sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Dinâmica do Capitalismo De Fernand Braudel.

Em seu livro "A dinâmica do capitalismo" Braudel analisa o desenvolvimento do capitalismo entre os séculos XV e XVIII 
Fichamento realizado por: William C. T. Rodrigues
1º Capitulo: Reconsiderando a vida material e a vida econômica.
(P. 12) A chamada história econômica, ainda em construção, defronta-se com alguns preconceitos. Ela não é uma história nobre.
Apesar disso toda a história do homem está nela, vista segundo uma determinada perspectiva.
(P. 13) É simultaneamente a história dos grandes homens, dos grandes acontecimentos, das conjunturas e das crises, e por último a história maciça que evolui lentamente no decurso da longa duração.   (...)
Resida ai a dificuldade, pois trata-se de 4 séculos do mundo inteiro, então como organizar toda essa quantidade de fatos e interpretações? Braudel escolheu tratar dos equilíbrios e dos desequilíbrios profundos do longo prazo.
Por um lado, camponeses nas aldeias vivendo de maneira quase autônoma, por outro uma economia de mercado e um capitalismo em expansão. Temos assim dois universos (no mínimo) dois tipos de vida alheios um ao outro e cujas massas explicam-se mutuamente.
(P. 14) Parti do cotidiano, daquilo que nos condiciona a vida, sem que sequer saibamos: o hábito, a rotina, gestos que se florescem, se completam fora da nossa plena consciência.
(P. 15) Acredito que mais da metade da vida da humanidade está mergulhada no cotidiano. Inúmeros gestos herdados, confusamente acumulados, infinitamente repetidos para chegarem até nós, ajudam-nos, aprisionam-nos, decidem por nós, ao longo de toda a nossa existência. Tentei dar conta de tudo isso chamando-lhe de vida material.
(P. 16) A vida material para Braudel, é tudo o que a humanidade ao longo da história passada, foi incorporando na sua vida profunda e nas próprias entranhas dos homens, para quem tais experiências ou intoxicações antigas se tornaram necessidades do cotidiano, banalidades. E ninguém lhes dedica nenhuma atenção.
II.
Apresentado o fio condutor, aponto também o seu objetivo: é uma exploração.
1º capítulo: “O numero de Homens”. A força biológica por excelência, que leva o homem, tal como todos os outros seres vivos, a reproduzirem-se.
(P. 17) Essa matéria humana que esta em perpétuo movimento comanda, sem que os indivíduos se apercebam, uma boa parte dos destinos dos homens, destinos de conjunto.
O jogo demográfico tende para o equilíbrio, raramente atingindo. Fluxos e refluxos sucessivos revelam as tendenciais, de longa duração que se mantem válidas até o séc. XVIII. Somente no séc. XVIII o número de homens não parou de aumentar, onde nunca mais se inverteu o movimento.
Até o séc. XVIII, o sistema de vida encontrava-se encerrado num círculo quase intangível. Sempre que a circunferência é atingida, acontece imediatamente um momento de retração, de recuo.
(P. 18) Para estabelecer o equilíbrio existem: As fomes, as carências, as duras condições de vida, as guerras e sobretudo as doenças.
(P. 19) Nos capítulos seguintes o autor levanta as seguintes questões: O que é que os homens comem? O que bebem? Como se vestem? Quais são suas condições de vida?
Perguntas inconvenientes que exigem quase uma viagem de descobrimento, pois nos livros de história o homem não come e nem bebe.
Os cereais são muito importantes, já que os vegetais são dominantes na alimentação antiga. O trigo, o arroz, o milho são resultados de opções muito antigas e de inumeráveis e sucessivas experiências.
O trigo, que devora a terra, que exige que esta repouse em tempos regulares, permite a criação de gado.
(P. 20) O arroz que nasce de uma espécie de jardinagem, por cultura intensiva, em que não são necessários animais
  O milho, mais cômodo e mais fácil de obter, proporcionava os tempos livresque originaram as corvéias camponesas e os monumentos ameríndios. Uma força de trabalho desocupada foi monopolizada pela sociedade.
 Poderíamos falar também a cerca das rações e calorias que cada alimento contém. Além das drogas antigas o álcool e principalmente o tabaco que deu a volta ao mundo.
(P. 21) Outro ponto importante diz respeito as técnicas: o trabalho dos homens e o lentíssimos progressos na luta cotidiana contra o meio exterior e contra si próprio. Tudo é técnica, não só o esforço violento, mas também o esforço paciente e monótono dos homens, ao modelarem uma pedra, um pedaço de madeira ou ferro para criar um utensílio ou uma arma.
Todas as técnicas, todos os elementos das ciências se trocam e viajam através do mundo, desde sempre. Há um incessante movimento de difusão.
(P. 22) Os dois últimos capítulos são referentes a moeda e as cidades: As duas mergulham simultaneamente no cotidiano. A moeda é uma invenção muito antiga (se entendermos por moeda todo o meio que contribui para aceleração da troca) e sem troca não há sociedade. Quanto ás cidades, existem desde a pré-história.
Poderíamos dizer que as cidades e a moeda fabricaram a modernidade, mas também que a modernidade, a massa em movimento da dos homens, impulsionou a expansão da moeda, construiu a tirania crescentes das cidades.
