segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Varnhagen o Heródoto Brasileiro, por José Carlos Reis

Francisco Adolfo de Varnhagen, considerado o Heródoto brasileiro, escreveu uma história  do Brasil  baseada na continuidade da colonização portuguesa, feita por homens brancos , católicos e monarquistas.

Fichamento: William Cirilo Teixeira Rodrigues
Anos 1850: Varnhagen: O elogio da colonização portuguesa.
Varnhagen, “Heródoto do Brasil”.
 (P.23) Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) é considerado o fundador da história no Brasil.
Apesar de alguns autores, como Robert Southey (1810) entenderem um futuro sombrio quanto às futuras possibilidades da colonização portuguesa no Brasil, Varnhagen e o IHGB acreditavam no sucesso dessa nação.   (...)
Em 1850 Varnhagen escreveu a obra História Geral do Brasil, superando obras anteriores refletindo uma nova preocupação no Brasil com a história. Essa obra foi possível porque as condições históricas do Brasil, o processo da independência política e a constituição nacional amadureceram nos anos 1850.
(P. 24) Varnhagen desenhará o perfil do Brasil independente e o oferecerá à nova nação um passado, a partir do qual elaborará um futuro.
(P. 25) Seu amor pelo Brasil se confundia com a sua fidelidade à família real portuguesa. Defendia um Brasil português, com o imperador.
Varnhagen, o IHGB e Von Martius.
O imperador precisava de historiadores para legitimar-se no poder. A nação recém-independente precisava de um passado do qual pudesse se orgulhar e que lhe permitisse avançar com confiança para o futuro.
(P. 26) O IHGB produziu uma história biográfica, construindo uma galeria de vidas exemplares que iluminavam a ação futura. O novo país precisava reconhecer-se geograficamente e historicamente.
O Brasil procurou os franceses como referência intelectual. O IHGB será o lugar privilegiado da produção histórica durante o séc. XIX, lugar que condicionará as reconstruções históricas, as interpretações, as visões do Brasil e da questão nacional.
(P. 28) Varnhagen e seus críticos.
As várias críticas feitas a História Geral do Brasil, posteriormente (1854-1857) são discordantes.
J.H. Rodrigues, A. Canabrava e P.M. Campos não economizavam elogios a obra de Varnhagen. (P. 29) N. Odália discordava totalmente dos autores acima.
(P. 30) Capistrano de Abreu, mais próximo de Varnhagen no tempo e no tipo de história, reconhece numerosos problemas em sua obra. Apesar de tudo, considera que a sua obra se impõe ao nosso respeito, exige a nossa gratidão e mostra um grande progresso na maneira de conceber a história pátria.
(P. 31) O que o Brasil queria ser? Eis a primeira questão da identidade. A resposta de quem podia responder, isto é as elites brancas que fizeram a independência: O Brasil queria continuar a história que os portugueses fizeram na colônia. A identidade da nova nação não se assentaria sobre a ruptura com a civilização portuguesa: a ruptura seria somente política.
(P. 32) O que o Brasil não quer ser? A resposta das elites: O Brasil não queria ser indígena, negro, republicano, latino-americano e não católico.
Esse Brasil português será defendido e produzido pelas elites brancas, pelo Estado e pela coroa. O novo país será uma continuação da colônia. A diferença é que a coroa não é mais exterior, mas interior e ainda portuguesa.
Varnhagen será o mestre dessa história do Brasil. Aristocrata, elitista, sua história prioriza as ações dos heróis portugueses e brasileiros brancos. O Brasil quer ser outro Portugal.
Varnhagen era, portanto, um historiador engajado, militante. Julgava sempre tudo e todos e justificou a dominação colonial, a submissão do povo, os direitos das elites. Ele defenderá a sociedade escravista e uma sociedade com cidadania restrita.
