sexta-feira, 23 de abril de 2010

ANÁLISE DO LIVRO: A CHINA SACODE O MUNDO. James Kynge

Resumo.
É indiscutível a importância da China no cenário mundial. Seu apetite por matéria-prima, trabalhadores qualificados e energia vão mudar o cenário político-econômico. Seus produtos manufaturados, seus turistas, estudantes, executivos, e principalmente seu dinheiro e a força de investimento já estão transformando o mundo. Tendo vivido muitos anos na Ásia e trabalhado como jornalista na China, James Kynge não conta apenas como e por que este país emergente vai mudar a vida de todos nós. Também aponta as forças e as fraquezas da China e propõe como o mundo, Brasil inclusive, pode lidar com elas.
Boa Leitura.


Introdução:
James Kynge conhece como poucos ocidentais, as relações e as contradições do modelo chinês de economia e política. Esteve pela primeira vez na China em 1982 como estudante de graduação, passou grande parte de sua vida como repórter na Ásia. Esse livro relata suas experiências pelo país de Confúcio e tem como objetivo principal demonstrar de qual forma a economia chinesa passou de periférica para uma posição central nos negócios mundiais. Kynge demonstra ser um grande conhecedor da cultura e história chinesa, apesar do autor abordar diversas passagens históricas de várias épocas, ele tem como ponto central o período que vai do início da liberalização econômica de Deng Xiaoping até a entrada da China na OMC e o “Boom” econômico de 1998 a 2005.
Análise da obra:
De forma quase literária e com diversos exemplos vividos pelo próprio James Kynge, ele escreve sobre o impressionante desenvolvimento da economia chinesa. Como todo bom jornalista, faz um grande uso de relatos pessoais e entrevistas para descrever de que modo à China demonstra sua presença no mundo inteiro.
Nesse primeiro capitulo para exemplificar a eficiência do trabalho chinês, Kynge relata sobre como uma fábrica inteira localizada na Alemanha foi desmontada e remontada na China em um prazo impossível para uma empresa ocidental, que nesse momento discutia sobre a jornada de trabalho semanal de 35 horas, enquanto os chineses trabalhavam 14,15,16 horas por dia, 7 dias por semana.
Esse crescimento gigantesco e mal planejado fez a China um consumidor voraz de matérias-primas e para saciar a fome de ferro do “Dragão” a sucata ganhou status de luxo graças ao preço que alcançou em razão da grande demanda chinesa. O primeiro indício do crescimento chinês foi os sumiços das tampas de bueiros dos países vizinhos para saciar sua necessidade por metal.
James Kynge demonstra como a abertura econômica não foi imposta de cima pra baixo por Deng Xiaoping, mas aconteceu graças à desobediência civil de algumas pessoas que sem empregos públicos montavam pequenos negócios e assim prosperavam economicamente.
Kynge compara a Chicago do Século XIX à cidade chinesa de Chongqing, fazendo um pequeno balanço entre as duas cidades, chega à conclusão que o crescimento de Chicago, apesar da importância histórica que teve, nem se compara ao que esta acontecendo na China, onde cidades gigantescas surgem em alguns poucos anos.
O livro mostra-nos que esse crescimento se fez através de inúmeros sacrifícios humanos, os quais são retratados com inúmeros exemplos durante o segundo capitulo.
O maior paradoxo Chinês é sem duvida, sua enorme massa demográfica, tudo sempre envolve milhões de pessoas, qualquer movimento, tragédia, política, sempre tem um grande numero de pessoas envolvidas. Essa grande massa é o trunfo e o inferno chinês, o grande contingente humano, criou o maior exército industrial do mundo, junto com a maior reserva de trabalhadores de todos os tempos, sendo necessário para o Estado chinês a criação de 24 milhões de empregos por ano para suprir a juventude que ano após ano entra no mercado de trabalho.
Diversas grandes empresas chinesas surgiram da indisponibilidade de empregos. Quando não havia vaga para os serviços públicos algumas pessoas eram liberadas a ter em casa uma pequena loja, oficina, quitanda, etc. para poder sustentar-se. Quando estas empresas davam certo cresciam de forma espetacular dentro da própria China. Como não possuíam tecnologia suficiente para crescer além de suas fronteiras, algumas empresas recorriam a pirataria e ao uso da espionagem industrial.