Cidades e moedas constituem, motores e indicadores, provocam e assinalam a mudança. E são uma conseqüência da mudança.
III.
(P. 23) Não é fácil abarcar esse imenso reino do habitual, do rotineiro, (O grande ausente da história). Na realidade, o habitual invade totalmente a vida dos homens e por ela se difunde.
(P. 24) De 1400 a 1800, encontramos uma economia de troca ainda muito imperfeita. Não consegue abranger toda a produção, nem todo o consumo, já que uma enorme parte da produção se perde no autoconsumo da família ou da aldeia e não chega a entrar no circuito do mercado.
A economia de mercado se encontra em fase de progresso e põe em contato um numero suficiente de burgos e de cidades, para iniciar a organização da produção e orientar e comandar o consumo.
Esses mercados demarcam uma fronteira, o limite inferior da economia. Tudo o que se situa fora do mercado apenas tem valor de uso; tudo o que cruza o seu estreito limiar adquire valor de troca.
(P. 25) O indivíduo, (o agente), conforme se situe de um lado ou do outro do mercado elementar, está ou não incluído na troca, naquilo a que chamei vida econômica, em oposição à vida material.
(P. 29) Fizemos a distinção entre dois registros na economia de mercado: o registro inferior (mercados, loja, vendedores ambulantes) e o registro superior (feiras e bolsas).
Surgem duas questões: 1º como podem estes instrumentos de troca auxiliar-nos a explicar, as vicissitudes[1] da economia européia do Antigo Regime?
2º de que forma poderão esses mecanismos contribuir para iluminar os mecanismos da economia não européia?
IV.
(P. 30) Consideremos a evolução do ocidente ao longo destes 4 séculos: XV, XVI, XVII e XVIII.
O séc. XV vai assistir, sobretudo após 1450, a um relançamento geral da economia em benefício das cidades favorecidas pela subida dos preços industriais. Por outro lado os preços agrícolas estagnam ou baixam. Nesse momento o papel de motor da economia cabe as lojas de artesãos, situado nos mercados urbanos. Ditando as suas leis.
(P. 31) No séc. XVI acontece a expansão para o Atlântico, a dinâmica motriz situa-se ano nível das grandes feiras internacionais. O séc. XVI foi a época do apogeu das feiras.
(P. 32) No séc. XVII liberta-se dos sortilégios do mediterrâneo para desenvolver-se através do vasto oceano atlântico. Esse século tem sido descrito como uma época de recessão ou estagnação econômica. A feira cede lugar às bolsas e as praças de comércio. As lojas multiplicam-se através da Europa, criando apertadas redes de redistribuição.
(P. 33) No séc. XVIII ocorre uma generalizada aceleração econômica, todos os instrumentos da troca encontram-se presentes. As bolsas multiplicam-se. Num contexto assim é natural que as feiras tendam a desaparecer. Existindo apenas um regiões marginais da economia européia.
(P. 35) O que acabamos de descrever, limita-se a Europa. Mas se os mecanismos de troca existirem fora da Europa (e existem na China, Índia, em todo o islã e no Japão) podemos utilizá-los para uma tentativa de analise comparativa ?
E ver se a distância entre a Europa e o resto do mundo já era tão grande antes do séc. XIX, se nessa época a Europa já estava, ou não mais avançada que o resto do mundo.
Primeira constatação: por todos os lados encontramos mercados, até nas sociedades incipientes da África e das civilizações ameríndias. Com um pequeno esforço, estes mercados aparecem-nos diante dos olhos, ainda vivos ou de fácil reconstituição.
(P. 36) Nos países islâmicos, as cidades foram gradualmente despojando as aldeias dos seus mercados (como na Europa). Os grandes mercados dispõem-se diante das portas das cidades, onde homens citadinos encontram-se com o camponês em terreno neutro.
Na Índia não há uma aldeia que não tenha seu mercado, que serve para arrecadar dinheiro para os senhores ou o Grão-Mongol do lugar.
(P. 37) A China apresenta uma surpreendente organização em seus mercados. Imaginemos um burgo e marquemos um ponto numa folha em branco. Em redor desse ponto agrupam-se entre seis e dez aldeias, a uma distância que permite ao camponês ir e voltar no mesmo dia.
(P. 40) Se compararmos as economias do resto do mundo com a economia européia, esta parece dever o seu grau avançado de desenvolvimento à superioridade dos seus instrumentos e das suas instituições: As bolsas e as diversas formas de crédito.
(P. 41) A economia de mercado estendeu os seus fios e manteve ativa as suas diversas redes acima da enorme massa da vida material cotidiana: e foi sobre a economia de mercado que o capitalismo prosperou.
(P. 43) 2º Capitulo: Os jogos da troca.
(P. 45) O séc. XV ao XVIII é caracterizado por um enorme setor de autoconsumo, que se mantém totalmente alheio à economia de troca. Toda a Europa está amarrada a isso até o séc.XVIII.
 Braudel aborda aquilo que ele chama de economia da mercado e capitalismo. Que para ele são coisas distintas.
Ambos são minoritários, até o séc. XVIII. E as massas de homens permanecem submersas no domínio da vida material.
