terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Participação das Diferentes Classes sociais na França (1848-1852) segundo Karl Marx.

Qual foi o papel de cada classe social francesa nestes emblemáticos 4 anos (1848-1852) segundo Marx.
A burguesia industrial liderando a revolução de fevereiro de 1848 põe fim à monarquia de julho do rei Luiz Felipe que foi instaurada em 1830 e cria a segunda república onde se instaura o governo provisório. A burguesia industrial republicana tem destaque especial neste momento, pois como vanguarda revolucionaria organiza e lidera uma coalizão de classes com o intuito de derrubar a aristocracia. Essa ampla aliança de classes é formada pela burguesia industrial de tendências republicanas e liberais, a pequena burguesia de tendências democratas, a classe operária de tendências socialistas utópicas e a massa camponesa de forma esporádica.  (...)
Essa coalizão de classes forma o governo provisório comprometido em convocar uma assembléia nacional constituinte.
O problema é que os interesses da classe operária eram antagônicos aos interesses das outras classes sociais. E diante da incapacidade da burguesia francesa em aderir às reivindicações da classe operária esta resolveu assumir a frente do processo revolucionário promovendo em junho de 1848 a primeira revolução socialista da história. Do massacre resultante desta fracassada insurreição surge o general cavaignac.
Com essa revolta, a burguesia industrial e todas as outras classes possuidoras da França se organizam em alianças temendo outras insurreições. O medo de outra insurreição operária, faz com que a burguesia francesa se jogue nos braços de Luiz Bonaparte. Em dezembro de 1848 Luiz Bonaparte ganha as eleições
A partir de 1848 a burguesia, não só na frança, como em toda a Europa perdeu todo seu caráter revolucionário, cedendo seu poder político em troca da conservação do poder econômico. A partir deste momento a classe operária torna-se a vanguarda da revolução.
Em 1849 a pequena burguesia na busca de regulamentar a constituição de forma democrática, da inicio a uma insurreição que também é massacrada. As outras classes possuidoras então se organizam em torno do partido da ordem. Um partido formado para a contenção da revolução. E em maio de 1850 o partido da ordem abole o sufrágio universal voltando ao voto censitário, deixando bem claro as três maiores classes numericamente falando (operária, pequena burguesia e campesinato), que seus interesses seriam “atropelados”.
Essas três classes então recorrem, mesmo a contra gosto de seus lideres políticos, a Luiz Napoleão, aquele que dentro do Estado ainda é oposição ao partido da ordem. E assim em dezembro de 1851 Bonaparte da o golpe e o partido da ordem é incapaz de evitá-lo.
Iniciando-se assim a primeira ditadura moderna, concentrando todos os poderes, porém, com sufrágio universal. Consolidando seu golpe em novembro de 1852, quando Luiz Bonaparte se auto-proclama imperador Napoleão III.

A PARTICIPAÇÃO DAS DIFERENTES CLASSES SOCIAIS NA FRANÇA ENTRE 1848-1852 SEGUNDO KARL MARX EM O 18 BRUMÁRIO.

Analise da Política como Farsa no Golpe de Napoleão III.

Karl Marx (1818-1883) em seu livro “O 18 Brumário de Luíz Bonaparte” analisa o golpe aplicado por Luiz Bonaparte em 1852, em que o mesmo proclamou-se imperador assumindo o título de Napoleão III e criando o segundo império Francês. O próprio título do livro de Marx é carregado de ironia, pois traz a data do golpe de Napoleão Bonaparte contra o diretório, deixando bem claro a tentativa do sobrinho de imitar o tio. O 18 Brumário foi publicado em 1852, alguns meses após o golpe de Luiz Bonaparte, e por esse motivo desempenhou crítica ferrenha ao regime de Napoleão III.
Marx inicia seu livro relembrando o pensamento de outro célebre filosofo alemão: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes.” e completa “E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
Fica clara a posição de Marx ao golpe de Luiz Bonaparte, ele não passaria de uma sombra, uma caricatura de Napoleão Bonaparte, onde, para legitimar-se no presente é necessário buscar raízes no passado, mesmo que essas raízes não passem de devaneios e invenções.
A busca por legitimidade cria a política como farsa. A política apenas com cópia mal feita de eventos passados e esses eventos passados nada mais são do que cópias mal feitas de um passado ainda mais distante.
O objetivo desta afirmação é levar o leitor, contemporâneo dos acontecimentos franceses de 1851, a compreender que a repetição (mal feita) da história nada mais é do que uma farsa, uma busca por legitimidade e alertar que Napoleão III não é Napoleão I, pois, Luiz Bonaparte somente utiliza-se de sua memória para manter-se o poder.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Receita de como se criar um marginal

No Brasil os jovens pobres são massacrados. São simplesmente carne barata.
Por: William Cirilo Teixeira Rodrigues
Falcão Mv Bill Composição: Mv Bill
Jovem, preto, novo, pequeno.
Falcão fica na laje de plantão no sereno.
Drogas, armas, sem futuro.
Moleque cheio de ódio invisível no escuro, puro.
É fácil vir aqui me mandar matar, difícil é dar uma chance a vida.
Não vai ser a solução mandar blindar.
O menino foi pra vida bandida.

  Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, Brasil. 25 de novembro de 2010. “É fácil vir aqui me mandar matar, difícil é dar uma chance a vida”.
  O Traficante.
  Como se forma um marginal?
  A receita é fácil e o governo brasileiro é especialista em fazer esse prato. Os ingredientes são simples, pois, utiliza-se apenas de carne barata.
   Modo de preparo: Pegue um menino e de a ele através da televisão milhares de sonhos, mostre pela novela família bem estruturadas e café da manhã com a mesa farta, durante o comercial ofereça tênis e lindas roupas de grife, mostre que sem aquela determinada marca ele será rejeitado pelas garotas.
  No momento em que ele estiver em meio a um mundo de fantasia que é uma mistura de Gabriel García Márquez e Michael Ende, tire todas as suas esperanças por meio da realidade que o cerca. Deixe que vá a escola e seja hostilizado por usar roupas ganhadas na campanha do agasalho, que sua única refeição é aquela feita na escola e que tenha mesmo em idade escolar trabalhar, ou mesmo pedir esmolas para ajudar sua família.
  Deixe-o crescer em uma sociedade onde o ter é mais importante que o ser. Onde o Ter um carro é mais importante que Ser honesto.
  Apresente a realidade como imutável e irreversível e mostre como exemplo claro seu pai ou sua mãe, que apesar de sempre trabalhar e andar de acordo com a lei mora em um barraco a beira de um precipício. Deixando bem claro a esse garoto que o trabalho e a melhoria de vida não estão ligados, e que até mesmo são antagônicos.
  Misture tudo isso a um Estado ausente e a uma polícia repressora dos mais pobres.
Enquanto vaga pelas vielas de seu bairro apresente a esse jovem o tráfico de drogas, apresente a ele o poder intimidador de um fuzil e todo o dinheiro fácil, dê a ele as roupas que sempre sonhou, deixe-o andar com a moto que sempre viu na TV. Diga a ele que é a única maneira de ter uma vida melhor, nem que seja por alguns dias, está na marginalidade.
  E agora que a receita está pronta é só matar...Sirva com Ibope de 60 pontos no Jornal Nacional. A receita dá para milhões de espectadores brasileiros e é bastante apreciada com carnificina.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Odisseia de Homero

