sábado, 25 de junho de 2011

O FILHO DO SOL por Alessandro Meiguins

José Gabriel Túpac Amaru liderou a maior revolta indígena da América e transformou-se em  inspiração para diversas gerações de revolucionários
Por. William Cirilo Teixeira Rodrigues
No dia 4 de novembro de 1780, no pequeno povoado de Tinta ao sul do vice-reino do Peru, José Gabriel Túpac Amaru descendente da linhagem imperial inca, comandou a execução por enforcamento do espanhol Antonio Arriaga, representante da coroa no local. Vestido para a guerra, Túpac Amaru convocou todos os índios, negros e mestiços para lutar contra o domínio espanhol, dando início a uma rebelião que se espalhou pelos Andes chegando até os altiplanos bolivianos.(...)
Após quase 300 anos de dominação espanhola marcada pela violência, exploração, dominação e destruição do império inca, algumas lideranças indígenas ainda resistiam ao tempo e ao sofrimento. Entretanto, alguns líderes convertidos ao cristianismo ajudavam os espanhóis no controle da população.
José Gabriel Túpac Amaru era descendente do primeiro Túpac Amaru líder do ultimo foco de resistência inca derrotado em 1572. De sua família José Gabriel Túpac Amaru herdou 70 pares de mulas com as quais prosperou economicamente ganhando respeito entre a população local.
Insatisfeito com a brutalidade das autoridades espanholas locais, Túpac Amaru enviou a Lima um pedido de eliminação do cargo de corregedor substituindo-o por prefeitos eleitos e o fim da mita (trabalho forçado nas minas de prata e mercúrio), mas não foi atendido. Percebeu então que a única maneira de se fazer reformas teria que ser pela luta.
Em Tinta eclodiu a revolta, após matar Arriaga, Túpac e seus homens avançaram por povoados e vilas da região prendendo e enforcando autoridades locais. Conforme avançava nomeava autoridades, confiscava armas e dinheiro e recrutava mais homens para a luta.
A rebelião se alastrou rapidamente. Aterrorizado o bispo de Cusco, Juan Manuel de Moscoso y Peralta, enviou 1.500 soldados para conter o avanço rebelde. O combate ocorreu no dia 18 de novembro de 1780, no povoado de Sangara. Sob o comando de Túpac Amaru, 6 mil homens cercaram os soldados do bispo massacrando-os. O último grupo refugiou-se em uma igreja esperando que Túpac respeitasse o local sagrado...ele invadiu e matou todos.
Como represália Moscoso y Peralta excomungou Túpac e seus seguidores. Essa era a maior desonra que alguém poderia sofrer, seja católico ou índio. Supersticiosos, vários adeptos da causa tupamarista abandonaram a rebelião.
Mesmo assim Túpac se preparou para tomar Cusco. A estratégia era tomar Puno (cidade entre Cusco e Potosí) e depois avançar sobre a capital Lima. A antiga capital Inca era uma imensa fortaleza de difícil acesso e com grandes muralhas. As tropas da cidade partiram em direção aos rebeldes para tentar conter seu avanço, enquanto mais soldados preparavam as defesas da cidade.
Em 28 de dezembro de 1780, Túpac chega a Cusco seguido por cerca de 40 mil homens (embora poucos estivessem armados). Seu plano era atacar em duas frentes: uma comandado por ele e outra por seu irmão Diego Cristóbal. Em 2 de janeiro de 1871 os combates começam, por dias os 12 mil soldados do vice-rei conseguiram manter os invasores fora da cidade, nesse meio tempo receberam o reforço de mais 8 mil homens, 6 canhões e 13 mil fuzis vindo de Lima. O plano dos rebeldes falhou, Diego Cristóbal  não conseguiu ultrapassar as defesas do rio Urubamba e recuou, o policiamento em Cusco reprimiu qualquer tentativa de apoio a revolta. Em 8 de janeiro, desesperado, Túpac lançou força total contra a cidade. A batalha durou cerca de 7 horas e não obteve resultado. Túpac desistiu e resolveu recuar até Tinta.
Em março, com o reforço de 17 mil soldados, as tropas do vice-rei resolvam sufocar de vez a rebelião. Em 5 de abril os espanhóis infligiram uma gigantesca derrota às tropas tupamaristas. Depois do combate os realistas ofereceram anistia a todos aqueles que abandonassem a revolta. No dia seguinte outra vitória dos espanhóis. Os rebeldes se dispersaram e fugiram, mas Túpac e seus colaboradores mais próximos foram perseguidos e presos em uma emboscada preparada por traidores. Apenas um pequeno grupo de rebeldes conseguiu se refugiam nas montanhas.
Túpac Amaru foi condenado a morte por esquartejamento
Tupac e sua família foram levados a Cusco, onde foram torturados para dar informações sobre os outros líderes do movimento. Após 35 dias de tortura, em 18 de maio de 1871 Túpac recebeu sua sentença: morte por esquartejamento! Antes de morrer foi obrigado a assistir, em praça pública, ao enforcamento de seus homens, mulher e filhos. Túpac teve seus membros (braços e pernas) amarrados a quatro cavalos que foram incitados a correrem cada um para uma direção, depois de varias tentativas frustradas cortaram a cabeça do inca.
Entretanto, a rebelião continuou em duas frentes. Uma sob a liderança de Túpac Catari (Julián Apasa) e Tomas Catari que foi morto pelos espanhóis da Bolívia. Com Catari a revolta chegou a La Paz, em março de 1871 cerca de 10 mil homens cercaram a cidade dando inicio a violentos combates e após 109 dias de sítio as tropas realistas conseguiram furar o cerco. Catari ainda voltou a atacar em agosto mas foi derrotado, preso e posteriormente executado.
A segunda onda de resistência se deu na região montanhosa de Cusco e foi comandada por Diogo Cristóbal. Em 1781 ele chegou a sitiar Puno mas não invadiu. Os conflitos se estenderam até 1782 quando Cristóbal assinou um tratado de paz com os espanhóis. Apesar disso em 1783, ameaçou reiniciar a rebelião e acabou preso e executado pelos espanhóis.
Os anos seguintes foram marcados pela extrema repressão a cultura inca e qualquer ornamento da nobreza tornou-se proibido. Falar em Túpac Amaru em público era considerado ato de rebeldia e punido com vigor pelos espanhóis. Entretanto, a repressão apenas serviu para transformar o homem em mito.

Fonte:
MEIGUINS; Alessandro: “O filho do sol.” Revista Aventuras na História, Ed 15 novembro 2004.

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