(P. 46) Essa economia de mercado ainda esta em desenvolvimento, mas já cobre vastas superfícies. Já o Antigo Regime que Braudel chama de capitalismo é sofisticado, mas pouco desenvolvido, e com tendências para se generalizar. Esse capitalismo chama-se geralmente de Mercantil. O papel nacional, internacional e mundial, do capitalismo já é evidente.
I.
(P. 47) A economia de mercado tem sua própria natureza o papel de ligação entre a produção e o consumo. Antes do séc. XIX, ela é um simples estrato que situa-se entre a vida cotidiana sustentando os processos do capitalismo que, em metade dos casos, a manobram desde cima.
(P. 48) Entre o séc.XV e o séc. XVIII, a região abrangida por essa vida veloz, que é a economia de mercado, aumenta incessantemente.
(P. 49) Em suma, há uma certa economia de mercado, que liga entre si os diferentes mercados do mundo, uma mercadoria que arrasta consigo apenas raras mercadorias e metais preciosos, que já nesta época dão a volta ao mundo.
(P. 50) As trocas tem, em si um papel decisivo, restaurador de equilíbrios, que nivelam, por efeito da concorrência, todos os desníveis, ajustam a oferta e a procura, e que o mercado é um deus oculto e benevolente, “a mão-invisível”, de Adam Smith.
O mercado é uma ligação imperfeita entre a produção e o consumo.
II.
(P. 51) Braudel lança o termo capitalismo em uma época em que nem se reconheceu o direito de cidade. Fez isso pois tinha necessidade de encontrar um termo diferente de economia de mercado para designar atividades bem diversas.
(P. 52) Braudel tem conhecimento de que a designação é ambígua e carregada de anacronismo.
Vejamos, antes de mais nada, que entre os séc.XV e XVIII, há determinados processos que exigem uma designação especial. Se os incluíssemos, pura e simplesmente na economia de mercado, seria quase um absurdo. A palavra que logo nos ocorre é capitalismo.
A melhor razão para utilizarmos a palavra capitalismo, é a de não termos encontrado outra que a substitua.
O maior inconveniente esta no fato que essa palavra esta carregada de significações que a vida de hoje lhe atribui.
(P. 53) Capitalismo é um termo que data do inicio do séc. XX, sua verdadeira irrupção dar-se com o aparecimento, em 1902, do conhecido livro de Werner Sombart. Marx praticamente ignorou essa palavra.
Isso nos ameaça com o pior dos pecados, o anacronismo.
Não há capitalismo antes da Revolução Industrial: capital sim, capitalismo não!
Contudo entre o passado e o presente nunca há ruptura total. As experiências do passado prolongam-se incessantemente na vida presente. Com isso muitos historiadores começaram a perceber que a Revolução Industrial se anuncia muito antes do séc. XVIII.
III.
(P. 54) Definir o termo capital e capitalista:
O capital, realidade papável, uma massa de meios facilmente identificáveis e sempre em atividade.
O capitalista, o homem que preside ou tenta presidir aos destinos da inserção do capital, no incessante processo de produção a qual todas as sociedades estão condenadas.
O capitalismo é a forma de conduzir, para fins geralmente pouco altruístas, esse constante jogo de inserções.
A palavra chave é o capital. Nos estudos dos economistas, esta palavra adquiriu o sentido de bem de capital. Não designa só as acumulações de dinheiro, mas também os resultados utilizáveis e utilizados no trabalho previamente realizado: Uma casa é um capital, o trigo armazenado é um capital.
Mas um bem de capital só merece essa designação quando participa no processo ininterrupto da produção: O tesouro não utilizado, a floresta não explorada, etc, não são capitais neste sentido.
(P. 55) No séc. XV, qualquer modesta aldeia do ocidente possui os seus caminhos, os seus campos limpos de pedras, as suas terras cultivadas, as suas florestas tratadas, os seus pomares, os seus moinhos, as suas reservas de cereais... As economias do Antigo Regime dão-nos umas relação de 1 para 3, ou para 4, entre o produto bruto de um ano de trabalho e o conjunto dos bens de capital. (que designamos, na França por patrimônio).
Cada cidade teria, pois, atrás de si, o equivalente a três ou quatro anos de trabalho acumulado, em reservas, que lhe serviria para fazer progredir a sua produção.
Como poderemos distinguir corretamente capitalismo e economia de mercado?
(P. 56) É possível aceitar duas formas de economia de mercado (A e B).
Na categoria A, encontram-se as trocas cotidianas do mercado, as correntes de tráfico locais ou de pequenas distancias: o trigo e a madeira, encaminhados para a cidade mais próxima, e até os ramos de comércio de mais longo raio de ação, previsíveis, rotineiros e aberto tanto para os pequenos como para os grandes comerciantes.
O mercado de um burgo proporciona-nos um bom exemplo dessas trocas sem surpresas, “transparentes”, com pressupostos e conseqüências antecipadamente conhecidas por todos e de cujo os lucros, sempre modestos, se pode fazer um calculo aproximado.
(P. 57) De igual modo o comércio regular, que dá vida aos grandes comboios do trigo Báltico é um comércio transparente. Mas basta interromper a fome no Mediterrâneo, como aconteceu por volta de 1590, para podermos ver mercadorias internacionais, representando grandes clientes, desviar da sua rota habitual barcos inteiros, cuja carga é posta em Livorno ou em Gênova com o preço triplicado. Neste caso a economia A cedeu o passo a economia B.