(P. 33) Entretanto, ao se considerar que seu livro foi escrito em 1850 e é representativo do pensamento histórico brasileiro e internacional dominante na época, pode-se concluir, que Varnhagen só representava esse pensamento do séc. XIX.

Bibliografia:
REIS; José Carlos:“As Identidades do Brasil – de Varnhagen a FHC” RJ. FGV, 2000. Pág 23-33

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fichamento: Como se deve escrever a história do Brasil de Von Martius.

Von Martius, ganhou o concurso promovido pelo IHBG, graças a este pequeno manual de como se deve escrever a história no Brasil.
 FICHAMENTO: William Cirilo Teixeira  Rodrigues
 (P. 11) Karl Friedrich Philipp Von Martius.
Juntamente com a arquiduquesa da Áustria, Leopoldina casada com o príncipe-herdeiro de Portugal, Brasil e Algarves, D. Pedro, futuro imperador do Brasil, viram o zoólogo Johann Baptist Von Spix e o botânico Karl F.P. Von Martius.
Eles foram encarregados de estudar a flora e a fauna, as riquezas do subsolo e as populações primitivas desta parte da terra, ainda mal conhecidas e que despertavam grande interesse no velho mundo.
(P. 12) Durante quarto anos recolheram, por todo o Brasil, exemplares da manufatura indígena e numerosas espécies de animais e vegetais. Estudando e descrevendo todo esse material, publicaram juntos em Munique nos anos de 1823 a 1831, a obra intitulada Reise in Brasilien (viagem pelo Brasil), em 3 volumes. Spix faleceu em 1827, no curso da pubicação desse famoso relato. Martius sobreviveu por mais 40 anos e de volta a Alemanha, foi nomeado professor da Universidade de Munique e, alguns anos depois diretor do Jardim botânico da mesma cidade.
(P. 13) Von Martius teve ainda excepcional importância na historiografia brasileira. Num trabalho publicado na revista do IHGB ensinou: Como se deve escrever a história do Brasil. Com esse trabalho abriu caminho para os que construíram nossa historiografia, como Visconde de Porto Seguro e Francisco Adolfo Varnhagen.
(P. 14) Von Martius nasceu em Erlanger, no dia 17 de abril de 1794 e faleceu em Munique em 13 de dezembro de 1868.
(P. 17) A importância da obra de Martius para a historiografia brasileira.
Logo após a fundação do IHGB, os sócios empenharam-se a fundo no estabelecimento das linhas mestras da elaboração da história do Brasil. E o instituto estabeleceu um prêmio de 300 mil réis a quem oferecesse um plano de como se escrever a história do Brasil de tal modo que nele se compreendessem as partes política, civil, eclesiástica e literária.
O trabalho escolhido foi o do dr Von Martius. Que ressaltava pela primeira vez a importância da contribuição do negro e do índio na formação do espírito brasileiro.
(P. 27) Como se deve escrever a história do Brasil.
(P. 30) 1. Ideias gerais sobre a história do Brasil.
Qualquer um, que se encarregar de escrever a história do Brasil, jamais deverá perder de vista quais os elementos que ai concorreram para o desenvolvimento do homem.
Elementos de natureza muito diversas convergiram, cada um a seu modo. São três raças: A cor de cobre ou americana, a branca ou caucasiana, e por fim a preta ou etiópica.
Da mescla dessas três raças formou-se a atual população, cuja história, por isso mesmo, tem um cunho particular.
Cada uma das particularidades físicas e morais, que distinguem as diversas raças, oferece a este respeito um motor especial, e tanto maior será a sua influência para o desenvolvimento comum, quanto maior for a energia, o número e dignidade da sociedade de cada uma das raças.
(P. 31) Disso se segue necessariamente o português, que, como descobridor, conquistador e senhor, poderosamente influiu naquele desenvolvimento. O português se apresenta como o motor essencial. Mas seria um erro desprezar as forças dos indígenas e dos negros.