Homero foi o primeiro grande poeta grego.Teria vivido no séc. VIII a.C, período coincidente com o ressurgimento da escrita na Grécia. Consagrou o gênero épico com as obras Ilíada  e Odisséia. 
Por Marcelo José Ferreira
Introdução.
A mitologia grega reflete dentre outras emoções, sentimentos, afetividades, força, honradez, beleza, fala sobre guerras, poder, vida, morte, bem e mal. Enfim, usa essas narrativas para contar sobre a origem das coisas. Sem esquecer que essas coisas são incontestáveis e inquestionáveis. E essa história em particular onde Ulisses é o protagonista de um vasto ciclo de lendas, com tantas viagens e aventuras que arrebatam qualquer leitor.
 Resumo do Livro
.Ulisses fazia dois anos de casado com a bela Penélope, quando estourou a guerra de Tróia. Tudo fez para não ir mais foi obrigado a partir.Durante a guerra mostrou sua prudência e o valor de seus estratagemas. Quando a guerra acabou, Ulisses rumou para Ítaca, porém a sorte lhe foi adversa durante dez anos.
.Atirado por um furacão sobre as costas de Cicônia, seus marujos ao comerem um fruto chamado loto, se esqueceram de ter cuidados e responsabilidades. Mal tinham se recobrado da aventura quando enfrentou o Ciclope de Polifemo filho de Poseidon. Os ciclopes eram uma raça de gigantes de um olho só, que ocupavam uma fértil região atraindo Ulisses, esse se dirigiu para a caverna de ciclope e ele quando chegou lá com seu rebanho de ovelhas já os encontrou. Fez algumas perguntas sobre quem eram, de onde vinham e sem mais perguntas pegou dois marujos espatifou-os no chão e os comeu. Os fez de refém e foi dormir, no dia seguinte comeu mais dois e saiu para pastorear suas ovelhas. Ulisses passou a arquitetar um plano para sair dali. Achou um grande pedaço de madeira fez uma lança amolou bem a ponta e esperou o retorno de Ciclope, esse ao retornar aceitou vários potes de um vinho muito forte que Ulisses ofereceu e esse conversando e contando suas façanhas ia distraindo Ciclope, que perguntou o seu nome e Ulisses respondeu “outis” que em grego é ninguém.Ciclope disse a ele que iria ser o ultimo a ser comido, e dormiu embriagado de tanto vinho. Ulisses aproveitou e cravou sua lança em seu olho, Ciclope começou a urrar de dor, o que chamou a atenção de outros ciclopes que moravam por perto, como sua caverna ficava fechada por uma grande pedra eles gritaram lá de fora: Tem alguém te atacando e Ciclope respondia “outis” ou seja, ninguém e eles se foram sem maiores preocupações. No dia seguinte Ciclope sem enxergar abriu sua caverna para deixar suas ovelhas passarem e junto a elas amarrados em suas barrigas todos os marujos e Ulisses. E foi assim que ele deixou a ilha de ciclope.
.Ulisses velejou até Eólia, cujo rei, Eólo, tinha recebido dos deuses o poder sobre os ventos.Foram recebidos com hospitalidade e quando foram embora Ulisses ganhou de presente do rei uma bolsa de couro com ventos tempestuosos aprisionados. Eólo Mandou uma boa brisa os acompanhar até Ítaca e por 10 dias foi o que aconteceu.Ulisses ficava no leme o tempo todo, mas dormiu e nesse momento seus marujos com curiosidade e inveja abriram sua bolsa de couro libertando os ventos, esse provocou uma grande tempestade que os arremessou as praias dos povos antropófagos chamados Lestrigões, logrando escapar, foi Ulisses dar á ilha de Ea, onde morava a maga Circe que transformava humanos em animais. Ele a enfrentou, e a cativou, salvou seus marujos e permaneceu com ela por um ano, de vez enquanto lembrava-se de Ítaca. Circe sugeriu que antes de seu retorno a sua terra natal deveria visitar o mundo inferior ou reino dos mortos para consultar o profeta Tebano Tirésias e esse lhe dar instruções para esse retorno.
.Assim Ulisses navegou e atracou perto do bosque de Perséfone. Lá na margem ele cavou uma vala e colocou oferendas como mel, água, leite, vinho e sobre tudo isso sangue de uma ovelha negra. Atraídos pelo cheiro de sangue as almas dos mortos surgiram para beber, o primeiro a aparecer foi Elpenor um de seus marujos que morreram na ilha de Circe e não teve enterro, Ulisses prometeu que assim que pudesse resolveria isto. Quando Tirésias apareceu bebeu o sangue e disse que Ulisses tinha boa possibilidade de seu retorno a salvo para casa, mas deveria se certificar de não pilhar o rebanho do sol da ilha de Trinácia, também o alertou sobre a situação que encontraria em Ìtaca, onde pretendentes astutos estavam cercando sua esposa fiel Penélope. Ulisses deixou outras almas se aproximarem o que lhe possibilitou falar com elas. A outra alma que surgiu foi de sua mãe que lhe contou como tinha sido sua morte, o estado lamentável de seu pai e os bravos esforços de sua esposa em repelir seus pretendentes. Penélope confeccionava uma colcha e dizia que quando acabasse escolheria um de seus pretendentes, só que à noite ela desfazia todo trabalho que fizera durante o dia e assim ela postergava uma decisão.Ulisses pode ver muitos heróis que estavam por ali. Mas em determinado momento tantas foram as almas que apareceram, que Ulisses teve que ir embora correndo e muito assustado para seu navio e retornou ao mundo dos vivos.