(P. 58) Esse segundo tipo de economia predomina e traça perante os nossos olhos uma “esfera de circulação” obviamente diferenciada.
Mercados itinerantes, recolhedores, coletores de mercadorias vão procurar os produtores as suas casas. Compram diretamente dos camponeses a lã, o cânhamo, gado vivo, as peles, cevada, trigo, etc, ou compram–lhes esses produtos antecipadamente, a lã antes da tosquia, o trigo quando ainda esta na seara.
Depois, encaminham os produtos comprados, por meio de carros, de animais de carga ou por barco, para as grandes cidades e para o cais de exportação.
(P. 59) Este tipo de trocas vem substituir as condições normais do mercado coletivo por transações individuais, cujos termos variam arbitrariamente, de acordo com a situação respectiva dos interessados.
É evidente que se trata de trocas desiguais, em que a concorrência (que é uma lei essencial da chamada economia de mercado) tem um reduzido lugar, e em que o comerciante desfruta de uma dupla vantagem: 1º rompeu as relações entre o produtor e o destinatário último da mercadoria (assim, só ele conhece as condições do mercado nas duas extremidades, e o lucro provável). 2º Dispõe de dinheiro sonante, deste modo, longas cadeias de comércio ligam a produção ao consumo. Quanto mais essas cadeias se estendem, mais escapam às regras e a fiscalização habitual e mais claramente desponta o processo capitalista.
(P. 60) Fernhandel é um domínio da livre iniciativa, opera em distâncias que o mantém ao abrigo dos sistemas normais de controle ou lhe permite contorná-los. Com tão vasta zona de operação é lhe possível escolher, tudo o que permitir maximizar os seus lucros.
Desses grandes lucros provêm acumulações consideráveis de capital, sobretudo porque o comércio a longa distância se concentra num pequeno número de mãos.
(P. 61) Não basta querer para se introduzir nele. O comércio local, pelo contrário, fragmenta-se em múltiplas partes interessadas.
(P. 62) Desde tempos antigos, desde sempre, os capitalistas tem ultrapassado os limites nacionais.
(P. 63) Graças à massa dos seus capitais que os capitalistas conseguem preservar os seus privilégios e reservar para si os grandes negócios internacionais de cada época. Num tempo de transportes muito lentos, o grande comércio impõe grandes prazos à rotação dos capitais: São necessários muitos meses, por vezes anos, para que as somas investidas regressem avolumadas por seus lucros.
(P. 64) O mundo da mercadoria ou da troca encontram-se rigorosamente hierarquizados, desde os ofícios mais humildes, aos caixas, lojistas, corretores, usuários e os negociantes.
A primeira vista surge um fato surpreendente: A especialização, a divisão do trabalho, que se acentua com grande rapidez, paralela aos progressos da economia de mercado, afeta toda a sociedade mercantil, excetuando a sua cúpula, os negociantes capitalistas.
O processo de divisão de função manifestou-se assim, primeiramente e apenas na base. São os ofícios, os lojistas e mesmo os vendedores ambulantes que se especializaram, não o alto da pirâmide, por que até o séc. XIX, o comerciante de grande envergadura nunca se limita, a uma única atividade.
(P. 65) É negociante, mas nunca num só ramo: se perder na cochonilha, ganha nas especiarias; se for mal sucedido em uma transação comercial, ganhará jogando com os câmbios ou emprestando dinheiro a um camponês para estabelecer uma renda.
O comerciante não se especializa, porque nenhum ramo de comércio ao seu alcance é suficientemente importante para absorver inteiramente a sua atividade.
(P. 66) Supõe-se que o capitalismo de ontem estava pouco desenvolvido, por falta de capitais, e que lhe foi necessário acumular longamente para depois expandir.
Contudo, o epistolário comercial e as memórias das câmaras de comércio mostram-nos, repetidamente, que há capitais que procuram, em vão, oportunidades de investimento.
Mas é significativo que o capitalismo não se interesse pelo sistema de produção e se contente com controlar, através do sistema de trabalho domiciliário, do putting out, a produção artesanal, para melhor se apoderar da sua comercialização. As manufaturas representarão até o séc.XIX, apenas uma pequena parte da produção.
Se o grande comerciante muda tantas vezes de atividade, é porque o grande lucro muda constantemente de setor. O capitalismo é essencialmente conjuntural. Ainda hoje, uma das suas grandes forças é a facilidade de adaptação e de reconversão.
(P. 67) O capitalismo financeiro só triunfará no séc. XIX, depois de um período que vai de 1830 a 1860, época em que a banca lançará mão a tudo, à industria e à mercadoria, e em que a economia em geral terá finalmente adquirido vigor para sustentar essa construção.
Ou seja: dois tipos de troca, uma troca terra-a-terra, concorrencial, pela transparência, outra superior, sofisticada, dominante. Não são os mesmos mecanismos, nem os mesmos agentes, que regem estes dois tipos de atividade. Sendo o segundo que constitui a esfera do capitalismo.
