quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As Origens do Totalitarismo de Hannah Arendt.


1: UMA SOCIEDADE SEM CLASSES.
1. AS MASSAS:
(P.355)  Nada caracteriza melhor os movimentos totalitários que a surpreendente facilidade com que são substituídos.  (...)
(P.356)  Essa impermanência tem certamente algo a ver com a volubilidade das massas e da fama que as tem por base; mas seria talvez mais correto atribuí-la à essência dos movimentos totalitários, que só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia.
Seria um erro esquecer, em face dessa impermanência, que os regimes totalitários, enquanto no poder, e os líderes totalitários, enquanto vivos, sempre “comandam e baseiam-se no apoio das massas”. Não se pode atribuir essa popularidade ao sucesso de uma propaganda.
(P.357)  Pois a propaganda dos movimentos totalitários, que precede a instauração dos regimes totalitários e os acompanha, é tão fraca quanto mentirosa, e os governantes totalitários em potencial geralmente iniciam suas carreiras vangloriando-se de crimes passados e planejando crimes futuros. A experiência mostrou que o valor propagandístico do mal e o desprezo geral pelos padrões morais, supõem-se ser o fator psicológico mais poderoso na política.
Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazista ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento; mas mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, esta disposto a colaborar com a própria condenação e morte para que seu status como membro do movimento permaneça intacto.
(P.358)  A identificação com o movimento e o conformismo total parecem ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja a tortura ou o medo morte.
Os movimentos totalitários objetivam e conseguem organizar as massas (não as classes e nem os cidadãos). Todos os grupos políticos dependem da força numérica, mas não na escala dos movimentos totalitários, que dependem da força bruta, a tal ponto que os regimes totalitários parecem impossíveis em paises de população relativamente pequena.
Depois da Primeira Guerra mundial, uma onda antidemocrática e pró-ditatorial de movimentos totalitários varreu a Europa.
(P.360)  Em todos esses paises menores da Europa, movimentos totalitários precederam ditaduras não totalitárias, como se o totalitarismo fosse um objetivo demasiadamente ambicioso, e como se o tamanho do país forçasse os candidatos a governantes totalitários a enveredar pelo caminho da ditadura de classe ou partido. Sem muita possibilidade de conquistar territórios, os ditadores desses pequenos países eram obrigados à moderação, sem as quais corriam o risco de perder os poucos súditos de que dispunham.
(P.361)  A moderação não se devia tanto ao receio dos governos de que pudessem haver rebeliões populares; resultavam de uma ameaça mais séria: O despovoamento de seus próprios países. Somente onda há grandes massas supérfluas que podem ser sacrificadas é que se torna viável o governo totalitário, diferente do movimento totalitário.
Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. As massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto.
(P.362)  O sucesso dos movimentos totalitários entre as massas significou o fim de duas ilusões dos países democráticos.
A primeira foi a ilusão de que o povo participava ativamente do governo e todo individuo simpatizava com um partido ou outro. Esses movimentos, pelo contrário, demonstraram que as massas politicamente neutras e indiferentes podiam facilmente constituir a maioria nem país de governo democrático e que, portanto, uma democracia podia funcionar de acordo com as normas que eram na verdade aceita apenas por uma minoria.
A segunda foi de que essas massas politicamente indiferentes não importavam, que eram realmente neutras e que nada mais constituíam senão um silencioso pano de fundo para a vida política da nação. Agora, os movimentos totalitários demonstravam que o governo democrático repousava na silenciosa tolerância e aprovação dos setores indiferentes e desarticulados do povo.
(P.363)  É difícil perceber onda as organizações da ralé do séc. XIX diferem dos movimentos de massa do séc. XX, porque os modernos líderes totalitários não diferem muito em psicologia e mentalidade dos antigos líderes da escória. Embora o individualismo caracterizasse tanto a atitude da burguesia como a da ralé em relação a vida, os movimentos totalitários podem afirmar terem sido os primeiros partidos realmente anti-burgueses.
(P.364)  A relação entre a sociedade de classes dominada pela burguesia e as massas que emergiram do seu colapso não é a mesma entre a burguesia e a ralé, que era um subproduto da produção capitalista. As massas tem em comum com a ralé apenas uma característica, ambas estão fora de qualquer ramificação social e representação política normal.
O colapso do sistema de classes significou o colapso do sistema partidário, porque os partidos, cuja função era representar interesses, não mais podiam representá-los, uma vez que a sua fonte e origem eram as classes.
(P.365)  O primeiro sintoma do colapso do sistema partidário não foi a deserção dos antigos membros do partido, mas o insucesso em recrutar membros dentre a geração mais jovem e a perda do consentimento e apoio silencioso das massas desorganizadas, que subitamente deixavam de lado a apatia e marchavam para onde vissem oportunidade de expressar a sua violenta oposição.
A queda das paredes protetoras das classes transformou as maiorias adormecidas, que existiam por trás de todos os partidos, numa grande massa desorganizada e desestruturada de indivíduos furiosos que nada tinham em comum exceto a noção de que as esperanças partidárias eram vãs.Essa massa de homens insatisfeitos e desesperados aumentou rapidamente na Alemanha e na Áustria após a Primeira Guerra Mundial.
Foi nessa atmosfera de colapso da sociedade de classes que se desenvolveu a psicologia do homem-de-massa da Europa. Julgava, a si próprio, em termos de fracasso individual e criticava o mundo em termo de injustiça específica. Esse egocentrismo trazia consigo um claro enfraquecimento do instinto de autoconservação. A consciência da desimportância e de dispensabilidade deixava de ser a expressão da frustração individual e tornava-se um fenômeno de massa.
(P.366)  Homens de letras e estadistas europeus predisseram, a partir do séc. XIX, o surgimento do homem da massa e o advento de uma era da massa. Nem o mais sofisticado individualismo evitava aquele auto-abandono em direção à massa que os movimentos de massa propiciavam.
(P.372)  A imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não-politicos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. O totalitarismo que se preza deve chegar ao ponto em que tem de acabar com a existência autônoma de qualquer atividade que seja. Jogar xadrez apenas por amor ao xadrez, demonstra que ainda não foram absolutamente atomizados todos os elementos da sociedade, cuja uniformidade inteiramente homogênea é a condição fundamental para o totalitarismo.
(P.373)  Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos lideres dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder decorre da alegação de que a organização abrangerá no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado não é preparado por um movimento totalitário (como foi o caso da Rússia), o movimento deve ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento.
A lealdade total só é possível quando a fidelidade é esvaziada de todo o seu conteúdo concreto, que poderia dar azo[1]a mudanças de opinião. Os movimentos totalitários, cada um a seu modo, fizeram o possível para se livrarem de programas que especificassem um conteúdo concreto. Todo objetivo político que não inclua o domínio mundial é um entrave para o totalitarismo.
(P.375)  O totalitarismo jamais se contenta em governar por meios externos, ou seja, através do Estado e de uma maquina de violência. Ele descobriu um meio de subjugar e aterrorizar os seres humanos internamente, elimina a distância entre governantes e governados. Essencialmente, o líder totalitário é nada mais que um funcionário das massas que dirige; não é um individuo sedento de poder impondo aos seus governados uma vontade tirânica e arbitrária. Ele depende tanto do desejo das massas que a incorpora, como as massas dependem dele. Sem ele, elas não teriam representação externa e não passariam de um bando amorfo; sem as massas, o líder seria uma nulidade.
Nem o nacional-socialismo nem o bolchevismo jamais afirmaram que o seu objetivo seria alcançado com a tomada do poder e o controle da maquina estatal. Sua idéia de domínio é algo que nenhum Estado ou mecanismo de violência jamais pôde conseguir, mas que é realizável por um movimento totalitário constantemente acionado.
(P.376)  A tomada do poder através dos instrumentos de violência nunca é um fim em si, mas apenas um meio para um fim, e a tomado do poder em qualquer país é apenas uma etapa transitória e nunca o fim do movimento. O fim prático do movimento é amoldar à sua estrutura o maior número possível de pessoas, aciona-las e mantê-las em ação.