.Ulisses retornou a ilha de Circe para sepultar Elpenor e Circe deu mantimentos e instruções para sua jornada.
.O navio velejou primeiro pela ilha das sereias, terríveis criaturas com cabeças e vozes de mulher mais corpo de pássaros que existiam com o propósito de atrair marinheiros para o fundo do mar com suas canções. Quando o barco se aproximou uma calmaria enorme se abateu sobre o oceano e a tripulação usou remos de acordo com as instruções de Circe e tampos de cera nos ouvidos para não ouvir seu canto e Ulisses foi amarrado ao mastro para que pudesse sair a salvo pelo perigo e ainda ouvir a canção. “Venha para perto Ulisses” cantavam as sereias. Ulisses gritou que o soltassem, mas esses não podiam ouvi-lo e remaram até que o perigo passou.
.Sai-se bem dos perigos de “sila” e “caribde” respectivamente um mostro de um rodamoinho terrível.
.Depois seu navio aproximou-se da ilha de Trinácia, um local de pastos fartos onde Apolo mantinha seu rebanho de gado.Ulisses tinha sido alertado tanto por Circe e por Tirésias que se esperava chegar a Ítaca vivo, deveria evitar o local. .Explicou isso aos seus homens mais esses cansados e deprimidos insistiram em lançar ancora para passar a noite na praia, deparando com um motim Ulisses não teve o que fazer a não ser fazê-los prometer em não tocar no gado, naquela noite fez-se uma tempestade e por todo o mês o vento soprou sendo impossível zarpar.Enquanto possuíam previsões que Circe tinha lhes dado os homens mantiveram sua promessa, mas movidos pela fome aproveitaram uma oportunidade em que Ulisses tinha se ausentado e abateram alguns gados e resolveram sacrificar um para abrandar a ira dos deuses. Ao retornar Ulisses sentiu o cheiro de carne assada, a repreensão seria inútil, pois o mal já tinha sido feito e os deuses estavam determinados à vingança. Quando o vento amainou zarparam, mas nem bem se afastaram umas terríveis tempestades surgiu e um raio caiu sobre o barco que toda tripulação se perdeu. Ulisses foi o único a se salvar. Permaneceu no mar por dez dias agarrado o destroço até que foi jogado nas areias de Pgigia onde morava a ninfa Calipso, filha do oceano, ela se tornou sua amante e ficaram por sete anos juntos, pois Ulisses também não tinha como escapar. A deusa Atena acabou enviando Hermes para explicar a ninfa que o visitante tinha que ir embora, Calipso apesar de relutante sabia que devia obedecer e assim forneceu material para fazer uma jangada, deu-lhe comida, bebida e invocou um vento suave para levá-lo na ultima etapa da viagem. Sem incidentes aproximou-se da terra dos Feácios, grandes marinheiros que estavam destinados a levá-lo na ultima etapa de sua viagem. Mas Poseidon intervém, detestava Ulisses pelo que tinha causado em seu filho Ciclope Polifemo e agora irado por vê-lo tão próximo de terminar sua jornada, enviou uma tempestade que partiu seu mastro e a deixou a deriva dos ventos. Ulisses foi salvo da morte pela ninfa Ino que lhe deu um véu, instruindo que se amarra ao redor da cintura abandonasse o barco e nadasse até a praia.Quando uma onda grande despedaçou sua jangada Ulisses fez o que tinha sido lhe dito e por dois dias nadou em frente e no terceiro alcançou as praias de feácia e acabou conseguindo chegar à costa de onde atirou de volta ao mar o véu de Ino, e descansou.
.Chegou à ilha de Ítaca disfarçado de mendigo. Revelou sua identidade a seu filho Telêmaco e depois de matar os pretendentes de sua esposa, recuperou o reino.Movimento esse que conclui sua odisséia.
 Conclusão
.Ulisses foi um exemplo de força, grandiosidade, astúcia e bom senso, valentia e prudência, um modelo de marinheiro e comerciante.Um estrategista fantástico. Um sedutor irresistível que deixava as mulheres a sua mercê. Uma fonte inesgotável de inspiração do homem em superar adversidades.
Sua esposa Penélope perpetuou como símbolo um modelo de fidelidade e honradez.
A mitologia grega é uma forma de educar e direcionar o cidadão grego e com esses exemplos de história a figura do herói é de extrema importância.È imprescindível para formação de sua cultura.
O Homem que graças a sua sagacidade consegue sobreviver pode demorar, mas colhe sem duvidas as riquezas de sua escolha acertada (a razão o rege). O homem que não desiste, que tem o senso de medida é o mais inteligente (ele era prudente).Homem viril consegue o que quer porque além de permitido ele prova sua masculinidade (ele conquistava todas as mulheres).E as mulheres devem ser fiéis a seus homens desde aquela época, mas até hoje a sociedade continua machista (vide Penélope, que esperou por Ulisses até o fim).Ele deve ter Kairós, ou seja, o momento oportuno para resolver as coisas.
.Torna-se um respeitado rei e herói aquele que passa por tantas adversidades em que prova e comprova sua importância e competência. Esse é o princípio que deve permear o cidadão grego.