(P. 68) Gerschenkron pensa que o verdadeiro capitalismo surgiu da relação de forças que está na base do capitalismo. Que encontra-se em todos os estratos da vida social. Mas é na cúpula da sociedade que o 1º capitalismo se manifesta, que afirma a sua força e se revela aos nossos olhos.
Não se estabelece, normalmente, distinção entre capitalismo e economia de mercado, porque ambos progrediram a par, desde a Idade Média até nossos dias, e porque o capitalismo tem sido freqüentemente apresentado como motor do progresso econômico. Na realidade tudo assenta sobre o enorme dorso da vida material.
(P. 69) Acredito que é  movimento de conjunto que é determinante e que toda e qualquer forma de capitalismo existe em função das economias que lhes são subjacentes.
IV.
O capitalismo, privilégio de um pequeno número, é impensável sem uma cumplicidade ativa da sociedade.
É uma realidade de ordem social e até política, ou mesmo uma realidade civilizacional. É lhe necessário, que de certa forma, a sociedade inteira aceite, mais ou menos conscientemente, os seus valores. Mas nem sempre isso acontece.
As sociedades densas decompõem-se em conjuntos de vários tipos: O econômico, o político, o cultural e o social de um ponto de vista hierárquico. O econômico só pode ser compreendido em ligação com os outros conjuntos.
(P. 70) O Estado moderno não fez o capitalismo, mas é seu herdeiro, ora o favorece, ora o desfavorece; ora o deixa expandir-se, ora lhe trava ímpetos. O capitalismo só triunfa quando se identifica com o Estado.
Assim, o Estado é favorável ou é hostil ao mundo do dinheiro, conforme o seu próprio equilíbrio e sua capacidade de resistência.
O mesmo acontece em relação à cultura e à religião. Em princípio, a religião, a força tradicional, diz não as novidades do mercado, do dinheiro, da especulação, da usura. Mas há sempre possibilidade de conciliação com a Igreja.
(P. 71) Chegou-se a sustentar que tais escrúpulos só foram vencidos pela Reforma, sendo essa a razão profunda da escensão capitalista dos países do Norte da Europa.
Para Max Weber, o capitalismo teria sido uma criação do protestantismo, ou melhor, do puritanismo.
E no entanto para Braudel essa idéia é falsa.
Os países do norte limitaram-se a tomar o lugar dos velhos centros capitalistas do Mediterrâneo. Não inventaram nada, nem na técnica, nem na condução dos negócios.
Amsterdã copia Veneza, Londres copiara Amsterdã, Nova York copia Londres. O que está em jogo é a deslocação do centro de gravidade da economia mundial.
(P. 72) Este deslocamento, é o triunfo de um país novo sobre um envelhecido.
Enfim, para Braudel o erro de Weber decorre essencialmente do exagero do papel desempenhado pelo capitalismo como artífice do mundo moderno.
O futuro do capitalismo decidiu-se verdadeiramente no campo das hierarquias sociais.
 Toda a sociedade evoluída consente várias hierarquias, várias escadas, digamos, que permitem a saída do rés-do-chão, onde vegeta uma massa de povo básica.
E o Grundvolk de Weber Sombart: temos a hierarquia religiosa, hierarquia política, militar e as diversas hierarquias do dinheiro. Entre umas e outras, conforme as épocas e os locais há oposições, compromissos e alianças e por vezes entre elas confusões.
(P. 73) Ex: No séc.XIII, em Roma, a hierarquia política e a religiosa confundiam-se, enquanto, em redor da cidade, a terra e os rebanhos geram uma classe ameaçadora de novos senhores.
Tanto as sociedades quantos os caminhos para a ambição dos indivíduos e quantos tipos de sucessos.
(P. 74) No ocidente, embora os casos de sucesso de indivíduos isolados não sejam raros, a história repete-nos interminavelmente a mesma lição, que é possível inscrever os triunfos individuais no ativo de famílias, apostadas em fazer aumentar pouco a pouco a sua fortuna e influência.
Podemos utilizar um termo que se impôs tardiamente, a história da burguesia , portadora do processo capitalista, criadora ou usufruidora de uma hierarquia sólida que vai ser a espinha dorsal do capitalismo.
Se prestarmos atenção a essas longas cadeias familiares, à lenta acumulação de patrimônio e de honrarias, a passagem, na Europa, do regime feudal para o regime capitalista torna-se quase compreensível.
Existindo para benefício de famílias senhoriais, o regime feudal é uma forma duradoura de partilha da riqueza imobiliária, riqueza de uma base (uma ordem estável).
(P. 75) Ao longo dos séculos a burguesia terá sugado, parasitamente, essa classe privilegiada, vivendo junto dela, contra ela, aproveitando-se dos seus erros, do seu luxo, da sua ociosidade, da sua imprevidência, para se apoderar dos seus bens, infiltrando-se nas suas fileiras, e assim acabando por dissolver-se nela.
Mas logo outros burgueses estão prontos para voltarem ao assalto, para recomeçar a luta. Em suma parasitismo a longo prazo.
A burguesia não cessa de destruir a classe dominante, para dela se alimentar. E a sua ascensão foi lenta e paciente, com as ambições permanentemente transferidas para os filhos e netos, sucessivamente.