2: O MOVIMENTO TOTALITÁRIO.
1. A PROPAGANDA TOTALITÁRIA.
(P.390)  Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo: as massas devem ser conquistadas por meio da propaganda. Nos países totalitários, a propaganda e o terror parecem ser duas faces de uma mesma moeda. Quando o totalitarismo detém o controle absoluto, substitui a propaganda pela doutrinação e emprega a violência não mais para assustar o povo (o que é feito nos estágios iniciais , quando ainda existe a oposição política), mas para dar realidade às suas doutrinas ideológicas e às suas mentiras utilitárias.
(P.391)   Por existirem em um mundo que não é totalitário, os movimentos totalitários são forçados a recorrer a propaganda. Mas essa propaganda é sempre dirigida a um público de fora, sejam as camadas não-totalitárias da população do próprio país, sejam os países não-totalitários do exterior.
(P.392)  Sempre que uma doutrinação totalitária no país de origem entra em conflito com a linha de propaganda para consumo externo (como na Rússia, durante a guerra, quando Stalin teve que se aliar as democracias para combater Hitler), a propaganda é explicada no país de origem como temporária “manobra tática”. Estabelece-se logo na fase anterior a tomado do poder, a diferença entre a doutrina ideológica destinada aos iniciados do movimento, que já não precisam de propaganda, e a propaganda para o mundo exterior.
(P.393)  A relação entre a propaganda e a doutrinação depende do tamanho do movimento e da pressão externa. Quanto menor o movimento, mais energia despenderá em sua propaganda. Quanto maior for a pressão exercida pelo mundo exterior sobre os regimes totalitários mais ativa será a propaganda totalitária. As necessidades da propaganda são sempre ditadas pelo mundo exterior. A doutrinação, aliada ao terror, cresce na razão direta da força do movimento ou do isolamento dos governantes totalitários que os protege da interferência externa.
A propaganda é parte integrante da “guerra psicológica”, mas o terror é mais. Mesmo depois de atingido o seu objetivo psicológico, o regime totalitário continua a empregar o terror; o verdadeiro drama é que ele é aplicado contra uma população já completamente subjugada. Em outras palavras a propaganda é um instrumento do totalitarismo, possivelmente o mais importante, para enfrentar o mundo não-totalitário; o terror ao contrário, é a própria essência da sua forma de governo.
O terror como substituto da propaganda alcançou maior importância no nazismo do que no comunismo. Os nazistas matavam pequenos funcionários socialistas ou membros influentes dos partidos inimigos, procurando mostrar à população o perigo que podia acarretar o simples fato de pertencer a um partido. Para a população em geral,tornava-se claro que o poder dos nazistas era maior que o das autoridades, e que era mais seguro pertencer a uma organização paramilitar do que ser um republicano leal.
(P.394)  Contudo, o que caracteriza a propaganda totalitária é o uso de insinuações indiretas, veladas e ameaçadoras contra todos os que não derem ouvidos aos seus ensinamentos. Além da forte ênfase que a propaganda totalitária dá a natureza “cientifica” das suas afirmações. O cientificismo da propaganda totalitária é caracterizado por sua insistência quase exclusiva na profecia “cientifica”, em contraposição com o apelo ao passado, já tão fora de moda.
(P.395)   A propaganda totalitária aperfeiçoou o cientificismo ideológico e a técnica de afirmações proféticas a um ponto de eficiência metódica e absurdo de conteúdo porque a melhor maneira de evitar de evitar discussão é tornar o argumento independente de verificação no presente e afirmar que só o futuro lhes revelará os méritos. Contudo, não foram ideologias totalitárias que inventaram esse método e não foram elas as únicas a emprega-lo. O cientificismo da propaganda de massa tem sido empregado de modo universal na política moderna, o totalitarismo parece ser apenas o último estágio.
(P.397)  O sucesso da propaganda totalitária se deve tanto a sua demagogia, quanto ao conhecimento de que o interesse, como força coletiva, só se faz sentir onde um corpo social estável proporciona a necessário conexão motora entre o indivíduo e o grupo; nenhuma propaganda baseada no mero interesse pode ser eficaz entre as massas, já que sua característica principal é não pertencerem a nenhum corpo social ou político e constituírem um verdadeiro caos de interesses individuais. O fanatismo dos membros dos movimentos totalitários resulta da falta de egoísmo interesseiro dos indivíduos que formam as massas e que estão perfeitamente dispostos a se sacrificarem pela idéia.
(P.398)  A principal qualificação de um líder de massas é a sua infinita infalibilidade; jamais pode admitir que errou. Uma vez no poder, os líderes da massa cuidam de algo que esta acima de quaisquer considerações utilitárias; fazer que suas predições se tornem verdadeiras. O efeito propagandístico da infalibilidade estimulou nos ditadores totalitários o hábito de anunciar as suas intenções políticas sob a forma de profecias.