Jamais nos será permitido duvidar que a vontade da providência predestinou ao Brasil esta mescla. O sangue português como um poderoso rio deverá absorver os pequenos confluentes das raças índia e negra.
(P. 32) As relações particulares, pelas quais o brasileiro permite ao negro influir no desenvolvimento da nacionalidade brasileira, designa por si o destino do país, em preferência de outros estados do novo mundo onde aquelas duas raças inferiores são excluídas do movimento geral.
Portanto devia ser um ponto capital para o historiador mostrar como no desenvolvimento do Brasil se acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento de três raças humanas, que nesse país são colocadas uma ao lado da outra, de uma maneira desconhecida na história antiga, e que devem servir-se mutuamente de meio e de fim.
(P. 33) O historiador, com quanto mais calor defender em seus escritos os interesses das raças, tanto maior será o mérito que imprimirá à sua obra, a qual terá igualmente o cunho daquela filantropia nobre, que em nosso século com justiça se exige do historiador
(P. 34) 2.Os índios (a raça cor de cobre) e sua história como parte da historia do Brasil.
O historiador brasileiro deverá encarregar-se da tarefa de investigar minuciosamente a vida e a história do desenvolvimento dos aborígenes americanos.
(P. 35) Segundo Von Martius os indígenas brasileiros, não são o homem em estado primitivo e sim o resíduo de uma civilização perdida.
Em primeiro lugar devemos considerar o indígena brasileiro, em suas manifestações exteriores, como ente físico, e compará-lo com os povos vizinhos da mesma raça. O passo imediato nos levará à esfera da ama e da inteligência destes homens.
Como documento mais geral e mais significativo deve ser considerada a língua dos índios.
(P. 36) A principal língua dos índios brasileiros é o tupi e é importante que o historiador à compreenda. E sem dúvida as tribos que falam essa língua pertenceram a uma grande civilização perdida.
(P. 37) Deve-se estudar todas as lendas indígenas buscando nelas resquícios dessa grande civilização.
(P. 38) Até agora não se descobriram no Brasil vestígios de semelhantes construções. A circunstancias porém de não terem achado ainda semelhantes construções no Brasil certamente não basta para duvidar que também neste país reinava em tempos muito remotos uma civilização superior.
(P. 40) 3. Os portugueses e a sua parte na história do Brasil.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil acharam poucos indígenas, e puderam desenvolver-se quase sem serem importunados pelos índios locais.
Estes só forçaram os colonos a acautelar-se contra as suas invasões hostis, criando o sistema de milícias. Essas milícias foram importantes por dois motivos: 1º fortaleceram e conservaram o espírito aventureiro do português. 2º favoreceram o desenvolvimento de instituições municipais livres de uma certa turbulência. Por esse motivo os portugueses tiveram sucesso contra as invasões estrangeiras.
(P. 41) Nisso mesmo está o motivo dos portugueses avançarem, primeiro para o litoral e depois para o interior do país pelo poder das armas contra os índios. Essa posição guerreira do português contribuiu para a rápida descoberta do interior do país.
Hoje em dia as colonizações são empresas de particulares e nascem da necessidade do individuo melhorar socialmente e economicamente. Mas nos primeiros tempos da colonização do Brasil eram continuação das empresas dirigidas para a Índia, executada por príncipes e nobres que tomaram a nação portuguesa tão famosa e rica.
(P. 42) O período da descoberta e colonização primitiva do Brasil não pode ser compreendido, se não em seu nexo com as façanha marítimas, comerciais e guerreiras dos portugueses, o que de modo algum pode ser considerado como fato isolado na história desse povo.
O historiógrafo do Brasil jamais deve perder de vista na história da colonização do Brasil, os movimentos do comércio universal e deve incorporá-los a sua história. Jamais deve ser separada da história da colonização do Brasil: O comércio do pau-brasil, o movimento mercantil dos metais e pedras preciosas e das plantas uteis para a Europa.