Uma sociedade deste tipo, que deriva de uma sociedade feudal é então, semifeudal, uma sociedade em que o propriedade e os privilégios sociais encontram-se relativamente protegidos, em que as famílias podem desfrutar deles com relativa tranqüilidade, visto que a propriedade é tida como sagrada, e é uma sociedade em que cada qual se mantém mais ou menos em seu lugar.
São necessárias águas sociais como estas, para que a acumulação se dê, para que despontem e se mantenham as linguagens, para que, com o auxilio da economia monetária, o capitalismo acabe finalmente por emergir.
  Nessa emergência, o capitalismo derruba alguns bastiões da alta sociedade, mas reconstrói para si outros, também sólidos e duradouros.
(P. 76) Esses longos processos de gestação de fortunas de família, que conduzem, um belo dia, a triunfos espetaculares se trata efetivamente de uma característica essencial das sociedades do ocidente. Sendo a única região fora do continente que assemelha-se a esses critérios o Japão.
A sociedade ocidental e a sociedade japonesa são os únicos exemplos de sociedades que passaram, quase que por si sós, da ordem feudal para a ordem monetária.
Noutras sociedades, as posições relativas do Estado, dos privilégios do dinheiro são muito diversas.
(P. 77) Vejamos como exemplo a China e o Islã:
(P. 78) O Estado chinês, apesar das cumplicidades locais, que se estabelece entre comerciantes e mandarins corruptos, foi sempre hostil a expansão do capitalismo. Cada vez que este se manifesta é metido na ordem por um Estado de certo modo totalitário.
Nos vastos países do Islã, sobretudo antes do séc. XVIII, a propriedade da terra é provisória, pois pertence ao príncipe. As terras são distribuídas pelo Estado e ficam disponíveis cada vez que seu beneficiário morre. O senhorio e todos os bens regressam a posse do Sultão.
Esses grandes senhores, enquanto exercem a autoridade, podem mudar de sociedade dominante, de elite, como quem muda de camisa e não hesitam em fazer.
(P. 79) A cúpula da sociedade renova-se, pois, com freqüência, as famílias não tem possibilidade de nela instalar-se em definitivo. Grandes comerciantes não conseguem manter a sua posição, para além de uma única geração.
A tese de Braudel: há condições de natureza social para a manifestação e para o triunfo do capitalismo. O capitalismo exige que haja uma certa tranqüilidade na ordem social, uma neutralidade, ou complacência por parte do Estado. No próprio ocidente, essa complacência tem vários graus.
O capitalismo necessita de uma hierarquia. Mas o que é hierarquia para um historiador que tem visto desfilar à sua frente centenas de sociedades, todas possuindo as suas hierarquias respectivas?
(P. 80) Todas habitadas no topo por um punhado de privilegiados e de responsáveis.
Nesta extensa perspectiva da história, o capitalismo é um visitante de última hora; só chega quando tudo está preparado.
(P. 81) 3º Capitulo: O Tempo do Mundo.
(P. 83) O tempo do mundo sugere, por si, a minha pretensão: vincular o capitalismo, a sua evolução e os seus meios, a uma história geral do mundo.
Este mundo afirma-se sob o signo da desigualdade. Países abastados por um lado e países subdesenvolvidos por outro.
(P. 84) Os países abastados e os países pobres não tem sido imutavelmente os mesmos. O mundo é uma espécie de sociedade, tão hierarquizada como qualquer outra sociedade.
I.
(P. 85) Vamos utilizar duas expressões: economia mundial e economia-mundo.
Por economia mundial entende-se a economia do mundo globalmente considerado.
Por economia-mundo (termo forjado por Braudel), entendo a economia de uma porção do nosso planeta, desde que forme um todo econômico. O mediterrâneo no séc. XVI era por si só uma economia-mundo. “Um mundo em si e para si”.
Uma economia mundo pode definir-se por:
1º ocupa determinado especo geográfico; tem, portanto limites, que a explicam, e que variam, embora bastante devagar. De tempos a tempos, com longos intervalos, há mesmo inevitáveis rupturas.
(P. 86) 2º uma economia-mundo submete-se a um pólo, a um centro, representado por uma cidade dominante, outrora uma cidade-estado, hoje uma grande capital econômica. Podem coexistir, e até de forma prolongada, dois centros em uma mesma economia-mundo. Mas uma sempre acaba triunfando.
3º Todas as economias–mundo se dividem em zonas sucessivas. Há o coração, isto é a zona que se estende em torno do centro. Depois as zonas intermediarias à volta do eixo central e finalmente, surgem-nos as margens vastíssimas que, na divisão do trabalho que caracteriza uma economia-mundo, mas do que participantes são subordinados e dependentes. Nestas zonas periféricas, a vida doa homens faz lembra o purgatório ou o inferno.
(P. 87) Para Immanuel Wallerstein não existe outra economia-mundo, senão as da Europa, estabelecidas somente a partir do séc. XVI.
Para Fernand Braudel, o mundo tinha se dividido, muito antes de ser totalmente conhecido pelos Europeus, desde a Idade Média até a Antiguidade. Em várias economias-mundo coexistentes.
(P. 88) Estas economias, que coexistem, não tendo entre si senão trocas extremamente limitadas, partilham o espaço habitado do planeta, de um e de outro lado, de regiões limítrofes bastante vastas, que o comércio tem geralmente pouca vantagem em atravessar, salvo raras exceções.