Bibliografia:

.A Odisséia de Homero

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Adam Smith e as Instituições Histótricas na Segundo Metade do Século XVIII.

Adam Smith (1723-1790), "pai" da economia economia moderna e mais importante teórico do liberalismo econômico.  
Por: João Pedro L. Cassiano

“Acontece que muitas vezes as leis conservam sua vigência ainda muito depois de cessarem de existir as circunstâncias que lhes deram origem, circunstâncias essas que constituíam a única justificativa razoável de tais leis”.
         Adam Smith

O objetivo desse trabalho é analisar o livro terceiro de Adam Smith, intitulado “A diversidade do progresso da riqueza nas diferentes nações”. Trata-se de um esforço para compreender a noção de história presente nesse livro. Essa noção ficará mais clara quando estudarmos a história de duas instituições, a saber: a lei da primogenitura e o morgadio e o papel desempenhado pelas mesmas ao longo da história.
 Para Adam Smith, em toda sociedade política, existia uma forma de organização da sociedade que era baseada na “ordem natural das coisas”.  Essa ordem prevaleceu por um longo tempo, até que ela foi invertida e, em seu lugar, surgiu outra. Na ordem antiga, a riqueza só aumentaria se houvesse um aumento da produtividade na agricultura, que era a grande fonte de riqueza, isto é, a principal atividade geradora da riqueza. Na nova ordem, chamada de antinatural, o comércio passou a desempenhar o papel que era da agricultura. Assim, pela ação destruidora do comércio, a ordem das coisas mudou radicalmente.
Assim, o comércio, ao aumentar seu raio de ação para vários cantos do mundo, levando novos hábitos, gerou a necessidade de mais produtos para abastecer essas regiões. As manufaturas, por sua vez, cresceram e passaram a comprar mais produtos brutos do campo. O resultado disso foi a alteração da cadeia produtiva.
Embora essa situação estivesse presente na sociedade, isto é, fosse praticada pelos comerciantes, ainda existia uma série de obstáculos para o progresso dessa sociedade. Trata-se de algumas instituições feudais que, em outros tempos, foram primordiais para a sociedade e agora tinham se tornado obsoletas.
 Portanto, para a riqueza continuar crescendo era fundamental a destruição dessas instituições, no caso a primogenitura e o morgadio, que pertenciam à antiga ordem e ainda tinham um grande peso na sociedade. Elas estavam atravancando o desenvolvimento da riqueza. Eram instituições feudais que garantiam a permanência de grandes propriedades improdutivas. Para Smith, o problema era porque essas propriedades não estimulavam a produção. Os valores da nobreza proprietária de terra, não permitiam que eles utilizassem à terra de forma produtiva, visando à busca do excedente. Em parte isso ocorria devido à primogenitura e o morgadio, instituições que não permitiam a venda ou divisão da grande propriedade.
Para entendemos a crítica que Smith fez a essas instituições, podemos dividir a ação delas em dois momentos distintos. No primeiro momento, quando o objetivo dos homens não era a riqueza, elas desempenharam um papel fundamental para a sociedade. No segundo, quando a riqueza se transformou na mola da sociedade, elas passaram a ser um entrave para os homens. Daí, a razão da crítica de Smith.
A seguir, veremos como Adam Smith investigou a história com o objetivo de apontar soluções para os problemas do seu tempo.
            O comércio realizado entre o campo e a cidade beneficia a todos. O campo, com o excedente produzido, abastece a cidade; esta, em contrapartida, abastece o campo com produtos manufaturados e artigos de luxo. Acontece que muitas vezes as cidades necessitam dos produtos de outros países porque os produtos produzidos no próprio país não são suficientes para a manutenção da cidade; daí a necessidade do comércio com outros países. Segundo Adam Smith, essa seria a chamada “ordem natural das coisas”. Assim, por essa ordem, os homens, em qualquer época e país se dedicariam, em primeiro lugar, à agricultura, em seguida, à manufatura, e, em terceiro, ao comércio a longa distância.
            Essa ordem seria a responsável pelo “equilíbrio” entre a produção do campo e a produção da cidade - isso dentro de um país. Assim, o campo só teria condição de adquirir mais produtos da cidade se aumentasse a área cultivada ou a produtividade por algum melhoramento. Assim, o desenvolvimento, aumento da riqueza, estava subordinado à agricultura, ou seja, a riqueza só aumentaria com melhorias na agricultura. Segundo Adam Smith: “... se as instituições humanas não tivessem interferido no curso natural das coisas, a riqueza progressiva e o crescimento das cidades seriam, em toda sociedade política, conseqüência da melhoria e do cultivo da região ou do país, sendo também proporcional a essa melhoria e a esse cultivo”. (SMITH, 1996 p.375).
            Portanto, pela “ordem natural”, o capital era investido, em primeiro lugar, na agricultura, em segundo, na manufatura, e, em terceiro lugar, no comércio exterior. Contudo essa ordem foi invertida nos modernos países da Europa, onde o comércio externo foi o fator que desencadeou o crescimento da riqueza nesses países em um ritmo muito maior do que a ordem natural. Através do comércio externo, algumas cidades desenvolveram suas manufaturas, que, por sua vez, provocou melhoramentos na agricultura. A partir desse momento, a ordem natural estava invertida: o comércio externo passou ocupar o lugar que era da agricultura.
            Depois da queda do Império romano houve um período de desordem. Nesse período surgiram duas instituições que tiveram o papel de reorganizar a sociedade, a lei primogenitura e o morgadio. Essas duas instituições tinham a função de garantir a segurança da sociedade. Pela lei da primogenitura, com a morte do proprietário, a terra seria entregue ao filho mais velho, para evitar que ela fosse dividida entre os filhos. O morgadio, por sua vez, impedia que a terra herdada pelo filho mais velho fosse dividida, vendida ou alienada. Já que naquele período, qual seja, depois da queda do Império Romano, a divisão da terra significaria a ruína de todos, pois ninguém tinha condição de garantir sua própria segurança. Não existia um Estado que garantisse a segurança de todos. O nobre era o grande guerreiro dessa sociedade. Sua função era zelar pelos moradores que estavam sob sua jurisdição. Assim havia um compromisso mútuo entre os camponeses e os senhores de terra. Os camponeses trabalhavam para todos, e, em troca, recebiam segurança dada pelo senhor feudal. Em resumo, a função dessas instituições era garantir a manutenção da grande propriedade, que era uma condição necessária para a vida dos homens.