(P. 43) O historiador deve estudar os costumes do homem português do séc. XV, depois passar para a história da legislação e como as instituições foram aos poucos transplantadas para o Brasil. Depois merecem análises as ordens eclesiásticas e monarca. Algumas dessas ordens acharam-se muitas vezes em oposição com as municipalidades ou povoações, não poucas vezes em favor dos índios. Mas que no Brasil não passaram de pequenos concílios.
(P. 44) Das ordens religiosas, a dos jesuítas representou o mais notável papel. Os jesuítas com suas missões conseguiram possuir as mais variadas notícias sobre a vida doméstica e civil dos indígenas.
(P. 45) Em geral essas ordens não eram ruins ao Brasil, pois, muitas vezes elas eram os únicos motores de civilização para um povo inquieto e turbulento (índios). A oposição dos colonos com estas ordens nascia do conflito de interesses sociais. Daí emanou a supressão dos jesuítas no Brasil.
Outra tarefa do historiador é mostrar como no Brasil se desenvolveram as ciências e as artes como reflexo da vida européia.
(P. 46) Enfim, a vida militar em Portugal também é de grande importância. Pois de que maneira o exército português se preparou para atuar em um país tão diferente.
(P. 47) O historiador encontrará no Brasil inúmeras narrações de viagens, de descobertas e incursões dos diferentes pontos do litoral para os desertos longínquos do interior em busca de ouro, pedras preciosas e escravos indígenas. Essas entradas foram executadas espontaneamente por pessoas, animadas pelo espírito romanesco e aventureiro.
(P. 49) 4. A raça africana em suas relações com a história do Brasil.
Não há duvida que o Brasil teria tido um desenvolvimento muito diferente sem a introdução dos escravos negros. Se para melhor ou pior, este problema se resolverá para o historiador, depois de ter tido ocasião de ponderar todas as influências que tiveram os escravos africanos no desenvolvimento civil moral e político da presente população.
Mas, no atual estado das coisas, o importante é indagar a condição dos negros importados, seus costumes, suas opiniões civis, seus conhecimentos naturais, preconceitos e superstições, os defeitos e virtudes próprias à sua raça em geral.
(P. 50) Nunca, portanto o historiador da Terra de Santa Cruz há de perder de vista que a sua tarefa abrange, não somente descrever o desenvolvimento de um só povo, mas sim de uma nação cuja crise e mescla atuais pertencem à história universal.
Nos pontos principais, a história do Brasil será sempre a história de um ramo de portugueses; mas se ela aspirar a ser completa e merecer o nome de história pragmática, jamais poderão ser excluídas as suas relações para com as raças índia e negra.
(P. 51) 5. Conclusão.
Sobre a forma que se deve ser uma história do Brasil, seja-me permitido comunicar algumas observações:
As obras até o presente publicadas sobre as províncias, em separado, são de apreço inestimável, contudo, se ressentem demais de certo espírito de crônicas. Um grande número de fatos e circunstâncias insignificantes, que com monotonia se repetem. Tudo isso, recebido em uma obra histórica, há de prejudicar o interesse da narração e confundir o juízo claro do leitor sobre o essencial da relação. Tudo isso deverá, segundo a minha opinião ficar excluído.
Aqui se apresenta uma grande dificuldade em conseqüência da grande extensão territorial brasileira, a variedade da natureza que nos rodeia, aos costumes e usos e à composição da população de tão disparatados elementos.
(P. 52) Para evitar este conflito, parece necessário que em primeiro lugar seja representado o estado do país conforme o que tenha de particular em suas relações com a mãe pátria, e o resto do mundo. E depois, passando para as partes do país que se diferem, realçando em cada uma delas o que houver de significante.
(P. 53) Elas imprimiram à sua obra um atrativo particular para os habitantes das diferentes partes do país, porque nestas diversas descrições locais reconhecerão a sua própria habitação, e se encontrarão a si mesmos.