(P. 89) Essas economias, que tão lentamente mudam de forma, revelam uma história profunda do mundo.
Como é que sucessivas economias-mundo, elaboradas na Europa a partir da expansão européia, explicam, ou não, os jogos do capitalismo e a sua própria expansão. Essas economias-mundo típicas foram matrizes do capitalismo europeu e posteriormente do capitalismo mundial.
II.
(P. 90) Todas as vezes que ocorre um descentramento, dá se inversamente um recentramento, como se uma economia-mundo não pudesse viver sem um centro de gravidade, sem um pólo.
(P. 91) Crises econômicas fortes, abatem o centro antigo, já antes ameaçado, e confirma a emergência do novo centro.
Centramento, descentramento e recentramento parecem estar ligados, em regra, a crises prolongadas da economia geral.
(P. 94) O esplendor, a riqueza, a felicidade de viver, concentram-se no centro da economia-mundo, no seu coração. Ai se evidenciam os preços e os salários elevados, a banca, as mercadorias, as indústrias lucrativas, as agriculturas capitalistas.
(P. 95) Este nível de existência desce um traço, na escala, quando chegamos aos países intermediários, vizinhos do centro. Nestes, há poucos, camponeses livres, poucos homens livres, trocas imperfeitas, organizações bancárias e financeiras incompletas, muitas vezes mantidas do exterior, indústrias relativamente tradicionais.
Quando nos debruçamos sobre as regiões marginais à situação fica inda pior.
(P. 96) Por exemplo: A economia-mundo européia, em 1650, é a justaposição, a coexistência de sociedades, que vão de uma sociedade já capitalista como a holandesa, até sociedades onde a imprensa a servidão e a escravatura, no funda da escala.
Esta simultaneidade, este sincronismo, levanta-nos, de novo e ao mesmo tempo, todos os problemas: o capitalismo vive deste escalonamento regular: As zonas exteriores alimentam as zonas médias e sobretudo,  as zonas centrais. E o que é o centro, senão a ponte dominante, a superestrutura capitalista de toda a construção?
Como há uma reciprocidade de perspectiva, se o centro depende dos abastecimentos da periferia, esta depende das necessidades do centro, que lhe dita a sua lei.
(P. 97) Daí, o peso da afirmação de Immanuel Wallerstein: o capitalismo é uma criação da desigualdade no mundo, para se desenvolver, precisa da conivência da economia internacional. É filho da organização autoritária de um espaço sem dúvida desmedido. Não teria surgido tão vicejantemente[2] num espaço econômico restrito. Talvez nem sequer tivesse surgido sem o recurso ao trabalho servil dos outros.
 Esta tese apresenta uma interpretação bem diversa do habitual modelo em seqüência: escravidão, servidão, capitalismo.
Põe em destaque uma simultaneidade, um sincronismo demasiado singular para não ter um vasto alcance. Mas não explica, nem pode explicar tudo.
Pelos menos em relação a um determinado ponto, que penso ser essencial para as origens do capitalismo moderno, isto é, tudo o que passa para além das fronteiras da economia-mundo européia.
III.
 (P. 98) Note-se que, até por volta de 1750, esses centros dominadores foram sempre cidades. Cidades-estado.
(P. 99) Podemos dizer que Amsterdã, que em meados dos séc.XVIII domina o mundo da economia, foi a ultima “polis” da história.
Surge Londres, nova soberana, não é uma cidade-estado, é a capital das Ilhas Britânicas, o que lhe dá força de um mercado nacional.
Temos portanto duas fases: A das criações e dos domínios urbanos. E a das criações e dos domínios nacionais.
Até 1750, a Europa terá girado sucessivamente em torno de cidades essenciais, que pelo seu papel, se transformam em monstros sagrados: Veneza, Antuérpia, Gênova, Amsterdã.
(P. 103) Uma economia nacional é um espaço político que foi transformado pelo Estado, devido às necessidades e às inovações da vida material, em um espaço econômico coerente, unificado, cujas atividades podem ser desenvolvidas em conjunto numa mesma direção. Só a Inglaterra terá podido realizar tal façanha precocemente.
Nesse país, é costume falar-se em revoluções: revolução agrícola, política, financeira, industrial. Será necessário acrescentar a esta lista a revolução que criou o mercado nacional inglês.
(P. 104) Otto Hintze foi um dos primeiros a subliminar a importância dessa transformação, que se deve à relativa abundância dos meios de transporte, num território bastante pequeno.
As províncias inglesas trocam os seus produtos e exportam-nos por intermédio de Londres, tanto mais que o espaço inglês se libertou muito cedo de alfândegas e de portagens internas. E por último, a Inglaterra efetuou a sua união com a escócia em 1701, e em 1801, com a Irlanda.
(P. 105) Londres, centro econômico e político desde o séc. XVI. Formou-se rapidamente, modelou o mercado inglês, de acordo com suas conveniências, ou seja, conveniência dos grandes comerciantes da cidade.
(P. 106) A insularidade da Inglaterra ajudou-a a separar-se dos outros, a libertar-se das ingerências do capitalismo estrangeiro.