            Contudo, no momento que Smith escrevia, isto é, na Europa da segunda metade do século XVIII, os principais países já estavam constituídos, e, por isso, já existia uma série de leis que protegiam a propriedade, fosse ela pequena ou grande; assim, a lei da primogenitura e do morgadio perderam sua razão de ser. Elas se tornaram um empecilho para o “progresso” da sociedade. O morgadio se transformou em um privilégio da nobreza para manter a propriedade da terra. Em conseqüência, a agricultura não recebia melhorias, devido a grande extensão da propriedade, principalmente devido à mentalidade da nobreza, que não visava o lucro. Essas propriedades deviam passar para mãos de pessoas ligadas a atividades produtivas.
            O objetivo da sociedade que surgiu depois da queda do império romano não era o lucro. Este, não era uma necessidade para sociedade feudal. Com isso não havia interesse em fazer melhorias na terra. Os trabalhadores também não tinham interesse em fazer melhorias na terra. A maioria dos trabalhadores era formada por escravos ou servos, que estavam presos a terra. Toda melhoria que eles eventualmente fizessem pertencia ao patrão, ao dono da terra, por isso não tinham o menor interesse em aumentar a produtividade. Na época de Smith, a servidão estava abolida em várias partes da Europa, mas continuava em outras, como, por exemplo, na Rússia. Além disso, existiam outros obstáculos para a produção, como o dízimo e a propriedade cultivada por meeiros. Estes tinham que dividir tudo que produzisse ao meio, com o proprietário da terra.
            Depois da queda do império romano, apenas negociantes e artífices moravam nas cidades. Os habitantes do cidade obtiveram a liberdade mais cedo do que os habitantes do campo, por assim dizer, estavam livres da servidão. No burgo, eles gozavam de certa liberdade e podiam organizar a administração da cidade conforme seus interesses. Para isso, pagavam um imposto anual ao rei.
            Assim, enquanto os trabalhadores no campo trabalhavam pela subsistência, na cidade, devido à boa administração, à liberdade e à segurança “... Os cidadãos têm segurança de gozar dos frutos do trabalho, empenham-se naturalmente em melhorar sua condição e em adquirir não somente o necessário, mas também os confortos e o luxo que a vida pode proporcionar”. (SMITH, 1996, p. 394).
            O progresso das cidades aumentou bastante quando estas passaram a negociar com regiões distantes. As cidades que têm mais facilidades para realizarem esse comércio de longa distância são aquelas localizadas na costa marítima ou próxima de rios. Essas cidades conseguiam sua subsistência de várias regiões, sua fonte de subsistência e comércio era diversificada, isso gerou um progresso muito rápido dessas cidades. Por isso “... Foi possível uma metrópole crescer e atingir alto grau de riqueza e de esplendor, enquanto que não somente o país próximo, bem como todos os países com os quais essa rica cidade comerciava, permaneceram na maior pobreza e miséria”. (SMITH, 1996, p. 394).
            A cidade contribuiu de três formas para o progresso da agricultura: primeiro, estimulou a produção da agricultura por causa do aumento da procura por produtos do campo. Segundo, os habitantes da cidade, quando ficavam ricos com o comércio, investiam seu dinheiro na compra de terra. Contudo, o dinheiro que o comerciante investia na terra era com o objetivo de obter o lucro. Para isso, ele fazia melhorias que aumentava a produção da terra. O aristocrata, ao contrário, não tinha o hábito para os negócios e, por isso, não visava o lucro em suas propriedades.
            Terceiro, a ordem e a boa administração foram introduzidas no campo por causa do comércio. Os habitantes do campo conheceram a liberdade e segurança para se dedicarem à agricultura. A ausência do comércio exterior acarreta desperdício dos produtos da agricultura. A maior parte dos produtos excedentes era consumida em banquetes pelos nobres. Não havia o hábito de vendê-los ou trocar por produtos manufaturados. O comércio externo veio demolir esse hábito e introduzir o gosto pelo lucro. Nas palavras de Smith:
Entretanto, o que toda a violência das instituições feudais jamais poderia ter conseguido, o foi gradualmente pela operação silenciosa e insensível do comércio exterior e das manufaturas. Com o decorrer do tempo, o comércio exterior e das manufaturas foram fornecendo aos grandes proprietários rurais alguma coisa graça à qual podiam trocar todo o excedente da produção de suas terras, produtos esses que podiam eles mesmos consumirem, sem terem que partilhá-los com seus rendeiros ou clientes (SMITH, 1996, p. 402).
Para Smith, o comércio externo foi a maior revolução desse momento. Ele foi aos poucos destruindo instituições seculares da sociedade. Mudando os hábitos dos homens. Para encerrar citaremos mais um passagem que julgo significativa, porque revela a forma como Smith enxergava o funcionamento da sociedade. Para ele, na busca do seu interesse, o homem, sem querer, sem ter consciência desse processo, contribuiria para o bem da sociedade.
Dessa maneira, uma revolução da maior importância para o bem estar público foi levada a efeito por duas categorias de pessoas, que não tinham a menor intenção de servir ao público. A única motivação dos grandes proprietários era atender a mais infantil das vaidades. Por outra parte, os comerciantes e os artífices, embora muito menos ridículos, agiram puramente a serviço de seus próprios interesses, fiéis ao principio do mascate, de com um pêni ganhar outro. Nem os proprietários nem os comerciantes e artífices conheceram ou previram a grande revolução que a insensatez dos primeiros e a operosidade dos segundos estavam gradualmente fermentando (SMITH, 1996, p. 406).  
Ao longo do texto procurei mostrar como Adam Smith entendia o funcionamento da sociedade e as transformações sofridas por essa ao longo da história. Entendo que ao fazer a crítica da lei de primogenitura e do morgadio, ele estava condenando a sociedade feudal, ou o que ainda restava desta. Por assim dizer, a base se sustentação dessa sociedade foi demolida. Contudo, na Inglaterra, essa sociedade já tinha perdido sua função há muito tempo. Restando apenas alguns resquícios em algumas regiões.
           