(P. 54) Por fim, uma observação sobre a posição do historiador do Brasil para com a pátria. A história é uma mestra da vida, do futuro e do presente. Elas pode difundir entre os contemporâneos sentimentos e pensamentos do mais nobre patriotismo. Uma obra histórica sobre o Brasil deve despertar e reanimar em seus leitores brasileiros o amor à pátria.
Ainda reinam muitos preconceitos entra as diversas províncias e elas devem ser eliminadas. Cada uma das partes do império deve tornar-se cara às outra.
Deve procurar-se provar que o Brasil alcançará o seu mais favorável desenvolvimento, se chegar, firmes os seus habitantes na sustentação da monarquia, estabelecendo uma sábia organização entre as províncias. A obra deverá ser escrita em estilo popular.
Munique, 10 de janeiro de 1843.

Bibliografia:
MARTIUS; Karl F. Philipp: “Como se deve escrever a história do Brasil” 1 ed em livro RJ IHGB, 1991. (Obra completa). Pag 11-54

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Fichamento: “Ensino de História: Fundamentos e Métodos” de Circe Maria F. Bittencourt

O grande debate é: A escola é uma receptora de conhecimento produzido na academia, ou ele também é produtora de conhecimeto?

Fichamento realizado por: William C.T. Rodrigues
(P. 33) .O que é disciplina Escolar?
Quando se analisa a trajetória da disciplina História, constata-se que esta faz parte dos “planos de estudos” de 1837 da primeira escola pública brasileira. Entretanto, acompanhando a trajetória da história no nível superior, constata-se que o primeiro curso de história surgiu apenas na década de 30 do séc. XX. Tal situação provoca algumas indagações: O que é uma disciplina escolar e quais são suas especificidades? Quais as relações entre disciplina escolar e disciplina acadêmica? Como os estudos históricos se constituíram, para os níveis secundário e primário, ao longo da educação escolar? Qual tem sido a participação dos professores na construção da disciplina de história nas salas de aula?   (...)
(P. 34) A história e outras tantas disciplinas escolares tem feito parte do cotidiano de milhares de alunos e professores de tal forma que acabamos por achar natural essa organização curricular e essa maneira de “ser da escola”.
Existem as “matérias” e os respectivos professores encarregados de ministrá-las, obedecendo à determinada carga horária no decorrer de um tempo específico chamado “ano letivo”. Os professores são classificados por grupos: disciplinas cientificas, humanas, exatas, etc. Além de outra divisão entre os docentes: os especialistas das disciplinas e os polivalentes das séries iniciais do ensino fundamental. Diante desse quadro, este capítulo procura entender o que é disciplina escolar e os saberes por ela produzido.
A história e os demais escolares fazem parte de um sistema educacional que mantém especificidades no processo de constituição de saberes ou de determinado conhecimento- o conhecimento escolar.
(P. 35) .1 Polêmicas sobre a concepção de disciplina escolar.
Responder à pergunta “o que é disciplina escolar?” não é simples. Os debates mais significativos em torno dessa concepção tem sido realizado por pesquisadores franceses e ingleses, com divergências importantes e significativas entre eles.
Existem os defensores da idéia de disciplina como “transposição didática” e os que concebem disciplina como um campo de “conhecimento autônomo”.
1.1. Uma Transposição Didática.
(P. 36) Para determinados educadores, franceses e ingleses, as disciplina escolares decorrem das ciências eruditas de referência, dependentes da produção das universidades, e servem como instrumento de “vulgarização” do conhecimento produzido por um grupo de cientistas.
O pesquisador francês Yves Chevellard, passou a designar tal concepção como “transposição didática”. Ele entende ser a escola parte de um sistema no qual o conhecimento por ela reproduzido se organiza pela mediação da “noosfera ”, que corresponde ao conjunto de agentes sociais externos a sala de aula – Inspetores, autores de livros didáticos, técnicos educacionais, famílias. Esses agentes garantem à escola o fluxo e as adaptações dos saberes provenientes das ciências produzidas pela academia.