Essas empresas eram estimuladas a produzir cada vez mais, mas o problema era que outras empresas do mesmo ramo também eram. Com isso vinha à superprodução que mantinha os preços incrivelmente baixos, essa competitividade derrubava os valores dos produtos e inundavam o mercado interno de mercadorias. A única saída era a exportação, que chegou abalando o mundo com preços, que embora fossem muito baratos no comércio internacional, eram ainda mais baratos dentro da China. As empresas chinesas se vêm obrigadas a abaixar as taxas de lucro graças à concorrência interna, então para obterem maiores lucros elas são obrigadas a ingressar em diversas áreas da economia, preenchendo diversos nichos econômicos. Muitas empresas chinesas produzam desde água mineral até motores de avião.
James Kynge trata também das migrações de chineses para outras partes do mundo, em especial a Europa. Milhares de chineses vão todos os anos para a Europa em busca de trabalho. Eles chegam e se predispõe para trabalhar em áreas onde os europeus não querem trabalhar. A capacidade do povo chinês para o trabalho é muito apreciada e de grande serventia já que alguns chegam a trabalhar cerca de 20 horas por dia, enquanto se discute em alguns países da união européia a jornada de trabalho semanal de 35 horas.
Essas migrações perigosas e ilegais levam os chineses a ariscar a vida na busca de uma vida melhor. O maior triunfo para um chinês é conseguir juntar dinheiro suficiente para voltar à China e dar uma vida melhor para seus parentes.
O livro mostra bem o uso da mão-de-obra chinesa na produção de produtos de marcas famosas. Apesar de baratearem os custos de produção, os chineses que vivem na Europa ganham razoavelmente como europeus, por esse motivo muitas marcas de grifes famosas transferem suas fabricas para a China, onde após serem produzidas a preços baixíssimos chegam ao destino europeu apenas para ganhar a etiqueta. Diversas empresas de roupas, jóias, etc, já migraram para a china onde o valor de produção é muito mais baixo. Apesar de toda essa ligação com a China, estas empresas sentem-se desconfortáveis ao falar sobre suas relações de negócios com os chineses.
Em outro ponto James Kinge aprofunda esse debate sobre a terceirização da produção, tendo como base a economia americana. Esse movimento de migração das empresas para a China é segundo ele prejudicial para a economia local.
As empresas na ânsia de baratear a produção transferem parte de sua produção para o território chinês, isso prejudica as pequenas empresas locais que eram as antigas fornecedoras de componentes para a montagem do produto final. Isso quando não se transferem integralmente para a China.
Há vários mitos, sobre, em até que ponto a tecnologia chinesa pode se desenvolver. Todas essas histórias tem algo em comum, todas acreditam que a China não ultrapassará o patamar médio tecnológico. Idéia essa que é desconstruída pelo autor, pois, segundo ele, mesmo a China investindo menos no desenvolvimento de novas tecnologias que os EUA, ela está chegando perto graças à absorção de tecnologias estrangeiras que se estalam no país. Se no inicio da abertura econômica chinesa seus produtos eram caracterizados por possuírem pouca ou nenhuma qualidade, em 2005 seus produtos estavam em pé de igualdade tecnológica com países como Japão e E.U.A.
A China se abre economicamente depois de séculos fechada ao comércio exterior, e nesse momento os países que muito ansiavam essa abertura se fecham, pois, não tem condições de competir com essa imensa economia.
Nos E.U.A a terceirização esta no topo das discussões, como já sabemos a transferência da linha de produção para a China barateia o custo final de um produto, se economicamente isso é vantajoso para a empresa e para os setores mais altos dentro desta mesma empresa, essa terceirização é igualmente trágica para as áreas administrativas e braçais que perdem seus empregos para a mão-de-obra estrangeira. Há nos Estados Unidos uma progressiva diminuição do número de pessoas que integram as chamadas classes médias americanas, justamente por esse motivo.
Desse ponto do livro em diante Kynge trata das conseqüências acarretadas por esse espetacular crescimento chinês. O primeiro assunto a ser tratado é de grande relevância e esta no centro das discussões em vários países, que é a degradação do meio-ambiente e a destruição dos recursos naturais.