(P.399)  Esse método, como outros da propaganda totalitária, só é infalível depois que os movimentos tomam o poder. Os lideres das massas ao tomarem o poder fazem com que a realidade se ajuste as mentiras que proclamaram. O método da predição infalível revela o seu objetivo último de conquista mundial, pois somente num mundo inteiramente sob seu controle pode o governante totalitário dar realidade prática às suas mentiras e tornar verdadeiras todas as sua profecias.
(P.400)  A propaganda totalitária aperfeiçoa as técnicas da propaganda de massa, mas não lhe inventa os temas. Estes foram preparados pelos cinqüenta anos de imperialismo e desintegração do Estado nacional, quando a ralé adentrou o cenário da política européia. Tudo o que fosse oculto adquiria grande importância. A ralé acreditava que a verdade era tudo aquilo que a sociedade respeitável houvesse hipocritamente acobertado pela corrupção. O primeiro critério para a escolha dos tópicos era o mistério em si.
Os nazistas eram, sem dúvida, mestres na escolha desses tópicos para o uso em propagandas de massa, mas os bolchevistas pouco a pouco aprenderam-lhes os truques: desde meados da década de 30, uma misteriosa conspiração mundial tem seguido outra na propaganda bolchevique, a começar pelo complô dos trotskistas, passando pelo domínio das trezentas famílias, até as maquinações imperialistas dos serviços secretos britânicos e americanos.
(P.401)  A eficácia desse tipo de propaganda evidencia uma das principais características das massas modernas. Não acreditam em nada visível, nem na realidade da sua própria experiência, mas apenas em sua imaginação, que pode ser seduzida. O que convence as massas não são os fatos, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte. A propaganda totalitária prospera nesse clima de fuga da realidade para a ficção, da coincidência para a coerência.
A principal desvantagem da propaganda totalitária é que não pode satisfazer esse anseio das massa por um mundo completamente coerente, compreensível e previsível sem entrar em sério conflito com o bom senso. Por exemplo, todas as “confissões” de inimigos políticos na URSS empregam os mesmos termos e admitem os mesmos motivos, as massas sedentas por coerência, aceitam a ficção como prova suprema da veracidade dos fatos; no entanto, o bom senso nos diz que é exatamente essa coerência que é irreal, demonstrando que as confissões são falsas.
(P.402)   Antes de tomarem o poder e criarem um mundo à imagem da sua doutrina, os movimentos totalitários invocam essa falso mundo de coerência, que é mais adequado às necessidades da mente humana do que a própria realidade. A força da propaganda totalitária reside na sua capacidade de isolar as massas do mundo real.
(P.411)   O verdadeiro objetivo da propaganda totalitária não é a persuasão mas a organização. A originalidade do conteúdo ideológico pode ser considerado desnecessário. Não foi por acaso que os dois movimentos totalitários do nosso tempo, tão assustadoramente novos em seus métodos de domínio e organização, nunca prepararam uma doutrina nova, nunca inventaram uma ideologia que já não fosse popular. Não são os sucessos passageiros da demagogia que conquistam as massas, mas a realidade palpável e a força de uma “organização viva”.
O que distingue os líderes e ditadores totalitários e a obstinada e simplória determinação com que, entre as ideologias existentes, escolhem os elementos que mais se prestam como fundamentos para criação de um mundo fictício. A propaganda totalitária cria um mundo fictício capaz de competir com o mundo real, cuja principal desvantagem é não ser lógico, coerente e organizado. A coerência da ficção e o rigor organizacional permitem que a generalização sobreviva ao desmascaramento de certas mentiras.
(P.412)   O motivo fundamental da superioridade da propaganda totalitária em comparação com a propaganda de outros partidos e movimentos é que o seu conteúdo, para os membros do movimento, não é mais uma questão objetiva a respeito da qual as pessoas possam ter opiniões, mas tornou-se parte real de sua vida.
(P.398)   É no momento da derrota que a fraqueza inerente da propaganda totalitária se torna visível. Sem a força do movimento, seus membros cessam imediatamente de acreditar no dogma pelo qual ainda ontem estavam dispostos a sacrificar a vida.
Logo que o movimento, isto é o mundo fictício que as abrigou, é destruído, as massas revertem ao seu antigo status de indivíduos isolados. Os membros dos movimentos totalitários não seguem o exemplo dos fanáticos religiosos morrendo como mártires, mas abandonam calmamente o movimento como algo que não deu certo e procuram em torno de si outra ficção promissora, ou esperam até que a velha ficção recupere força suficiente para criar um novo movimento de massa.

