quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Christian Laville: “A Guerra das Narrativas: debates e ilusões em torno do ensino de história”.

A história é certamente a única disciplina escolar que recebe intervenções diretas do Estado
Fichamento realizado por: William C. T. Rodrigues  
(P. 126) Antes da segunda guerra mundial, o principal motivo da matéria história nas escolas era o da educação cívica. Seu principal objetivo era a confirmação da nação e do governo no poder naquele momento. Com o uso de uma narrativa que exaltava os grandes heróis da nação, os grandes feitos da nação,etc.   (...)
Essa maneira de se ensinar história foi se tornando menos necessária quando as nações perceberam que estavam bem assentadas e cessaram de temer por sua própria existência. No ocidente o fim da II Guerra foi o marco desse momento.
Com a vitória da democracia era necessária a participação dos cidadãos tirando-se a idéia do “cidadão súdito”. O ensino de história viu sua função de educação para a cidadania substituir sua função de instrução nacional.
(P. 127) Para constatar essa mudança basta examinar os programas propostos e o discurso com o qual é apresentado atualmente o ensino de história.
Entretanto, sempre que é evocado o motivo para a matéria história existir, constata-se que há um retorno a idéia de formação da nação.
Exemplo (1): Para Manter a Ordem Estabelecida.
Para esse exemplo Laville usa três países ocidentais, cristãos, ricos e democráticos: EUA, Inglaterra e França.
O que está em jogo nos debates políticos a respeito dos conteúdos do ensino da história é a manutenção de uma determinada tradição.
(P. 128) Nos EUA quando surgiu um projeto federal de história que abrangia outras culturas e minorias sociais, houve um tremendo rebuliço, a direita se enfureceu, pois, a abertura ao conhecimento de outras culturas poderia levar a civilização branca, cristã ocidental ao fim, e ao abrir à história a outros grupos sociais como as mulheres, os negros, os imigrantes sobraria muito pouco tempo para os heróis nacionais.
(P. 129) Na Inglaterra os professores gozavam de grande liberdade, pois, não havia um programa nacional para essa disciplina. O governo Margaret Thatcher procurou acabar com essa prática, já que segundo ela ensinava-se pouco sobre a Inglaterra e seu passado glorioso. Dever-se-ia ensinar uma memória comum britânica.
Na França entre a década de 1970 e 80 implantou-se um programa que rompia com a forma de se ensinar história que estava em vigência desde a III República. Houve indignação generalizada entre os políticos e a reforma não resistiu.
(P. 130) É interessante notar quanto interesse, quanta vigilância e quantas intervenções o ensino de história suscita nos mais altos níveis. A história é certamente a única disciplina escolar que recebe intervenções diretas dos altos dirigentes e a consideração ativa dos parlamentares. Isso mostra quão importante ela é para o poder.
Exemplo (2): Quando os Estados se Reconstituem.
Entre as decisões tomadas pelos vencedores ao fim da II Guerra, houve a de proibir o ensino de história ministrada nos países vencidos, a fim de neutralizar seus conteúdos factuais antes de substituí-los por outros.
Os ex-países do leste europeu oferecem inúmeros exemplos disso. Com a queda da URSS, mal a transição começou, o ensino de história já era submetido à revisão: revisão dos programas e dos manuais. Essa revisão consiste em reescrever; apagando aquilo que se quer esquecer do antigo regime e introduzindo ou reintroduzindo o que parece necessário para a construção ou consolidação da memória coletiva que se quer agora.
(P. 132) Nessas história, encontram-se freqüentemente os antigos defeitos das historiografias nacionalistas.
Exemplo (3): Para Lutar Contra o Estado.
(P. 133) As vezes são grupos dissidentes que atacam as narrativas históricas impostas ao ensino pelo Estado.
No Japão há várias décadas historiadores e professores combatem a censura que o ministério da educação exerce sobre o conteúdo dos manuais. Tudo o que, aos olhos do ministério, poderia diminuir a imagem positiva do Japão na história é proibido. Para contar os fatos, é preciso utilizar um vocabulário padronizado.
(P. 134) A narrativa histórica pode também ser vista como uma tomada de poder por grupos sem poder. Um exemplo disso é o Brasil, onde, os professores de história haviam lutado, durante a ditadura, para conseguir um programa cujo conteúdo fosse definido de acordo com seu ponto de vista de militantes.
Exemplo (4): Definir uma Identidade Supranacional.
Todos os exemplos anteriores de fixação em relação à narrativa histórica e à sua manipulação ocorriam no âmbito da nação. Mas pode ocorrer que se queira oferecer uma narrativa situada além desse contexto.
(P. 135) É o caso do projeto ISESCO que propôs aos alunos dos países muçulmanos um programa islâmico único de ensino de história. Trata-se de ensinar, aos alunos dos diferentes países, que, apesar de suas identidades nacionais, eles pertencem antes de tudo à grande comunidade dos muçulmanos. Com matérias feitas sob medida para dar uma roupagem única para a identidade almejada.
Finalizando.
O primeiro paradoxo: Enquanto na maioria dos países se diz que o objetivo do ensino da história é desenvolver nos alunos as capacidades de que o cidadão precisa para ser crítico e participativo, entretanto o ensino de história , ainda é, reduzido a uma narrativa fechada, destinada a moldar as consciências e a ditar as obrigações e os comportamentos para a nação.
(P. 136) Daí parte o segundo paradoxo: O de acreditar que o ensino de história possa desempenhar esse tipo de papel. (P. 137) Nesse fim de século, com tantos meios de comunicação, é possível que a narrativa histórica não tenha mais tanto poder. 

Bibliografia:
LAVILLE; Christian: “A Guerra das Narrativas: debates e ilusões em torno do ensino de história”. Rev. Brasileira de História, SP, vol.19, nº38, 1999. pág 125-138.

2 comentários: