segunda-feira, 10 de maio de 2010

Filosofia da História de Hegel. Cap 3.



(P.53) Capitulo 3: O Curso da História Universal.
   O principio do desenvolvimento.
As mudanças que ocorrem na história são caracterizadas como um progresso para o melhor, o mais perfeito. As transformações na natureza, mostram apenas um ciclo que sempre se repete, nada de novo é produzido acarretando certa monotonia. O novo surge apenas nas transformações que acontecem no campo espiritual. No caso do homem uma capacidade real de transformação e para melhor. Um impulso de perfectibilidade.
(...)
A perfectibilidade é quase tão indefinível quanto à transformação em geral. Ela não tem alcance nem objetivo, e não há medida para se avaliar a transformação. O principio da evolução envolve, uma determinação interior uma pressuposição efetiva que luta para se realizar. Essa determinação formal encontra a sua existência real no espírito, que tem a história universal como o seu palco, propriedade e campo de sua realização. A evolução aplica-se também aos objetos naturais orgânicos.
(P.54O indivíduo orgânico produz a si mesmo: Faz-se o que ele é em si, igualmente o espírito é somente o que ele se faz, e ele se faz o que é em si. No espírito, a passagem de sua determinação para sua realização faz-se mediante a consciência e a vontade, as quais são desde logo mergulhadas em sua vida natural imediata.
A evolução, calma produção da natureza, é para o espírito uma luta árdua e infinita contra ele próprio. O que o espírito quer é realizar o seu conceito, mas ele oculta de si mesmo, e nessa alienação de si próprio sente-se orgulhoso e satisfeito. A evolução não é uma mera eclosão inocente e sem conflitos, como na vida orgânica, mas trabalho duro e ingrato contra si mesmo, para a produção de um fim: que é o espírito e o conceito de liberdade. Ele é o principio diretor da evolução, o que lhe dá sentido e importância.
Na história universal, grandes períodos transcorrem sem que a evolução parece ter ocorrido. Nesses períodos, toda a imensa cultura acumulada foi destruída. Depois de tais períodos, infelizmente, tem sido preciso recomeçar do nada para tentar recuperar uma das regiões dessa cultura já há muito tempo conquistada.
(P.55A história universal representa , pois, a marcha gradual da evolução do principio cujo conteúdo é a consciência da liberdade.
           O primeiro estágio consiste na imersão do espírito no natural. O segundo é o seu avanço em direção à consciência de sua liberdade. Entretanto, essa primeira separação é imperfeita, já que provem imediatamente do estado natural. O terceiro estágio consiste na elevação dessa liberdade, á sua pura universalidade, à consciência de si ao sentimento de sai própria espiritualidade.
           Esses estágios são os princípios fundamentais do processo geral. Apesar de cada um deles apresentar interiormente um processo de formação e uma dialética de evolução. O espírito começa como embrião de sua possibilidade infinita (mas apenas possibilidades) que ele só alcança em sua concretização na realidade. Assim, na existência real, o progresso surge como um avanço do imperfeito para o mais perfeito. Da mesma forma, a possibilidade, aponta para aquilo que está destinado a se tornar real.
           O início da história.
(P.56Imagina-se que a natureza tenha assumido no início, perante os olhos humanos, o papel de um claro espelho da criação divina, revelando-lhes, de forma nítida e transparente, a verdade de Deus. O fato de que, nesse primeiro estado o homem já possuía em si um conhecimento indeterminado e extenso de verdades religiosas imediatamente reveladas por Deus chegou a ser aludido, mas foi deixado de certa forma obscuro.
Considera-se, sob o aspecto histórico, que todas as religiões surgiram desse estado, assim como acredita-se que essas religiões profanaram e ocultaram a primeira verdade como fruto do equívoco e da perversão.
(P.57Essa situação do conhecimento divino, como se tal situação se encontrasse na origem da história universal, ou as religiões dos povos tivessem partido da mesma situação e progredido na cultura por meio de aperfeiçoamentos e deterioração, tudo isso são pressupostos que nem possuem uma fundamentação histórica nem podem consegui-la.
É da alçada da meditação filosófica, tornar a história no ponto em que a racionalidade começa a entrar na existência mundial. A liberdade consiste somente no saber e querer objetos universais, substanciais, como o direito e a lei, produzindo uma realidade que lhes é comforme: o Estado.
Houve povos que persistiram sem Estado numa longa vida antes de terem atingido a própria determinação, e antes mesmo de terem realizado importante cultura em certas direções. Aliás, essa “pré-história”está fora do nosso propósito.
(P.58Ainda nos dias correntes, conhecemos populações que mal constituem uma sociedade, quanto mais um Estado. Em nossa língua, história une o lado objetivo e o subjetivo, significando tanto fato quanto narrativa. Recordações de família e tradições patriarcais encontram interesse apenas no seio da família e da tribo. O Estado produz um conteúdo que além de ser apropriado à prosa da história ainda contribui para reproduzi-la.
Uma sociedade que se fixa e se eleva à condição de Estado exige no lugar de ordens subjetivas, imperativos, leis e decisões abrangentes e universalmente válidas, produzindo tanto uma exposição quanto um interesse em compreender ações e acontecimentos em si determinados e duráveis em seus resultados. Com vistas ao fim perene de formar e constituir o Estado, é induzida a conferir o perdurar da recordação.
(P.59As épocas que transcorreram para os povos antes da história escrita, representadas em séculos e milênios, podem ter sido cheias de revoluções, migrações e transformações muito violentas, mas não tem história objetiva. Porque não apresentam narrativa histórica.
Não é que os documentos dessas épocas tenham desaparecido acidentalmente, mas nós não os temos porque eles não puderam existir. Apenas no Estado, com a consciência das leis, ocorreram as ações claras, e com elas a claridade de sua conscientização, conferindo a capacidade e mostrando a necessidade de registros duradouros.
(P.60A expansão dos povos, suas separações, misturas e migrações permanecem ocultas. Não são atos de uma vontade tomando consciência de si mesma, da liberdade assumindo outra exterioridade ou uma realidade própria. Não pertencendo a esse elemento verdadeiro, aqueles povos que não tiveram história, malgrado o seu desenvolvimento idiomático.
O tipo do curso da história e do desenvolvimento histórico.
  À forma do inicio da história universal e à pré-história que dela deve ser excluída, devemos abordar com mais atenção o caráter de seu curso. A história universal representa a evolução da consciência do espírito no tocante à sua liberdade e a realização efetiva de tal consciência.
Na história, tal princípio á a determinação do espírito, um espírito particular daquele povo. É nela eu se expressam concretamente todas as facetas da consciência e do querer, da realidade total desse povo. É na história que uma nação encontra o cunho comum de sua religião, de sua contribuição política, de sua moralidade objetiva, de seu sistema jurídico, de seus costumes e também de sua ciência, arte e habilidade técnica.
(P.61No processo de entendimento cientifico, é importante que o essencial seja preparado e destacado do denominado não-essencial. Porém, para tornar possível tal procedimento, é preciso saber o que é essencial, e isso equivale na história universal, a ter consciência da liberdade e das determinações dessa consciência em sua evolução.
(P.62Exemplos de bravura, coragem perseverante, traços de generosidade, de abnegação e de sacrifício, são encontradas tantos nas nações selvagens quantos nas mais pusilânimes[1], são tomadas como provas, a fim de mostrar que nas mesmas se encontra tanto ou mais moralidade objetiva e subjetiva do que nos estados cristãos mais civilizados.
           Nesse sentido, levantou-se a dúvida se a humanidade teria melhorado com o progresso da história e da cultura; se sua moralidade teria aumentado- moralidade considerada sob o ponto de vista subjetivo, de acordo com aquilo que o agente vê como certo ou errado, como o bem ou o mal, não repousando sobre aquilo que, em si e por si mesmo, ou em particular, é visto como a religião realmente válida, justa e boa ou com crime e o mal.
(P.63Podemos poupar-nos de estabelecer os verdadeiros princípios da moralidade em oposição à falsa moral, porque a história universal move-se em uma esfera superior àquelas em que a moralidade subjetiva tem sua sede própria.
(P.64É também obra do pensamento, reduzir um objeto de conteúdo concreto e rico a uma representação simples, designando-o com uma palavra, bem como decompô-lo, isolar na representação as determinações que ai estão contidas, dando-lhes nomes particulares. A cultura formal deve progredir prosperar e alcançar um alto nível de florescimento em cada fase das formações do espírito, porquanto essas fases desenvolvem-se para a forma de um Estado, chegando, sobre essa base de civilização, a uma reflexão intelectual e a formas gerais de pensamento.
            Na vida dentro do Estado, reside a necessidade de uma estrutura formal, e com isso do surgimento das ciências, poesia, arte e também da filosofia. Se, no desenvolvimento do Estado, são necessários períodos que forcem o espírito das naturezas superiores a buscar refugio do presente em regiões ideais, para nelas encontrar a reconciliação consigo mesmo que ele não pode mais desfrutar na desequilibrada realidade, o pensamento é compelido a se tornar razão pensante e tentar, com seus próprios elementos, fazer a restauração dos seus princípios a partir das ruínas às quais haviam sido reduzidos.
(P.65Certamente todos os povos da história universal tem uma arte poética, artes plásticas, ciência e também uma filosofia. Entre eles não apenas o estilo e as tendências que diferem, mas, principalmente, o conteúdo.
           Mesmo que as epopéias hindus possam ser comparadas as homéricas, resta mesmo assim, a infinita diferença de conteúdo; uma diferença de importância substancial, envolvendo o interesse da razão, que se ocupa diretamente da consciência do conceito de liberdade e de sua expressão nos indivíduos. Não existe uma forma clássica, mas também um conteúdo clássico. Forma e conteúdo estão tão intimamente ligados em uma obra artística que a primeira só pode ser clássica quando a ultima também for.
           Existem esferas que continuam sendo as mesmas em meio a toda a diversidade do conteúdo substancial de uma cultura. A diversidade (já mencionada) diz respeito à razão pensante e à liberdade, que é a autoconsciência da anterior e tem a mesma e única raiz do pensamento.
           Como animal não pensa, só o homem e apenas este possui a liberdade, e unicamente por ser pensante. A consciência da liberdade implica que o individuo se compreende como pessoa em sua individualidade e, ao mesmo tempo, como universal , capaz de abstrair-se de todas as particularidades, compreendendo-se como infinito em si. As esferas de pensamento que se encontram foras dos limites dessa consciência partilham a mesma diversidade substancial .
(P.66A moral chinesa obteve, desde que os europeus tomaram ciência dela e dos escritos de Confúcio, o maior louvor e reconhecimento de sua excelência, por parte daqueles que conhecem a fundo a moral cristã. O mesmo tipo de reconhecimento deu-se em relação ao modo sublime pelo qual a religião e a poesia hindus e, especialmente, sua filosofia que exprimem e exigem o afastamento e o sacrifício do sensível. Ainda assim, é preciso que se diga que essas duas nações carecem totalmente da consciência essencial do conceito de liberdade.
           Para os chineses, suas leis morais são como leis naturais, mandamentos exteriores, positivos, direitos e deveres impostos pela força, obrigações ou regras de cortesia recíproca. Falta-lhe a liberdade pela qual as determinações essenciais da razão realmente se tornam uma atitude moral. A moral é a para eles, um assunto de Estado, e é administrada pelos funcionários do governo e pelos tribunais. Também na doutrina hindu da a abdicação dos sentidos, dos desejos e interesses terrenos, o objetivo não é uma liberdade afirmativa e moral, e sim a aniquilação da consciência, anulação da existência espiritual e até mesmo física.
           É o espírito concreto de um povo que se manifesta em todas as ações e tendências de tal povo, ocupado em efetuar a sua própria realização, em satisfazer o seu ideal e em se tornar alto-consciente, porque o objetivo do espírito é a produção de si mesmo. Assim como a sua maior realização é o autoconhecimento, alcançando não somente a intuição, mas também o pensamento, o claro conceito de si próprio. Mas tal cumprimento é, ao mesmo tempo, a sua dissolução e surgimento de outro espírito, de outro povo histórico-mundial e de outra espoca na história universal.
(P.67Podemos dizer que a história universal é a exteriorização do espírito no tempo, enquanto a natureza é o desenvolvimento da idéia no espaço. Se lançarmos um olhar na história universal, vemos um imenso quadro de mudanças e de ações, de formações infinitamente variadas de povos, de Estados e indivíduos, numa sucessão ininterrupta.
           A idéia geral, a categoria que imediatamente surge nessa mudança inquieta de indivíduos e povos, que existem durante um tempo e depois desaparecem, é a transformação em geral. A visão das ruínas de uma magnificência anterior leva-nos a aprender essa idéia de mudança pelo seu aspecto negativo. Ora, a conseqüência mais imediata da mudança é que ela, ao mesmo tempo em que implica dissolução, traz também consigo o surgimento de uma vida nova, e que se a morte sai da vida, também a vida sai da morte.
(P.68A essência do espírito é a atividade; por intermédio dela, ele concretiza a suas potencialidades, tornam-se o seu próprios efeito, o seu próprio trabalho e, consequentemente, o próprio objeto. Assim o espírito de um povo é um espírito determinado, que se ergue em meio a um mundo objetivo. Ele existe e persiste na forma do culto religioso, nos costumes, em sua constituição e em suas leis políticas.
           Um povo é moral, virtuoso e forte quando esta empenhado na realização de seus grandes objetivos e quando protege a sua obra da violência externa durante o trabalho de dar existência objetiva a seus propósitos.
(P.69A nação vive com o individuo que passa da maturidade para a velhice, rejubilando-se por ser exatamente aquilo que queria e foi capaz de alcançar. Este hábito é o que provoca a morte natural. O habito é um agir sem opção, ao qual só resta uma duração formal, e no qual a plenitude e o fervor que originalmente caracterizam as metas de vida do povo já não existem é uma existência meramente exterior e sensível, que não mais se lança entusiasticamente em direção a seu objetivo. Assim perecem indivíduos, assim parecem povos de morte natural.
           E, embora estes últimos possam ainda sobreviver, é uma existência sem inteligência ou vitalidade, sem necessidade de suas instituições, exatamente porque essas necessidade já foi satisfeita. Para que um interesse universal verdadeiro  pudesse surgir, o espírito de um povo teria que almejar algo novo, um outro principio um novo espírito nacional. Esse novo principio penetra no espírito de um povo que chegou a seu pleno desenvolvimento e realização.
(P.70O ponto mais alto do desenvolvimento de um povo é alcançar conceitos de sua vida e condição, dar as suas leis ao se direito e a sua moralidade objetiva a forma de ciência, pois nessa unidade reside a mais intrínseca unidade a qual o espírito pode chegar por si e com si.
(P.71O tempo é, no sensível, a negação. O pensamento é também a negação, mas a forma mais intima e infinita dela na qual todo ser se desfaz. O resultado desse processo é que o espírito, ao se tornar objetivo e fazer dessa sua existência um objeto do pensamento por um lado, destrói a forma determinada de sua existência, por outro, compreende o elemento universal que essa existência envolve, dando assim uma nova forma ao seu principio inerente.
           Na apreensão e compreensão da história é primordial conhecer e refletir sobre essa transição. Um individuo atravessa como uma unidade, diversos níveis culturais e permanece o mesmo individuo. O mesmo acontece com o povo. Nesse ponto é que se encontra a fundamental necessidade de transição.
           Essa é a alma, a consideração essencial da compreensão filosófica da história. O espírito é, essencialmente, resultado de uma atividade: Atividade de transcender a existência imediata, simples e refletida. Podemos compara-lo as sementes, de onde surge a planta, mas que não são, também, resultados de toda a vida da planta.
(P.72Assim também acontece na vida dos indivíduos e dos povos. A vida de um povo amadurece um certo fruto. Porém, esse fruto não retorna ao seio do povo que o produziu e cultivou, pelo contrário ele se tornará para eles uma bebida venenosa. O povo não consegue parar de consumir essa bebida, pois é infinitamente sedento dela. Só que saborear tal bebida é a sua própria aniquilação, embora seja, ao mesmo tempo, o surgir de um novo principio.
           Quando lidamos com a idéia do espírito e consideramos tudo na história universal como a sua manifestação, ao percorrer do passado só lidamos com o presente. A filosofia, ao ocupar-se do verdadeiro, só tem a ver com o eternamente presente. Para a filosofia, tudo que pertence ao passado é resgatado, pois a idéia é sempre presente e o espírito é imortal; para ela não há passado nem futuro, apenas um agora essencial. Isso dá a entender, necessariamente que a forma presente do espírito abrange em si todos os estágios anteriores. Os estágios que o espírito parece ter já ultrapasso, ele ainda possui um sua profundidade atual.

Fonte: HEGEL; G.W.F: “Filosofia da História” editora UNB, 2ª edição, Brasília 1999. pág 53-72

[1] Fraqueza de animo , Medíocre, Covarde

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