[1] Pretexto.


ARENDT, Hannah: “AS ORIGENS DO TOTALITARISMO”. ed Companhia Das Letras. Pág 355-413.

Aula Sobre a Linha do Tempo

Introdução ao estudo da história pps
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Lecionando aulas de história na rede pública de ensino do Estado de São Paulo, percebi que muitos alunos tem dificuldade em se localizar no tempo e no espaço e assim localizar a época em que o texto, artigo, história se passa. Preparei essa aula como um apoio aos alunos. Quando se estuda história a muito tempo é comum esquecer e não perceber que esse tipo de coisa tão pequena para um historiador formado é uma barreira para um aluno adolescente.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O que é História Cultural? de Peter Burke




Peter Burke nasceu na cidade de Stanmore, Inglaterra, no ano de 1937.Doutorado na Universidade de Oxford (1957 a 1962), foi professor de História das Idéias na School of European Studies da Universidade de Essex, por dezesseis anos professor na Universidade de Sussex (1962) e professor da Universidade de Princeton (1967); atualmente é professor emérito da Universidade de Cambridge (1979).   (...)

Foi professor-visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA – USP) de Setembro de 1994 a setembro de 1995, período em que desenvolveu o projeto de pesquisa chamado Duas Crises de Consciência Histórica.

Vive em Cambridge juntamente com a sua esposa, a historiadora brasileira Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Foi o historiador equatoriano Juan Maiguashca (professor de História Econômica de América Latina da Universidade de Toronto), discípulo de Chaunú, quem introduziu Peter Burke no mundo dos "Annales" (Escola dos Annales).

É também um dos maiores especialistas mundiais na obra de Gilberto Freyre. Escreveu, com a esposa Maria Lucia Pallares-Burke, o livro "Repensando os Trópicos". É autor de inúmeros artigos críticos, inclusive na imprensa, sobre o sociólogo pernambucano. Costuma indicar a relevância de Giberto Freyre para o estudo da cultura material - casa, mobílias, roupas, alimentos, etc.

Burke é considerado um especialista na Idade Moderna européia e também em assuntos da atualidade, enfatizando a relevância de aspectos socioculturais nas suas análises. É autor de mais de trinta livros, muitos deles publicados no Brasil.

A obra.

