, também se fala em “países recentemente industrializados”, economias que deixaram de ser agrárias para se tornar industriais na segunda metade do século 20, como Brasil, Turquia, África do Sul, Índia, Malásia e China.
Outro termo comum é “mundo ocidental” para se referir aos países desenvolvidos, já que, caracteristicamente, eles são herdeiros da cultura européia, incluindo aí Austrália e Nova Zelândia.  Japão e Coréia do Sul, embora situadas no oriente, são classificadas como “ocidentais” por sua aliança política e pela ampla adoção do capitalismo e instituições políticas ocidentais. A América Latina ocupa um espaço controverso, já que suas instituições políticas, religiosas e grande parte de sua cultura são de origem européia, mas aí se encontram mescladas e, às vezes, em conflito com tradições ameríndias e africanas, o que resultou na criação de uma identidade própria.
Matéria retirada da revista curso preparatório Enem 2011 ed abril.