(P. 107) Com a ascensão de Londres, vira-se mais uma pagina da história econômica da Europa e do mundo, pois a afirmação da preponderância econômica da Inglaterra, preponderância que abrange a liderança política, marca o fim de uma era multissecular, a das economias dirigidas por cidades e a das economias-mundo.
Pela primeira vez, a economia mundial européia, atropelando as outras economias, vai pretender dominar a economia mundial e identificar-se com ela.
IV.
(P. 108) A revolução industrial inglesa, foi para a continuação da preponderância da ilha, como um banho de rejuvenescimento, um contrato renovado com o poder.
Pretendo assinalar em que medida a industrialização inglesa segue os esquemas e os modelos que tracei e em que medida ela se integra na história geral do capitalismo, tão rica já em golpes de teatro.
Convém tornar claro que o termo revolução é aqui utilizado em sentido inverso. Revolução é um movimento de uma roda, de um astro que gira, um movimento rápido: desde o movimento em que se inicia, sabemos que vai terminar, bastante depressa.
Ora, a Revolução Industrial foi um movimento lento por excelência e difícil de detectar, no inicio. O próprio Adam Smith viveu no meio dos primeiros indícios, sem se dar conta.
(P. 111) Por que a Inglaterra?
Existem várias versões inglesas sobre o fato. Mas a tendência é para considerar, cada vez mais, a Revolução Industrial um fenômeno lento e de conjunto, vinculado por causas longínquas e profundas.
O que nos parecerá mais surpreendente é o fato de o boom da Revolução das Maquinas inglesa, da 1º produção em massa, ter podido desenvolver-se, no final do séc. XVIII e para além do séc. XIX, num fantástico crescimento nacional.
(P. 112) Os campos esvaziaram-se da população masculina, na Inglaterra, mantendo, simultaneamente, a sua capacidade de produção. Os novos industriais encontraram a mão-de-obra, qualificada ou não, de que necessitavam. O marcado interno continuou a desenvolver-se, não obstante a alta de preços. A técnica cumpriu o seu papel, prestando regularmente os serviços necessários. Os mercados externos abriram-se, em cadeia, um após o outro. E mesmo os lucros descendentes (como o algodão) não provocaram qualquer crise, pois os capitais acumulados transferiram-se para os caminhos de ferro.
Em suma, todos os setores da economia inglesa corresponderam às exigências dessa súbita aceleração na produção, nada a bloqueou.
(P. 113) A Revolução inglesa não teria certamente sido o que foi se não se verificassem circunstâncias que fizeram, da Inglaterra praticamente a senhora incontestável do mundo inteiro.
A Revolução Francesa e as guerras napoleônicas contribuíram para isso.
E se o boom do algodão se instalou extensa e duradouramente, foi porque a abertura de novos mercados (América, império Turco, as Índias...) permitiu sempre pôr o motor de novo em movimento.
O mundo foi, eficaz e involuntariamente, cúmplice da Revolução Inglesa.
Para essa tese existem: os que aceitam apenas uma explicação interna do capitalismo e da Revolução Industrial pela transformação (local) das estruturas socioeconômicas. E os que aceitam apenas a explicação externa (a exploração imperialista do mundo na verdade).
(P. 114) Não explora o mundo quem quer. É necessário para isso possuir de antemão um poder lentamente amadurecido. Que embora resulte de uma lenta ação sobre si, reforça-se pela exploração dos outros. No decurso desse duplo processo, a distância entre esse poder e os outros aumenta.
As duas explicações (interna e externa) estão inextricavelmente ligadas.
Braudel termina fazendo uma análise: o que penso acerca do mundo e do capitalismo de hoje vistos à luz do mundo e do capitalismo de ontem é: é certo que o capitalismo atual mudou extraordinariamente de envergadura e proporções. Ajustou-se às dimensões das trocas de base e dos meios ampliados. Porém a natureza do capitalismo não mudou radicalmente.
Para provar Braudel apresenta três argumentos:
(P. 115) 1º o capitalismo assenta, ainda, sobre uma exploração dos recursos e das possibilidades internacionais. Existe à escala mundial, ou pelo menos as pira o mundo inteiro. Atualmente, o seu maior problema é refazer esse universalismo.
2º apóia-se ainda e sempre, em monopólios de direito ou de fato, apensar de todas as violências que por essa razão se tem desencadeado contra si. A organização continua a conseguir contornar o mercado. E não é justo considerar esse fato como algo absolutamente novo.
3º apesar do que geralmente se diz, o capitalismo não abarca toda a economia, toda a sociedade em atividade. Não consegue encerrar nem uma, nem outra, num sistema, o seu, que seria perfeito.
(P. 116) Tudo isso confirma a opinião de Braudel:
O capitalismo decorre das atividades orgânicas de cúpula, ou que tendem para a cúpula. E este capitalismo de grande fôlego paira sobre uma dupla camada subjacente, constituída pela vida material e pela economia corrente de mercado e representa uma faixa de lucro elevado.
Bibliografia:
BRAUDEL; Fernand: “A Dinâmica da Capitalismo”. Ed. Teorema, Lisboa 1985, (pág 12-116).

[1] Mudança ou diversidade de coisas que se sucedem; instabilidade das coisas.
[2] Vicejantemente: Exuberantemente 

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