quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Questões de Fronteira de Lilia Katri Moritz Schwarcz.

A Historiadora e Antropologa Lilia Katri Moritz Schwarcz neste artigo trata das fronteiras entra a antropologia e a história.
Lilia Katri Moritz Schwarcz
Lilia Katri Moritz Schwarcz graduada em História pela Universidade de São Paulo (1980), tornou-se mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (1986), doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (1993), e livre-docênte em Antropologia Social pela USP (1998). Atualmente é professora titular da Universidade de São Paulo (2005), editora da Companhia das Letras (onde coordena coleções de não ficção), membro do advisory group - Harvard University, membro do Conselho Científico do Instituto de Estudos Avançados da UFMG, sócia do IHGB, membro da conselho da Revista da USP, da Revista de História da Biblioteca Nacional, da Revista Brasileira de Ciências Sociais, da Revista Etnográfica (Lisboa) e da revista Penélope (Lisboa), coordenadora do GT/ Anpocs de Pensamento Social. Foi professora visitante e pesquisadora nas universidades de Leiden, Oxford, Brown e Columbia (Tinker Professor). Foi curadora de uma série de exposições que aliam história, artes e antropologia. Tem experiência na área de Antropologia e História, com ênfase em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, Marcadores de Diferênça e História do Império brasileiro, atuando principalmente nos seguintes temas: Brasil monárquico, escravidão, construções simbólicas, história da antropologia , etnicidade, construções imagéticas e identidade social. (...)
QUESTÕES DE FRONTEIRA.
Neste artigo intitulado Questões de Fronteira, publicado originalmente na revista Novos Estudos organizada pelo CEBRAP(Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), a autora Lilia Katri Moritz Schwarcz tenta traçar um parâmetro, uma fronteira entre a História e a Antropologia. Em até que ponto uma influi na outra e vice-versa. Ela faz essas análises a partir do diálogo com as obras de Lévi-Strauss, Marchall Sahlins e Thomas Mann, entre outros. E por fim analisa a questão da noção do tempo em outras culturas além da ocidental.
História Antropológica ou Antropologia da História?
Nesta primeira parte do texto a autora se propõe a investigar momentos em que a antropologia refletiu na história. E como antropólogos e historiadores reagiram a isso. Sempre levando em conta o fato de que para a etnografia, não se pode entender a história no singular.
Lilia Schwarcz faz uma pergunta: “É possível definir história como um conceito universal. Já que a experiência comum da passagem do tempo é consensual, mas também particular?” e completa “a história pode ser tomada com uma disciplina, ou como uma categoria fundamental?”
Ou seja, todas as sociedades têm sua própria maneira de marcar a passagem do tempo, o que não quer dizer algumas estão erradas e outras certas, apenas que são diferentes. Além do mais, preenchem todas as necessidades daquela sociedade.
Para tal, a autora busca compreender como a antropologia entende e registra a história em todas as sociedade inclusive a ocidental. Ai encontra-se o grande dilema, onde acaba a história e começa a antropologia, que papel a história assumiu na constituição da antropologia, onde encontra-se essa fronteira?
História como conjuntura ou ausência de história.
Ao surgir, a antropologia estava imbuída do pensamento Darwinista e alguns antropólogos do século XIX acreditavam que existiam alguns povos que não aviam evoluído e ainda estava no chamado estado primitivo. Esses antropólogos acreditavam que a Europa representava o auge da evolução, pois ele evoluíra cumulativamente rumo ao progresso e que esses povos ainda estariam na infância. Então, se esses povos não tinham história, no sentido ocidental da palavra(Cronológica, documentada,etc.), não havia o que se estudar.
Foi nesse momento que antropólogos, culturalistas norte-americanos e funcionalistas ingleses, decidiram distanciaram-se da história, da diacronia[i] e do evolucionismo.
Franz Boas (1858-1942) propôs que se procurassem desenvolvimentos particulares em cada sociedade. Não que se trouxesse a história de um povo isolado para a história ocidental, o que seria praticamente impossível uma vez que a maioria desses povos não dominavam a escrita, mas que se procurasse nesses povos o porque de seu desenvolvimento ter ocorrido de forma diferente da ocidental e de tantas outras. Sem transformar a história “deles” em nossa história.