Referência Bibliográfica:

SMITH, Adam. A Diversidade do Progresso da Riqueza nas Diferentes Nações. In: A Riqueza das Nações. São Paulo: Nova Cultura, 1996.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda.

Sérgio Buarque de Holanda foi um dos maiores "explicadores" do Brasil.
Sérgio Buarque de Holanda, paulista da capital, nasceu em 11 de julho de 1902 e veio a falecer no dia 24 de abril de 1982 então com 79 anos. Em 1921 mudou-se para o Rio de Janeiro onde matriculou-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, atual UFRJ, onde graduou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1925.  Ao longo da década de 1920 representou o modernismo paulista junto a capital carioca.
Durante dois anos(1929-1930) foi correspondente dos Diarios Associados em Berlim. De volta ao Brasil continuou seu trabalho de jornalista e em 1936 assumiu o cargo de professor assistente da Universidade do Distrito Federal. Neste mesmo ano casou-se com Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim, com quem teve sete filhos, entre eles Chico Buarque.  (...)
Ainda em 1936 publicou seu ensaio Raízes do Brasil.
Após a extinção da Universidade Federal da Capital 1939, Sérgio Buarque passou uma longa temporada nos EUA, regressando somente em 1946, fixando residência em São Paulo para assumir a direção do Museu Paulista, posição que ocuparia por quase 10 anos. Em 1958, assumiu a cadeira de História da Civilização Brasileira, agora na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. No mesmo ano ingressou na Academia Paulista de Letras. Entre 1963 e 1967 foi professor convidado no Chile e nos EUA, mas em 1969, num protesto contra a aposentadoria compulsória de colegas da Universidade de São Paulo pelo então vigente regime militar, decidiu encerrar a sua carreira docente. Apesar disso nunca parou de escrever, permanecendo intelectualmente ativo até 1982 quando veio a falecer. Dois anos antes de sua morte participou da cerimônia de fundação do PT.
Contexto Histórico.
Mundo:
Hitler ascende ao cargo de chanceler na Alemanha.
Tem início a Segunda Guerra Mundial 1939.
Nos Estados Unidos,Franklin Roosevelt dá início ao New Deal, o plano de recuperação econômica após a quebra da bolsa de Nova York, em 1929.
Os movimentos totalitários começam a eclodir também em outros países europeus, com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Francisco Franco na Espanha e Stálin na União Soviética, além de Hitler na Alemanha.
Brasil:
Sérgio Buarque de Holanda é extremamente influenciado pela semana de arte moderna.
No Brasil, ocorre a Revolução de 30, movimento que chega ao poder encabeçado pelo político gaúcho Getúlio Vargas.
Em 1932 inicia a Revolução Constitucionalista, organizada pelo estado de São Paulo, que exige, entre outros pontos, a constitucionalização do novo regime. O movimento é derrotado, mas força a convocação da Assembléia Constituinte em 1933. Em 1934 seria promulgada a nova Constituição.
Chega ao fim a política do café-com-leite e tem início o Estado Novo, em novembro de 1937. Ao longo do restante da década não seriam realizadas eleições no país (as eleições só voltariam com o fim do Estado Novo, em 1945).
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(TEXTO Nº 29)
HOLANDA; Sérgio Buarque de: “Raízes do Brasil”. SP. Cia das letras, 2002. Pág.141-151.
O Homem Cordial:
Família X Estado:
Diferente do que muitos pensam o Estado não é uma ampliação da família, não é sua evolução. A família e o Estado são antagônicos.
O Estado apenas surge graças à transgressão da ordem familiar, quando triunfa o geral sobre o particular e somente ai a ordem familiar é abolida.
Pedagogia moderna e as virtudes anti-familiares:
Sérgio Buarque de Holanda propõe a abolição da velha ordem patriarcal e suas relações sociais baseadas na idéia de pai autoritário, mãe submissa e filhos amedrontados.
Segundo ele, essa maneira de criação amarra o desenvolvimento da criança e cria um adulto com dificuldade de iniciativa, de mudar a ordem social, de desenvolvimento intelectual.
Essa criação dura da família patriarcal prende o jovem a uma estrutura conservadora.
E a luta contra essa criação deve ser a bandeira da moderna pedagogia. Criar homens contestadores, críticos e de opinião própria. Separando família de Estado.
Patrimonialismo:
Graças à essa forma de criação do homem brasileiro, é de extrema dificuldade a ele entender onde acaba o privado e começa o público.
O funcionário patrimonial utiliza-se então do público para interesses particulares.
É por isso que Sérgio Buarque busca na moderna pedagogia a saída para essa questão.
O homem cordial:
A hospitalidade, a generosidade, etc são virtudes que representam o caráter do povo brasileiro.
Mas segundo Sérgio Buarque toda essas boas maneiras não significam civilidade e sim a expressão de um grande fundo emotivo.
Para o homem cordial a vida em sociedade é a libertação do pavor que ele sente por ele mesmo.
Para que o homem cordial viva em sociedade ele precisa estabelecer laços de intimidade e não somente a manifestação de respeito mútuo.
Um exemplo disso, é que no Brasil se abole o sobrenome para assim não criar barreiras entre famílias diferentes.
Essa emotividade e tentativa de estabelecer intimidade espalha-se por todos os âmbitos da vida social, até mesmo onde não deveria, como nos negócios e nos ritos religiosos que se afrouxam e se humanizam.
Esse é o motivo, pelo qual nenhuma, elaboração política no Brasil deve se basear somente na razão. Ela deve sempre apelar para a emoção e os sentimentos.
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(TEXTO Nº 30) CARVALHO; Marcus Vinicius Corrêa: “Outros Lados Sérgio Buarque de Holanda crítica literária, história e política (1920-1940)”.Tese de doutorado publicada pela UNICAMP. Pág 145-175.
Raízes do Brasil.
A publicação:
A tese de doutorada de Marcus Vinicius Corrêa Carvalho, tem como objetivo inicial demonstrar em qual ambiente editorial foi lançado o livro “Raízes do Brasil” e depois nos....(completar).
Segundo Carvalho, Sérgio Buarque foi para a Alemanha já com um projeto em mente, que tinha como objetivo trabalhar com a idéia de formação nacional ou mesmo de história brasileira. E morando na Europa ele teve a oportunidade de visualizar o “seu próprio país como um todo” indo muito além dos regionalismos.
Nesta primeira parte o autor faz uma análise histórica sobre as relações e os bastidores que envolveram a produção do livro Raízes do Brasil pela gráfica e livraria de José Olimpio Pereira Filho.
O livro raízes do Brasil foi lançado em 1936 pela coleção Documentos Brasileiros editada por Gilberto Freyre e que tinha como principal objetivo concorrer com a coleção Brasiliana da Cia. Editora Nacional. Assim que foi publicado Freyre achou o livro de Sérgio Buarque a coisa mais linda em editoração no Brasil.