Essa abordagem considera a disciplina escolar dependente do conhecimento erudito ou cientifico. Também se consolida, por essa concepção uma hierarquia de conhecimentos, encontrando-se a disciplina escolar em uma escala inferior, como saber de segunda classe.
(P. 37) No que refere aos conteúdos e métodos de ensino e aprendizagem, entende-se que os conteúdos escolares provem direta e exclusivamente da produção cientifica e os métodos decorrem apenas de técnicas pedagógicas, que transforma-se em didáticas.
Segundo esse ponto de vista, a escola é o lugar de recepção e de reprodução do conhecimento externo. E a figura do professor aparece como um intermediário desse processo de reprodução, cujo grau de eficiência é medido pela capacidade de adaptação do conhecimento cientifico ao meio escolar.
1.2. Disciplina escolar como entidade específica.
Para pesquisadores como, o inglês Ivor Goodson e o francês André Chervel, a disciplina escolar não se constitui pela simples “transposição didática” do saber erudito, mas, antes, por intermédio de uma teia de outros conhecimentos.
Para os autores que se opõem à concepção de “transposição didática”, um ponto inicial é o fato de que aquela abordagem acentua a hierarquização de saberes como base para a constituição de conhecimentos para a sociedade.
(P. 38) Além disso, afirmam que essa hierarquização do conhecimento tem conotações sociais, como instrumento de poder de determinados setores da sociedade.
André Chervel, ao defender a disciplina escolar como entidade relativamente autônoma, considera as relações de poder próprias da escola.
É preciso deslocar o acento das influências exteriores a escola, inserindo o conhecimento por ela produzido no interior de uma cultura escolar.
(P. 39) Chervel concebe a escola como uma instituição que, embora obedeça a uma lógica, deve ser considerada como lugar de produção de um saber próprio. As disciplinas escolares devem ser analisadas como parte integrante da cultura escolar. Conteúdos e métodos, não podem ser entendidos separadamente, e os conteúdos escolares não são vulgarizações ou mera adaptações de um conhecimento produzido em “outro lugar”.
A seleção dos conteúdos escolares, por conseguinte, depende de um complexo sistema de valores e de interesses próprios da escola e do papel por ela desempenhado na sociedade letrada e moderna.
(P. 40) 1.3 Constituintes das disciplinas escolares.
Para entender as disciplinas escolares, é preciso situá-las em um processo dinâmico de produção. Segundo Chervel, as disciplinas escolares constituíram-se efetivamente a partir de 1910. A constituição das disciplinas foi resultado de disputas entre os conhecimentos que deveriam fazer parte do currículo escolar.
Desde o fim do séc. XIX se discutia sobre a necessidade de manter um currículo humanístico organizado pelo estudo das línguas e da oratória. Que eram entendidas como fundamentais para a formação das elites.
(P. 41) Com o desenvolvimento da industrialização, os conhecimentos das áreas denominadas exatas, passaram a ser consideradas importantes e disputavam espaço com as áreas das “humanidades clássicas”. Foi importante nesse momento, estabelecer as finalidades de cada uma das disciplinas, explicitar os conteúdos selecionados para serem ensinados e definir os métodos que garantissem tanto a apreensão de tais conteúdos como a avaliação da aprendizagem.
As finalidades de uma disciplina escolar, cujo estabelecimento é essencial para garantir sua permanência no currículo, caracterizam-se pela articulação entre os objetivos instrucionais mais específicos e os objetivos educacionais mais gerais.
(P. 42) As finalidades de uma disciplina tendem sempre a mudanças, de modo que atendam diferentes públicos escolares e respondam às suas necessidades sociais e culturais inseridas no conjunto da sociedade.