Outras histórias, tantas histórias
Para Evans-Pritchard o debate acirrado entre história e antropologia era necessário e indispensável, uma vez que as duas disciplinas se complementam. Ele acreditava, que apesar da antropologia estudar o presente, era de extrema importância que em todo projeto antropológico se fizesse um resgate histórico, pois, para ele não existia sociedade sem história.
Lévi-Strauss chegou a conclusão em seu livro Raça e História que todas as sociedades tem história, mesmo os povos chamados anteriormente de “povos crianças”, a única diferença e como cada uma dessas sociedades espalhadas pelo planeta se relacionam com a história. Cada povo se relaciona com o conhecimento histórico a sua maneira. Alguns povos têm um modelo fixo, progressivo e acumulativo de se relacionar com a história, outras se utilizam de um modelo cíclico, sempre aberto a mudanças e que muitas vezes apagam seus vestígios. Para Claude Lefort a etnologia deveria trabalhar com esses questões, segundo suas próprias palavras “Por que, uma mesma humanidade, às voltas com as mesmas questões, da a elas soluções diferentes?”
Lévi-Strauss acreditava que a grande diferença entre história e antropologia nos procedimentos, os historiador estuda muitos documentos e o antropólogo apenas um. E nas consciências dos povos frente a história, o historiador estuda os conscientes e a antropologia os inconscientes.
Uma antropologia das historicidades e seus vários caminhos.
Em 1970, influenciados por interpretações enganosas de Lévi-Strauss, os antropólogos se dividiram entra aqueles que se opunham a estrutura e sua condenação da história e aqueles que utilizavam da estrutura.
Marshall Sahlins se considerava um “estruturalista histórico” e fazia uso da antropologia histórica e considerava que a grande dificuldade dela era saber como os eventos são ordenados pela cultura. Além de acreditar que do contato entre duas culturas, ambas sairiam alteradas. Clifford Geertz em sua passagem pela Indonésia elabora criticas a filosofia ocidental e defende que a história de uma civilização pode ser descrita de duas maneiras: ou pela progressão dos grandes acontecimentos ou pelo desenvolvimentos sociocultural. Os dois autores acreditam que o presente é determinado pelo passado, mas a resposta de cada sociedade a esse passado se aconteceu e acontece de forma diferente.
Temporalidade em nossa história ocidental.
Lévi-Strauss é claro quando diz que “em nossas sociedades a história substituiu a mitologia e desempenha a mesma função. E se para as sociedades sem escrita essa mitologia assegura que o passado foi igual ao presente e que o futuro se manterá fiel a esse passado, para o ocidente a história garante que o futuro será muito diferente do presente.
A grande questão ai, é o fato de que, se as outras culturas carregam “história no plural” o ocidente também, não sendo apenas um conjunto de sociedades que tem como ordem do dia a cronologia.
O tempo da montanha.
Por fim, o grande desafio do ocidente é encontrar as várias histórias que ocorrem dentro dele. E a antropologia em conjunto com a história é de fundamental importância para essa análise rumo ao interior de minha própria sociedade.
Sites consultados:
Bibliografia:
SCHWARCZ; Lilia K.M: “Questões de Fronteira” Revistas novos estudos. Nº72, julho de 2005.


[i] Diacronia: Caráter dos fenômenos Lingüísticos observados quanto a sua evolução no tempo. 

2 comentários:

  1. Sou licenciada em Artes Visuais e comecei o curso de pós-graduação em História Cultural, sendo que os professores passaram vários textos para o próximo encontro, porém, por um equívoco, não pedi, na copiadora o texto "Questões de Fronteira" de Lilia M. Schwarcz.
    Imagine, lendo o texto, nós leigos, nos sentimos perdidos, quanto mais não o lendo!!
    Seu artigo, neste caso, foi bastante esclarecedor.
    Obrigado!

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  2. Obrigado pelos elogios, sempre que possível dê uma "passadinha" pelo blog, sempre posto novidades.

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