Entretanto, algum tempo depois do lançamento do livro, Olimpio confessou a Jorge Amado suas desilusões com o empreendimento editorial, este por sua vez o aconselhou a editar livros mais populares e de baixo custo. Jorge Amado criticou a forma como o livro de Sérgio Buarque foi concebido, o achando sóbrio demais.
A editora de Olimpio era estruturada pela articulação de uma complexa rede de amizades e disputas, sendo esta as relações que permearam a publicação de Raízes dó Brasil e a profissionalização de Sérgio Buarque como escritor. Esse fato é importante para se entender que a dificuldade da difusão do Raízes do Brasil foi causada em especial por Jorge Amado que acreditava que esse livro não ultrapassaria os círculos intelectuais ficando preso a eles.
Análise de Marcus V. C. Carvalho, sobre a obra
Pode se interpretar o surgimento do  Raízes do Brasil como um tentativa de se equacionar as questões que surgiram entre os meios intelectuais da qual Buarque também fazia parte. Sendo apenas um esforço de interpretar a especificidade “americanista”, buscando “originalidade nacional” para se entender a os elementos constituintes da” formação nacional”.
Sérgio Buarque de Holanda Buscava uma interpretação da tradição nacional, contrariando a idéia de alguns intelectuais, como Graça Aranha e Ronald de Carvalho, que acreditavam que a formação do Brasil aconteceu graças a minúsculos grupos intelectuais.
Segundo Buarque seu livro pode ser interpretado como um “estudo compreensivo”. Onde segundo ele o Brasil foi o único país, no mundo, bem sucedido na transplantação da cultura européia para os trópicos, a única “civilização nos trópicos”. Isso influenciou as formas de se viver, de se relacionar e de visão do mundo dos brasileiros.
Esse fato criou a idéia de incompatibilidade entre essas “formas culturais européias” e o calor tropical, que desde os primórdios da colonização portuguesa até Sérgio Buarque acreditava-se que nós “somos desterrados em nossa terra”. Nunca nos adaptaríamos ao Brasil e sempre nos sentíramos estrangeiros.
Além da problemática entre “imitação” e “originalidade”. Onde começa e onde acaba a cultura européia no Brasil, e onde começa e onde a nossa própria cultura da qual nos orgulhamos? Então é necessário que se estabeleça as fronteiras entre uma e outra, para a partir daí investigar e alimentar nossa própria cultura.
 Sérgio Buarque buscava uma interpretação da tradição nacional propriamente brasileira, para assim acabar com a idéia de que nós brasileiros somos “desterrados em nossa própria terra”, reforçando assim o sentido de pertencimento, do brasileiro a uma tradição e uma cultura que seja 100% nossa.
Segundo Carvalho, há elementos que comprovem a influência de Wilhelm Dilthey sobre Holanda, no entendo ele não faz nenhuma referência direta a Dilthey no Raízes do Brasil. Suas primeiras referências a ele aparecerão somente na década de 50.
Em Raízes do Brasil há três núcleos conceituais: Tradição, Cultura e Vida que Holanda utiliza para estruturar seu “estudo compreensivo”.
Esses núcleos se apresentam bem claros no início do Raízes do Brasil, quando o autor crítica a tentativa de importar “sistemas de outros países modernos”. Já que Sérgio Buarque acredita um cultura só absorve outra quando encontra uma possibilidade de ajuste aos seus “quadros de vida”
Tradição:
Sérgio Buarque apresenta a “tradição” como um fio temporal a ser “atualizado” mediante os “quadros de vida”. Uma tradição só é atualizada quando é entendida pelas próximas gerações, fato este, que não é controlado e ocorre de forma espontânea.
Tradição Ibérica.
Os ibéricos apesar de sua antipatia pelo “culto ao trabalho” e ao “culto pela atividade utilitária”, tinham uma pequena capacidade de organização social.
E essa ausência de amor ao trabalho era compensada pelas vinculações emotivas no recinto doméstico ou entre amigos. Resultando no fato de que a obediência seria a suprema virtude e o único principio político verdadeiramente relevante.
O Brasil é fortemente influenciado por essa tradição.
A colonização portuguesa foi feita no Brasil por homens aventureiros, que ignoravam fronteiras e “colhiam o fruto sem plantar, a árvore” e não por homens trabalhadores.
Esse tipo de colonização foi decisivo para a vida nacional.
Esses aventureiros aclimataram-se rapidamente, aprendendo muitas técnicas indígenas.
Diferentemente dos espanhóis que não conseguiram se ambientar na América.
Essa facilidade de ambientar, segundo Buarque, vem do sangue português que já era um sangue mestiço, esse fato foi determinante para o não alastramento da idéia de orgulho racial entre os portugueses. Sendo este também o motivo das instituições escravistas no Brasil, segundo Sérgio Buarque, serem tão brandas e moles permitindo a entrada da influência negra dentro de suas residências.
Portanto para Sérgio Buarque a “´plasticidade social” portuguesa implicava em uma somatória do personalismo, do espírito aventureiro e da mestiçagem estabelecendo um embasamento psicofísico para formular sua noção de formas de vida.
Ruralismo.
O ruralismo é mais um nível da persistência cultural da forma de vida portuguesa no Brasil.
A nostalgia dos laços afetivos deixou vestígios patentes em nossa sociedade, em nossa política e em todas as nossas atividades.
Devido à falta de trabalho manual livre e com uma classe média incipiente, os antigos senhores rurais assumiram o domínio das funções públicas, estendendo seu domínio rural, patriarcal e doméstico para as instituições estatais.
A noção de homem cordial foi emprestada de uma Carta de Ribeiro Couto ao mexicano Alfonso Reyes, que sintetizava a visão de mundo personalista e da forma de vida ruralista.
Para o homem cordial é quase impossível participar das formas ritualistas do convívio social, como a atitude polida.
O homem cordial apenas utiliza-se da polidez como uma máscara para manter sua supremacia frente o social.
Sérgio Buarque criticava os Positivistas e os liberais democráticos, pois, estes acreditavam que a democracia no Brasil era um lamentável mal entendido. E para ele a abolição em 1888, representou o fim do predomínio agrário e a Proclamação da República logo em seguida tentou responder aos anseios desse fato. Esses acontecimentos seriam os mais revolucionários de nossa história nacional, apesar de lento deixa-se para traz essa tradição ibérica no Brasil e começa a se formar uma cultura própria no estilo americano.
Os traços ibéricos ainda não haviam sido abolidos pelas próprias insuficiências do americanismo.
Um ponto chave para o afastamento entre a tradição ibérica é a tentativa de respostas e soluções espontâneas e americanistas, sem a utilização de métodos europeus.
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Sites Pesquisados.
http://www.unicamp.br/siarq/sbh/
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/brasil/2002/07/03/001.htm
Bibliografia.
HOLANDA; Sérgio Buarque de: “Raízes do Brasil”. SP. Cia das letras, 2002. Pág.141-151.

CARVALHO; Marcus Vinicius Corrêa: “Outros Lados Sérgio Buarque de Holanda crítica literária, história e política (1920-1940)”.Tese de doutorado publicada pela UN