Os recursos naturais chineses chegaram a um patamar desesperador, sua fome por recursos naturais já vem de longa data, mas agravou-se nos últimos anos. Cada vez mais ela necessita de matérias-primas como madeira, ferro, petróleo, ouro, etc, e para suprir essa demanda à China negocia com outros países muitas vezes de forma ilegal.
Mais a frente o autor debate sobre desvios de caráter como corrupção, estelionato, tentativas de tirar proveito do próximo etc, que acontecem na China por diversos fatores e estão enraizados em quase todas as instituições chinesas. Como no caso do leite que não nutria as crianças, seus fabricantes acreditavam que se as crianças permanecessem desnutridas suas mães seriam obrigadas a comprar mais leite, entretanto esse leite além de não nutrir causava deformidades nas crianças e da garota que teve sua vida literalmente roubada por outra que tinha um pai influente dentro da China.
Kynge analisa também a questão das marcas chinesas no ocidente, muitas pessoas (em especial norte-americanos e europeus) não aceitam as marcas nascidas e produzidas na China por diversos fatores, mas aceitam marcas já conhecidas que fazem parte do cotidiano, mesmo que estas tenham sido totalmente produzidas em território chinês, com mão-de-obra chinesa, com componentes e peças MADE IN CHINA. Isso é um paradoxo que as empresas Chinesas conhecem bem e resolvem de forma bastante simples, comprando a marca. Como ocorreu no caso de Lenovo que comprou a IBM, um símbolo americano.
Os dois últimos capítulos do livro abrem uma abordagem sobre a grande contradição chinesa: como manter uma economia capitalista com a forma política comunista.
Antes de sua entrada na OMC e a abertura para o mercado internacional, suas formas políticas e econômicas diziam respeito somente a própria China, mas agora com essa enorme influência econômica sobre diversos países essa se tornou uma questão global. Segundo Kynge essa forma de governo associada à economia capitalista é injusta para com os outros países.
O que faz com que os EUA e diversos países europeus comecem a utilizarem-se de táticas protecionistas para barrar o avanço de produtos chineses sobre a economia nacional. Sendo isso muito utilizado nos discursos políticos desses países. Entretanto essas idéias muitas vezes fiquem apenas nos discursos, pois, ao que tudo indica o processo de barateamento nos preços de diversos produtos tem relação direta com a China. Fato que vem acontecendo a mais de uma década melhorou materialmente a vida de muitos trabalhadores no mundo inteiro inclusive nesses países que pretendem fazem uso do protecionismo.
Para melhorar as relações internacionais da China, a governo instruiu seu povo a utilizar-se da técnica do Waishi. Técnica que consiste em fazer amizade e agradar o visitante estrangeiro, mas de forma profissional. Esta prática pode ser isolada como no caso do tratamento dado a um turista estrangeiro ou gigantesca como no caso das olimpíadas. Essa tática consiste em criar uma maquiagem dos problemas chineses diante do mundo.
Kynge finaliza o livro analisando em até que ponto o crescimento da China será aceito pelas outras potências. Segundo o autor, o crescimento econômico chinês muitas vezes vai de encontro com o americano, gerando alguns momentos de tensão entre os dois países. Como nos casos dos países nomeados parias (eixo do mal) pelo governo norte americano, que nada mais são do que países que representam algum tipo de entrave político aos Estados Unidos, a China mantém relações com esses parias sem nenhum constrangimento.
Apesar do enorme crescimento da zona de influencia chinesa, do extensivo aumento nos gastos militares, das relações com países considerados problemáticos, das contradições políticas e econômicas e da não muito amistosa relação com EUA e Japão, a China segundo Kynge “esteja casada demais com o mundo, profundamente imiscuída demais em organizações e tratados, e dependente demais dos outros (países) para morder as mãos dos que lhe dão de comer”.

Bibliografia:
KYNGE; James: “A CHINA SACODE O MUNDO”. São Paulo ed. Globo, 2007

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