Peter Burke discorre no terceiro capítulo do livro O que é História Cultural, intitulado A vez da antropologia histórica, sobre como a história cultural, segundo suas proprias palavras, “entre as décadas de 1960 e 1990 deu uma virada em direção a antropologia”.

Desse encontro entre a história e a antropologia, os “historiadores aprenderam a usar o termo cultura de uma forma mais ampla”. Os historiadores que se apropriaram de alguns desses conceitos antropologicos constituíram uma abordagem denominada “antropologia histórica”.

Se antes o termo cultura era empregado pelos históriadores para se referir somente à alta cultura. Agora se referia também a cultura cotidiana e suas peculiaridades como costumes, valores de vida e etc.

Essa nova forma de se entender a história e o termo cultura, abriu espaço para o abandono de esquemas teóricos generalizantes que tendem a valorizar grupos particulares em lugares e tempo específicos. O que possibilitou o surgimento de trabalhos sobre grupos e temas excluídos da sociedade como os “trabalhos sobre gênero, minorias étnicas e religiosas, hábitos e costumes incorporando metodologias e conceitos de outras disciplinas”.

Burke no terceiro capitulo dá uma lista de diversos historiadores que passaram de alguma forma a utilizarem-se da antropologia histórica dando o que ele chama de virada cultural. Os mais diversos assuntos começaram a serem tratados seguindo esse modelo antropológico, onde, segundo o próprio autor, “estamos a caminho da história cultural de tudo”. E cada vez mais a cultura é utilizada para explicar acontecimentos políticos e econômicos pelos historiadores.

Diversos antropólogos servem de fonte de inspiração, como Marcel Mauss, Edward Evans-Pritchard, Mary Douglas, Claude Lévi-Strauss e Clifford Gertz. No auge de sua fama, inúmeros historiadores sentiram-se atraídos pela abordagem estruturalista de Lévi-Strauss, descobrindo posteriormente que ’ela resistia a apropriações’.

Muitos historiadores marxistas de fins do século XX aderiram a essa visão antropológica da história, buscando uma maneira alternativa de vincular cultura e sociedade que se diferenciasse do modelo marxista da superestrutura, onde tudo é subordinado à economia.

Essa união entre o conceito amplo de cultura e a idéia antropológica de regras e protocolos atraiu muitos historiadores culturais, aumentando-se assim o interesse dos mesmos pela cultura popular.

Um grande reflexo da utilização da antropologia na década de 1970, foi o surgimento de um novo gênero histórico, a chamada “micro-história”. Tendo como destaque os historiadores italianos Carlo Ginzburg, Giovanni Levi e Edoardo Grendi.

Peter Burke entende que o surgimento desse tipo de história pode ser explicado ao menos de três formas.

A primeira acredita que a micro-história surgiu como uma resposta a um certo tipo de história social, que utilizando-se de métodos da história econômica não dava muita importância as especificidades das culturas locais.

A segunda entende que a micro-história foi uma reação ao encontro com a antropologia. “O microscópio era uma alternativa atraente para o telescópio, permitindo que as experiências concretas, individuais ou locais, reingressassem na história”.

E por último a micro-história seria uma reação a desilusão dos historiadores com a chamada “narrativa grandiosa” dos grandes acontecimentos ocidentais. Que não dava voz a grupos excluídos participantes desses processos.

Essa narrativa grandiosa ocidental cada vez mais foi se tornando alvo dos grupos marginalizados da história. As antigas colônias, as mulheres, os povos orientais, o terceiro mundo, etc. começaram a buscar, utilizando-se da antropologia histórica, aquilo que a narrativa dos grandes acontecimentos ofuscou, para com isso, resgatarem sua história deixando-as livre das interferências dos grupos dominantes e do esquecimento.

Sites pesquisados:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Burke

Pergaminho- revista eletrônica de história - UFPB - ano 1 - n. zero - out. 2005

Bibliografia: BURKE; Peter: “O que é história cultural?” Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2005. Pág 44-67