(P. 43) Outro constituinte fundamental da disciplina escolar é o conteúdo explicito. Os conteúdos explícitos são geralmente organizados por temas específicos e apresentados em planos sucessivos, conforme os níveis de escolarização e devem estar em sintonia com os objetivos educacionais e instrucionais.
Os conteúdos explícitos articulam-se intimamente com os métodos de ensino e de aprendizagem. Tais conteúdos são apresentados ao público por intermédio de diferentes métodos, indo da aula expositiva até o uso dos livros didáticos ou da informática. O método é importante por ser um dos elementos que estão diretamente vinculados ao conteúdo explícito e aos objetivos das disciplinas.
(P. 44) E por fim, temos a avaliação, essencial para se ter controle sobre o que é ensinado ou aprendido pelo aluno. Na avaliação reside o maior poder do professor.
.2. Disciplina escolar e produção do conhecimento.
2.1 Disciplina escolar ou matéria escolar.
(P. 45) Ivor Goodson entende a disciplina como uma forma de conhecimento oriunda e característica da tradição acadêmica e para o caso das escolas primárias e secundárias utiliza-se o termo matéria escolar.
Goodson explica que muitas matérias escolares não apresentam as mesmas estruturas das disciplinas acadêmicas e não se utilizam de conceitos e metodologias semelhantes. Ademais, argumentando que muito do que se trabalha na escola nem tem uma disciplina base ou ciência referência, pois, constituindo-se numa comunidade autônoma recebe múltiplas interferências de professores, administradores da escola ou da sociedade.
(P. 47) Podem-se identificar diferenças entre as disciplinas acadêmicas e as escolares, embora elas tenham relações entre si. Uma das diferenças importantes diz respeito a seus objetivos, que evidentemente não são os mesmos. A disciplina acadêmica visa formar um profissional. Já a matéria escolar visa formar um cidadão comum que necessita de ferramentas intelectuais variadas para compreender o mundo físico e social em que vive.
(P. 48) 2.2. Disciplina escolar e conhecimento histórico.
O historiador francês Henri Moniot, ao estudar a história enquanto disciplina escolar conclui que seu ensino, no fim do séc. XIX, assegurou a existência da história universitária.
A divisão da história em grandes períodos (Antiguidade, média, moderna e contemporânea), criada para organizar os estudos escolares acabou por definir as divisões das disciplinas históricas universitárias.
(P. 49) Essa organização das disciplinas é uma das evidencias que permitem refletir sobre as relações entre o conhecimento acadêmico e o escolar
Modificar o currículo do ensino fundamental e médio, como quer as recentes propostas do ensino temático, implica mudanças no currículo de nível superior.
A história escolar tem um perfil próprio, mas há um intercâmbio de legitimações entre as duas entidades específicas
A articulação entre as disciplinas escolares e as disciplinas acadêmicas é, portanto, complexa e não pode ser entendida como um processo mecânico e linear, pelo qual o que se produz enquanto conhecimento histórico acadêmico seja necessariamente transmitido e incorporado pela escola.
2.3. Professores e disciplina escolares.
(P. 50) O professor é quem transforma o saber a ser ensinado em saber aprendido, ação fundamental no processo de produção do conhecimento. Conteúdos, métodos e avaliações constroem-se nesse cotidiano e nas relações entre professores e alunos.
(P. 51) “Dar aula” é uma ação complexa que exige o domínio de vários saberes característicos e heterogêneos. De acordo com o canadense Maurice Tardif, e a brasileira Ana Maria Monteiro, os professores mobilizam em seu oficio os saberes das disciplinas, os saberes curriculares, os saberes da formação profissional e os saberes da experiência. A pluralidade desses saberes corresponde a um trabalho profissional que se define como “saber docente”.

Leia Também:

Bibliografia:
BITTENCOURT; Circe Maria F: “Ensino de História: Fundamentos e Métodos” São Paulo. Ed Cortez, 2004. Pág 33-55.